O Castelo de Vidro

Jeannette Walls · Capítulo 3 de 71

Páginas do PDF

O Castelo de Vidro

Capítulo II

Mamãe apontou os hashis para mim.

— Está vendo? É bem isso. Exatamente o que eu estava dizendo. Você se constrange com muita facilidade. Seu pai e eu somos quem somos. Aceite isso.

— E o que devo dizer às pessoas sobre meus pais?

— Apenas a verdade. Simples assim — disse mamãe.

II

O deserto

EU ESTAVA EM CHAMAS.

É minha lembrança mais antiga. Eu tinha três anos de idade, e vivíamos em um estacionamento de trailers em uma cidade do sul do Arizona cujo nome nunca soube. Estava de pé em uma cadeira diante do fogão, usando um vestido rosa que minha avó havia comprado para mim. Rosa era minha cor preferida.

A saia do vestido se projetava para fora como um tutu, e eu gostava de girar em frente ao espelho, pensando que parecia uma bailarina. Mas naquele momento usava o vestido para preparar cachorros-quentes, olhando as salsichas incharem e girarem na água fervente enquanto a luz do sol do final da manhã penetrava pela janela da pequena cozinha do trailer.

Podia ouvir mamãe cantando na sala ao lado enquanto trabalhava em uma de suas pinturas. Juju, nosso vira-lata preto, me observava. Finquei uma das salsichas com um garfo, curvei-me e a ofereci a ele.

A salsicha estava quente, e Juju a mordiscou com cuidado, porém quando me virei e voltei a mexer as salsichas, senti um calor no lado direito do corpo. Virei para ver de onde vinha e percebi que meu vestido estava pegando fogo. Paralisada de medo, vi as chamas branco-amareladas desenharem uma linha marrom irregular pelo tecido rosa da saia e chegarem à minha barriga. As chamas deram um pulo e atingiram meu rosto.

Dei um berro. Senti a queimadura e ouvi estalos horríveis enquanto o fogo queimava meus cabelos e cílios. Juju latia. Berrei de novo. Mamãe chegou correndo.

— Mamãe, me ajude! — gritei. Ainda estava em pé na cadeira, batendo no fogo com o garfo que usara para mexer as salsichas.

Mamãe saiu correndo e voltou com um dos cobertores excedentes do exército que eu odiava, porque a lã dava coceira. Jogou o cobertor sobre mim para apagar as chamas. Papai havia saído de carro, então minha mãe agarrou a mim e a meu irmão mais novo, Brian, e correu até o trailer ao lado do nosso. A mulher que morava lá estava pendurando roupas no varal. Tinha prendedores na boca. Mamãe, em uma voz estranhamente calma, explicou o que havia acontecido e perguntou se conseguiríamos uma carona até o hospital. A mulher largou os prendedores e a roupa lavada ali mesmo na terra e, sem dizer nada, correu até seu carro.

QUANDO CHEGAMOS AO HOSPITAL, as enfermeiras me puseram em uma maca. Murmuravam preocupadas, enquanto cortavam o que restava do meu belo vestido rosa com tesouras brilhantes. Depois me levantaram, me colocaram em uma grande cama de metal cheia de cubos de gelo e espalharam um pouco do gelo sobre o meu corpo. Um médico de cabelos prateados e óculos com armação escura levou minha mãe para fora da sala. Enquanto saíam, ouvi o médico lhe contar que era muito grave. As enfermeiras ficaram para trás, cuidando de mim. Era óbvio que eu estava causando uma grande confusão, então fiquei quieta. Uma delas apertou minha mão e disse que eu ficaria bem.

— Eu sei — disse. — Mas se não ficar, tudo certo também.

A enfermeira apertou minha mão de novo e mordeu o lábio inferior.

A sala era pequena e branca, com luzes brilhantes e armários metálicos. Fiquei algum tempo olhando para as filas de pontinhos nos painéis do teto. Cubos de gelo cobriam minha barriga e minhas costelas e pressionavam minhas bochechas. Vi com o canto dos olhos uma pequena mão suja chegar a alguns centímetros de meu rosto e agarrar um punhado de cubos. Ouvi um barulho alto de mastigação e olhei para baixo. Era Brian, comendo o gelo.

OS MÉDICOS DISSERAM que eu tinha sorte de estar viva. Tiraram pedaços de pele do alto da coxa e os colocaram nas partes mais queimadas da barriga, das costelas e do peito. Disseram que se chamava enxerto de pele. Quando terminaram, embrulharam todo o meu lado direito em bandagens.

— Olhe, sou meia-múmia — disse a uma das enfermeiras. Ela sorriu, colocou meu braço direito em uma tipoia e a prendeu à cabeceira, para que eu não movesse o braço.

