O Castelo de Vidro

Jeannette Walls · Capítulo 11 de 71

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O Castelo de Vidro

Jamais acreditei

Nesse meio-tempo, mamãe se dedicava à sua arte. Passava o dia todo trabalhando em pinturas a óleo, aquarelas, desenhos a carvão, esboços a nanquim, esculturas de arame e argila, serigrafias e xilogravuras.

Ela não tinha nenhum estilo específico; algumas de suas pinturas eram o que chamava de primitivas, algumas eram impressionistas e abstratas; outras, realistas. “Não quero ser classificada”, gostava de dizer.

Mamãe também era escritora e estava sempre datilografando romances, contos, peças, poesia, fábulas e livros infantis, que ela mesma ilustrava. A escrita de mamãe era muito criativa. Assim como a ortografia.

Ela precisava de um revisor, e quando Lori tinha apenas sete anos lia os originais de mamãe, procurando erros.Enquanto estávamos em Midland, mamãe pintou dezenas de variações e estudos da iúca. Íamos com ela, que nos dava aulas de arte. Uma vez vi uma pequena muda de iúca crescendo não longe da árvore velha. Eu queria cavá-la e replantá-la perto da nossa casa. Disse a mamãe que iria protegê-la do vento e regá-la todo dia para que pudesse ficar bonita, alta e reta.

Mamãe franziu o cenho para mim.

— Você estaria destruindo o que a torna especial. É a luta da iúca que dá a ela sua beleza.

JAMAIS ACREDITEI em Papai Noel.

Nenhum de nós acreditou. Mamãe e papai não permitiam isso. Eles não podiam dar presentes caros e não queriam que pensássemos que não éramos tão bons quanto outras crianças que, na manhã de Natal, encontravam debaixo da árvore todo tipo de brinquedos finos, supostamente deixados por Papai Noel.

Contaram-nos tudo sobre como outras crianças eram enganadas pelos pais, como os brinquedos que os adultos alegavam ser feitos por pequenos elfos com gorros de sino em sua oficina no Polo Norte traziam etiquetas estampando MADE IN JAPAN.

“Tentem não desprezar essas outras crianças”, dizia mamãe. “Não é culpa delas terem sofrido lavagem cerebral para acreditar em mitos bobos.”

Festejávamos o Natal, porém cerca de uma semana depois de 25 de dezembro, quando era possível encontrar arcos e papel de presente perfeitos que pessoas haviam jogado fora e árvores de Natal descartadas na rua ainda em grande medida verdes e até com decoração prateada pendurada. Mamãe e papai nos davam um saco de bolas de gude, uma boneca ou um estilingue oferecidos com descontos em uma venda pós-Natal.

Papai perdeu o emprego na mina de gesso depois de uma discussão com o capataz e, quando chegou o Natal daquele ano, não tínhamos dinheiro nenhum. Na véspera de Natal papai levou cada um de nós para a noite do deserto, um por vez. Eu estava enrolada em um cobertor e, quando chegou minha vez, me ofereci para dividi-lo com papai, mas ele disse que não, obrigado. O frio nunca o incomodou. Eu estava com cinco anos, me sentei ao lado de papai, e olhamos para o céu. Papai adorava falar sobre as estrelas.

Ele nos explicou como giravam pelo céu da noite enquanto a Terra rodava. Ele nos ensinou a identificar as constelações e como nos orientar pela Estrela do Norte. Gostava de dizer que aquelas estrelas brilhantes eram uma das vantagens especiais de pessoas como nós, que vivíamos no deserto. Pessoas ricas da cidade, dizia, viviam em apartamentos elegantes, mas seu ar era tão poluído que não conseguiam sequer ver as estrelas. Teríamos de estar malucos para querer trocar de lugar com qualquer um deles.

— Escolha sua estrela preferida — disse papai naquela noite. Falou que eu poderia ficar com ela para sempre. Disse que era meu presente de Natal.

— Você não pode me dar uma estrela! — falei. — Ninguém é dono das estrelas.

— Isso mesmo. Ninguém é dono delas. Você só precisa reivindicá-la antes que mais alguém faça isso, como aquele velho latino Colombo reivindicou a América para a rainha Isabel. Reivindicar uma estrela como sendo sua segue exatamente a mesma lógica.

Pensei naquilo e me dei conta de que papai estava certo. Ele estava sempre descobrindo coisas como aquela.Papai disse que eu poderia ter qualquer estrela que quisesse, exceto Betelgeuse e Rígel, porque Lori e Brian já as haviam reivindicado.

Olhei para as estrelas e tentei descobrir qual era a melhor. Era possível ver centenas, talvez milhares ou mesmo milhões cintilando no céu claro do deserto. Quanto mais olhávamos, e mais os olhos se ajustavam à escuridão, mais estrelas víamos, camada após camada delas tornando-se gradualmente visível.

Havia uma em particular, a oeste acima das montanhas, mas baixa no céu, que brilhava mais que o restante.

— Eu quero aquela — falei.

Papai sorriu.

— Aquela é Vênus — disse.

Ele continuou, dizendo que Vênus era somente um planeta, bastante insignificante em comparação

com estrelas de verdade. Parecia maior e mais brilhante porque estava muito mais perto que as estrelas. O

velho planeta Vênus nem sequer produzia sua própria luz, disse papai. Brilhava apenas pela luz refletida.

Ele me explicou que os planetas brilhavam porque a luz refletida era constante e que as estrelas cintilavam porque sua luz pulsava.

— Eu gosto mesmo assim — falei.

Eu admirava Vênus antes mesmo daquele Natal. Era possível vê-lo no começo da noite, brilhando no horizonte a oeste, e se levantássemos cedo ainda poderíamos vê-lo pela manhã, depois de todas as estrelas terem desaparecido.

— Que diabos! — exclamou papai. — É Natal. Você pode ter um planeta se é o que quer.

Ele me deu Vênus.

Naquela noite, no jantar de Natal, todos discutimos o espaço sideral. Papai explicou sobre anos-luz, buracos negros e quasares e nos contou a respeito das qualidades especiais de Betelgeuse, Rígel e Vênus.

Betelgeuse era uma estrela vermelha no ombro da constelação de Órion. Era uma das maiores estrelas que se podiam ver no céu, centenas de vezes maior que o Sol. Queimava brilhante havia milhões de anos e logo iria se tornar uma supernova e se extinguir. Fiquei chateada por Lori ter escolhido uma estrela inferior, mas papai explicou que “logo” significava centenas de milhares de anos quando se tratava de estrelas.

Rígel era uma estrela azul, menor que Betelgeuse, papai disse, mas ainda mais brilhante. Também ficava em Órion — era seu pé esquerdo, o que pareceu adequado, já que Brian era um corredor muito rápido.

Vênus não tinha luas nem satélites, nem mesmo um campo magnético, mas uma atmosfera meio similar à da Terra, exceto por ser superquente — cerca de quinhentos graus ou mais.