O Castelo de Vidro
Mostrei a casa a mamãe
pelo menos duas mulheres queriam se casar com ele. Ele estava se saindo muito bem.
Mostramos a mamãe e Lori o jardim, que estava pronto para o inverno. John e eu havíamos feito tudo sozinhos: havíamos recolhido e despedaçado as folhas, cortado as perenes mortas e coberto os canteiros, jogado composto orgânico na horta e a preparado, arrancado os bulbos de dálias e os armazenado em um balde com areia no porão. John partira e estocara a madeira de um bordo morto que havíamos derrubado, e subira no telhado para trocar algumas telhas de cedro podres.
Mamãe anuíra para nossos preparativos, ela sempre apreciara autossuficiência. Admirou a glicínia que se enrolara no barracão de jardinagem, a trepadeira no caramanchão e a grande touceira de bambu nos fundos. Quando viu a piscina, sentiu um impulso e correu até a cobertura elástica verde para testar sua resistência, com o cão Charlie pulando atrás dela. A cobertura afundou sob seus pés e ela caiu, gritando de tanto rir. John, Brian e eu tivemos de resgatá-la, enquanto a filha de Brian, Veronica — que não vira mamãe desde que era bebê — arregalava os olhos.
— Vovó Wal s é diferente de sua outra avó — eu disse a ela.
— Muito diferente — concordou Veronica.
A filha de John, Jessica, virou-se para mim e disse:
— Mas ela ri como você.
MOSTREI A CASA A MAMÃE e Lori. Eu ainda ia ao escritório na cidade uma vez por semana, mas era ali que John e eu morávamos e trabalhávamos, nosso lar — a primeira casa que eu realmente tivera.
Mamãe e Lori admiraram as largas tábuas corridas, as grandes lareiras e as vigas do teto feitas de robínia, com marcas fundas do machado que as derrubara. O olhar de mamãe pousou em um sofá egípcio que havíamos comprado em um mercado de pulgas. Tinha pernas esculpidas e um espaldar de madeira incrustado de triângulos de madrepérola. Ela fez um gesto com a cabeça em aprovação.
— Toda casa precisa de um móvel de muito mau gosto.
A cozinha estava tomada pelo cheiro do peru assado que John preparara, recheado de linguiça, cogumelos, nozes, maçãs e farinha de rosca condimentada. Ele também fizera cebolas cremosas, arroz selvagem, molho de cranberry e refogado de abóbora. Eu assara três tortas com maçãs de um pomar próximo.
— Tesouro! — gritou Brian.
— Hora do banquete! — eu disse a ele.
Ele olhou para os pratos. Eu sabia o que estava pensando, o que pensava sempre que via uma mesa como aquela. Balançou a cabeça e disse:
— Sabe, não é tão difícil pôr comida na mesa quando decidimos fazer isso.
— Nada de recriminações — disse-lhe Lori.
Depois que nos sentamos para jantar, mamãe nos deu as boas-novas. Ela passara quase quinze anos como ocupante, e a cidade finalmente decidira vender os apartamentos a ela e aos outros ocupantes por um dólar cada. Ela não podia aceitar nosso convite para passar um tempo conosco, porque tinha de voltar para uma reunião do conselho de ocupantes. Acrescentou que mantivera contato com Maureen, que ainda morava na Califórnia, e que nossa irmãzinha, com quem eu não falara desde sua partida de Nova York, estava pensando em voltar para uma visita.
Começamos a falar sobre algumas das grandes aventuras de papai: deixar que eu acariciasse o guepardo, levar-nos para a Caça ao Demônio, dar estrelas de Natal.
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Jeannette Walls
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