O Castelo de Vidro
No final do inverno,
— Erma não larga sua infelicidade. É só o que ela conhece — disse mamãe, acrescentando que não se deve odiar ninguém, nem mesmo seus piores inimigos. — Todos têm algo de bom. Você precisa encontrar a qualidade redentora e amar a pessoa por isso.
— É mesmo? — retruquei. — E quanto a Hitler? Qual era a qualidade redentora dele?
— Hitler adorava cachorros — disse mamãe sem hesitar.
NO FINAL DO INVERNO, mamãe e papai decidiram voltar a Phoenix com o Oldsmobile. Disseram que iam pegar nossas bicicletas e todas as outras coisas que tivemos de deixar para trás, cópias de nossos históricos escolares e ver se conseguiam resgatar o arco e flecha de mamãe no canal de irrigação ao longo da estrada para o Grand Canyon. Nós, crianças, permaneceríamos em Welch. Como Lori era a mais velha, mamãe e papai disseram que estava no comando. Todos, claro, obedeceríamos a Erma.
Eles partiram certa manhã durante um degelo. Eu podia dizer pela cor viva nas faces de mamãe que estava excitada com a perspectiva de uma aventura. Papai claramente ansiava por sair de Welch. Ele não conseguira um emprego, e dependíamos de Erma para tudo. Lori havia sugerido que papai trabalhasse nas minas, mas ele disse que as minas eram controladas pelos sindicatos, e os sindicatos eram controlados pela máfia, e a máfia o vetara por investigar a corrupção no sindicato dos eletricistas em Phoenix. Outra razão para ele retornar a Phoenix era reunir sua pesquisa sobre corrupção, pois a única maneira de conseguir um emprego nas minas era ajudar a reformar a União dos Mineiros da América.
Eu queria que todos fôssemos juntos. Queria voltar a Phoenix, sentar embaixo das laranjeiras atrás de nossa casa de adobe, ir de bicicleta à biblioteca, comer bananas de graça em uma escola onde os professores me achavam inteligente. Queria sentir o sol do deserto no meu rosto, respirar o ar seco do deserto e escalar as íngremes montanhas de pedra enquanto papai nos guiava em uma das longas caminhadas que ele chamava de expedições de pesquisa geológica.
Perguntei se podíamos ir todos, mas papai disse que ele e mamãe fariam uma viagem rápida, apenas a negócios, e só iríamos atrapalhar. Ademais, não podia nos tirar da escola no meio do ano. Eu destaquei que isso nunca o incomodara antes. Ele disse que Welch não era um daqueles outros lugares onde havíamos morado. Havia regras que tinham de ser seguidas, e as pessoas não gostavam que elas fossem violadas.
— Acha que vão voltar? — perguntou Brian enquanto mamãe e papai partiam.
— Claro — respondi, embora eu mesma tivesse minhas dúvidas. Naqueles dias, parecíamos ser mais inconvenientes do que antes. Lori já era adolescente, e em dois anos Brian e eu também o seríamos.
Eles não podiam nos jogar na caçamba de um caminhão de mudanças ou nos colocar em caixas de papelão à noite.
Brian e eu começamos a correr atrás do Oldsmobile. Mamãe se virou uma vez e acenou, e papai pôs a mão para fora da janela. Nós os seguimos pela rua Court, onde ganharam velocidade e viraram na esquina. Eu tinha de acreditar que voltariam, dizia a mim mesma. Se não acreditasse, eles não voltariam.
Poderiam nos deixar para sempre.
DEPOIS QUE MAMÃE e papai partiram, Erma se tornou ainda mais desagradável. Se não gostasse da expressão em nosso rosto, nos batia na cabeça com uma concha. Certa vez, pegou uma fotografia emoldurada do próprio pai e nos disse ter sido a única pessoa que a amara. Ficou falando sem parar sobre quanto sofrera quando órfã nas mãos de tias e tios que não a tinham tratado com metade da gentileza que nos dispensava.
Cerca de uma semana depois de mamãe e papai terem partido, estávamos sentados na sala de estar de Erma, assistindo à TV. Stanley dormia no saguão. Erma, que estivera bebendo desde antes do café da manhã, disse a Brian que sua calça precisava ser costurada. Ele começou a tirá-la, mas Erma disse que não o queria correndo pela casa em roupas íntimas ou com uma toalha amarrada na cintura, fazendo parecer que usava um maldito vestido. Seria mais fácil para ela costurar a calça com ele ainda vestido. Ordenou
que a seguisse até o quarto de vovô, onde mantinha seu cesto de costura.
