O Queijo e os Vermes
Notas e abreviaturas
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Acho que , quando nascemos ,... : v. ACAU , proc. n. 126, f. 28v.
Desmantelado na segunda metade do século XVI ... : v. Stella, Dall’Anabattismo , op. cit., p. 87 ss.; Anabattismo e antitrinitarismo , op. cit., p. 64 ss. E v. também C. Ginzburg, I costituti di don Pietro Manel (Florença-Chicago, 1970) (Biblioteca do “Corpus Reformatorum Italicorum”).
Porém alguns grupos secretos dispersos ... : sobre a situação religiosa do Friuli no século XVI , v. P. Paschini, “Eresia e Riforma cattolica al con ne orientale d’Italia”, in Lateranum , n. s., XVII , n. 1-4 (Roma, 1951); L. de Biasio, “L’eresia protestante in Friuli nella seconda metà del secolo XVI ”, in Memorie storiche Forogiuliesi (1972), LII: 71-154. Sobre os artesãos de Porcia, v. Stella, Anabattismo e antitrinitarismo , op. cit., pp. 153-4.
Um anabatista ... nunca teria dito ... : v., por exemplo, o que escrevia, em 1552, Marco (tingidor de tecidos), um anabatista arrependido: “E me ensinaram [os anabatistas] que não se deve acreditar no perdão dado pelo papa porque dizem que é falso...” ( ASV en, Sant’Uf zio , b. 10).
Acredito que sejam boas... : v. ACAU , proc. n. 126, f. 29r.
De maneira que não existe nada mais... : v. Stella, Anabattismo e antitrinitarismo , op. cit., p. 154. V. também o que disse o vendedor de roupa velha de Bérgamo, Ventura Bonicello, processado como anabatista: “Qualquer outro livro, além da Sagrada Escritura, eu abomino” ( ASV en, Sant’Uf zio , b. 158, “livro dois”, f. 81r).
Um diálogo signi cativo : v. ACAU , proc. n. 126, ff. 37v-38r.
Carregador ... : v. Andrea da Bergamo (P. Nelli), Il primo libro delle satire alla carlona (Veneza, 1566), f. 31r.
Artesãos de couro de Nápoles ... : v. Tacchi Venturi, Storia della Compagnia di Gesú in Italia (Roma, 1938), I :455-6.
Nas súplicas de uma prostituta ... : v. F. Chabod, “Per la storia religiosa dello stato di Milano”, in id., Lo stato e la vira religiosa a Milano nell’epoca di Carlo V (Turim, 1971), pp. 335-6.
Dizem respeito todos , ou quase ... : testemunhos como o que segue, inserido numa carta do embaixador veneziano em Roma, M. Dandolo (14 de junho de 1550), são muito raros: “Alguns frades inquisidores [...] que contam coisas importantes de Brescia e mais ainda de Bérgamo, falam de artesãos que vão festejar pelas ruas, sobem nas árvores pregando a seita luterana ao povo e aos camponeses... ” (v. Paschini, Venezia , op. cit., p. 42).
A conquista religiosa do campo... : retomo aqui um tema por mim apenas sugerido num ensaio precedente (“Folklore, magia, religione”, in Storia d’Italia (Turim, 1972), I :645 ss., 656 ss.), que espero desenvolver futuramente.
Isso não quer dizer ... : o que segue é uma tentativa de precisar e, em parte, corrigir o que escrevi in “Folklore”, op. cit., p. 645.
Um ramo autônomo de radicalismo camponês : embora descon e das contendas terminológicas, considero oportuno explicar por que preferi essa expressão a racionalismo popular , Reforma popular , anabatismo . 1. A expressão racionalismo popular foi usada por Berengo ( Nobili e mercanti , op. cit., p. 435 ss.) para de nir fenômenos substancialmente coincidentes com os que estão sendo estudados aqui. Entretanto, parece pouco apropriada a certas atitudes que só parcialmente são recobertas pelo nosso conceito de razão — começando pelas visões de Scolio (v. cap. 58). 2. O radicalismo camponês que tento reconstruir é certamente um dos componentes fundamentais da “Reforma popular” traçada por Macek (“movimentos autônomos que acompanham a história europeia do século XV e XVI e que podem ser entendidos como uma Reforma popular ou radical”: J. Macek, La Riforma popolare (Florença, 1973), p. 2; o grifo é meu). Mas é preciso lembrar que tal fenômeno é anterior ao século XV (v. nota seguinte) e que não pode ser reduzido a um correspondente popular da reforma o cial. 3. O termo anabatismo como etiqueta generalizável a todos os fenômenos de radicalismo religioso do século XVI foi proposto por Cantimori ( Eretici italiani del Cinquecento [Florença, 1939], p. 31 ss.), que em seguida o abandonou, aceitando as críticas de Ritter. Mais recentemente, foi reproposto por Rotondò para designar “a mistura de profetismo, radicalismo anticlerical, antitrinitarismo e igualitarismo social [...] difundida entre escrivães, médicos, professores de gramática, entre monges e mercadores, artesãos das cidades e homens dos campos italianos da era quinhentista” (v. “I movimenti ereticali nell’ Europa del Cinquecento”, in Rivista storica italiana [1966], LXXVIII : 138-9). Essa generalização parece-me inoportuna, porque nos leva a subestimar as profundas diferenças que existiam entre religião popular e religião culta, entre radicalismo do campo e radicalismo da cidade. É evidente que “tipologias” e “sensibilidades” nebulosas como as citadas por A. Olivieri (“Sensibilità religiosa urbana e sensibilità religiosa contadina nel Cinquecento venero: suggestioni e problemi”, in Critica storica , n. s. [1972], IX : 631-50) não ajudam muito, mesmo porque recobrem, com o termo anabatismo , fenômenos absolutamente estranhos a este — inclusive as procissões em honra de Nossa Senhora. A tarefa das pesquisas é, isto sim, reconstruir os nexos, ainda obscuros, entre os vários componentes da “reforma popular”, dando, sobretudo, o peso justo ao substrato religioso e cultural vindo do campo, não só italiano, mas também europeu, do século XVI — o mesmo substrato que transparece nas con ssões de Menocchio. Tentando de ni-lo, falei de “radicalismo camponês”, pensando não tanto na Radical Reformation , de Williams (sobre o mesmo, v. as observações de Macek), e sim na frase de Marx, que diz que o radicalismo “toma as coisas pela raiz” — uma imagem que, além de tudo, se adapta de maneira perfeita ao contexto.
