O Castelo de Vidro

Jeannette Walls · Capítulo 61 de 71

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O Castelo de Vidro

Mamãe e papai sobreviveram

MAMÃE E PAPAI SOBREVIVERAM ao inverno, mas, sempre que os via, eles pareciam mais desgastados: mais sujos, machucados, com os cabelos mais desgrenhados.

— Não se preocupe nem um pouco — disse papai. — Já viu seu velho se meter em uma situação com a qual não conseguisse lidar?

Eu dizia a mim mesma que papai estava certo, que eles sabiam como cuidar de si mesmos e um do outro, mas, na primavera, mamãe me ligou e disse que papai pegara tuberculose.

Papai quase nunca ficava doente. Estava sempre levando golpes e se recuperando quase imediatamente, como se nada pudesse feri-lo de verdade. Uma parte de mim ainda acreditava em todas aquelas histórias de infância que ele nos contara sobre como era invencível. Papai pediu que ninguém o visitasse, porém mamãe disse achar que ficaria bastante contente se eu aparecesse no hospital.

Esperei no posto das enfermeiras enquanto um auxiliar ia avisá-lo de que tinha visita. Pensei em papai em uma tenda de oxigênio ou deitado em uma cama tossindo sangue em um lenço branco, mas, depois de um minuto, ele veio apressado pelo corredor. Estava mais pálido e magro que de hábito, entretanto, apesar de todos os seus anos de vida dura, envelhecera muito pouco. Ainda tinha todo o cabelo, que era preto como carvão, e os olhos escuros cintilavam acima da máscara cirúrgica que usava.

Ele não me deixou abraçá-lo.

— Opa, Nel y, para trás. Você é um bálsamo para olhos cansados, querida, mas não quero que pegue este bicho maldito.

Papai me acompanhou de volta à ala de tuberculose e me apresentou a todos os seus amigos.

— Acreditem ou não, o velho Rex Wal s produziu alguma coisa de que se vangloriar, e aqui está —

disse a eles. Depois, começou a tossir.

— Papai, vai ficar bem? — perguntei.

— E ainda assim nenhum de nós sairá disto vivo, querida — falou papai. Era uma expressão que ele usava muito e, naquele momento, parecia extrair uma satisfação especial dela.

Papai me levou até seu leito. Ao lado, havia uma pilha arrumada de livros. Disse que seu confronto com a doença o deixara refletindo sobre a mortalidade e a natureza do cosmo. Estava totalmente sóbrio desde que fora internado e vinha lendo muito mais sobre teoria do caos, particularmente o trabalho de Mitchel Feigenbaum, um físico de Los Alamos que fizera um estudo da transição entre ordem e turbulência. Papai disse ter certeza de que Feigenbaum levava à conclusão de que a turbulência não era aleatória, mas seguia um padrão regular que implicava a existência de um criador divino, e assim começava a repensar seu credo ateu.

— Não estou dizendo que há um velho maluco barbado chamado Javé nas nuvens, decidindo qual time de futebol americano vai vencer o Super Bowl. Mas se a física, a física quântica, sugere que Deus existe, estou bastante disposto a acalentar a ideia.

Papai me mostrou alguns cálculos nos quais estava trabalhando. Viu que eu olhava seus dedos trêmulos e os ergueu.

— Falta de álcool ou medo de Deus, não sei o que está causando isso — falou. — Talvez ambos.

— Prometa que vai ficar aqui até melhorar — pedi. — Não quero ver você dando no pé.

Papai caiu numa gargalhada, que terminou em outro acesso de tosse.