Eles haviam saído havia um ou dois minutos quando ouvi Brian protestando fracamente. Fui até o quarto de vovô e vi Erma ajoelhada no chão diante de Brian, agarrando a entreperna da calça, apertando e esfregando enquanto murmurava a si mesma que Brian ficasse imóvel, maldito seja. Brian, as faces cobertas de lágrimas, mantinha as mãos protetoramente entre as pernas.
— Erma, deixe-o em paz! — gritei.
Erma, ainda de joelhos, virou-se e olhou para mim furiosa.
— O que foi, sua piranhazinha? — reagiu.
Lori ouviu o tumulto e veio correndo. Eu disse a Lori que Erma estava tocando Brian de maneira que não parecia certa. Erma falou que estava somente consertando a costura interna da calça de Brian, e que não tinha de se defender das acusações de uma piranhazinha mentirosa.
— Eu sei o que vi. Ela é uma pervertida! — falei.
Erma esticou a mão para me estapear, mas Lori segurou a mão dela.
— Vamos todos nos acalmar — disse Lori com a mesma voz que usava quando mamãe e papai se exaltavam em uma discussão. — Todos. Acalmem-se.
Erma arrancou a mão do aperto de Lori e bateu nela com tanta força que os óculos de Lori saíram voando pelo quarto. Lori, que fizera treze anos, estapeou-a de volta. Erma acertou Lori de novo, e dessa vez Lori socou o maxilar de Erma. As duas se lançaram uma sobre a outra, brigando, chutando, puxando cabelos, atracadas, com Brian e eu estimulando Lori até acordarmos tio Stanley, que entrou no quarto cambaleando e as separou.
Depois disso, Erma nos relegou ao porão. Uma porta levava diretamente para fora, então nunca subíamos. Não podíamos sequer usar o banheiro de Erma, significando que tínhamos de esperar chegar à escola ou sair depois de escurecer. Tio Stanley, às vezes, nos levava favas que havia fervido, mas tinha medo de ficar conversando, de Erma achar que ele tinha escolhido o nosso lado e ficar furiosa com ele também.
Na semana seguinte, caiu um temporal. A temperatura despencou, e trinta centímetros de neve cobriram Welch. Erma não nos deixou usar carvão — disse que não sabíamos operar o forno e iríamos queimar a casa —, e estava tão frio no porão que Lori, Brian, Maureen e eu ficamos felizes de dividir uma cama. Quando chegávamos em casa da escola, nos enfiávamos sob as cobertas ainda vestidos e fazíamos os deveres ali mesmo.
Estávamos na cama na noite em que mamãe e papai voltaram. Não ouvimos o som do carro chegando. Só ouvimos a porta da frente se abrindo lá em cima, depois a voz de mamãe e papai, e Erma começando a longa narrativa de suas queixas sobre nós. A isso seguiu-se o som de papai descendo a escada para o porão com passos pesados, furioso com todos nós, eu por responder a Erma e fazer acusações loucas, Lori ainda mais por ousar bater em sua própria avó, e Brian por ser um maricas e começar a coisa toda. Achei que papai ficaria do nosso lado quando soubesse o que havia acontecido e tentei explicar.
— Não me interessa o que aconteceu! — berrou.
— Mas estávamos só nos protegendo — falei.
— Brian é um homem, pode aguentar. Não quero ouvir mais nenhuma palavra sobre isso.
Entenderam?
Ele balançava a cabeça furiosamente, quase como se achasse que podia barrar o som da minha voz.
Nem sequer olhou para mim.
Depois que papai havia subido para tomar a bebida de Erma, e nós estávamos na cama, Brian mordeu meu dedo do pé tentando me fazer rir, porém o chutei para longe. Ficamos deitados na escuridão silenciosa.
— Papai estava realmente esquisito — eu disse, porque alguém tinha de dizer.
— Você também seria esquisita se Erma fosse sua mãe — ralhou Lori.
— Acha que ela um dia fez a papai algo como o que fez a Brian? — perguntei.
Ninguém disse nada.
Era uma coisa ofensiva e repulsiva em que pensar, mas explicaria muito. Por que papai saíra de casa assim que pudera. Por que bebia tanto e ficava com tanta raiva. Por que nunca quisera visitar Welch quando éramos mais novos. Por que inicialmente se recusara a ir à Virgínia Ocidental conosco e apenas no último instante superara a relutância e entrara no carro. Por que sacudia tanto a cabeça, quase como se quisesse tapar os ouvidos com as mãos, quando tentei explicar o que Erma fizera a Brian.