Muito mais antigo do que a Reforma : v. o denso ensaio de W. L. Wake eld, “Some Unorthodox Popular Ideas of the Thirteenth Century”, in Medievalia et humanistica , n. s. n. 4 (1973), pp. 25-35, baseado em documentos inquisitoriais da área de Toulouse, nos quais se faz alusão a “statements often tinged with rationalism, skepticism, and revealing something of a materialistic attitude. There are assertions about a terrestrial paradise for souls after death and about the salvation of unbaptized children; the denial that God made human faculties; the derisory quip about the consumption of the host; the identi cation of the soul as blood; and the attribution of natural growth to the qualities of seed and soil alone” (pp. 29-30). Essas a rmações são convincentemente devidas a um ramo de ideias e crenças autônomas e não à in uência direta da propaganda cátara. (O catarismo pode ter contribuído para torná-las visíveis, direta ou indiretamente, dando início às investigações inquisitoriais.) É signi cativo, por exemplo, que a tese atribuída a um escrivão cátaro dos ns do século XIV , “quod Deus de celo non facit crescere fructus, fruges et herbas et alia, quae de terra nascuntur, sed solummodo humor terre” (porque não é Deus que do céu faz crescer os frutos, os cereais e as plantas e as outras coisas que nascem da terra, mas é tão somente a umidade do solo), tivesse sido quase exatamente reproduzida por um camponês friulano, três séculos depois: “As bênçãos dos sacerdotes sobre os campos e a água benta que espalham sobre os campos no dia da Epifania não ajudam de modo algum as vinhas e as árvores para que produzam mais, mas só o estrume e o esforço do homem”. (V. respectivamente A. Serena, “Fra gli eretici trevigiani”, in Archivio venero-tridentino (1923), III : 173, e Ginzburg, I benandanti , op. cit., pp. 38-9, a ser corrigido no sentido acima citado.) Obviamente, o catarismo não tem nada a ver com isso. Trata-se, isto sim, de a rmações que “may well have arisen spontaneously from the cogitation of men and women searching for explanations that accorded with the realities of the life in which they were enmeshed” (Wake eld, “Some Unorthodox”, op. cit., p. 33). Exemplos análogos poderiam ser facilmente encontráveis. É a essa tradição cultural — que vem à luz depois de séculos — que me re ro com a expressão radicalismo camponês (ou popular ). Aos componentes levantados por Wake eld — racionalismo, ceticismo, materialismo — é preciso acrescentar o utopismo de fundo igualitário e o naturalismo religioso. A combinação de todos ou quase todos esses elementos faz com que surjam recorrentes fenômenos de “sincretismo” camponês — que seriam mais bem de nidos como fenômenos do substrato: v., por exemplo, o material arqueológico recolhido por J. Bordenave e M. Vialelle, Aux racines du mouvement cathare : La mentalité religieuse des paysans de l’Albigeois medieval (Toulouse, 1973).
10
p. 57 Falara sério : v. ACAU , proc. n. 126, ff. 2v-3r.
Senhor ... : ibid., f. 21v.
Dom Ottavio Montereale ... : ibid., proc. n. 285, folhas não numeradas (11 de novembro de 1598).
Aparecera no primeiro processo : ibid., proc. n. 126, f. 23v. Nos estudos que conheço sobre a pintura friulana do século XVI , não é mencionado nenhum Nicola da Porcia. Antonio Forniz, que fez uma série de pesquisas sobre pintores friulanos, gentilmente me informou — em carta de 5 de junho de 1972 — não ter encontrado nada que se referisse a “Nicola da Porcia” ou “Nicola de Melchiori” (v. acima). Deve-se considerar que o encontro entre o pintor e o moleiro poderia ter se dado por questões pro ssionais, além das religiosas. Nos registros de patentes venezianas, é comum encontrar pintores, escultores, arquitetos que pedem exclusividade para a construção de moinhos. Às vezes aparecem nomes famosos como o do escultor Antonio Riccio e do arquiteto Giorgio Amadeo, ou de Jacopo Bassano, que obtiveram do Senado, respectivamente, em 1492 (os dois primeiros) e em 1544 (o terceiro) a exclusividade para construir alguns moinhos: v. G. Mandich, “Le privative industriali veneziane (1450-1550)”, in Rivista del diritto commerciale (1936), XXXIV : 1, 538, 545; e v. também p. 541. Para o período posterior, pude encontrar casos análogos através de fotocópias de documentos in ASV en, Senato Terra , graças à gentileza de Carlo Poni, que as cedeu.
Menocchio ... deve ter falado ... : v. ACAU , proc. n. 285, folhas não numeradas (depoimento de 19 de julho de 1599).
Algumas semanas depois ... : v. ibid., folhas não numeradas (depoimento de 5 de agosto).
Não sabemos ... : no processo contra o grupo de Porcia (v. ASV en, Sant’Uf zio , b. 13 e b. 14, fasc. Antonio Deloio ), não aparece o nome Nicola.
