O Castelo de Vidro
Naquele outono
— Certamente está — respondi.
NAQUELE OUTONO, quando eu faria a décima série, a srta. Bivens me fez editora de The Maroon Wave. Depois de trabalhar como revisora na sétima série, eu começara a diagramar páginas na oitava e, na nona, a fazer reportagens, escrever matérias e tirar fotografias. Mamãe comprara uma câmera Minolta para tirar fotos de suas pinturas a fim de mandá-las a Lori, que poderia mostrá-las em galerias de arte de Nova York. Quando mamãe não a estava usando, eu levava a Minolta por toda parte, porque nunca sabia quando veria algo que fosse notícia. O que mais gostava sobre ser repórter era que isso me dava uma desculpa para aparecer em qualquer lugar. Como nunca tivera muitos amigos em Welch, raramente ia a jogos de futebol, bailes ou encontros da escola. Eu me sentia desconfortável sentada sozinha quando todos estavam com amigos. Mas trabalhando para o Wave, eu tinha uma razão para estar lá. Trabalhando, membro da imprensa, com bloco de anotações na mão e a Minolta no pescoço.
Comecei a ir a praticamente todos os eventos extracurriculares da escola, e as crianças que antes me rejeitavam passaram a me aceitar e mesmo a me procurar, posando e fazendo palhaçadas na esperança de ter sua foto publicada no jornal. Sendo alguém que podia torná-los famosos entre seus pares, eu não era mais uma pessoa a desprezar.
Embora o Wave saísse apenas uma vez por mês, eu trabalhava nele diariamente. Em vez de me esconder no banheiro na hora do almoço, eu a gastava na sala da srta. Bivens, onde escrevia meus artigos, editava as matérias escritas pelos outros alunos e contava os toques nas manchetes para ter certeza de que caberiam nas colunas. Finalmente, tinha uma boa desculpa para nunca almoçar. “Estou no fechamento”, dizia. Também ficava depois das aulas para revelar minhas fotografias no laboratório, e isso tinha uma vantagem oculta. Podia me esgueirar para o refeitório quando todos haviam saído e revirar as latas de lixo. Encontrava latas de milho tamanho industrial quase cheias e enormes recipientes de salada de repolho e pudim de tapioca. Já não tinha de vasculhar o lixo do banheiro em busca de comida, e raramente passei fome de novo.
QUANDO CHEGUEI à penúltima série, a srta. Bivens me tornou editora-chefe, embora o cargo devesse ser de alguém na última série. Só um punhado de alunos queria trabalhar para o Wave, então terminei escrevendo tantas matérias que eliminei a assinatura; parecia um pouco ridículo ter meu nome quatro vezes na primeira página.
O jornal custava quinze centavos, e eu mesma o vendia, indo de turma em turma e ficando nos corredores, anunciando-o como um pequeno jornaleiro. A escola secundária Welch tinha quase mil e duzentos alunos, mas vendíamos apenas duzentos exemplares do jornal. Tentei várias estratégias para aumentar a circulação: fiz concursos de poesia, acrescentei uma coluna de moda e escrevi editoriais polêmicos, incluindo um questionando a validade de provas padronizadas, que provocou uma carta irada do diretor do Departamento de Ensino do Estado. Nada funcionou.
Certo dia, um aluno que eu tentava convencer a comprar o Wave disse que não tinha o que fazer com ele, pois eram os mesmos nomes que apareciam sempre no jornal: atletas e animadoras de torcida da escola e um punhado de garotos conhecidos como réguas de cálculo, que sempre ganhavam os prêmios acadêmicos. Criei uma coluna chamada “Canto do Aniversário”, com o nome das cerca de oitenta pessoas que faziam aniversário no mês seguinte. A maioria dessas pessoas nunca tinha saído no jornal, e elas ficaram tão excitadas de ver seus nomes impressos que compraram vários exemplares. A circulação dobrou. A srta. Bivens pensou em voz alta se “Canto do Aniversário” era jornalismo sério. Eu disse a ela que não me importava — vendia jornais.
