O Castelo de Vidro

Jeannette Walls · Capítulo 14 de 71

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O Castelo de Vidro

Battle Mountain

— Que merda está acontecendo? — perguntou ele. Estava furioso. Tentamos explicar que não era culpa nossa as portas terem se aberto, mas ele continuava com raiva. Eu sabia que também estava assustado. Talvez mais assustado que com raiva.

— Era um policial? — perguntou Brian.

— Não — disse papai. — E vocês têm uma sorte dos diabos de não ser, ou ele estaria levando seus traseiros para a cadeia.

Depois de termos feito xixi, subimos novamente no caminhão e vimos papai fechar as portas. A escuridão nos envolveu novamente. Pudemos ouvir papai trancando as portas e conferindo depois. O

motor foi ligado, e seguimos viagem.

BATTLE MOUNTAIN começara como um local de mineração, criado cem anos antes por pessoas que esperavam ficar ricas, contudo se alguém um dia se tornara rico por ali devia ter se mudado para gastar a fortuna em outro lugar. Nada na cidade era grandioso a não ser o céu vazio e, a distância, as montanhas de pedra roxas Tuscarora descendo para o deserto liso.

A rua principal era larga — com carros e picapes desbotados pelo sol estacionados em ângulo em relação à calçada —, mas com poucos quarteirões de comprimento, ladeada por prédios baixos de telhado reto, feito de adobe ou alvenaria. Um único sinal de trânsito piscava vermelho dia e noite. Ao longo da rua Principal havia uma mercearia, uma farmácia, uma revendedora Ford, um ponto de ônibus Greyhound e dois grandes cassinos, o clube da Coruja e o hotel Nevada. Os prédios, que pareciam insignificantes sob o céu enorme, tinham letreiros de néon, que durante o dia não pareciam acesos por causa do brilho do sol.

Nós nos mudamos para um prédio de madeira no limite da cidade que havia sido um depósito de ferrovia. Tinha dois andares, era pintado de verde industrial e ficava tão perto dos trilhos que era possível acenar para o maquinista da janela da frente. Nossa nova casa era um dos prédios mais velhos da cidade, mamãe nos contou com orgulho, era um verdadeiro clima de fronteira.

O quarto de papai e mamãe ficava no segundo andar, onde um dia o gerente da estação tivera seu escritório. Nós, crianças, dormíamos embaixo, no que havia sido a sala de espera. Os velhos banheiros ainda estavam lá, mas o vaso sanitário havia sido retirado de um, e em seu lugar fora instalada uma banheira. O guichê de passagens havia sido transformado em cozinha. Alguns dos bancos originais continuavam chumbados nas paredes de madeira sem pintura, e era possível ver os pontos escuros e gastos nos quais descobridores, mineiros e suas esposas e crianças haviam se sentado para esperar o trem, os traseiros polindo a madeira.

Como não tínhamos dinheiro para móveis, improvisamos. Um punhado de enormes bobinas de madeira, do tipo que continha cabos industriais, havia sido jogado ao lado dos trilhos perto de nossa casa, então as rolamos para lá e as transformamos em mesas.

— Que tipo de idiota desperdiça dinheiro comprando mesas em lojas quando é possível ter isso de graça? — perguntou papai enquanto socava o alto das bobinas para mostrar como eram resistentes.

Usamos algumas bobinas menores e engradados como cadeiras. Em vez de camas, nós, crianças, dormíamos em grandes caixas de papelão, como as que envolvem geladeiras. Um pouco depois de termos nos mudado para o depósito, ouvimos mamãe e papai falando sobre comprar camas de verdade para nós, e dissemos que não deviam fazer isso. Gostávamos de nossas caixas. Faziam parecer que ir para a cama era uma aventura.

POUCO DEPOIS DE TERMOS mudado para o depósito, mamãe decidiu que precisávamos de um piano. Papai encontrou um piano de armário barato numa taberna da cidade vizinha que havia fechado recentemente e pegou emprestada a picape de um vizinho para levá-lo para casa. Nós o deslizamos para fora da picape por uma rampa, mas ele era pesado demais para ser carregado. Para colocá-lo no depósito, papai concebeu um sistema de cordas e polias, que prendeu ao piano no jardim da frente e passou pela casa, saindo pela porta dos fundos, onde foi amarrado à picape. O plano era mamãe avançar com a picape, puxando o piano para dentro de casa enquanto papai e nós, crianças, o guiávamos por uma rampa de tábuas e pela porta da frente.

— Pronto! — berrou papai quando estávamos todos em posição.

— Tudo bem! — berrou mamãe. No entanto, mamãe, que nunca dirigira bem, em vez de avançar lentamente, pisou fundo no pedal, e a picape disparou à frente. O piano foi arrancado de nossas mãos, puxando-nos para a frente, e pulou para dentro de casa, lascando a moldura da porta. Papai gritou para que mamãe reduzisse, mas ela continuou avançando e arrastando o piano, que guinchava e estalava as cordas, sobre o piso do depósito e através da porta dos fundos, lascando a moldura, e depois para o quintal, onde ele parou junto a um espinheiro.

Papai atravessou a casa correndo.

— Mas que bosta você está fazendo? — berrou ele com mamãe. — Eu disse para ir devagar!

— Eu só estava a quarenta por hora — disse mamãe. — Você fica louco comigo quando ando tão devagar na estrada.

Ela olhou para trás e viu o piano no quintal.

— Ahhh.

Mamãe quis dar a volta e arrastá-lo para dentro de casa pelo outro lado, mas papai disse ser impossível, porque os trilhos ficavam perto demais da casa para pôr a picape em posição. O piano permaneceu onde estava. Nos dias em que mamãe se sentia inspirada, levava sua partitura e uma das cadeiras de bobina para fora e martelava a música lá.