O Castelo de Vidro

Jeannette Walls · Capítulo 68 de 71

Páginas do PDF

O Castelo de Vidro

Depois disso, raramente

Fiquei imaginando se estaria pensando em nós e se sentiria nossa falta. Sempre tive dúvidas sobre levá-la para Nova York, porém concordara com sua vinda. Quando chegou, eu estava ocupada demais cuidando de mim para cuidar dela.

— Desculpe, Maureen — falei quando chegou a hora. — Desculpe por tudo.

DEPOIS DISSO, RARAMENTE vi mamãe ou papai. Brian também não. Ele se casara e comprara uma casa vitoriana decrépita em Long Island que restaurou, e tinha uma garotinha. Aquela era sua família.

Lori, que ainda morava no apartamento perto da Autoridade Portuária, tinha maior contato com mamãe e papai, mas também seguira seu caminho. Não tínhamos nos visto desde a denúncia de Maureen. Algo em todos nós se partira naquele dia, e já não tínhamos disposição para reuniões familiares.

Cerca de um ano depois de Maureen ter ido para a Califórnia, recebi um telefonema de papai no trabalho. Disse que precisava me encontrar para discutir algo importante.

— Não podemos resolver pelo telefone?

— Preciso vê-la pessoalmente, querida.

Papai pediu que fosse ao Lower East Side naquela noite.

— E, se não for trabalho demais, poderia parar no caminho e comprar uma garrafa de vodca?

— Ah, é para isso.

— Não, não, querida. Preciso falar com você. Mas gostaria de uma vodca. Nada chique, apenas a coisa mais barata que houver. Meia garrafa seria bom. Uma inteira seria ótimo.

Fiquei chateada com o pedido malicioso de papai por vodca, feito no fim da conversa, como se a ideia acabasse de surgir, quando eu imaginava que provavelmente era o objetivo do telefonema. Naquela tarde, liguei para mamãe, que ainda não bebia nada mais forte que chá, e perguntei se deveria fazer a vontade de papai.

— Seu pai é quem é. Já é um pouco tarde para mudá-lo agora. Faça a vontade do homem.

NAQUELA NOITE, parei em uma loja de bebidas e comprei dois litros — uma garrafa magnum — a mais barata e ordinária que havia na prateleira, como papai pedira, depois tomei um táxi para Lower East Side. Subi a escadaria escura e empurrei a porta destrancada. Mamãe e papai estavam deitados na cama, sob uma pilha de cobertores finos. Tive a impressão de que haviam passado ali o dia todo. Mamãe grunhiu quando me viu, e papai começou a se desculpar pela bagunça, dizendo que se mamãe o deixasse jogar fora parte de seu lixo, eles poderiam conseguir se mover ali, o que levou mamãe a acusar papai de ser um vagabundo.

— Bom ver vocês — eu disse enquanto os beijava. — Já faz algum tempo.

Mamãe e papai sentaram-se com esforço. Vi papai de olho no saco de papel pardo e o dei a ele.

— Uma magnum — disse papai, a voz engasgada de gratidão enquanto a tirava do saco. Ele a destampou e deu um grande gole. — Obrigado, querida. Você é muito boa com seu velho.

Mamãe usava um suéter de tricô pesado. A pele das mãos estava muito rachada, e os cabelos, emaranhados, mas o rosto tinha um brilho rosado saudável, e os olhos eram claros e brilhantes. Ao lado dela, papai parecia macilento. Os cabelos dele, ainda negros como carvão, a não ser por alguns toques grisalhos nas têmporas, estavam penteados para trás, mas as bochechas eram fundas, e ele tinha uma barba fina. Sempre se barbeara, mesmo durante os dias nas ruas.

— Por que está deixando a barba crescer, papai? — perguntei.

— Todo homem deveria deixar a barba crescer uma vez.

— Mas por que agora?

— É agora ou nunca — respondeu. — O fato é que estou morrendo.

Eu dei um riso nervoso, depois olhei para mamãe, que pegara seu bloco de esboços sem dizer nada.

Papai me olhava atentamente. Ele me passou a garrafa de vodca. Embora eu quase nunca bebesse,

tomei um gole e senti a ardência enquanto o álcool deslizava pela garganta.

— Essa coisa pode crescer em nós — falei.

— Não permita — disse papai.

Ele começou a me contar que contraíra uma rara doença tropical depois de ter uma briga sangrenta com traficantes de drogas nigerianos. Os médicos o examinaram, disseram que a doença era incurável e que ele tinha entre semanas e alguns meses de vida.

Era uma história ridícula. O fato era que, embora papai tivesse apenas cinquenta e nove anos, fumava quatro maços de cigarro por dia desde os treze, e, àquela altura, consumia bons dois litros de álcool diariamente. Ele havia sido, como dissera várias vezes, transformado em picles.

Apesar de todo aquele inferno, destruição e caos que ele criara em nossa vida, eu não conseguia imaginar como minha vida — ou o mundo — seria sem ele. Por mais medonho que ele pudesse ser, eu sempre soube que me amara de um modo que ninguém mais amara. Olhei através da janela.

— Não, nada de fungar ou chorar pelo “pobre e velho Rex” — disse papai. — Não quero nada disso, nem agora nem quando tiver partido.

Eu anuí.

— Mas você sempre amou seu velho, não é?

— Amei, papai. E você me amou.

— Essa é a verdade de Deus — disse papai com um risinho. — Tivemos alguns momentos, não foi? — Tivemos.

— Nunca construímos o Castelo de Vidro.

— Não. Mas nos divertimos planejando.

— Foram belos planos.

Mamãe permaneceu fora da conversa, desenhando.

— Papai, eu lamento, deveria tê-lo convidado para minha formatura.

— Ao inferno com isso! — disse, rindo. — Cerimônias nunca significaram nada para mim.

Ele tomou outro grande gole de sua magnum.

— Lamento muita coisa em minha vida. Mas tenho um tremendo orgulho de você, Cabra-Montesa, do que você se tornou. Sempre que penso em você, imagino que devo ter feito alguma coisa certa.

— Claro que fez.

— Está certo.