O Castelo de Vidro
Mamãe e papai nos contaram
— Não pense nessas coisas — disse-me Lori. — Elas vão enlouquecer você.
Tirei aquilo da cabeça.
MAMÃE E PAPAI NOS CONTARAM que chegaram a Phoenix para descobrir que o golpe de mamãe da roupa no varal não afastara invasores. Nossa casa na rua Três Norte havia sido saqueada. Praticamente tudo fora levado, incluindo, claro, nossas bicicletas. Mamãe e papai haviam alugado um reboque para levar o pouco que restara — mamãe disse que aqueles ladrões idiotas haviam deixado passar coisas boas, como uma calça de montaria dos anos 1930 de vovó Smith que era da melhor qualidade —, mas o motor do Oldsmobile quebrara em Nashvil e, e eles tiveram de abandoná-lo juntamente com o reboque e a calça de montaria de vovó Smith e pegar um ônibus para o resto da viagem até Welch.
Pensei que, agora que mamãe e papai tinham voltado, conseguiriam fazer as pazes com Erma. Mas ela disse que nunca poderia nos perdoar e não nos queria mais em sua casa, mesmo que ficássemos no porão silenciosos como ratos de igreja. Havíamos sido banidos. Foi a palavra que papai usou.
— Vocês agiram errado, e agora fomos todos banidos.
— Isto não é exatamente o Jardim do Éden — disse Lori.
Eu estava mais chateada por causa da bicicleta que por Erma nos banir.
— Por que simplesmente não voltamos a Phoenix? — perguntei a mamãe.
— Já estivemos lá — respondeu ela. — E aqui há todo tipo de oportunidade que nem sequer conhecemos.
Ela e papai foram buscar um lugar novo para morarmos. O aluguel mais barato em Welch era o de um apartamento em cima de um restaurante na rua McDowel que custava setenta e cinco dólares por mês e, portanto, estava fora do nosso orçamento. Ademais, mamãe e papai queriam espaço aberto que pudéssemos chamar de nosso, e decidiram comprar algo. Como não tínhamos dinheiro para entrada nem renda fixa, nossas opções eram muito limitadas, mas em dois dias mamãe e papai nos disseram ter encontrado uma casa que podíamos pagar.
— Não é exatamente um palácio, ficaremos bem unidos — disse mamãe. — E também há o lado rústico.
— Rústico como? — perguntou Lori.
Mamãe fez uma pausa. Eu podia ver que estava pensando como formular a resposta.
— Não tem encanamento interno.
PAPAI AINDA PROCURAVA um carro para substituir o Olds — nosso orçamento não passava da casa dos dois dígitos —, e naquele fim de semana todos caminhamos para dar a primeira olhada no novo lugar. Descemos o vale, passando pelo centro da cidade e contornando uma encosta, passamos pelas pequenas casas de tijolos instaladas depois que as minas foram sindicalizadas. Cruzamos um córrego que alimentava o rio Tug e subimos uma estrada de uma pista mal pavimentada chamada rua Lit le Hobart.
Ela subia em zigue-zague e em um trecho era tão inclinada que era preciso andar na ponta dos pés; quem tentasse caminhar com o calcanhar no chão estenderia a panturrilha até que doesse.
As casas lá em cima eram mais dilapidadas que as de alvenaria mais abaixo no vale. Eram feitas de madeira, com varandas caídas, telhados afundados, calhas enferrujadas e papel de alcatrão descascado ou placas de betume que lenta e continuamente se soltavam da parede. Em quase todos os quintais havia um ou dois vira-latas acorrentados a uma árvore ou um poste de varal, e eles latiam furiosamente quando passávamos. Como a maioria das casas em Welch, aquelas eram aquecidas a carvão. As famílias mais ricas tinham depósitos de carvão; as mais pobres deixavam seu carvão empilhado na frente. As varandas eram tão mobiliadas quanto o interior da maioria das casas, com geladeiras enferrujadas, mesas de carteado
desmontáveis, tapeçarias, sofás ou bancos de carro para se sentar na varanda e talvez um guarda-roupa detonado com um buraco aberto na lateral para que o gato tivesse um lugar confortável onde dormir.
Seguimos a estrada quase até o fim, e papai apontou para nossa nova casa.
— Bem, crianças, bem-vindas ao número 93 da rua Lit le Hobart! — disse mamãe. — Bem-vindos ao lar, doce lar.