Um grande herético : v. ASV en, Sant’Uf zio , b. 34, fasc. Alessandro Mantica , depoimento de 17 de outubro de 1571. Nicola havia estado na casa de Rosario, “retirando alguns encostos de cadeiras para pintá-los”.
Eu sei ... : v. ACAU , Sant’Uf zio , proc. n. 126, f. 23v.
Il sogno dil Caravia : Colofon: “In Vinegia, nelle case di Giovanni Antonio di Nicolini da Sabbio, negli anni del Signore, MDXLI , dil mese di maggio”. Ainda não foi feito um estudo especí co desse texto: v. de V. Rossi, “Un aneddoto della storia della Riforma a Venezia”, in Scritti di critica letteraria , III : Dal Rinascimento al Risorgimento (Florença, 1930), pp. 191-222, e a Introdução às Novelle dell-altro mondo : Poemetto buffonesco del 1513 (Bolonha, 1929) (Nuova scelta di curiosità letterarie inedite o rare, v. 2), que iluminam de maneira exemplar a gura de Caravia e o veio literário ao qual de certa maneira o Sogno pertence. Sobre a viagem de bufões ou outras guras cômicas populares ao inferno, v. Bakhtin, L’oeuvre de François Rabelais , op. cit., p. 393.
Assemelhai-vos ... : v. Il sogno , op. cit., f. A III r. A iconogra a do frontispício é a que se conhece para o “melancólico”, mas não deixa dúvidas sobre seu parentesco com a xilogravura de Dürer, de ampla circulação nos ambientes venezianos. V. R. Klibansky, F. Saxl e E. Panofsky, Saturn and Melancholy : Studies in the History of Natural Philosophy , Religion , and Art (Londres, 1964).
Quão caro me seria ... : v. Il sogno , op. cit., f. B II v.
Creio que Farfarello ... : ibid., ff. Gv—G II r.
Sgnief ... : ibid., p. G III r.
Mostrando ... : ibid., f. G II v.
Certo Martinho ... : ibid., ff. F IV r-v (aqui e em seguida, os grifos são meus).
A prima causa ... : ibid., Bv.
Muito ignaro ... : ibid., B. III v.
Mercado fazem ... : ibid., f. B IV r.
A implícita negação ... : Zampolo não descreve o purgatório; a certa altura faz uma alusão ambígua às “penas do inferno lá embaixo, ou seja, o purgatório” (ibid., f. II r).
Propositalmente ... : ibid., f. C II v.
Igrejas suntuosas : ibid., f. Er. Caravia insiste particularmente nesse ponto, protestando, entre outras coisas, contra a grandiosidade da construção da Escola de San Rocco.
Honrar os santos ... : ibid., f. D III v.
Deve o cristão ... : ibid., f. Er.
Papistas ... : ibid., f. B IV v.
Para homens como Caravia ... : sobre sua produção depois do Sogno , v. Rossi, Un aneddoto , op. cit. Em 1557, Caravia foi processado pela Inquisição. Durante o tal processo o Sogno entrou para a acusação por ter sido composto “em detrimento da religião” (v. ibid., p. 220; o testamento característico, datado de 1 o de maio de 1563, está em parte reproduzido nas pp. 216-7).
Num período muito anterior ... : é impossível saber quando teve início a heterodoxia de Menocchio. Note-se, porém, que ele a rmou não observar a quaresma havia vinte anos ( ACAU , proc. n. 126, f. 27r) — data que quase coincide com a da ordem para que se afastasse de Montereale. Menocchio pode ter tido contatos com ambientes luteranos durante o período que esteve em Carnia — região de fronteira onde a penetração da Reforma foi particularmente importante.
11
Vocês querem que eu ensine ... : v. ibid., ff. 16r-v.
O que eu disse ... : v. ibid., f. 19r.
O diabo ... : v. ibid., f. 21v.
p. 66 Dos profetas ... : v. Chabod, “Per la storia”, op. cit., p. 299 ss.; D. Cantimori, Eretici italiani del Cinquecento (Florença, 1939), p. 10 ss.; M. Reeves, The In uence of Prophecy in the Later Middle Ages : A Study in Joachimism (Oxford, 1969), e G. Tognetti, “Note sul profetismo nel Rinascimento e la letteratura relativa”, in Bulletino dell’Istituto storico italiano per il Medio Evo (1970), 82: 129-57. Sobre Giorgio Siculo, v. Cantimori, Eretici , op. cit., p. 57 ss.; C. Ginzburg, “Due note sul profetismo cinquecentesco”, in Rivista storica italiana (1966), LXXVIII : 184 ss.
Tendo por várias vezes ... : v. ACAU , proc. n. J26, f. 16r.
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No momento da prisão ... : v. ibid., f. 14v, 2 de fevereiro de 1584; “inveni (quem está comentando é o escrivão) quosdam libros qui non erant suspecti neque prohibiti, ideo R. p. inquisitor mandavit sib restitui” (encontrei alguns livros que não eram suspeitos nem proibidos, por isso o R. p. inquisidor mandou que lhe fossem restituídos).
A Bíblia ... : considerando a bibliogra a organizada por G. Spini, não se trata da tradução de Brucioli (v. La Biblio lia [1940], XLII : 138 ss.).
