O Castelo de Vidro

Jeannette Walls · Capítulo 10 de 71

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O Castelo de Vidro

Depois de desmontar

DEPOIS QUE O HOTEL foi destruído, moramos alguns dias na praia. Quando baixávamos o banco traseiro do Vagão Verde havia espaço para todos dormirem, embora algumas vezes os pés de alguém grudassem no meu rosto. Certa noite um policial bateu na janela e disse que teríamos de ir embora; era proibido dormir na praia. Ele foi legal e continuou nos chamando de “pessoal”, e até mesmo desenhou um mapa de um lugar onde poderíamos dormir sem ser presos.

Mas depois que ele foi embora papai o chamou de maldito gestapo e disse que pessoas assim se divertiam perturbando pessoas como nós. Papai estava farto da civilização. Ele e mamãe decidiram que voltaríamos para o deserto e retomaríamos nossa busca por ouro sem o dinheiro inicial.

— Essas cidades vão matar vocês — sentenciou.

DEPOIS DE DESMONTAR acampamento em San Francisco, seguimos para o deserto de Mojave.

Perto das montanhas da Águia, mamãe fez papai parar o carro. Ela vira uma árvore ao lado da estrada que chamara sua atenção. Não era uma árvore qualquer. Era uma antiga iúca. Estava em um trecho de terreno onde o deserto terminava e a montanha começava, criando um túnel de vento. Desde que era uma muda pequena, ela havia sido tão açoitada pelo vento que, em vez de tentar crescer na direção do céu, crescera na direção que o vento a empurrava. Ela existia em um estado de sopro permanente, tão curvada que parecia prestes a tombar, embora suas raízes estivessem bem fincadas.

Achei a iúca feia. Parecia desmazelada e bizarra, permanentemente presa em sua posição retorcida e torturada, e me fazia pensar em alguns adultos me dizendo que eu não devia fazer caretas porque meus traços poderiam congelar. Mamãe, porém, achava que era uma das árvores mais bonitas que já vira. Disse que precisava pintá-la. Enquanto ela pegava seu cavalete, papai seguiu pela estrada para ver o que havia à frente. Achou casinhas ressecadas espalhadas, trailers enterrados na areia e barracos com telhado de zinco enferrujado. Chamava-se Midland. Uma das casinhas tinha uma placa de aluga-se.

— Que diabos, este lugar é tão bom quanto qualquer outro — disse papai.

A CASA QUE ALUGAMOS havia sido construída por uma mineradora. Era branca, com dois aposentos e um telhado torto. Não havia árvores, e a areia do deserto chegava à porta dos fundos. À noite era possível ouvir coiotes uivando.

Quando chegamos a Midland, aqueles coiotes me mantinham acordada, e, deitada na cama, eu ouvia outros sons — monstros-de-gila nos arbustos, mariposas batendo nas telas e o chaparreiro estalando ao vento. Certa noite, quando as luzes estavam apagadas e eu conseguia ver um pedaço de lua pela janela, ouvi um barulho de algo deslizando pelo chão.

— Acho que há algo debaixo da nossa cama — disse a Lori.

— É um mero capricho da sua imaginação — comentou Lori. Ela falava como adulto quando aborrecida.

Tentei ser corajosa, mas tinha ouvido algo. À luz da lua, pensei ter visto movimento.

— Tem algo ali — sussurrei.

— Vá dormir — disse Lori.

Segurando o travesseiro sobre a cabeça para me proteger, corri até a sala, onde papai estava lendo.

— O que há, Cabra-Montesa? — perguntou ele.

Ele me chamava assim porque eu jamais caía quando estávamos escalando montanhas — firme como uma cabra-montesa, dizia sempre.

— Provavelmente nada — falei. — Só acho que talvez tenha visto algo no quarto. — Papai ergueu as sobrancelhas. — Mas provavelmente foi apenas um capricho de minha imaginação hiperativa.

— Deu uma boa olhada? — perguntou.

— Na verdade, não.

— Você deve ter visto. Era um grande e velho peludo com dentes e garras de aparência medonha?

— É isso!

— E tinha orelhas pontudas e olhos malvados de fogo? E ainda a encarou de forma malévola?

— Sim! Sim! O senhor também viu?

— É bom acreditar que sim. É aquele velho desgraçado traiçoeiro do Demônio.

