O Castelo de Vidro

Jeannette Walls · Capítulo 40 de 71

Páginas do PDF

O Castelo de Vidro

Papai começou a desaparecer

— Um belo trabalho — disse papai. — Estou orgulhoso de você, Cabra-Montesa.

Quando saí de casa na manhã seguinte, papai ainda estava dormindo. Quando voltei para casa à noite, ele havia saído.

PAPAI COMEÇOU A DESAPARECER por dias seguidos. Quando eu perguntava onde tinha estado, suas explicações eram tão vagas ou tão improváveis que parei de perguntar. Sempre que voltava para casa, ele trazia um saco de compras em cada braço. Engolíamos sanduíches de apresuntado com fatias grossas de cebola enquanto ele nos contava a respeito do progresso de sua investigação sobre o sindicato e seus últimos planos para ganhar dinheiro. As pessoas estavam sempre lhe oferecendo empregos, explicava, mas não tinha interesse em trabalhar para ninguém, batendo continência, bajulando, puxando saco e recebendo ordens.

— Você nunca fica rico trabalhando para o patrão — disse.

Ele estava concentrado em ficar rico. Podia não haver ouro na Virgínia Ocidental, mas havia muitas outras formas de fazer fortuna. Ele, por exemplo, trabalhava em uma tecnologia para queimar carvão de maneira mais eficiente, para que mesmo o carvão de pior qualidade pudesse ser retirado e vendido. Disse que havia um grande mercado para isso, que iria nos deixar mais ricos do que podíamos imaginar.

Eu escutava os planos de papai e tentava encorajá-lo, na esperança de que suas teorias fossem verdadeiras, mas bastante certa de que não eram. Entrava dinheiro — e com ele comida — nas raras oportunidades em que papai fazia um biscate ou mamãe recebia um cheque da companhia de petróleo que alugava os direitos de perfuração de suas terras no Texas. Mamãe sempre era vaga sobre o tamanho dessas terras e sua exata localização, e se recusava a pensar em vendê-las. Tudo o que sabíamos era que a cada dois meses surgia aquele cheque, e tínhamos muita comida por vários dias.

Quando a eletricidade estava ligada, comíamos muito feijão. Um grande saco de feijão-rajado nos alimentava por dias. O gosto era especialmente bom se acrescentássemos uma colher de maionese.

Comíamos muito arroz com cavala, que mamãe dizia ser ótima para o cérebro. Cavala não era tão boa quanto atum, mas melhor que comida de gato, que comíamos de tempos em tempos quando as coisas ficavam realmente feias. Algumas vezes, mamãe fazia uma grande bacia de pipoca para o jantar. Tinha muita fibra, dizia, e mandava que colocássemos muito sal, porque o iodo impedia que tivéssemos bócio.

— Não quero que meus filhos pareçam pelicanos — observava.

Uma vez, quando chegou um cheque de royalties realmente grande, mamãe comprou para nós uma lata inteira de apresuntado. Comemos isso durante dias, cortando fatias grossas para sanduíches. Como não tínhamos geladeira, deixamos o presunto em uma prateleira da cozinha. Depois de passar mais ou menos uma semana ali, fui pegar minha fatia do jantar e descobri que se enchera de pequenos vermes brancos. Mamãe estava sentada no sofá-cama, comendo o pedaço que cortara.

— Mamãe, esse presunto está cheio de vermes — falei.

— Ah, não seja tão fresca — disse ela. — Apenas tire a parte bichada. O lado de dentro está bom.

BRIAN E EU NOS tornamos especialistas em coleta. Pegávamos maçãs, amoras silvestres e mamão no verão e no outono, e roubávamos espigas de milho da fazenda do velho Wilson. O milho era duro — o velho Wilson o plantava para alimentar o gado —, mas se o mastigássemos bastante, conseguíamos comer. Uma vez, apanhamos um tordo ferido jogando um cobertor sobre ele e imaginamos que poderíamos fazer uma torta de tordo como na canção de roda. Mas não conseguimos matar o pássaro, e, além disso, ele parecia magro demais para comer.

