O Castelo de Vidro
Brigávamos muito em Welch
Enquanto ficara sentada lá conversando com Ginnie Sue até esqueci que era piranha. Uma coisa sobre ser piranha: isso coloca um frango na mesa.
BRIGÁVAMOS MUITO EM WELCH. Não apenas para afastar nossos inimigos, mas para conseguir nosso espaço. Talvez fosse porque havia muito pouco a fazer em Welch; talvez porque a vida ali fosse dura e deixasse as pessoas duras; talvez por causa de todas as batalhas sangrentas para sindicalizar as minas; talvez porque mineração era perigoso, e um trabalho apertado e sujo, e deixasse todos os mineiros de mau humor, e quando eles chegavam em casa, descontavam nas esposas, que descontavam nos filhos, que descontavam em outros garotos. Seja qual for a razão, parecia que todo mundo em Welch —
homens, mulheres, meninos, meninas — gostava de brigar.
Havia brigas de rua, facadas em bares, espancamentos em estacionamentos, tapas em esposas e surras em crianças. Às vezes, era só uma questão de alguém dar um soco, e tudo terminava antes que se soubesse quem havia começado. Outras vezes, era mais como um combate em doze assaltos, com espectadores animando os adversários suados, que sangravam. E havia os ressentimentos e as rixas que duravam anos, dois irmãos espancando um cara porque nos anos 1950 o pai deste espancara o deles, uma mulher atirando na melhor amiga por dormir com seu marido e o irmão da melhor amiga esfaqueando o marido.
Ao andar pela rua McDowel , metade das pessoas pelas quais se passava parecia estar com algum ferimento sofrido em combate local. Havia olhos roxos, lábios partidos, malares inchados, braços esfolados, nós dos dedos ralados e lóbulos mordidos. Havíamos morado em alguns lugares bem cheios de brigas no deserto, mas mamãe disse que Welch era a cidade mais brigona que já vira.
Brian, Lori, Maureen e eu nos metíamos em mais brigas que a maioria dos garotos. Dinitia Hewit e suas amigas foram somente as primeiras em uma longa sequência de pequenas gangues que brigaram com um ou mais de nós. Os outros garotos queriam brigar conosco porque tínhamos cabelos ruivos, porque papai era um bêbado, porque vestíamos farrapos e não tomávamos tantos banhos quanto deveríamos, porque morávamos em uma casa decadente parcialmente pintada de amarelo, que tinha um buraco cheio de lixo, porque eles iam à nossa casa à noite e viam que não podíamos sequer ter eletricidade.
Mas sempre reagíamos, normalmente como equipe. Nossa luta mais espetacular, e nossa vitória tática mais audaciosa — a Batalha da rua Lit le Hobart —, se deu contra Ernie Goad e seus amigos, quando eu tinha dez anos e Brian, nove. Ernie Goad era um garoto de nariz achatado e pescoço grosso, com olhos pequenos praticamente na lateral da cabeça, como uma baleia. Ele agia como se sua missão fosse expulsar a família Wal s da cidade. Começou, certo dia, quando eu estava brincando com outras crianças no tanque estacionado junto ao arsenal. Ernie Goad apareceu e começou a jogar pedras em mim e gritar que os Wal s tinham de sair de Welch porque fedíamos demais.
Joguei duas pedras de volta e mandei que me deixasse em paz.
— Me obrigue — provocou Ernie.
— Eu não faço lixo! — gritei. — Eu o queimo.
Normalmente, essa era uma resposta infalível, compensando em desprezo o que carecia em originalidade, mas dessa vez saiu pela culatra.
— Vocês Wal s não queimam lixo! — gritou Ernie de volta. — Vocês o jogam em um buraco ao lado de casa! Vocês vivem nele!
Tentei dar uma resposta à resposta dele, mas minha cabeça travou, porque o que Ernie dissera era verdade: nós realmente vivíamos no lixo.