Il Fioretto della Bibbia: v. H. Suchier, Denkmäler Provenzalischer Literatur und Sprache (Halle, 1883), I : 495 ss.; P. Rohde, “Die Quellen der Romanische Weltchronick”, ibid., pp. 589-638; F. Zambrini, Le opere volgari a stampa dei secoli XIII e XIV (Bolonha, 1884), cot. 408. Como já foi comentado, as edições são muito variadas: algumas chegam só até o nascimento de Cristo, outras até a infância ou a paixão. Aquelas com que tomei contato (mas não z uma pesquisa sistemática) vão de 1473 a 1552; quase todas são venezianas. Não sabemos quando exatamente Menocchio teria comprado o Fioretto . A obra continuou a circular por muito tempo: o Índex de 1569 inclui os Flores Bibliorum et doctorum (v. F. H. Reusch, Die Indices librorum prohibitorum des sechszehnten Jahrhunderts [Tübingen, 1886], p. 333). Em 1576 o comissário do Palácio Sagrado, frade Damiano Rubeo, respondeu às dúvidas do inquisidor de Bolonha, que lhe pedira para tirar de circulação os Fioretti della Bibbia (v. A. Rotondo, “Nuovi documenti per la storia del’ ‘Indice dei libri proibiti’ (1552-1638)”, in Rinascimento [1963], XIV : 157).
Il Lucidario: Menocchio, inicialmente, falou de Lucidario della Madonna e em seguida se corrigiu: “Não me lembro bem se o livro se chamava Rosario ou Lucidario , mas era impresso” (v. ACAU , proc. n. 126, ff. 18r, 20r). Conheço cerca de quinze edições do Rosario de Alberto da Castello, que vão de 1521 a 1573. Neste como em outros casos, não z uma pesquisa sistemática. Caso o livro lido por Menocchio tivesse sido o Rosario (como será explicado mais para a frente, a identi cação não foi provada), restaria o Lucidario para ser explicado: seria por acaso uma lembrança inconsciente de algum Lucidario , de alguma forma derivado do de Honório d’Autun? (Sobre este assunto, v. Y. Lefèvre, L’Elucidarium et les lucidaires [Paris, 1954].)
Il Lucendario: no lapsus talvez se pudesse ver a interferência da leitura de algum Lucidario (v. acima). As edições da versão em língua vulgar da Legenda aurea são incontáveis. Menocchio poderia ter visto, por exemplo, um exemplar da que circulou em Veneza, em 1565.
Historia del Giudicio: v. La poesia religiosa : I cantari agiogra ci e le rime di argomento sacro , org. A. Cioni (Florença, 1963) (Biblioteca bibliogra ca italica, v. 30), p. 253 ss. O texto lido por Menocchio fazia parte do grupo no qual o can tare [poema popular da Itália do século XIV e XV (N. T.)] sobre a história do Juízo Final seguia um outro, menor, sobre a vinda do Anticristo (“A ti recorro, eterno Criador”). Sei da existência de quatro exemplares: três estão conservados na Biblioteca Trivulziana de Milão (v. M. Sander, Le livre à gures italien depuis 1467 jusqu’à 1530 , II [Milão, 1942], n. 3178, 3180, 3181); o quarto, na Biblioteca Universitária de Bolonha ( Opera nuova del giudicio generale, qual tratta della ne del mondo ), impresso em Bolonha por Alexandro Benacci, com permissão da Santíssima Inquisição, 1575; sobre esse exemplar, v. penúltima nota do cap. 14. Nas quatro edições aparece o trecho, parafraseado do Evangelho de Mateus, que foi lembrado por Menocchio (v. p. 84 ss.); entretanto, não consta das versões mais reduzidas conservadas pela Biblioteca Marciana de Veneza (v. A. Segarizzi, Bibliogra a delle stampe popolari italtane della R. Biblioteca Nazionale di S. Marco di Venexia , I [Bérgamo, 1913], n. 134, 330).
Il cavallier... : existe ampla literatura sobre esta obra. V. a edição mais nova que eu conheço ( Mandeville’s Travels , ed. M. C. Seymour [Oxford, 1967]), assim como as interpretações contrastantes de M. H. Letts ( Sir John Mandeville : The Man and His Book [Londres, 1949]) e de J. W. Bennett ( The Rediscovery of Sir John Mandeville [Nova York, 1954], onde se tenta demonstrar, com argumentos pouco convincentes, que Mandeville existiu historicamente). As viagens , traduzidas em latim e, em seguida, em todas as línguas europeias, tiveram enorme difusão, tanto manuscritas como impressas. Só da versão italiana existem, no British Museum, vinte edições que vão de 1480 a 1567.
Zampollo : sobre o Sogno dil Caravia , v. os estudos de V. Rossi citados acima.
Il Supplimento... : conheço umas quinze edições vernaculares da crônica do Foresti, surgidas entre 1488 e 1581. Sobre o autor, v. E. Pianetti, “Fra Iacopo Filippo Foresti e la sua opera nel quadro della cultura bergamasca”, in Bergomum (1939), XXXIII : 100-9, 147-74; A. Azzoni, “I libri dei Foresti e la biblioteca conventuale di S. Agostino”, ibid. (1959), LIII : 37-44; P. Lachat, “Une ambassade éthiopienne auprès de Clement v, à Avignon, en 1310”, in Annali del ponta cio museo missionario etnologico già ateranensi (1967), XXI : 9, nota 2.
Lunario... : Sander ( Le livre à gures , op. cit., II , n. 3936-43) enumera oito edições, surgidas entre 1509 e 1533.
Decameron: sobre o fato de Menocchio ter lido uma edição imune à censura contrarreformista, v. cap. 23. Sobre a censura, v. F. H. Reusch, Der Index der verbotenen Bücher (Bonn, 1882), I :389-91; Rotondò, “Nuovi documenti”, op. cit., pp. 152-3; C. de Frede, “Tipografa, editori, librai italiani dei Cinquecento coinvolti in processa d’eresia”, in Rivista di storia della Chiesa in Italia (1969), XXI-II : 41; P. Brown, “Aims and Methods of the Second Rassettatura of the Decameron”, in Studi secenteschi (1967), VIII : 3-40. Sobre a questão em geral, v. A. Rotondò, “La censura ecclesiastica e la cultura”, in Storia d’Italia , v. V , t. II (Turim, 1973), pp. 1399-492.
