O Castelo de Vidro

Jeannette Walls · Capítulo 63 de 71

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O Castelo de Vidro

No verão seguinte,

— Você deve sentir muita vergonha de seu velho — falou.

— O que quer dizer? — perguntei.

— Acha que eu sou um maldito caso de caridade.

Papai se levantou e vestiu a jaqueta. Estava evitando nossos olhos.

— Aonde está indo? — perguntei.

Papai simplesmente ergueu a lapela e saiu do apartamento. Ouvi o som de suas botas descendo a escada.— O que eu fiz? — perguntei.

— Veja do ponto de vista dele — falou mamãe. — Você compra para ele todas essas belas coisas novas, e tudo o que ele tem para você é lixo das ruas. Ele é o pai. Ele é quem deveria cuidar de você.

A sala ficou em silêncio por um instante.

— Acho que você também não quer seus presentes — eu disse a mamãe.

— Ah, não — falou. — Eu adoro ganhar presentes.

NO VERÃO SEGUINTE, mamãe e papai estavam entrando em seu terceiro ano nas ruas. Haviam descoberto de que modo não ter onde morar podia funcionar para eles, e eu paulatinamente aceitei a ideia de que, gostasse disso ou não, era como seria.

— Acho que é um pouco culpa da cidade — mamãe me disse. — Ela torna fácil demais ser um sem-teto. Se fosse realmente insuportável, faríamos algo diferente.

Em agosto, papai ligou para examinar minha escolha de disciplinas para o semestre. Também queria discutir alguns dos livros das listas. Desde que fora para Nova York, ele pegava na biblioteca pública os livros do meu currículo. Disse que lera todos eles para poder responder a qualquer pergunta que eu tivesse. Mamãe disse que era sua maneira de receber uma formação universitária junto comigo.

Quando ele me perguntou quais disciplinas eu escolhera, respondi:

— Estou pensando em largar a faculdade.

— Vai porra nenhuma — papai reagiu.

Contei que, embora a maior parte da anuidade fosse coberta por recursos públicos, empréstimos e bolsas, a escola esperava que eu entrasse com dois mil dólares por ano. Mas durante o verão, eu conseguira poupar apenas mil dólares. Precisava de outros mil, e não tinha como conseguir.

— Por que não me disse antes? — perguntou papai.

Papai ligou uma semana depois e pediu que me encontrasse com ele na casa de Lori. Quando chegou com mamãe, carregava um grande saco plástico de lixo e tinha um pequeno saco de papel pardo debaixo do braço. Imaginei que fosse uma garrafa de bebida, mas ele abriu o saco e o virou de cabeça para baixo.

Centenas de notas de dólar — de um, cinco, dez, vinte, todas amassadas e gastas — caíram no meu colo.

— São novecentas e cinquenta pratas — disse papai. Ele abriu o saco plástico, e um casaco de pele caiu dele. — Isto é marta. Você deve conseguir empenhá-lo por pelo menos cinquenta.

Fiquei olhando para o conjunto.

— Onde conseguiu tudo isso? — finalmente perguntei.

— Nova York está cheia de jogadores de pôquer que não sabem diferenciar seu traseiro de um buraco no chão.

— Papai, vocês precisam mais desse dinheiro do que eu.