As enfermeiras e os médicos continuavam a me fazer perguntas: como você se queimou? Seus pais já a machucaram? Por que tem todos esses hematomas e cortes? Meus pais nunca me machucaram, eu disse.

Cortei e me machuquei brincando do lado de fora, e as queimaduras são de fazer cachorro-quente.

Perguntaram por que estava fazendo cachorro-quente sozinha aos três anos. Era fácil, respondi. Era só colocar as salsichas na água fervente e cozinhar. Não era como algumas receitas complicadas que é preciso ser velha o bastante para seguir. A panela era pesada demais para levantar quando estava cheia de água, por isso eu colocava uma cadeira ao lado da pia, subia nela, enchia um copo, ficava em pé em outra cadeira junto ao fogão e derramava a água na panela. Fazia isso até a panela ter água suficiente. Depois acendia o fogão, e quando a água estava fervendo eu colocava as salsichas.

— Minha mãe diz que sou madura para a minha idade e muitas vezes me deixa cozinhar sozinha —

expliquei a eles.

Duas enfermeiras se entreolharam, e uma delas escreveu algo em uma prancheta. Perguntei o que estava errado. Nada, disseram, nada.

A CADA DOIS DIAS as enfermeiras trocavam os curativos. Tiravam os curativos usados da lateral, enrolados e cobertos de manchas de sangue, coisas amarelas e pedacinhos de pele queimada. Depois colocavam outro curativo, uma gaze grande, nas queimaduras. À noite, eu passava a mão esquerda sobre a superfície grossa e com cascas de pele que não era coberta pelo curativo. Às vezes arrancava as cascas. As enfermeiras diziam para não fazer isso, mas eu não conseguia resistir a arrancá-las bem devagar, para ver a casca grande se soltar. Assim que duas delas estavam descoladas da pele, eu fingia que conversavam uma com a outra em voz aguda.

O hospital era limpo e brilhante. Tudo era branco — as paredes, os lençóis e o uniforme das enfermeiras — ou prata — as camas, as bandejas e os instrumentos médicos. Todos falavam com voz educada e calma. Era tudo tão quieto que se podiam ouvir os sapatos de sola de borracha das enfermeiras rangendo pelo corredor. Eu não estava acostumada a silêncio e organização, e gostei daquilo.

Gostei também de ter meu próprio quarto, já que no trailer eu dividia um com meu irmão e minha irmã. Meu quarto de hospital tinha sua própria televisão instalada na parede. Não tínhamos tevê em casa, e eu aproveitava para assistir a vários programas. Os de Red But ons e Lucil e Bal eram meus preferidos.

As enfermeiras e os médicos sempre perguntavam como estava me sentindo, se tinha fome ou precisava de alguma coisa. As enfermeiras me traziam refeições deliciosas três vezes por dia, com coquetel de frutas e gelatina de sobremesa, e trocavam os lençóis, mesmo que ainda estivessem limpos. Às vezes, eu lia para elas, que me diziam que eu era muito inteligente e lia tão bem quanto uma menina de seis anos.

Um dia, uma enfermeira de cabelos louros cacheados e delineador azul estava mastigando algo.

Perguntei o que era, e ela explicou que era goma de mascar. Nunca tinha ouvido falar em goma de mascar, então ela saiu e me trouxe um pacote inteiro. Puxei uma fita, tirei o papel branco e o prateado brilhante embaixo dele e estudei a goma amarelada. Coloquei-a na boca e fiquei chocada com a marcante doçura.

— É realmente bom! — disse.

— Mastigue, mas não engula — disse a enfermeira com uma risada. Ela deu um grande sorriso e levou outras enfermeiras para me ver mascar meu primeiro chiclete. Quando me levou o almoço, disse que eu teria de jogar o chiclete fora, porém não precisava me preocupar, porque podia pegar outro depois de comer. Se o pacote terminasse, ela compraria outro. Essa era a coisa legal do hospital. Nós não precisávamos nos preocupar com falta de comida, gelo ou mesmo goma de mascar. Eu seria feliz se ficasse naquele hospital para sempre.

QUANDO MINHA FAMÍLIA ia me visitar, suas discussões, seus risos, cantos e gritos ecoavam pelos corredores silenciosos. Quando as enfermeiras pediam silêncio, mamãe, papai, Lori e Brian baixavam a voz por alguns minutos, depois iam aos poucos levantando de novo. Todos sempre se viravam e olhavam para papai. Eu não conseguia saber se era por ele ser tão bonito ou por chamar as pessoas de

“parceiro” e “camarada” e jogar a cabeça para trás ao dar risada.

Certo dia, papai se curvou sobre a minha cama e perguntou se enfermeiras e médicos estavam me tratando bem. Falou que se não estivessem iria chutar o traseiro deles. Eu lhe contei como todos eram legais e amigáveis.