Alcorão: v. C. de Frede, La prima traduzione italiana del Corano sullo sfondo dei rapporti tra Cristianità e Islam nel Cinquecento (Nápoles, 1967).
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O qual ... comprei : v. ACAU , proc. n. 126, f. 20r.
O Supplementum: v. ACAU , proc. n. 285, folhas não numeradas (depoimento de 12 de julho de 1559).
Lucidario: v. ibid., proc. n. 126, ff. 18r, 20r.
O lho dela , Giorgio Capel : v. ibid., folhas não numeradas (28 de abril de 1584).
Bíblia : v. ibid., f. 21v.
Mandavilla: v. ibid., ff. 22r, 25v.
Sogno dil Caravia: v. ibid., f. 23v.
Nicola de Melchiori : v. ibid., proc. n. 285, folhas não numeradas (depoimento de 5 de agosto de 1599).
Menocchio ... emprestara-o : v. ibid., proc. n. 126, folhas não numeradas (28 de abril de 1584).
Sabe-se que em Udine : v. A. Battistella, in Tagliaferri, Struttura , op. cit., p. 89.
Escolas de nível ... : v. Chiuppani, “Storia di una scuola”, op. cit. Sobre a questão, dada a escassez de estudos recentes, consultar o velho trabalho, sempre útil, de G. Manacorda, Storia della scuola in Italia , I : Il Medioevo (Milão-Palermo Nápoles, 1914).
Surpreende ... que numa aldeia tão pequena : note-se, porém, que a história da alfabetização ainda se encontra nos seus primórdios. O rápido panorama geral traçado por C. Cipolla ( Literacy and Development in the West [Londres, 1969]) já está superado. Entre os estudos mais recentes, v. L. Stone, “The Educational Revolution in England, 1560-1640”, in Past and Present (jul. 1964), 28: 41-80; ibid., “Literacy and Education in England, 1640-1900”, ibid. (fev. 1969), 42: 69-139; A. Wyczanski, “Alphabétisation et structure sociale en Pologne au XVI e siècle”, in Annales : ESC (1974), XXIX : 705-13; F. Furet e W. Sachs, “La croissance de l’alphabétisation en France — XVIII e - XIX e siècle”, ibid., pp. 714-37. Particularmente interessante para comparação com o caso que estamos estudando é o ensaio de Wyczanski. Pela análise de uma série de documentos scais da região de Cracóvia que dizem respeito ao biênio 1564-65, observa-se que 22% dos camponeses ali mencionados sabiam assinar o próprio nome. O autor adverte que a cifra deve ser julgada com cuidado por se referir a uma amostragem muito pequena (dezoito pessoas), além do que constituída por camponeses de razoável condição social, frequentemente ocupando cargos públicos na cidadezinha (era justamente o caso de Menocchio); entretanto, conclui que o “ensinamento de tipo elementar não era totalmente inexistente entre os camponeses” (“Alphabétisation”, op. cit., p. 710); v. os resultados das pesquisas de B. Bonnin (“Le livre et les paysans en Dauphiné au XVII e siècle”) e de J. Meyer (“Alphabétisation, lecture et écriture: Essai sur l’instruction populaire en Bretagne au XIX e siècle”).
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Menocchio não sabia muito mais de latim ...: v. ACAU , proc. n. 126, f. 16r: “Respondit: ‘Eu sei o credo e já ouvi também o credo que se recita na missa e já ajudei a cantar na igreja de Monte Reale’. Interrogatus: ‘Já que o senhor sabe o credo como disse, sobre aquele artigo ‘et in Iesum Christum lium eius unicum dominum nostrum qui conceptus est de Spiritu santo, natus ex Maria virgine’, o que no passado pensou e acreditou a esse respeito e o que acha hoje?’ Et ei dicto: ‘Entende o que quer dizer ‘qui conceptus est de Spiritu santo, natus ex Maria virgine’?’ Respondit: ‘Sim, senhor, eu entendo’”. O desenvolvimento do diálogo anotado pelo escrivão do Santo Ofício parece indicar que Menocchio só compreendeu quando as palavras do Credo foram repetidas lentamente. O fato de saber o Pater noster (ibid., proc. n. 285, folhas não numeradas, 12 de julho de 1599) não contradiz a suposição por nós formulada. São menos óbvias, entretanto, as palavras de Cristo ao ladrão citadas por Menocchio (“hodie mecum eris in paradiso”: v. proc. n. 126, f. 33r); mas concluir, levando só esse fato em consideração, é realmente arriscado.
Consumidos por pessoas de várias classes sociais : infelizmente não temos pesquisas sistemáticas sobre os livros que circulavam entre as classes subalternas na Itália do século XVI — mais exatamente, entre a minoria dos membros dessas classes aptas a ler. Uma pesquisa tendo como base os testamentos, os inventários post mortem (como as feitas por Bec, principalmente nos ambientes mercantis) e os processos inquisitoriais seria muito útil. V. também os testemunhos recolhidos por H.-J. Martin, Livre , pouvoirs et société à Paris au XVII e siècle (1598-1701) (Genebra, 1969), I : 516-8, e, para o período sucessivo, J. Solé, “Lecture et classes populaires à Grenoble au dix-huitième siècle: Le témoignage des inventaires après décès”, in Images du peuple au XVIII e siècle — Colloque d’Aix-en-Provence , 25 et 26 de octobre 1969 (Paris, 1973), pp. 95-102.
