O Castelo de Vidro

Jeannette Walls · Capítulo 24 de 71

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O Castelo de Vidro

Quando estacionamos

QUANDO ESTACIONAMOS na frente da casa na rua Três Norte, não pude acreditar que íamos morar ali. Era praticamente uma mansão, tão grande que vovó Smith tivera duas famílias morando ali, pagando aluguel. O lugar todo era só para nós. Mamãe disse que havia sido construída quase cem anos antes como um forte. As paredes externas, cobertas de estuque branco, tinham quase um metro de espessura.

— Certamente detinham qualquer flecha indígena — eu disse a Brian.

Nós, crianças, corremos pela casa e contamos catorze aposentos, incluindo cozinha e banheiros.

Estavam cheios das coisas que mamãe herdara de vovó Smith: uma mesa de jantar espanhola escura com oito cadeiras combinando, um piano de armário esculpido à mão, aparadores com antigos conjuntos de servir de prata e cristaleiras com a porcelana de vovó, que mamãe demonstrou ser da melhor qualidade erguendo um prato à luz e mostrando a clara silhueta de sua mão através dele.

O jardim da frente tinha uma palmeira, e o quintal tinha laranjeiras que davam laranjas de verdade.

Nunca havíamos morado em uma casa com árvores. Eu gostava especialmente da palmeira, que me fazia pensar que havia chegado a uma espécie de oásis. Também havia arbustos de malva e rododendro com flores rosas e brancas. Atrás do quintal havia um barracão tão grande como algumas das casas em que havíamos morado, e junto a ele espaço para dois carros. Decididamente, estávamos subindo na vida.

AS PESSOAS QUE MORAVAM na rua Três Norte eram em sua maioria mexicanos e índios que haviam mudado para o bairro depois que os brancos foram para os subúrbios e dividiram as grandes casas velhas em apartamentos. Parecia haver duas dúzias de pessoas em cada casa, homens bebendo cerveja dentro de sacos de papel, jovens mães embalando bebês, velhas pegando sol nas varandas gastas e tombadas, além de hordas de crianças.

Todas as crianças perto da rua Três Norte frequentavam a escola católica da igreja St. Mary, a cinco quarteirões. Mas mamãe disse que freiras eram desmancha-prazeres que acabavam com toda a diversão da religião. Queria que estudássemos em uma escola pública chamada Emerson. Embora morássemos fora da área, mamãe implorou e bajulou o diretor até ele permitir nossa matrícula.

Não estávamos no roteiro do ônibus, e era uma bela caminhada até a escola, porém nenhum de nós se incomodava em andar. Emerson ficava em um bairro elegante com ruas cheias de eucaliptos, e o prédio da escola parecia uma fazenda espanhola, com telhado de terracota vermelho. Era cercado por palmeiras e bananeiras, e quando as frutas amadureciam, os alunos recebiam bananas de graça no almoço. O playground da Emerson era coberto de grama verde viçosa regada por um sistema automático e tinha mais equipamento do que eu jamais vira: gangorras, balanços, um carrossel, um trepa-trepa, bola ao poste e uma pista de corrida.

A srta. Shaw, professora da terceira série em que fui matriculada, tinha cabelos grisalhos, óculos de aro gatinho e uma boca rígida. Quando lhe disse que havia lido todos os livros de Laura Ingal s Wilder, ela ergueu as sobrancelhas ceticamente, mas depois que li em voz alta um trecho de um deles, ela me transferiu para um grupo de leitura para crianças superdotadas.

Os professores de Lori e Brian também os colocaram em grupos de leitura especiais. Brian odiou, porque os outros garotos eram mais velhos e ele era o mais baixo da turma, mas Lori e eu ficamos secretamente excitadas por sermos chamadas de especiais. Em vez de revelar que nos sentíamos assim, amenizamos o fato. Quando contamos a mamãe e papai sobre nossos grupos de leitura, fizemos uma pausa antes da expressão “superdotados”, cruzando as mãos sob o queixo, tremulando os cílios e fingindo expressões angelicais. — Não debochem disso — disse papai. — Claro que vocês são especiais. Eu não digo isso sempre?

Brian olhou de esguelha para papai.

— Se somos tão especiais — disse ele lentamente —, por que o senhor não. .

As palavras morreram.

— O quê? — perguntou papai. — O quê?

Brian balançou a cabeça.

— Nada — disse.

EMERSON TINHA SUA própria enfermeira, que fez exames de ouvido e olhos em nós três, nossos primeiros na vida. Passei com louvor nos exames — “olhos de águia e ouvidos de elefante”, disse a enfermeira —, porém Lori sofreu tentando ler as letras. A enfermeira a classificou como muito míope e mandou um bilhete a mamãe dizendo que precisava de óculos.