Todos olhamos para ela. A casa era uma coisa mínima encarapitada no alto da estrada, em uma encosta tão íngreme que apenas os fundos da casa tocavam o solo. A frente, incluindo uma varanda torta, projetava-se precariamente no ar, sustentada por altos pilares finos de blocos de cimento. Havia sido pintada de branco muito tempo antes, mas a tinta, onde não descascara totalmente, tornara-se um cinza desalentador.
— Foi bom termos criado vocês como durões — disse papai. — Pois esta não é uma casa para fracos.Papai nos guiou na subida dos degraus baixos, feitos de pedras coladas com cimento. Por causa da acomodação, da erosão e da construção descuidada, eles se inclinavam perigosamente para a rua. No ponto em que os degraus de pedra terminavam, uma escada instável — mais parecida com uma escada de pintor que uma escadaria — levava à varanda da frente.
Dentro, havia três aposentos, cada um de aproximadamente três por três, voltados para a varanda da frente. A casa não tinha banheiro, mas abaixo, atrás de um dos pilares de blocos de cimento, havia um aposento do tamanho de um armário com um vaso no chão de cimento. O vaso não era ligado a nenhum esgoto ou fossa séptica. Simplesmente ficava sobre um buraco de menos de dois metros de profundidade.
Não havia água corrente do lado de dentro. Havia uma bica alguns centímetros acima do chão perto do vaso, era possível pegar um balde e levar água para cima. Embora a casa tivesse instalações elétricas, papai confessou que no momento não tínhamos como ligar a energia.
Em compensação, contou-nos, a casa custara apenas mil dólares, e o dono dispensara entrada.
Supostamente pagaríamos a ele cinquenta dólares por mês. Se fizéssemos os pagamentos em dia, seríamos donos do lugar em menos de dois anos.
— Difícil acreditar que um dia tudo isso será nosso — disse Lori. Ela estava desenvolvendo o que mamãe chamava de tendência ao sarcasmo.
— Considere-se abençoada — retrucou mamãe. — Há pessoas na Etiópia que matariam por um lugar como este.
Ela destacou que a casa tinha características atraentes. Na sala, por exemplo, havia um fogareiro a carvão redondo de ferro fundido para aquecer e cozinhar. Era grande e bonito, com pesados pés de urso, e ela tinha certeza de que seria valioso se levado a algum lugar onde as pessoas apreciassem antiguidades.
Como a casa não tinha chaminé, o cano saía por uma janela dos fundos. Alguém substituíra o vidro no alto da janela por compensado e enrolara papel-alumínio na abertura para impedir que a fumaça de carvão entrasse na sala. O papel-alumínio não cumprira bem seu papel, e o teto era preto de fuligem. Alguém — provavelmente o mesmo alguém — cometera o erro de tentar limpar o teto em alguns pontos, porém acabara apenas raspando e reduzindo a fuligem, criando pontos esbranquiçados que faziam que se percebesse quão negro estava o restante do teto.
— A casa não é grande coisa, mas não moraremos muito tempo nela — desculpou-se papai.
A coisa importante, a razão pela qual ele e mamãe haviam decidido adquirir aquela propriedade específica, era que tinha muita terra na qual construir nossa nova casa. Ele planejava começar a trabalhar imediatamente. Pretendia seguir as plantas do Castelo de Vidro, porém tinha de fazer muitas modificações
e aumentar o tamanho das células solares, considerando que, como estávamos no lado norte da montanha e cercados por colinas dos dois lados, dificilmente receberíamos algum sol.
NÓS NOS MUDAMOS naquela tarde. Não que houvesse muito para mudar. Papai pegou uma picape emprestada na loja onde tio Stanley trabalhava e levou um sofá-cama que um amigo de vovô estava jogando fora. Papai juntou duas mesas e cadeiras e construiu armários improvisados — que eram até legais —, pendurando canos do teto com arame.
Mamãe e papai ocuparam o aposento com o fogareiro, que se tornou uma mistura de sala de estar, quarto principal, ateliê e estúdio de escritora. Ali colocamos o sofá-cama, que, assim que foi aberto, nunca mais voltou a ser um sofá. Papai construiu prateleiras ao longo das paredes para guardar o material artístico de mamãe. Ela instalou seu cavalete sob o cano do fogareiro, bem ao lado da janela dos fundos, pois assim receberia luz natural — o que de certa maneira era verdade. Colocou suas máquinas de escrever sob outra janela, com prateleiras para originais e obras em andamento, e imediatamente começou a prender na parede, com tachinhas, fichas com ideias de contos.