O Foresti e o Mandeville ... : para o primeiro, v. Leonardo da Vinci, Scritti letterari , org. A. Marinoni (ed. rev. Milão, 1974), p. 254 (trata-se de uma conjectura, mas bem fundamentada). Para o segundo, v. E. Solmi, Le fonti dei manoscritti di Leonardo da Vinci (Turim, 1908), p. 205, supl. n. 10-11 do Giornale storico della letteratura italiana (sobre a reação de Leonardo da Vinci diante do Mandeville, v. cap. 21). Em geral, além da edição citada de Marinoni, p. 239 ss., v. E. Garin, “Il problema delle fonti del pensiero di Leonardo”, in La cultura loso a del Renascimento italiano (Florença, 1961), p. 388 ss., e C. Dionisotti, “Leonardo uomo di lettere”, in Italia medioevale e umanistica (1962), v: 183 ss. (preocupou-se também com a questão do método).
E a Historia del Giudicio... : trata-se do exemplar da Opera nuova del giudicio generale , que se encontra na Biblioteca Universitária de Bolonha (Aula V , Tab. I , J. I., v. 51.2). No frontispício, uma inscrição: “Ulyssis Aldrovandi et amicorum”. Outras inscrições — no frontispício e na última folha — não parecem feitas por Aldrovandi. Sobre os acontecimentos inquisitoriais do último, v. A. Rotondò, “Per la storia dell’eresia a Bologna nel secolo XVI ”, in Rinascimento (1962), XIII : 150 ss., com bibliogra a.
Opiniões fantásticas : v. ACAU , proc. n. 126, f. 12v.
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Como os lia? : sobre a questão da leitura — quase sempre deixada de lado pelos estudiosos desses problemas —, v. as pertinentes observações de U. Eco (“Il problema della ricezione”, in La critica tra Marx e Freud , org. A. Ceccaroni e G. Pagliano Ungari [Rimini, 1973], pp. 19-27), em grande parte convergentes com o que está sendo dito aqui. Um material muito interessante nos dá a pesquisa de A. Rossi e S. Piccone Stella, La fatica di leggere (Roma, 1963). Sobre o “erro” como experiência metodologicamente crucial (o que é demonstrado também no caso das leituras de Menocchio), v. C. Ginzburg, “A proposito della raccolta dei saggi storici di Marc Bloch”, in Studi medioevali, 3 a série (1965), VI : 340 ss.
Opiniões ... : v. ACAU , proc. n. 126, f. 21v.
16
Era chamada de virgem ... : v. ibid., ff. 17v-18r.
Contempla ... : cito a edição veneziana de 1575 (“appresso Dominico de’ Franceschi, in Frezzaria al segno della Regina”), f. 42r.
Calderari : v. J. Furlan, “Il Calderari nel quarto centenario della morte”, in Il Noncello (1963), 21: 3-30. O verdadeiro nome do pintor era Giovanni Maria Zaffoni. Não sei se já foi observado que o grupo feminino à direita, na cena de José com os pretendentes, reproduz outro grupo, pintado por Lotto em Trescore, no afresco que representa santa Clara recebendo o véu.
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Eu acredito ... : v. ACAU , proc. n. 126, f. 29v.
Sim , senhor ... : v. ibid.
Anjos ... : cito a edição veneziana de 1566 (“appresso Girolamo Scotto”), p. 262. Note-se ainda que, entre as cenas pintadas por Calderari em San Rocco, há também a da morte de Maria.
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Porque tantos homens ... : v. ACAU , proc. n. 126, f. 16r.
No capítulo CLXVI do Fioretto: cito a edição veneziana de 1571 (“ per Zorzi di Rusconi milanese ad instantia de Nicolo dicto Zopino et Vincentio compagni ”), f. O V v.
Cristo era um homem nascido ... : v. ACAU , proc. n. 126, f. 9r.
Se era Deus ... : v. ibid., f. 16v.
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Está sempre discutindo : v. ibid., f. 11v.
Acho ... : v. ibid., ff. 22v-23r.
Ó vós ... abençoados : cito, corrigindo alguns erros, o Iudizio universal overo nale , “em Florença, appresso alle scale di Badia”, s. d. (sendo, entretanto, 1570-80), exemplar conservado na Biblioteca Trivulziana. A edição bolonhesa de 1575 (v. acima) apresenta variantes de pouca importância.
O bispo anabatista ... : v. Stella, Anabattismo , op. cit., p. 75.
Porque faz mal ... : v. ACAU, proc. n. 126, f. 21v.
Eu ensino vocês : v. ibid., f. 9r.
Entretanto , no interrogatório ... de 1 o de maio : v. ibid., ff. 33v-34v.
Alcune ragioni del perdonare : “in Vinegia per Stephano da Sabbio, 1537”. Sobre Crispoldi, v. A. Prosperi, Tra evangelismo e Controriforma : G. M. Giberti ( 1495-1543 ) (Roma, 1969), Índice. Sobre o folheto citado, v. C. Ginzburg e A. Prosperi, Giochi di pazienza : Un seminario sul “Bene cio di Cristo” (Turim, 1975).
Um remédio. .. : [Crispoldi] Alcune ragioni , op. cit., ff. 34r-v.