CHUCK YEAGER VISITOU a escola secundária Welch naquele ano. Eu passara a vida toda ouvindo sobre Chuck Yeager por papai, sobre como nascera na Virgínia Ocidental, na cidade de Myra, perto do rio Mud, município de Lincoln; como entrara para a Força Aérea durante a Segunda Guerra Mundial e havia derrubado onze aviões alemães aos vinte e dois anos; como se tornara piloto de testes da Base da Força Aérea de Edwards no deserto de Mojave, Califórnia; e como, em certo dia de 1947, se tornara o primeiro homem a quebrar a barreira do som em seu X-1, embora na noite anterior tivesse bebido e sido derrubado de um cavalo, quebrando algumas costelas.
Papai nunca admitiria ter heróis, mas o bagos de ferro, apreciador de álcool e calculista frio Chuck Yeager era o homem que ele mais admirava entre todos os outros no mundo. Quando soube que Chuck Yeager iria fazer um discurso na escola secundária Welch, e concordara em me dar uma entrevista depois, papai mal conseguiu disfarçar sua excitação. Estava me esperando na varanda com caneta e papel quando voltei da escola para casa na véspera da grande entrevista. Ele se sentou para me ajudar a fazer uma lista de perguntas inteligentes, para que eu não me constrangesse diante daquele que era o maior dos filhos de Virgínia Ocidental.
• O que passava por sua cabeça quando quebrou Mach I?
• O que estava passando por sua cabeça quando A. Scot Crossfield quebrou Mach II?
• Qual sua aeronave preferida?
• O que pensa da plausibilidade de voar à velocidade da luz?
Papai escreveu vinte e cinco, ou trinta perguntas, e depois insistiu que ensaiássemos a entrevista. Ele fingiu ser Chuck Yeager e me deu respostas detalhadas para as perguntas que havia formulado. Seus olhos ficaram úmidos ao descrever como era quebrar a barreira do som. Depois decidiu que eu precisava de bases sólidas sobre a história da aviação e passou metade da noite me informando, à luz de um lampião a querosene, sobre o programa de testes de voo, a aerodinâmica básica e o físico austríaco Ernst Mach.
No dia seguinte, o sr. Jack, o diretor, apresentou Chuck Yeager no auditório. Ele parecia mais um caubói que um nativo da Virgínia Ocidental, com passo de vaqueiro e rosto magro curtido, mas assim que começou a falar, sua voz reverberou. Enquanto falava, os alunos inquietos se acomodaram em suas cadeiras dobráveis e se mostraram fascinados com o lendário homem do mundo, que nos contou como sentia orgulho de suas raízes na Virgínia Ocidental e como nós devíamos nos orgulhar dessas raízes, raízes que todos partilhávamos; e como, independentemente de onde vínhamos, cada um de nós podia e devia correr atrás de nossos sonhos, assim como ele correra atrás do sonho dele. Quando terminou, os aplausos quase partiram os vidros nas janelas.
Eu subi ao palco depois que os alunos saíram.
— Sr. Yeager, sou Jeannet e Wal s, do The Maroon Wave — disse, estendendo a mão.
Chuck Yeager tomou minha mão e sorriu.
— Escreva meu nome certo, madame, para que meu pessoal saiba sobre quem está escrevendo.
Nós nos sentamos em cadeiras dobráveis e conversamos por quase uma hora. O sr. Yeager levou a sério todas as perguntas e agiu como se tivesse todo o tempo do mundo para mim. Quando mencionei as várias aeronaves que ele havia pilotado, as aeronaves sobre as quais papai me falara, ele sorriu novamente e disse:
— Ora, acredito que temos aqui uma especialista em aviação.
Depois, nos corredores, os outros garotos ficaram me dizendo como eu tinha sorte. “Como ele é de verdade?”, “O que ele disse?” Todos me trataram com a deferência concedida somente aos maiores atletas da escola. Mesmo o zagueiro do time principal me olhou nos olhos e anuiu. Eu era a garota que havia conversado com Chuck Yeager.