Nós, crianças, dormíamos no quarto do meio. Inicialmente, dividimos uma grande cama que havia sido deixada pelo dono anterior, mas papai decidiu que estávamos ficando um pouco velhas para isso.
Estávamos grandes demais também para dormir em caixas de papelão, e de todo modo não havia espaço suficiente para elas no chão, então ajudamos papai a construir dois beliches. Fizemos a estrutura com madeiras estreitas; depois, abrimos furos nas laterais e trançamos cordas. Como colchões, colocamos papelão sobre as cordas. Quando terminamos nossos beliches, que pareciam simples demais, pintamos as laterais com spray e enfeitamos com floreios vermelhos e pretos. Papai chegou em casa com uma cômoda descartada com quatro gavetas, uma para cada um. Também construiu para cada um de nós uma caixa com portas deslizantes para objetos pessoais. Nós as pregamos na parede acima de nossas camas, e era lá que eu guardava meu geodo.
A cozinha, o terceiro aposento da rua Lit le Hobart, 93, era uma categoria muito peculiar. Tinha um fogão elétrico, mas as instalações não eram exatamente de primeira, pois as tomadas eram defeituosas, os fios, desencapados, e os interruptores zumbiam.
— Helen Kel er deve ter feito a instalação elétrica desta maldita casa — declarou papai. Ele decidiu que daria trabalho demais tentar consertá-la.
Chamávamos a cozinha de sala da energia à solta, porque nas raras oportunidades em que pagávamos a conta e tínhamos eletricidade levávamos um choque terrível se tocássemos qualquer superfície molhada ou metálica. Na primeira vez, o choque me jogou no chão, e me deixou sem fôlego e trêmula. Aprendemos rapidamente que, sempre que nos aventurávamos na cozinha, era necessário enrolar as mãos nas meias ou nos trapos mais secos que encontrássemos. Se levássemos um choque, anunciávamos a todos os outros, como que fazendo um relatório climático. Dizíamos: “Grande choque ao tocar o fogão hoje. Use trapos extras”.
Um canto do teto da cozinha vazava como uma peneira. Sempre que chovia, o teto de placas de gesso ficava encharcado e pesado, com água correndo sem parar do centro da depressão. Em uma tempestade particularmente forte naquela primavera, o teto inchou tanto que explodiu, e água e gesso despencaram.
Papai nunca consertou aquilo. Nós, crianças, tentamos remendar o teto sozinhas com papel alcatroado, papel-alumínio, madeira e cola, mas não importava o que fizéssemos, a água encontrava passagem.
Acabamos desistindo. Sempre que chovia do lado de fora também chovia na cozinha.
NO COMEÇO, MAMÃE tentou fazer a vida no 93 da rua Lit le Hobart parecer uma aventura. A mulher que morara ali antes de nós deixara para trás uma antiga máquina de costura a pedal. Mamãe disse que vinha a calhar, pois poderíamos fazer nossas próprias roupas, mesmo com a eletricidade cortada. Alegou também não precisar de modelos, bastando ser criativa e ter talento para improvisação. Pouco depois da mudança, mamãe, Lori e eu tiramos nossas medidas e tentamos fazer nossos próprios vestidos.
Demorou um tempão, e eles ficaram largos e caídos, com mangas de tamanhos diferentes e aberturas para os braços no meio das costas. Não consegui passar o meu pela cabeça até mamãe cortar alguns pontos.
— Está fantástico! — elogiou.
Contei a ela, porém, que eu parecia vestir uma grande fronha com trombas de elefante se projetando das laterais. Lori se recusou a usar o dela na rua, ou mesmo em casa, e mamãe teve de concordar que costurar não era a melhor utilização de nossa energia criativa — ou de nosso dinheiro. O tecido mais barato que conseguimos encontrar custava oitenta centavos o metro, e eram necessários mais de dois metros para um vestido. Fazia mais sentido comprar roupas de brechó, e elas tinham as mangas no lugar certo.Mamãe também tentou deixar a casa alegre. Decorou as paredes da sala com suas pinturas a óleo, e logo cada centímetro quadrado estava coberto, a não ser o espaço acima da máquina de escrever reservado para suas fichas. Tínhamos vívidos ocasos no deserto, cavalos em disparada, gatos dormindo, montanhas cobertas de neve, tigelas de frutas, flores se abrindo e retratos de nós, crianças.