O Castelo de Vidro
A grande casa branca
Lori, que estava levando O mágico de Oz, protestou dizendo que uma coleção de pedras não era uma coisa, mas várias coisas. Seria como ela levar toda a coleção de livros. Destaquei que os soldadinhos de Brian eram uma coleção.
— Além disso, não é a coleção de pedras inteira. Só as melhores.
Papai, que normalmente gostava de debater questões como se um saco de coisas era uma coisa, não estava no clima e me disse que pedras eram pesadas demais.
— Você pode levar uma — disse ele.
— Há muitas pedras em Phoenix — acrescentou mamãe.
Eu escolhi um único geodo, o interior coberto de minúsculos cristais brancos, e o segurei com as duas mãos. Quando saímos, olhei pela janela de trás para dar uma última espiada no depósito. Papai deixara as luzes de cima acesas, e a pequena janela brilhava. Pensei em todas aquelas outras famílias de mineiros e exploradores que haviam ido para Bat le Mountain esperando encontrar ouro e deixado a cidade como nós quando sua sorte esgotou. Papai dizia que não acreditava em sorte, mas eu, sim.
Havíamos tido um pouco disso em Bat le Mountain, e eu desejava que tivesse durado.
Passamos pela Lanterna Verde, as luzes de Natal cintilando acima da porta, e pelo clube da Coruja, com o néon da coruja de chapéu de mestre-cuca piscando, e logo estávamos no deserto, as luzes de Bat le Mountain desaparecendo atrás de nós. Na noite negra, não havia nada a ver além da estrada à frente, iluminada pelos faróis do carro.
A GRANDE CASA BRANCA de vovó Smith tinha venezianas verdes e era cercada de eucaliptos. Dentro havia portas-balcão, tapetes persas e um enorme piano de cauda que praticamente dançava quando vovó tocava sua música de cabaré. Sempre que ficávamos com vovó Smith, ela me levava ao quarto dela e me sentava à penteadeira, coberta de pequenos frascos de perfume e pós em tons pastel. Enquanto eu abria os frascos e os cheirava, ela tentava passar seu comprido pente metálico pelos meus cabelos, xingando com o canto da boca por estar tão embaraçado. Uma vez perguntou:
— Sua maldita mãe preguiçosa nunca penteia seus cabelos?
Expliquei que mamãe acreditava que as crianças deviam ser responsáveis por cuidar de si mesmas.
Vovó me disse que de qualquer forma meu cabelo estava comprido demais. Colocou uma tigela em minha cabeça, cortou todo o cabelo que saía dela e me disse que parecia uma melindrosa.
Vovó era assim. Depois de ter tido dois filhos, no entanto, mamãe e nosso tio Jim, ela se tornou professora por não confiar em mais ninguém para educá-los. Lecionava em uma escola de uma só classe em uma cidade chamada Yampi. Mamãe odiava ser a filha da professora. Também odiava o modo como sua mãe a corrigia constantemente, em casa e na escola. Vovó Smith tinha opiniões muito firmes sobre como as coisas deviam ser feitas — como se vestir, como falar, como organizar o tempo, como cozinhar e arrumar a casa, como cuidar das finanças —, e ela e mamãe brigaram desde o início. Mamãe achava que vovó Smith a atormentava e assediava, estabelecendo regras, além de punições por violá-las. Isso enlouquecia mamãe e era a razão para ela nunca estabelecer regras para nós.
Entretanto, eu adorava vovó Smith. Era uma mulher alta, rígida e de ombros largos, com olhos verdes e maxilar forte. Ela me disse que eu era sua neta preferida, e iria crescer e me tornar algo especial.
Eu gostava até mesmo de todas as suas regras. Gostava de como nos acordava todo dia ao amanhecer, gritando: “Levantem-se e brilhem, todos!”. E insistia que lavássemos as mãos e penteássemos os cabelos antes do café da manhã. Ela preparava mingau quente com manteiga de verdade, em seguida nos vigiava enquanto limpávamos a mesa e lavávamos os pratos. Depois nos levava para comprar roupas novas, e assistíamos a um filme como Mary Poppins.
Naquele momento, a caminho de Phoenix, eu me levantei atrás no carro e inclinei-me sobre o banco da frente, entre mamãe e papai.
— Vamos ficar com a vovó? — perguntei.
— Não — disse mamãe. Ela olhou pela janela, mas não para algo em particular. Depois contou: —
Vovó está morta.
— O quê? — perguntei.
Eu tinha ouvido, mas fiquei tão perturbada que sentia como se não tivesse. Mamãe repetiu, ainda olhando pela janela. Eu me virei para olhar para Lori e Brian, mas estavam dormindo. Papai fumava, de olho na estrada. Eu não podia acreditar que ficara ali pensando na vovó Smith, ansiando para comer mingau quente e ela pentear meus cabelos e xingar, e o tempo todo ela estava morta. Comecei a bater no ombro de mamãe com força, perguntando por que não tinha nos contado. Finalmente, papai agarrou meus punhos com a mão livre, a outra segurando cigarro e volante, e disse:
— Já chega, Cabra-Montesa.
Mamãe parecia surpresa por eu estar tão chateada.
— Por que não nos contou? — perguntei de novo.
— Não parecia haver motivo — respondeu.
— O que aconteceu?
Vovó estava apenas na casa dos sessenta, e a maioria das pessoas na família dela vivia até uns cem anos.Os médicos disseram que morreu de leucemia, mas mamãe achava ser envenenamento por radiação.
O governo estava sempre testando bombas nucleares no deserto perto da fazenda, contou-me. Ela e Jim costumavam sair com um contador Geiger e encontrar pedras que estalavam. Eles as guardavam no porão e usavam para fazer joias para vovó.
— Não há razão para sofrer — disse mamãe. — Todos teremos de ir um dia, e vovó teve uma vida mais longa e plena que a maioria — falou, a seguir fazendo uma pausa antes de continuar: — E agora temos um lugar para morar.
Mamãe explicou que vovó Smith tinha duas casas, aquela na qual morava com as venezianas verdes e as portas-balcão, e uma casa mais velha, feita de adobe, no centro de Phoenix. Como mamãe era a mais velha dos dois filhos, vovó Smith lhe perguntara qual casa queria herdar. A casa com venezianas verdes era mais valiosa, mas mamãe escolhera a de adobe. Era perto do centro comercial de Phoenix, o que a tornava perfeita para que mamãe montasse um ateliê. Também herdara algum dinheiro, podia parar de lecionar e comprar todo o material de arte que desejasse.
Ela estava pensando que devíamos nos mudar para Phoenix desde que vovó morrera alguns meses antes, porém papai se recusara a deixar Bat le Mountain por estar muito perto de um avanço em seu processo de lixiviação por cianeto.
— E estava — disse papai.
Mamãe deu um risinho bufado.
— O problema que vocês tiveram com Bil y Deel foi uma bênção disfarçada. Minha carreira artística vai florescer em Phoenix. Posso sentir isso — falou, depois virando-se para olhar para mim. —
Estamos em uma nova aventura, Jeannet e querida. Isso não é uma maravilha? Eu sou uma viciada em excitação! — disse mamãe, os olhos brilhando.