Papai disse que caçava o Demônio havia anos. Àquela altura, aquele velho Demônio aprendera que

era melhor não se meter com Rex Wal s. Mas se aquele desgraçado furtivo achava que ia aterrorizar a garotinha de Rex Wal s, por Deus, era melhor pensar duas vezes.

— Vá pegar minha faca de caça — pediu papai.

Peguei a faca de caça de papai com o punho de osso esculpido e a lâmina de aço alemão azul, ele me deu uma chave de grifo, e fomos procurar o Demônio. Olhamos embaixo da minha cama, onde eu o vira, mas ele havia sumido. Procuramos por toda a casa — debaixo da mesa, nos cantos escuros dos armários, na caixa de ferramentas, e até mesmo nas latas de lixo do lado de fora da casa. — Vamos lá, seu Demônio lamentável! — papai gritou na noite do deserto. — Apareça e mostre sua cara feia de bunda, seu monstro de barriga amarela!

— É, venha, seu velho Demônio mau! — eu disse, sacudindo a chave de grifo no ar. — Não temos medo de você!

Só havia o som de coiotes a distância.

— É a cara daquele Demônio de merda — disse papai.

Ele se sentou no degrau da frente e acendeu um cigarro, depois me contou a história de quando o Demônio estava aterrorizando uma cidade inteira e papai travou com ele um combate sem armas, mordendo suas orelhas e enfiando os dedos nos olhos dele. O velho Demônio ficou aterrorizado, pois era a primeira vez que encontrava alguém que não o temia.

— O maldito velho Demônio não sabia o que pensar — disse papai, balançando a cabeça com um risinho. Essa era a coisa a lembrar sobre todos os monstros, segundo papai: eles adoram assustar as pessoas, mas no minuto em que os encaramos, eles dão as costas e fogem. — Tudo o que você precisa fazer, Cabra-Montesa, é mostrar ao velho Demônio que não tem medo.

NÃO CRESCIA MUITA coisa ao redor de Midland além de iúca, cactos e arbustos retorcidos que papai dizia ser uma das plantas mais velhas do planeta. Os tetravós daqueles arbustos tinham milhares de anos.

Quando chovia, soltavam um cheiro de mofo repulsivo para que os animais não os comessem. Só caíam dez centímetros de chuva por ano perto de Midland — quase o mesmo que no norte do Saara —, e a água para os humanos vinha de trem uma vez por dia em recipientes especiais. Os únicos animais que conseguiam sobreviver em Midland eram criaturas escamosas sem lábios, como monstros-de-gila e escorpiões, além de pessoas como nós.

Um mês depois de termos mudado para Midland, Juju foi mordido por uma cascavel e morreu.

Nós o enterramos perto da iúca. Foi praticamente a única vez em que vi Brian chorar. Mas tínhamos muitos gatos para nos fazer companhia. Gatos demais, na verdade. Havíamos resgatado muitos gatos desde que jogamos Quixote pela janela, e a maioria deles tivera filhotes, e chegou ao ponto em que tivemos de nos livrar de alguns deles. Não tínhamos muitos vizinhos para dar os gatos, por isso papai os colocou em um saco de lona e levou-o até um lago feito pela mineradora para resfriar equipamento. Eu o observei carregar a traseira do carro com sacos que se remexiam e miavam.

— Isso não parece certo — eu disse a mamãe. — Nós os resgatamos. Agora vamos matá-los.

— Nós demos a eles um pouco mais de tempo no planeta — disse mamãe. — Eles deveriam ser gratos por isso.

PAPAI FINALMENTE CONSEGUIU um emprego na mina de gesso, cavando as pedras brancas que

eram moídas e transformadas em pó usado em divisórias e massa. Quando voltava para casa estava coberto de pó de gesso branco, e algumas vezes brincávamos de fantasma e ele nos perseguia. Ele também levava sacos de gesso, e mamãe o misturava com água para fazer esculturas da Vênus de Milo a partir de um molde de borracha que encomendara pelo correio. Mamãe ficava triste pelo fato de a mina estar destruindo tanta pedra branca — dizia que era mármore de verdade e merecia melhor destino, e que ao fazer as esculturas, pelo menos, imortalizava uma parte.

Mamãe estava grávida. Todos esperavam que fosse um garoto, para que Brian tivesse alguém com quem brincar além de mim. Quando chegasse o momento de mamãe dar à luz, o plano de papai era que nos mudássemos para Blythe, a trinta e cinco quilômetros ao sul, uma cidade tão grande que tinha dois cinemas e duas prisões estaduais.