— De jeito nenhum — disse mamãe. Ela não aprovava óculos. Mamãe acreditava que se tínhamos olhos fracos, eles precisavam de exercício para ficar fortes. Em seu modo de ver, óculos eram como muletas. Impediam que pessoas com olhos fracos aprendessem a ver o mundo à sua maneira. Contou que as pessoas haviam passado anos tentando fazer com que usasse óculos, e ela se recusara. Mas a enfermeira enviou outro bilhete dizendo que Lori não poderia frequentar a Emerson a não ser que usasse óculos e a escola pagaria por eles, então mamãe se rendeu.

Quando os óculos estavam prontos, fomos todos ao optometrista. As lentes eram tão grossas que deixavam os olhos de Lori grandes e arregalados, como olhos de peixe. Ela não parava de virar a cabeça, para cima e para baixo.

— Qual é o problema? — perguntei. Em vez de responder, Lori correu para fora. Eu a segui.

Estava em pé no estacionamento, olhando assombrada para árvores, casas e prédios de escritórios atrás delas.— Está vendo aquela árvore lá? — perguntou, apontando para um plátano a cerca de trinta metros.

Eu anuí.

— Eu consigo ver não só aquela árvore, consigo ver as folhas isoladas nela — disse, olhando-me triunfante. — Você as vê?

Assenti.

Ela não parecia acreditar em mim.

— As folhas isoladas? Quero dizer, não só os galhos, mas cada folhinha?

Assenti novamente. Lori olhou para mim e caiu em lágrimas.

A caminho de casa, ela continuava a olhar pela primeira vez para todas aquelas coisas que quase todo mundo havia parado de notar porque via todos os dias. Leu em voz alta placas de rua e outdoors. Apontou para estorninhos pousados nos fios telefônicos. Entramos em um banco, e ela olhou para o teto abobadado e descreveu os padrões octogonais. Em casa, Lori insistiu que eu experimentasse os óculos.

Eles deixariam minha visão tão desfocada quanto corrigiam a dela, disse, e eu seria capaz de ver as coisas do modo que ela sempre vira. Coloquei os óculos, e o mundo se dissolveu em confusas formas borradas.

Dei alguns passos e bati com a canela na mesinha, e me dei conta de por que Lori não gostava tanto de explorar quanto Brian e eu. Não conseguia enxergar.

Lori quis que mamãe também experimentasse os óculos. Mamãe os colocou e, piscando, olhou ao redor da sala. Estudou uma de suas pinturas em silêncio, depois devolveu os óculos a Lori.

— Viu melhor? — perguntei.

— Eu não diria melhor — respondeu mamãe. — Diria diferente.

— Talvez devesse mandar fazer um par, mamãe.

— Gosto do mundo exatamente como o vejo — declarou.

Lori, no entanto, adorou ver o mundo claramente. Começou a desenhar e pintar compulsivamente todas as coisas maravilhosas que estava descobrindo, como o jeito de cada telha curva no telhado de Emerson lançar sua própria sombra curva sobre a cerâmica abaixo e o modo como o sol se pondo pintava a parte de baixo das nuvens de rosa, deixando a parte de cima roxa.

Pouco tempo depois de conseguir seus óculos, Lori decidiu que queria ser artista, como mamãe.

ASSIM QUE NOS INSTALAMOS na casa, mamãe se lançou em sua carreira artística. Ergueu no jardim da frente uma grande placa branca na qual havia pintado cuidadosamente em letras pretas com perfil dourado: ATELIÊ R. M. WALLS. Transformou as duas salas da frente em ateliê e galeria e usou dois quartos nos fundos para guardar sua coleção de trabalhos. Havia uma loja de material artístico a três quarteirões, na rua Um Norte, e graças à herança de mamãe podíamos fazer expedições de compra frequentes à loja, levando para casa rolos de lona que papai esticava e grampeava em chassis de madeira.

Também levamos tinta a óleo, aquarela, acrílica, gesso, um chassi de serigrafia, nanquim, pincéis e penas, lápis de carvão, giz pastel, papel artesanal elegante para desenhos a pastel e até mesmo um manequim de madeira com articulações móveis que batizamos de Edward, e que, segundo mamãe, posaria para ela quando as crianças estivessem na escola.

