O Castelo de Vidro
No dia seguinte, mamãe
As ruas estavam em sua maioria silenciosas e desertas naquela manhã, mas de vez enquanto passávamos por uma mulher de bobes ou um grupo de homens com camisetas com logotipos de óleo de motor matando tempo em um umbral. Eu tentava ver seus olhos, anuir ou sorrir para eles para que soubessem que só tínhamos boas intenções, porém eles nunca anuíam, tampouco diziam uma palavra ou olhavam em nossa direção. Enquanto passávamos, eu podia sentir olhos nos seguindo pela rua.
Papai levara mamãe a Welch para uma rápida visita quinze anos antes, logo depois de terem se casado.
— Deus, as coisas pioraram um pouco desde que estivemos aqui pela última vez — falou.
Papai deu uma risada curta. Olhou para ela como se prestes a dizer: E que merda eu dis e a você? Mas, em vez disso, apenas balançou a cabeça.
De repente, mamãe deu um grande sorriso.
— Aposto que não há mais artistas morando em Welch. Não terei nenhuma concorrência. Minha carreira poderia decolar aqui.
NO DIA SEGUINTE, MAMÃE levou Brian e eu à escola fundamental Welch, na periferia da cidade.
Entrou confiante no escritório do diretor, puxando-nos, e o informou que teria o prazer de matricular em sua escola duas das mais brilhantes e criativas crianças do país.
O diretor olhou para mamãe por cima de seus óculos de armação preta e continuou sentado à escrivaninha. Mamãe explicou que havíamos saído de Phoenix com um pouquinho de pressa, sabe como são as coisas, e, no meio da confusão, ela infelizmente se esquecera de pegar coisas como históricos escolares e certidões de nascimento.
— Mas o senhor tem minha palavra de que Jeannet e e Brian são excepcionalmente brilhantes, até mesmo superdotados — disse, sorrindo para ele.
O diretor olhou para Brian e para mim, com cabelos sujos e roupas leves do deserto. Seu rosto ganhou uma expressão amarga e cética. Ele se concentrou em mim, empurrou os óculos para o alto do nariz e disse algo que soou como “Canté oivez set?”.
— Desculpe-me? — reagi.
— Oivez set! — repetiu ele mais alto.
Eu estava totalmente confusa. Olhei para mamãe.
— Ela não compreende seu sotaque — mamãe disse ao diretor. Ele franziu o cenho. Mamãe se virou para mim: — Ele está perguntando quanto é oito vezes sete.
— Ah! — gritei. — Cinquenta e seis. Oito vezes sete é cinquenta e seis!
Comecei a enumerar todo tipo de equação matemática.
O diretor olhou para mim inexpressivo.
— Ele não consegue entender o que você está dizendo — mamãe me disse. — Tente falar mais devagar.
O diretor me fez mais algumas perguntas que não consegui entender. Com mamãe traduzindo, eu dei respostas que ele não conseguiu entender. Depois fez algumas perguntas a Brian, e também não conseguiram se entender.
O diretor decidiu que Brian e eu éramos um pouco lentos e tínhamos dificuldades de fala, que tornavam difícil para as pessoas nos compreender. Ele nos colocou em turmas especiais para alunos com dificuldades de aprendizado.
— VOCÊS TERÃO DE impressioná-los com sua inteligência — mamãe disse quando Brian e eu saíamos para a escola no dia seguinte. — Não tenham medo de ser mais espertos que eles.
Chovera na noite antes de nosso primeiro dia na escola. Quando Brian e eu saltamos do ônibus na escola fundamental Welch, nossos sapatos ficaram encharcados na água que enchia os sulcos enlameados deixados pelos ônibus escolares. Olhei ao redor procurando os brinquedos do playground, imaginando que poderia fazer amigos com a feroz habilidade no bola ao poste que desenvolvera em Emerson, mas não vi uma única gangorra ou trepa-trepa, muito menos postes de bola.
