O Castelo de Vidro
À medida que o clima
À MEDIDA QUE O CLIMA esquentava, uma espécie de beleza bruta tomava as encostas íngremes ao redor da rua Lit le Hobart. Antúrios selvagens e corações-sangrentos brotavam por toda parte. Flores brancas de cenoura silvestre, flores roxas e grandes lírios-de-um-dia alaranjados se abriam ao longo da rua. Durante o inverno, era possível ver carros e geladeiras abandonados e esqueletos de casas desertas na floresta, mas na primavera as trepadeiras, as ervas daninhas e o musgo cresciam sobre isso, e em pouco tempo tudo desaparecia totalmente.
Uma vantagem do verão era que cada dia tínhamos mais luz para ler. Mamãe empilhava livros.
Voltava para casa da biblioteca pública de Welch a cada uma ou duas semanas com uma fronha repleta de romances, biografias e livros de história. Ela se enfiava na cama com eles, erguendo os olhos de tempos em tempos, dizendo que lamentava, sabia que devia fazer algo mais produtivo, mas, assim como papai, tinha seus vícios, e a leitura era um deles.
Todos líamos, mas nunca tínhamos a sensação de proximidade que tivéramos em Bat le Mountain, quando todos sentávamos no depósito com nossos livros. Em Welch, as pessoas iam para cantos diferentes da casa. Quando chegava a noite, nós, crianças, nos deitávamos em nossas camas de corda e papelão, lendo à luz de lanterna ou de uma vela que colocávamos em nossas caixas de madeira, cada uma criando seu próprio pequeno halo de luz fraca.
Lori era a leitora mais obsessiva. Fantasia e ficção científica a fascinavam, especialmente O senhor dos anéis. Quando não estava lendo, desenhava orcs ou hobbits. Tentou fazer todos na família ler os livros.
— Eles nos transportam para um mundo diferente — disse.
Eu não queria ser transportada para outro mundo. Meus livros preferidos envolviam pessoas lidando com dificuldades. Eu adorava As vinhas da ira, O senhor das moscas e especialmente Laços humanos. Eu achava que Francie Nolan e eu éramos praticamente idênticas, embora ela tivesse vivido cinquenta anos antes no Brooklyn, e sua mãe sempre mantivesse a casa limpa. O pai de Francie Nolan me lembrava papai.
Se Francie via algo bom no pai, embora a maioria das pessoas o considerasse um bêbado inútil, talvez eu não fosse uma tola completa por acreditar no meu. Ou tentar acreditar. Estava ficando mais difícil.
CERTA NOITE NAQUELE verão, quando eu estava deitada na cama e todos os outros dormiam, ouvi a porta da frente se abrir e o som de alguém murmurando e tropeçando na escuridão. Papai chegara em casa. Fui à sala de estar, onde ele estava sentado à escrivaninha. À luz da lua que entrava pela janela, eu podia ver que o rosto e os cabelos dele estavam cobertos de sangue. Perguntei o que havia acontecido.
— Briguei com uma montanha, e a montanha venceu — respondeu.
Olhei para mamãe adormecida no sofá-cama, a cabeça enfiada sob um travesseiro. Ela dormia pesado e não se movera. Quando acendi o lampião a querosene, vi que papai tinha um grande talho no antebraço direito e um corte tão fundo na cabeça que eu podia ver seu crânio branco. Peguei um palito de dentes e uma pinça e tirei as pedrinhas do talho. Papai não se encolheu quando joguei álcool no ferimento. Por causa dos cabelos não havia como colocar uma bandagem, e eu disse a papai que teria de raspar a área ao redor do corte.
— Que diabos, querida, isso vai destruir minha imagem. Uma pessoa em minha posição tem de parecer apresentável.
Papai estudou o talho no antebraço. Ele mesmo pôs um torniquete no braço e me mandou pegar a caixa de costura de mamãe. Remexeu nela procurando linha de seda, mas não conseguindo encontrar, decidiu que a de algodão serviria. Colocou linha preta em uma agulha, me passou e apontou para o talho.
— Costure — disse.
— Papai! Não posso fazer isso.
— Ah, vá em frente, querida. Eu mesmo o faria, mas não posso fazer direito com a mão esquerda
— falou, sorrindo. — Não se preocupe comigo. Estou tão embriagado que não vou sentir nada.
Papai acendeu um cigarro e colocou o braço na mesa.
— Vá em frente! — ordenou.
Apertei a agulha sobre a pele de papai e estremeci.
— Vá em frente — repetiu.
Apertei a agulha e senti um leve puxão quando perfurou a pele. Queria fechar os olhos, mas precisava ver. Empurrei com mais força e senti a resistência da carne de papai. Era como costurar carne.
Era costurar carne.
— Não consigo, papai, lamento; simplesmente não consigo fazer isso — falei.
— Vamos fazer juntos — disse papai.
Usando a mão esquerda, papai guiou meus dedos enquanto eles empurravam a agulha por sua pele até sair do outro lado. Algumas gotinhas de sangue surgiram. Tirei a agulha e dei um puxão suave na linha para apertar. Amarrei as duas pontas do fio como papai mandou, depois repeti para dar o segundo ponto. O talho era bastante grande e eu deveria ter dado mais pontos, mas não consegui me forçar a enfiar aquela agulha no braço de papai mais uma vez. Ambos olhamos para os dois pontos malfeitos.