O Castelo de Vidro
Nossa casa em Battle Mountain
— O que aconteceu? — perguntei.
— Nada de mais — Brian disse.
— Sobre o que conversaram?
— Perguntei a ela o que acontece na Lanterna Verde — respondeu.
— Mesmo? — reagi, impressionada. — O que ela disse?
— Não muito. Disse que homens entram lá, e as mulheres são legais com eles.
— Ah. . — falei. — Algo mais?
— Não — respondeu. Ele começou a chutar terra como se não quisesse mais falar sobre aquilo. —
Ela foi legal.
Depois daquilo Brian acenava para as mulheres na varanda da Lanterna Verde, e elas devolviam largos sorrisos e animados acenos, mas eu ainda tinha um pouco de medo delas.
NOSSA CASA EM BATTLE MOUNTAIN era cheia de animais. Eles iam e vinham, cães e gatos de rua, seus filhotes, cobras não venenosas e lagartos e tartarugas que pegávamos no deserto. Um coiote que parecia bem domesticado morou conosco algum tempo, e um dia papai levou para casa um abutre ferido que chamamos de Destruidor. Foi o animal de estimação mais feio que já tivemos. Sempre que dávamos pedaços de carne ao Destruidor, ele virava a cabeça de lado e nos olhava com um olho amarelo de aparência raivosa. Depois berrava e batia a asa saudável. Fiquei secretamente contente quando a asa machucada sarou, e ele voou para longe. Sempre que víamos abutres circulando no céu, papai dizia que havia reconhecido o Destruidor entre eles, e que estava voltando para agradecer. Eu sabia, no entanto, que ele jamais voltaria. Aquele abutre não tinha um grama de gratidão.
Não podíamos comprar comida de animais, eles tinham de comer nossos restos, e normalmente não era muito.
— Se eles não gostam disso, podem ir embora — dizia mamãe. — Só porque eles moram aqui não significa que eu vou ter trabalho com eles.
Mamãe nos dizia que estávamos fazendo um favor aos animais não permitindo que dependessem de nós. Assim, se tivéssemos de ir embora, eles seriam capazes de se virar sozinhos. Mamãe gostava de estimular a autossuficiência em todas as criaturas vivas.
Mamãe acreditava em deixar a natureza seguir seu rumo. Ela se recusava a matar as moscas que sempre enchiam a casa; disse que eram a comida da natureza para pássaros e lagartixas. E pássaros e lagartixas eram comida para os gatos.
— Mate as moscas e você deixará os gatos com fome — dizia. Do ponto de vista de mamãe, deixar as moscas viverem era o mesmo que comprar comida de gato, só que mais barato.
Certo dia, eu estava visitando minha amiga Carla quando notei que a casa dela não tinha moscas.
Perguntei à mãe dela o motivo.
Ela apontou para uma coisa dourada brilhante pendurada no teto, que orgulhosamente identificou como um No-Pest Strip, da Shel . Disse que podia ser comprado no posto de gasolina e que a família tinha um em cada aposento. Explicou que as tiras inseticidas liberavam um veneno que matava todas as moscas.
— O que seus lagartos comem? — perguntei.
— Também não temos lagartos — respondeu.
Fui para casa e disse a mamãe que precisávamos ter tiras inseticidas como a família de Carla, mas ela se recusou.
— Se matam as moscas, não podem ser muito bons para nós — falou.
NAQUELE INVERNO, papai comprou um Ford Fairlane envenenado e, num fim de semana em que o clima esfriou, anunciou que íamos nadar no Cântaro Quente. Era uma fonte sulfúrica natural no deserto ao norte da cidade, cercada por rochas irregulares e areia movediça. A água era quente ao toque e cheirava a ovo podre. Era tão cheia de minerais que grossas incrustações calcárias haviam se formado nas margens, como um recife de coral. Papai estava sempre dizendo que devíamos comprar o lugar e transformá-lo em um spa.
Quanto mais fundo na água você entrava, mais quente ficava. Era muito fundo no meio. Algumas pessoas em Bat le Mountain diziam que o Cântaro Quente não tinha fundo, que ia direto até o centro da Terra. Dois adolescentes bêbados e loucos haviam se afogado ali, e as pessoas no clube da Coruja diziam
que quando os corpos flutuaram de volta à superfície estavam literalmente fervidos.
Brian e Lori sabiam nadar, mas eu nunca havia aprendido. Grandes volumes de água me assustavam. Pareciam antinaturais — esquisitices nas cidades do deserto onde havíamos morado. Uma vez ficamos em um motel com piscina, e reuni coragem suficiente para percorrer todo o comprimento da piscina agarrada na lateral. O Cântaro Quente, no entanto, não tinha beiradas arrumadas como aquela piscina. Não havia nada em que se agarrar.
Eu vadeei até a água chegar aos ombros. A água junto ao meu peito estava quente, e as pedras nas quais me apoiava pareciam tão quentes que eu queria continuar me movendo. Olhei para trás na direção de papai, que me observava sem sorrir. Tentei ir mais fundo, mas alguma coisa me impediu. Papai mergulhou e foi na minha direção.
— Hoje você vai aprender a nadar — disse ele.
Colocou um braço ao redor de mim, e começamos a cruzar a água. Papai me arrastava. Eu estava aterrorizada e agarrava o pescoço dele com tanta força que deixava sua pele branca.
— Não foi tão ruim, foi? — perguntou papai quando chegamos do outro lado.
Começamos a voltar, e dessa vez, quando chegamos ao meio, papai arrancou meus dedos de seu pescoço e me empurrou. Sacudi os braços e afundei na água quente e fedorenta. Respirei instintivamente.
A água entrou no nariz e na boca e desceu pela garganta. Meus pulmões queimaram. Meus olhos estavam abertos, e o enxofre os fez arder, porém a água era escura e meus cabelos caíam sobre meu rosto e eu não conseguia ver nada. Duas mãos me agarraram pela cintura. Papai me puxou para a água rasa. Eu cuspia, tossia e respirava entre soluços engasgados irregulares.
— Está tudo bem — disse papai. — Recupere o fôlego.
Quando me recuperei, papai me pegou e carregou de volta para o meio do Cântaro Quente.
— Afunde ou nade! — gritou.
Afundei pela segunda vez. A água mais uma vez encheu meu nariz e meus pulmões. Chutei, empurrei e remei de volta à superfície, arfando, e estendi a mão para papai. Mas ele recuou, e não senti as mãos dele ao redor de mim até afundar mais uma vez.
Ele fez isso uma vez depois da outra até eu compreender que só estava me resgatando para me jogar de volta na água, e em vez de buscar as mãos de papai, tentei me afastar dele. Dei pernadas e empurrei a água com os braços e, finalmente, consegui sair do alcance dele.