Tínhamos ouvido falar de um prato chamado salada de uva-de-rato, e, como tínhamos uma grande moita de uva-de-rato crescendo atrás da casa, Brian e eu resolvemos experimentar. Se fosse bom, teríamos uma nova fonte de comida. Primeiro, tentamos comer a uva-de-rato crua, mas era terrivelmente

amarga, então a fervemos — cantando “Poke Salad Annie” na maior expectativa —, mas ainda tinha gosto amargo e fibroso, e ficamos dias com coceira na língua.

Certo dia, caçando comida, passamos pela janela de uma casa abandonada. Os cômodos eram pequenos, havia piso sujo, mas encontramos prateleiras com fileiras de comida enlatada na cozinha.

— Te-sou-ro! — gritou Brian.

— Hora do banquete! — falei.

As latas estavam cobertas de poeira e começando a enferrujar, mas imaginamos que ainda era seguro comer, já que o objetivo de enlatar era conservar. Passei uma lata de tomates para Brian, que pegou seu canivete. Quando ele furou a lata, o conteúdo explodiu em seu rosto, cobrindo-nos com um suco marrom efervescente. Tentamos algumas outras, mas também explodiram, e voltamos andando para casa sem ter comido nada, com as roupas e os rostos sujos de tomate podre.

QUANDO COMECEI A sexta série, as outras crianças debochavam de Brian e de mim por sermos tão magros. Eles me chamavam de pernas de aranha, menina-esqueleto, limpadora de canos, bunda ossuda, mulher-palito, varapau e girafa, e diziam que eu conseguia me manter seca na chuva ficando em pé embaixo de um fio telefônico.

Na hora do almoço, quando as outras crianças desembrulhavam seus sanduíches ou compravam refeições quentes, Brian e eu pegávamos nossos livros e líamos. Brian dizia a todos que precisava manter seu peso baixo porque queria entrar para a equipe de luta quando chegasse ao ensino médio. Eu dizia às pessoas que havia esquecido meu almoço. Ninguém acreditava em mim, e comecei a me esconder no banheiro na hora do almoço. Ficava em um dos reservados com a porta trancada e os pés erguidos para que ninguém reconhecesse meus sapatos.

Quando as outras garotas entravam e jogavam os sacos de lanche nas latas de lixo, eu os resgatava.

Não suportava o modo como jogavam fora aquela comida absolutamente boa: maçãs, ovos cozidos, pacotes de biscoito com manteiga de amendoim, picles fatiados, caixas de leite de 260 ml, sanduíches de queijo com apenas uma dentada, porque a criança não gostava de pimentão no queijo. Eu voltava ao reservado e devorava minhas descobertas saborosas.

Às vezes, havia na lata de lixo mais comida do que eu conseguia comer. Na primeira vez em que encontrei comida extra — um sanduíche de mortadela e queijo —, enfiei-o em minha bolsa querendo levar para Brian em casa. Na sala, comecei a me preocupar com a explicação que daria a Brian sobre de onde o sanduíche tinha vindo. Estava bem certa de que ele vasculhava o lixo, mas nunca falamos sobre isso. Enquanto eu ficava sentada lá, tentando pensar em modos de justificar aquilo para Brian, comecei a sentir o cheiro da mortadela. Parecia tomar a sala. Fiquei aterrorizada de que as outras crianças também pudessem sentir o cheiro, se virassem e vissem minha bolsa estufada, e, como todos sabiam que eu nunca almoçava, imaginariam que eu tinha apanhado o sanduíche no lixo. Assim que a aula terminou, corri para o banheiro e enfiei o sanduíche de volta na lata.

Maureen sempre tinha muita comida, já que fizera amigos no bairro e aparecia na casa deles na hora do jantar. Eu não tinha ideia do que mamãe e Lori faziam para se alimentar. Estranhamente, mamãe ficava mais pesada. Certa noite, quando papai estava fora, não tínhamos nada para comer, e estávamos sentados na sala de estar tentando não pensar em comida, mas mamãe não parava de se esconder sob o cobertor do sofá-cama. Em dado momento, Brian olhou para ela.