Ernie colou o rosto no meu.
— Lixo! Vocês vivem no lixo porque são lixo!
Eu o empurrei com força, depois me virei para as outras crianças, esperando apoio, mas estavam se afastando e baixando os olhos, como se envergonhadas de ser flagradas brincando com uma garota que
tinha um depósito de lixo junto a sua casa.
NAQUELE SÁBADO, Brian e eu líamos no sofá-cama quando um dos vidros da janela se partiu e uma pedra caiu no chão. Corremos para a porta. Ernie e três de seus amigos estavam pedalando de um lado para o outro da rua Lit le Hobart, gritando loucamente:
— Lixo! Lixo! Vocês todos são um monte de lixo!
Brian saiu na varanda. Um dos garotos jogou outra pedra, que acertou Brian na cabeça. Ele cambaleou para trás, depois desceu correndo os degraus, mas Ernie e seus amigos saíram pedalando, berrando. Brian subiu a escada, sangue escorrendo pela bochecha, sujando a camiseta, e um galo surgindo acima da sobrancelha. A gangue de Ernie voltou alguns minutos depois, jogando pedras e gritando que tinham visto o chiqueiro no qual os garotos Wal s moravam, e iam contar à escola toda que era ainda pior do que todos diziam.
Dessa vez, Brian e eu os perseguimos. Embora fossem em maior número que nós, estavam gostando demais do jogo de provocação para permanecer ali. Desceram até a primeira curva e sumiram.
— Eles vão voltar — disse Brian.
— O que vamos fazer? — perguntei.
Brian sentou-se, pensando, depois me disse que tinha um plano. Ele encontrou corda embaixo da casa e me levou a uma clareira na colina acima da rua Lit le Hobart. Algumas semanas antes, Brian e eu tínhamos arrastado um velho colchão para lá, porque estávamos pensando em acampar. Brian explicou como poderíamos fazer uma catapulta, como as medievais sobre as quais havíamos lido, empilhando pedras no colchão e amarrando-o com cordas passadas sobre galhos de árvore. Rapidamente, montamos o esquema e o testamos uma vez, puxando as cordas e contando até três. Funcionou — uma pequena avalanche de pedras caiu na rua abaixo. Estávamos convencidos de que era suficiente para matar Ernie Goad e sua gangue, que era o que pretendíamos fazer: matá-los e confiscar as bicicletas, deixando os corpos na rua como um aviso aos outros.
Empilhamos as pedras novamente no colchão, refizemos a catapulta e esperamos. Depois de dois minutos, Ernie e sua gangue reapareceram na curva. Cada um deles pilotava com uma mão e levava uma pedra do tamanho de um ovo na outra. Iam em fila indiana, como um grupo de guerra de índios pawnee, a pequena distância uns dos outros. Não conseguiríamos pegar todos de uma só vez, e miramos em Ernie, que seguia à frente do bando.
Quando ele chegou ao alcance, Brian deu o sinal e puxamos as cordas. O colchão disparou para a frente, e nosso arsenal de pedras voou pelo ar. Eu as ouvi bater no corpo de Ernie e cair na rua. Ele gritou e xingou quando sua bicicleta derrapou. O garoto atrás de Ernie bateu nele, e ambos caíram. Os outros dois viraram e fugiram. Brian e eu começamos a jogar as pedras que tínhamos à mão. Como estavam na descida da colina, tínhamos uma boa linha de tiro e conseguimos acertar várias vezes, as pedras quicando nas bicicletas, arrancando tinta e amassando os para-lamas.
Brian gritou:
— Atacar!
E descemos a encosta em disparada. Ernie e seu amigo pularam de volta nas bicicletas e saíram pedalando furiosamente antes que os alcançássemos. Quando desapareceram na curva, Brian e eu fizemos uma dança da vitória na rua tomada por pedras, dando nossos próprios gritos de guerra.