O Castelo de Vidro

Jeannette Walls · Capítulo 17 de 71

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O Castelo de Vidro

Nenhum de nós

— É um lugar onde regras não se aplicam, ou pelo menos ainda não as descobriram — disse. —

Vocês hoje chegaram um pouco perto demais disso.

NENHUM DE NÓS recebia mesada. Quando queríamos dinheiro, caminhávamos pelo acostamento da estrada catando latas e garrafas de cerveja, que vendíamos por dois centavos cada. Brian e eu também catávamos metal descartado e vendíamos para o dono do ferro-velho por dois centavos o quilo — seis centavos por um quilo de cobre. Depois de termos reciclado as garrafas ou vendido ao ferro-velho, íamos à cidade, a drogaria ao lado do clube da Coruja. Havia tantas filas de doces deliciosos a escolher que passávamos uma hora tentando decidir como gastar os dez centavos que tínhamos ganhado.

Escolhíamos um doce e depois, quando íamos pagar, mudávamos de ideia e escolhíamos outro, até o dono da loja mandar parar de remexer em todos os seus doces, comprar algo e ir embora.

O preferido de Brian era o gigantesco SweeTart, cujas pastilhas chupava até a língua ficar tão esfolada que sangrava. Eu adorava chocolate, mas ele terminava rápido demais, e normalmente comprava um pirulito Sugar Daddy, que durava praticamente metade do dia, e sempre tinha um poema engraçado impresso em letras cor-de-rosa no palito: Para não deixar / Seus pés dormentes / Use meias barulhentas / Que não se perdem nunca.

No caminho de volta da loja de doces, Brian e eu gostávamos de espiar a Lanterna Verde — uma grande casa verde-escura com uma varanda desabada perto da rodovia. Mamãe dizia que era uma casa de gatas, mas eu nunca vi gata nenhuma ali, só mulheres usando trajes de banho ou vestidos curtos, sentadas ou deitadas na varanda, acenando para os carros que passavam. Havia luzes de Natal acima da porta o ano inteiro, e mamãe dizia que elas indicavam que ali se tratava de uma casa de gatas. Carros paravam na frente, homens saltavam deles e entravam na casa. Eu não conseguia descobrir o que acontecia na Lanterna Verde, e mamãe se recusava a discutir isso. Dizia apenas que coisas ruins aconteciam ali, o que tornava a casa um lugar irresistivelmente misterioso para nós.

Brian e eu nos escondíamos atrás dos arbustos do outro lado da estrada, tentando olhar para dentro da casa pela porta aberta quando alguém entrava ou saía, porém nunca conseguimos ver o que se passava lá. Por duas vezes nos esgueiramos para perto dela e tentamos olhar pelas janelas, mas eram pintadas de preto. Certa vez, uma mulher na varanda nos viu nos arbustos e acenou para nós, e fugimos gritando.

Um dia, quando Brian e eu estávamos escondidos nos arbustos espiando, eu o desafiei a ir conversar com a mulher deitada na varanda. Brian tinha quase seis anos, um a menos que eu, e não sentia medo de nada. Ele levantou a calça, me deu seu SweeTart pela metade para que o guardasse, atravessou a estrada e foi diretamente até a mulher. Ela tinha cabelos negros compridos, seus olhos eram delineados com um rímel preto grosso como piche, e ela usava um vestido azul curto com flores negras. Estava deitada de lado no chão da varanda, a cabeça apoiada em um dos braços, mas quando Brian chegou, ela deitou de bruços e apoiou o queixo na mão.

Do meu esconderijo, eu podia ver Brian conversando, mas não conseguia ouvir o que diziam. Ela estendeu a mão para Brian. Prendi a respiração, esperando para ver o que aquela mulher que fazia coisas ruins na Lanterna Verde ia fazer com ele. Colocou a mão na cabeça dele e bagunçou seus cabelos.

Mulheres adultas sempre faziam isso com Brian, porque os cabelos dele eram ruivos, e ele tinha sardas.

Isso o incomodava; normalmente afastava as mãos delas. Mas não daquela vez. Em vez disso, ficou e conversou com a mulher por algum tempo. Quando atravessou a estrada de volta, não parecia nada assustado.