Mamãe decidiu que antes de fazer pinturas sérias precisava montar uma biblioteca de referência artística completa. Comprou dezenas de grandes fichários e muitos pacotes de papel pautado. Cada tema tinha um fichário próprio: cães, gatos, cavalos, animais de fazenda, animais da floresta, flores, frutas e legumes, paisagens rurais e urbanas, rostos e corpos masculinos e femininos, mãos, pés, traseiros e outras partes variadas do corpo. Passávamos horas folheando revistas antigas, procurando fotografias interessantes, e quando achávamos uma que considerávamos ser um tema digno de uma pintura, mostrávamos a mamãe pedindo aprovação. Ela a estudava por um segundo e dava ok ou a descartava. Se a foto fosse aprovada, nós a cortávamos, colávamos em uma folha de papel pautado e reforçávamos os furos no papel com fita adesiva, para que não rasgasse. Depois, pegávamos o fichário de três anéis adequado, incluíamos a nova fotografia e fechávamos os anéis. Em troca de nossa ajuda em sua biblioteca de referência, mamãe nos dava aulas de arte.

Mamãe também estava trabalhando duro em seus textos. Comprou diversas máquinas de escrever —

manuais e elétricas — para ter reservas, caso sua preferida quebrasse. Ela as guardava no ateliê. Nunca vendeu nada do que escrevia, porém de tempos em tempos recebia uma carta de recusa encorajadora e a prendia na parede com tachinhas. Quando voltávamos para casa da escola, ela normalmente estava trabalhando no ateliê. Se havia silêncio, estava pintando ou pensando em possíveis temas. Se o teclado da máquina de escrever estava sendo martelado, era porque trabalhava em um de seus romances, poemas, peças, contos ou sua coletânea ilustrada de ditados concisos — um deles era “A vida é um pote de cerejas com algumas nozes misturadas” —, que ela intitulara de “A filosofia de vida de R. M. Wal s”.

PAPAI ENTROU PARA o sindicato dos eletricistas local. Phoenix crescia, e papai logo conseguiu um emprego. Saía de casa de manhã vestindo um capacete amarelo e grandes botas com beirada de aço, que eu achava que o deixavam mais bonito. Por causa do sindicato, estava ganhando dinheiro mais regularmente

do que já tínhamos visto. No primeiro dia de pagamento, ele chegou em casa e nos chamou à sala.

Declarou que tínhamos deixado nossos brinquedos no quintal.

— Não, senhor, não deixamos — respondi.

— Acho que deixaram. Saiam e vejam — falou.

Corremos para a porta da frente. No quintal, estacionadas em fila, havia três bicicletas novinhas —

uma vermelha grande e duas menores, uma azul de menino e uma roxa de menina.

No começo, achei que outras crianças deviam ter deixado ali. Quando Lori disse que papai obviamente as tinha comprado para nós, eu não acreditei. Nunca tivéramos bicicletas — havíamos aprendido a pedalar nas de outras crianças —, e nunca me ocorrera que um dia realmente poderia ter a minha. Que dirá nova.

Eu me virei. Papai estava em pé junto à porta, de braços cruzados, com um sorriso malicioso no rosto.— Aquelas bicicletas não são para nós, são? — perguntei.

— Bem, elas são pequenas demais para mim e sua mãe — respondeu.

Lori e Brian haviam montado em suas bicicletas e subiam e desciam pela calçada. Olhei para a minha.

Era de um roxo brilhante e tinha um assento comprido, uma cesta de arame de cada lado, guidão cromado se projetando para fora como chifres de bezerro e manetes de plástico branco com borlas roxas e prateadas. Papai se ajoelhou ao meu lado.

— Gosta? — perguntou.

Assenti.

— Sabe, Cabra-Montesa, ainda me sinto mal por ter obrigado você a deixar sua coleção de pedras em Bat le Mountain. Mas tínhamos de viajar leves.

— Eu sei. Além disso, era mais de uma coisa.

— Não estou tão certo — falou papai. — Toda maldita coisa no Universo pode ser dividida em coisas menores, mesmo átomos, mesmo prótons, e teoricamente falando acho que você tinha um bom caso. Uma coleção de coisas devia ser considerada uma coisa. Infelizmente, a teoria nem sempre sai vencedora.

Passeávamos em nossas bicicletas por toda parte. Algumas vezes colocávamos cartas de baralho nos garfos com prendedores de roupas e elas batiam nos raios quando as rodas giravam. Agora que Lori conseguia enxergar, era a navegadora. Conseguiu um mapa da cidade em um posto de gasolina e planejava nossos roteiros antecipadamente. Pedalávamos pelo hotel Westward Ho, na avenida Central, onde índias de rosto quadrado vendiam colares de contas e mocassins sobre ponchos com as cores do arco-íris, que estendiam na calçada. Pedalávamos até a Woolworth, maior que todas as lojas de Bat le Mountain juntas, e brincávamos de pega nos corredores até o gerente nos colocar para fora. Pegávamos as velhas raquetes de tênis de madeira de vovó Smith e pedalávamos até a universidade de Phoenix, onde tentávamos jogar tênis com as bolas que outras pessoas haviam deixado para trás. Pedalávamos até o Centro Cívico, que tinha uma biblioteca, onde os bibliotecários nos reconheciam de tanto que íamos lá.