Estava frio desde que chegamos a Welch. No dia anterior, mamãe desempacotara os casacos de brechós que comprara para nós em Phoenix. Quando mostrei que todos os botões do meu haviam sido arrancados, ela disse que aquele pequeno defeito era mais que compensado pelo fato de que o casaco era importado da França e feito de pura lã de ovelha. Enquanto esperávamos o sinal inicial, fiquei com Brian no limite do playground, braços cruzados para manter o casaco fechado. As outras crianças nos encararam, sussurrando entre si, e mantiveram distância, como se não tivessem decidido se éramos predadores ou
presas. Eu pensara que na Virgínia Ocidental só havia caipiras brancos, fiquei surpresa com quantos garotos negros havia ali. Vi uma menina negra alta com maxilar forte e olhos amendoados sorrindo para mim. Anuí e sorri de volta, e me dei conta de que havia algo maldoso no sorriso. Cruzei os braços com mais força sobre o peito.
Eu estava na quinta série, portanto meu dia era dividido em períodos, com diferentes professores e salas de aula para cada um. No primeiro período, eu tinha história da Virgínia Ocidental. História era uma das minhas matérias preferidas. Estava tensa e pronta para erguer a mão tão logo o professor fizesse uma pergunta que eu soubesse responder, mas ele ficou na frente da sala junto a um mapa da Virgínia Ocidental com todos os cinquenta e cinco municípios traçados e passou a aula inteira apontando para municípios e pedindo aos alunos que os identificassem. No segundo período, passamos a hora assistindo a um filme do jogo de futebol americano que a escola secundária Welch disputara dias antes. Nenhum dos professores me apresentou à turma; pareciam tão incertos quanto os garotos sobre como agir perto de um estranho.
A aula seguinte foi de inglês para alunos com dificuldades de aprendizado. A srta. Caparossi começou informando à turma que talvez ficasse surpresa de saber que algumas pessoas no mundo se achavam melhores que outras.
— Elas estão convencidas de que são tão especiais que não precisam seguir as regras que as outras pessoas seguem, como apresentar o histórico escolar quando se matriculam em uma nova escola — disse, olhando para mim e erguendo as sobrancelhas significativamente antes de perguntar à turma: — Quem acha que isso não é justo?
Todos os garotos, exceto eu, ergueram as mãos.
— Vejo que nossa nova aluna não concorda. Talvez quisesse se explicar?
Eu estava sentada na penúltima fila. Os alunos à minha frente viraram a cabeça para me encarar.
Decidi perturbá-los com a resposta do Jogo de Portanto.
— Informações insuficientes para chegar a uma conclusão — falei.
— É mesmo? — perguntou a srta. Caparossi. — É assim que falam em uma cidade grande como Phoenix?
Ela pronunciou “Fi i inix”. Depois se virou para a turma e disse em uma voz aguda debochada:
— Informações insuficientes para chegar a uma conclusão.
A turma caiu na gargalhada.
Senti algo pontudo e dolorido entre minhas omoplatas e me virei. A negra alta com olhos amendoados estava sentada atrás de mim. Erguendo o lápis apontado que enfiara em minhas costas, ela deu o mesmo sorriso maldoso que eu vira no playground.
PROCUREI BRIAN NO refeitório na hora do almoço, mas os alunos da quarta série tinham um horário diferente, então me sentei sozinha e mordi o sanduíche que Erma fizera para mim naquela manhã. Era gorduroso e sem gosto. Separei as duas fatias de pão de fôrma. Dentro delas havia uma fina camada de banha. Era só. Nada de carne, nada de queijo, nem mesmo uma fatia de picles. Ainda assim, mastiguei devagar, olhando atentamente para as marcas de mordida no pão para postergar o máximo possível o momento em que teria de sair do refeitório e ir para o playground. Quando fiquei por último no refeitório, o zelador, que estava colocando as cadeiras sobre as mesas para poder passar pano no chão, me disse que era hora de sair.
Do lado de fora, uma névoa fina pairava no ar calmo. Juntei as laterais de meu casaco de lã de ovelha. Três garotas negras, lideradas pela de olhos amendoados, começaram a vir na minha direção assim que me viram. Meia dúzia de outras meninas as seguiu. Em poucos instantes eu estava cercada.
— Você acha que é melhor que nós? — perguntou a alta.
— Não — respondi. — Acho que somos iguais.
— Acha que é tão boa quanto eu? — perguntou, acertando-me um soco. Quando, em vez de erguer as mãos para me defender, continuei mantendo meu casaco fechado, ela se deu conta de que não tinha botões. — A garota nem sequer tem botões no casaco! — gritou.