Ele conhece ... sua versão mais coerente : v. ibid., ff. 29 ss., especialmente ff. 30v-31r: “E seguramente eles [os soldados e os senhores] e todo estado e condições das pessoas e toda república e reino são dignos de guerra perpétua e de não ter repouso, onde existem muitos que se esquecem ou fariam mal do ato de perdoar e odeiem quem perdoa. São dignos que cada um tenha sua justiça e sua razão e que não haja nem juiz nem funcionário público e que assim com a multiplicidade de males eles possam ver quão grandes danos ocorrem quando cada um faz justiça com as próprias mãos; como as vendettas para o bem e paz comuns são deixadas a cargo de funcionários públicos mesmo nas leis dos pagãos e que, entre eles, perdoar era a coisa certa a ser feita, principalmente quando feita pelo bem da república ou de alguma pessoa em particular: como no caso de um pai que fosse perdoado para que seus lhinhos pudessem ter sua proteção. E pense quão meritório é proceder dessa maneira, já que Deus assim o quer. Esta questão de bem comum é largamente discutida em muitos lugares e por muitos”. E v. os caps. XI-XV do livro I dos Discursos (impressos pela primeira vez em 1531).
Não a de Maquiavel disfarçado ... : v. Introdução de G. Procacci a N. Maquiavel, Il Príncipe e Discorsi sopra la prima deca di Tito Livio (Milão, 1960), pp. LIX-LX .
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Todos os seus companheiros : v. ACAU , proc. n. 126, f. 27r.
Numa carta enviada ... aos juízes ... : v. cap. 45.
As viagens: v. a bibliogra a essencial citada acima.
Sabe-se que ... a difusão das descrições da Terra Santa : v. G. Atkinson, Les nouveaux horizons de la Renaissance française (Paris, 1935), pp. 10-2.
Diversos hábitos dos cristãos : cito a edição veneziana de 1534 (Joanne de Mandavilla, Qual tratta delle piú maravigliose cose ), f. 45v.
Dizem ... :v. ibid., ff. 46r-v.
Se esta árvore : v. ACAU , proc. n. 126, f. 38r.
Entre todos os profetas : v. Mandavilla, Qual tratta , op. cit., f. 51v.
Minha dúvida ... : v. ACAU , proc. n. 126, f. 16v.
Mas não foi jamais cruci cado : v. Mandavilla, Qual tratta , op. cit., f. 52r.
Não é verdade que Cristo ... : v. ACAU , proc. n. 126, f. 13r.
Parecia-me inacreditável ... : v. ibid., f. 16v.
Eles [os cristãos] ... : v. Mandavilla, Qual tratta , op. cit., ff. 53v.
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O povo ... : v. ibid., f. 63r. “Chana” é Thana, uma localidade na ilha de Salsette, a nordeste de Bombaim (servi-me, para identi car a localidade citada por Mandeville, dos comentários de M. C. Seymour à edição citada).
É um povo de pequena estatura : v. ibid., f. 79v. Sobre essa passagem como possível fonte de Swift, v. Bennett, The Rediscovery , op. cit., pp. 255-6.
Tantas raças ... : v. ACAU , proc. n. 126, folhas não numeradas; ibid., f. 22r.
Michel de Montaigne : sobre os limites do relativismo de Montaigne, v. S. Landucci, I
loso e i selvaggi , 1580-1780 (Bari, 1972), pp. 363-4, passim.
Nesta ilha ... : v. Mandavilla, Qual tratta , op. cit., ff. 76v-77r. Dondina (Dondum): talvez uma das ilhas Andaman.
Como atingira Leonardo : v. Solmi, Le fonti , op. cit., p. 205.
Diga-me ... : v. ACAU , proc. n. 126, ff. 21v-22r.
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E saibam : v. Mandavilla, Qual tratta , op. cit., f. 63v.
O mais santo entre os animais : ibid., ff. 63v-64r.
Cabeça de cão : ibid., f. 75r. A descrição dos cinocéfalos foi extraída do Speculum Historiale , de Vicente de Beauvais.
E saibam que em todo aquele país : v. Mandavilla, Qual tratta , op. cit., ff. 118v-119r. “Et metuent”: Salmo 66:8. “Omnes gentes”: Salmo 71-11.
E embora : v. Mandavilla, Qual tratta , op. cit., ff. 110r-v. Para as citações escriturais, v. Oseias, VIII : 12; Sabedoria, VIII : 14; João, X : 16.
Mesidarata e Genosaffa : trata-se de duas localidades mencionadas pela tradição clássica, Oxydraces e Gymnosophistae. A essas passagens de Mandeville podem ser aproximadas as representações dos homens de grandes orelhas ou de pés enormes presentes na multidão dos eleitos no portal da igreja de Maddalena de Vézelay (v. E. Mâle, L’art religieux du XII e siècle en France [Paris, 1947], 5: 330, e v. também a iconogra a de são Cristóvão cinocéfalo, in L. Réau, L’iconographie de l’art chrétien , v. III , t. I (Paris, 1958), pp. 307-8; as duas indicações me foram gentilmente dadas por Chiara Settis Frugoni, embora ali se insista mais na difusão da palavra de Cristo mesmo entre populações remotas e monstruosas.
A corrente popular ... favorável à tolerância : v., por exemplo, C. Vivanti, Lotta politica e pace religiosa in Francia fra Cinque e Seicento (Turim, 1963), p. 42.
Lenda ... dos três anéis : além de M. Perna, La parabola dei tre anelli e la tolleranza nel Medio Evo (Turim, 1953) (medíocre), v. U. Fischer, “La storia dei tre anelli: Dal mito all’ utopia”, in Annali della Scuola Normale Superiore di Pisa — Classe di Lettere e Filoso a , 3 a série (1973), 3: 955-98.
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Gerolamo Asteo : v. C. Ginzburg, I benandanti , op. cit., Índice.
Conceda-me ... ouvir : v. ACAU , proc. n. 285, depoimento de 12 de julho, 19 de julho, 5 de agosto de 1599.