Eles nos ajudavam a encontrar livros que acreditavam que gostaríamos, e enchíamos as cestas de arame das bicicletas e pedalávamos de volta para casa pelo meio das calçadas, como se fôssemos donos do lugar.

COMO MAMÃE E PAPAI tinham todo aquele dinheiro, conseguimos nosso próprio telefone. Nunca havíamos tido um telefone, e sempre que tocava corríamos até ele. O primeiro a chegar assumia um

sotaque britânico muito esnobe: “Residência dos Wal s, o mordomo falando, posso ajudá-lo?”. Enquanto isso, o restante de nós gargalhava.

Tínhamos também um grande toca-discos em móvel de madeira, que fora de vovó. Colocávamos uma pilha de discos, e quando um acabava de tocar, o braço se afastava automaticamente e o disco seguinte caía com um barulho alegre. Mamãe e papai adoravam música, especialmente as animadas que davam vontade de levantar e dançar, ou pelo menos balançar a cabeça e bater os pés. Mamãe estava sempre indo a sebos e voltando com velhos discos de polca, spirituals negros, bandas marciais alemãs, óperas italianas e aboios. Também comprava sapatos de salto alto usados, que chamava de sapatos de dança.

Calçava um par de sapatos de dança, colocava uma pilha de discos na vitrola e punha o volume nas alturas. Papai dançava com ela quando estava lá; caso contrário, ela dançava sozinha, valsando, suingando ou dando passos de música country de um cômodo a outro, a casa se enchendo com o som de Mario Lanza, tubas animadas, ou algum caubói choroso cantando “The streets of Laredo”.

Mamãe e papai compraram uma máquina de lavar elétrica, que deixávamos no pátio. Era uma bacia de esmalte branco com pés, e a enchíamos de água com a mangueira do jardim. Um grande agitador girava de um lado para outro, fazendo a máquina inteira dançar pelo pátio de cimento. Não tinha ciclos, esperávamos até a água ficar suja, depois passávamos as roupas pelo espremedor — dois cilindros de borracha giratórios colocados acima da bacia, movimentados por um motor. Para enxaguar as roupas, repetia-se o processo sem sabão, depois deixava-se a água escorrer pelo pátio, para ajudar a grama a crescer.

Apesar de nossos equipamentos fantásticos, a vida em Phoenix não era luxo completo. Tínhamos cerca de um quatrilhão de baratas, grandes e fortes com asas brilhantes. No começo, eram apenas algumas, mas como mamãe não era exatamente uma faxineira compulsiva, elas se multiplicaram. Depois de algum tempo, exércitos cruzavam paredes, pisos e balcões da cozinha. Em Bat le Mountain, tínhamos lagartixas para comer as moscas e gatos para comer as lagartixas. Não conseguimos pensar em nenhum animal que gostasse de comer baratas, então sugeri comprar inseticidas, como todos os nossos vizinhos faziam, mas mamãe se opunha à guerra química. Seria como as tiras inseticidas da Shel , disse; acabaríamos nos envenenando também.

Mamãe decidiu que o combate pessoal era a melhor tática. Conduzíamos massacres de baratas na cozinha à noite, quando saíam em grande número. Nós nos armávamos com revistas enroladas ou sapatos

— embora eu tivesse apenas nove anos, já usava sapatos tamanho 33, que Brian chamava de “matadores de baratas” — e nos esgueirávamos para dentro da cozinha. Mamãe acendia as luzes, e nós, crianças, começávamos o ataque. Não era preciso sequer apontar. Eram tantas baratas que se acertássemos alguma superfície plana, pegaríamos, pelo menos, algumas.

A casa também tinha cupins. Descobrimos isso alguns meses depois da mudança, quando o pé de Lori atravessou o piso de madeira esponjoso da sala. Depois de inspecionar a casa, papai decidiu que a infestação de cupins era tão grave que nada poderia ser feito. Teríamos de coexistir com as criaturas. Por isso, contornávamos o buraco no piso da sala.

Mas a madeira estava completamente mastigada em toda parte. Continuávamos a pisar em pontos macios nas tábuas do piso, afundando e criando novos buracos.