O Castelo de Vidro

Jeannette Walls · Capítulo 70 de 71

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O Castelo de Vidro

Capítulo V

UM ANO DEPOIS da morte de papai, eu deixei Eric. Era um bom homem, mas não o certo para mim.

E Park Avenue não era meu lugar.

Achei um pequeno apartamento em West Side. Não tinha porteiro nem lareira, mas grandes janelas que banhavam os cômodos em luz, piso de tacos e um pequeno hal , exatamente como aquele primeiro apartamento que Lori e eu havíamos encontrado no Bronx. Parecia certo.

Passei a patinar com menor frequência, e quando meus patins foram roubados, não comprei outros.

Minha compulsão de estar sempre em movimento começou a desaparecer. Mas eu gostava de dar longas caminhadas à noite. Com frequência, andava rumo a oeste até o rio. As luzes da cidade obscureciam as estrelas, porém em noites claras eu podia ver Vênus no horizonte, acima da água escura, brilhando com firmeza.

V

Ação de Graças

EU ESTAVA EM PÉ na plataforma com meu segundo marido, John. Um apito soou à distância, luzes vermelhas piscaram, e um sino tocou quando as cancelas baixaram sobre a estrada. O apito soou novamente, e o trem saiu da curva entre as árvores e roncou na direção da estação, com seus enormes faróis gêmeos, e pálidos, na brilhante tarde de novembro.

O trem parou. Os motores elétricos zumbiram e vibraram, e depois de um longo intervalo as portas se abriram. Passageiros saltaram levando jornais dobrados, bolsas de lona de fim de semana e casacos de cores brilhantes. Em meio à multidão, vi mamãe e Lori saltando do final do trem e acenei.

Haviam se passado cinco anos desde a morte de papai. Eu só vira mamãe esporadicamente desde então, e ela nunca conhecera John ou fora à velha casa de fazenda no interior que havíamos comprado um ano antes. Fora ideia de John convidá-la, e a Lori e Brian, para o dia de Ação de Graças, a primeira reunião da família Wal s desde o funeral de papai.

Mamãe deu um grande sorriso e começou a se apressar em nossa direção. Em vez de um sobretudo, ela vestia o que pareciam ser quatro suéteres e um xale, calça de veludo cotelê e tênis velhos. Carregava bolsas de compras recheadas nas duas mãos. Lori, atrás dela, vestia uma capa preta e um chapéu de feltro preto. Eram uma dupla daquelas.

Mamãe me abraçou. Seus cabelos compridos estavam quase totalmente grisalhos, mas a face era rosada, e os olhos brilhavam como sempre. Depois, Lori me abraçou, e eu apresentei John.

— Desculpe por meus trajes, mas planejo trocar meus calçados confortáveis por sapatos sociais para o jantar — disse mamãe. Ela enfiou a mão em uma das sacolas de compras e tirou um par de mocassins baratos detonados.

A ESTRADA SINUOSA até a casa passava sob pontes de pedra, florestas e aldeias e lagos, onde cisnes flutuavam em água espelhada. A maioria das folhas havia caído, e rajadas de vento criavam redemoinhos delas ao longo do acostamento. Através dos grupos de árvores nuas era possível ver casas que ficavam invisíveis no verão.

Enquanto dirigia, John contava a mamãe e Lori sobre a região, as fazendas de patos e de flores, e a origem indígena do nome da cidade. Sentada ao lado dele, eu estudava seu perfil e não conseguia deixar de sorrir. John escrevia livros e artigos para revistas. Como eu, mudara-se muito na infância, mas a mãe havia sido criada em uma aldeia apalache no Tennessee, a cerca de cento e sessenta quilômetros de Welch, e podia-se dizer que nossas famílias vinham da mesma área da floresta. Eu nunca conhecera um homem com quem quisesse passar o tempo. Eu o amava por várias razões: ele cozinhava sem receitas, escrevia poemas sem sentido para as sobrinhas, sua grande família calorosa me aceitara como um deles. E quando lhe mostrei minha cicatriz pela primeira vez, ele disse que era interessante. Usou a expressão “textura”.

Disse que “lisa” era tedioso, mas “com textura” era interessante, e a cicatriz significava que eu era mais forte que aquilo que havia tentado me ferir.

Paramos na entrada. Jessica, a filha de quinze anos do primeiro casamento de John, saiu da casa, junto com Brian e sua filha de oito anos, Veronica, e seu bulmastife, Charlie. Brian também não vira muito mamãe desde o funeral de papai. Ele a abraçou e começou imediatamente a debochar dela por causa dos presentes catados nas caçambas que levara para todos nas sacolas de compras: prataria oxidada, velhos livros e revistas, algumas peças de bela porcelana dos anos 1920 com poucas delas lascadas.

Brian se tornara sargento-detetive condecorado, supervisionando uma unidade especial de investigação de crime organizado. Ele e a esposa haviam se separado mais ou menos na mesma época em

que me separei de Eric, mas ele se consolara comprando e reformando uma casa arrasada no Brooklyn.

Providenciara novas instalações elétricas e hidráulicas, uma nova fornalha, suportes reforçados para o piso e uma nova varanda, tudo sozinho. Era a segunda vez que ele pegara um lixo e o deixara perfeito. E