— Claro que são. Eles sabem que você é filha de Rex Wal s.

Quando minha mãe quis saber o que médicos e enfermeiras faziam de tão legal, contei sobre a goma de mascar.

— Eca! — exclamou ela.

Ela disse que desaprovava goma de mascar. Era um hábito revoltante da classe baixa, e a enfermeira deveria tê-la consultado antes de me encorajar a um comportamento tão vulgar. Disse que iria passar uma descompostura na mulher, por Deus.

— Afinal, eu sou sua mãe e deveria decidir como você é criada.

— VOCÊS ESTÃO SENTINDO minha falta? — perguntei à minha irmã mais velha, Lori, em uma visita.— Na verdade, não — respondeu. — Muita coisa tem acontecido.

— Tipo o quê?

— Só as coisas normais.

— Lori pode não sentir sua falta, favo de mel, mas eu certamente sinto — disse papai. — Você não devia estar neste lugar asséptico.

Ele se sentou em minha cama e começou a me contar a história de quando Lori foi picada por um escorpião venenoso. Eu a ouvira uma dúzia de vezes, contudo ainda gostava do modo como papai a contava. Mamãe e papai estavam explorando o deserto quando Lori, que tinha quatro anos, virou uma pedra e o escorpião escondido debaixo dela ferroou sua perna. Ela tivera convulsões, e seu corpo ficara rígido e coberto de suor. Mas papai não confiava em hospitais, então a levou a um médico navajo que cortou o ferimento, passou uma pasta marrom-escura sobre ele, entoou uns cânticos, e logo Lori estava nova em folha.

— Sua mãe deveria ter levado você naquele médico feiticeiro no dia em que se queimou, não em charlatães ignorantes da escola de medicina — disse papai.

NA VISITA SEGUINTE, a cabeça de Brian estava enrolada em uma bandagem branca, suja de sangue seco. Mamãe disse que ele havia caído do encosto do sofá e batido a cabeça no chão, porém ela e papai haviam decidido não levá-lo ao hospital.

— Havia sangue por toda parte, mas uma criança no hospital por vez é o suficiente — disse mamãe.

— Além disso, a cabeça de Brian é tão dura que acho que o chão sofreu mais do que ele —

acrescentou papai.

Brian achou aquilo hilariante e caiu na gargalhada.

Mamãe me contou que inscrevera meu nome num sorteio em uma feira e eu ganhara um passeio de helicóptero. Fiquei excitada. Nunca estivera em um helicóptero ou avião.

— Quando vou dar o passeio? — perguntei.

— Ah, nós já fizemos isso — respondeu mamãe. — Foi divertido.

Depois papai teve uma discussão com o médico. Começou porque papai achava que eu não deveria estar com curativos.

— Queimaduras precisam respirar — disse ele ao médico.

O médico explicou que os curativos eram necessários para evitar infecções. Papai o encarou.

— Ao inferno com a infecção! — bradou.

Disse ao médico que eu iria ter cicatrizes pelo resto da vida por causa dele, mas, por Deus, não seria a única a sair dali com cicatrizes.

Papai levantou o punho como se fosse socar o médico, que ergueu as mãos e recuou. Antes que algo pudesse acontecer, um guarda uniformizado apareceu dizendo a mamãe, papai, Lori e Brian que teriam de ir embora.

Depois uma enfermeira me perguntou se eu estava bem.

— Claro — respondi. Disse-lhe que não ligava de ter uma velha cicatriz boba. Ela falou que isso era bom, pois pelo visto eu tinha outras coisas com que me preocupar.

PASSADOS ALGUNS DIAS, quando estava no hospital havia umas seis semanas, papai apareceu sozinho junto à porta do meu quarto. Contou que íamos embora, ao estilo Rex Wal s.

— Tem certeza de que não faz mal? — perguntei.

— Apenas confie no seu velho — respondeu papai.

Ele soltou meu braço direito da tipoia acima de minha cabeça. Enquanto me segurava, senti seu cheiro conhecido de Vitalis, uísque e fumaça de cigarro, que me fez lembrar de casa.

Papai desceu o corredor apressado comigo no colo. Uma enfermeira gritou para que parássemos, mas papai começou a correr. Abriu uma porta de emergência, disparou escada abaixo e saiu para a rua.

Nosso carro, um Plymouth batido que chamávamos de Ganso Azul, estava estacionado na esquina, o motor ligado. Mamãe estava na frente, Lori e Brian no banco de trás com Juju. Papai me deslizou pelo banco até mamãe e assumiu o volante.

— Não precisa mais se preocupar, querida — disse papai. — Está segura agora.