Havia sofrido o corte da censura ... : v. acima. O conto (“Melchisedec giudeo con una novella di tre anella cessa un gran pericolo dal Saladino apparecchiatogli”: é a terceira do primeiro dia) não apresenta referência aos três anéis da edição dos Giunti corrigida por Salviati (Florença, 1573, pp. 28-30; Veneza, 1582 etc.). Na edição “riformata da Luigi Groto cieco d’Adria” (Veneza, 1590, pp. 30-2), não só desapareceu a passagem mais polêmica (“E assim vos digo, senhor meu, das três leis dadas por Deus aos três povos nasce a questão: cada um acredita ter e seguir sua herança, a verdadeira lei e seus mandamentos; mas quem realmente a possui, como no caso dos anéis, ainda é uma questão pendente”: v. G. Boccaccio, Il Decamerone , org. V. Branca [Florença, 1951], I : 78) como o conto inteiro foi reescrito, começando pelo título ( Poli lo giovane con una novella di tre anella cessa una gran riprensione da tre donne apparecchiatagli ).
Como Castellione : v. D. Cantimori, “Castellioniana (et Servetiana)”, in Rivista storica italiana (1955), LXVII : 82.
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As possíveis relações com um ou outro grupo de heréticos : v. em geral as indicações metodológicas, a respeito de “contatos” e “in uências”, de L. Febvre, “Le origini della Riforma in Francia e il problema delle cause della Riforma”, in Studi su Riforma e Rinascimento e altri scritti su problemi di metodo e di geogra a storica , trad. ital. (Turim, 1966), pp. 5-70.
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Eu disse : v. ACAU , proc. n. 126, f. 17r.
Se esse livro ... : ibid., f. 22r.
Como está dito : v. Fioretto , op. cit., f. A III r.
E está dito , no princípio : v. Foresti, Supplementum , op. cit., f. IV (cito a edição veneziana de 1553).
Eu ouvi ele dizer ... : v. ACAU , proc. n. 126, f. 6r.
Eu disse ... : v. ibid., f. 17r. Os grifos (mais para a frente também) são meus.
O que era ... : v. ibid., f. 20r.
Santíssima majestade : v. ibid., f. 23r.
Eu acredito que o eterno Deus : v. ibid., ff. 30r-v.
Esse Deus : v. ibid., f. 31v.
26
O senhor ... anteriores : v. ibid., ff. 36v-37v. A transcrição é integral. Limitei-me a substituir os nomes dos dois interlocutores às formas “Interrogatus... respondit”.
27
Angélica , isto é , divina : v. Dante con l’espositioni de Christoforo Landino et d’Alessandro Vellutello (Veneza, 1578), f. 201r. À tese da criação do homem para compensar a queda dos anjos se alude também no Paradiso XXX , 134 ss. V., a respeito, B. Nardi, Dante e la cultura medievale : Nuovi saggi di loso a dantesca (Bari, 1949), pp. 316-9.
E esse Deus : v. ACAU , proc. n. 126, f. 17v.
Tivesse lido Dante : como exemplo de leitura de Dante em ambiente popular (porém urbano e orentino), v. V. Rossi, “Le lettere di un matto”, in Scritti di critica letteraria , II : Studi sul Petrarca e sul Rinascimento (Florença, 1930), p. 401 ss., principalmente p. 406 ss. Mais próximo do caso de Menocchio está o de um homem simples de Lucchesia, que se fazia chamar de Scolio. Sobre re exos de Dante no seu poema, v. a quarta nota do cap. 58.
Na verdade , ... não havia retirado ... dos livros ...: não temos prova de que Menocchio tivesse lido um dos textos vernaculares correntes da Biblioteca storica de Diodoro Siculo. No capítulo que abre essa obra, em todo caso, não se fala de queijo, embora se aluda à geração dos seres viventes da matéria putrefata. Sobre o sucesso da tal passagem voltarei a falar mais para a frente. Sabemos, isto sim, com certeza, que Menocchio tivera em suas mãos o Supplementum , de Foresti. Ali pôde encontrar, num breve resumo, algumas doutrinas cosmológicas que vinham da Antiguidade ou da Idade Média: “Resumindo todas essas coisas foram pelo livro do Gênese reunidas para que cada el entenda que a teologia das pessoas é toda em vão, ou melhor, comparando-a com Aquela, parece mais profanação do que teologia. Algumas dizem que não existe Deus; outras acreditavam que as estrelas xas no céu fossem fogo, ou então, fogo que por arte e movimento é carregado pelos céus e o adoravam em vez de Deus; outras diziam que o mundo não é governado pela providência de Deus, mas sim por uma natureza racional; algumas dizem que o mundo nunca teve princípio, sempre existiu e de modo algum começou por obra de Deus, mas do acaso e pela sorte foi ordenado;
nalmente, alguns átomos e corpos animados foram compostos...” ( Supplementum , op. cit., f. II r). Essa alusão ao “mundo feito ao acaso” reaparece (se não for, o que é pouco provável, um eco do Inferno IV , 136) num diálogo que o pároco de Polcenigo, Giovan Daniele Melchiori, reproduziu quando foi depor no Santo Ofício de Concórdia (16 de março). Quinze anos antes, um amigo — provavelmente se tratasse do próprio pároco — exclamara, caminhando pelo campo: “Grande é a bondade do senhor Deus em ter criado estas montanhas, estas planícies, a tão bela máquina do mundo”. Menocchio, que estava ao seu lado, perguntou: “Quem é que o senhor pensa que criou o mundo?”. “Deus.” “O senhor está enganado, porque o mundo foi criado por acaso. Se eu pudesse falar, falaria, mas não quero falar” ( ACAU , proc. n. 126, ff. 24v-25r).
Da mais perfeita ... : ibid., f. 37r.
Experimentos de Francesco Redi : em 1688, Redi demonstrou que, nas substâncias orgânicas livres do contato com o ar, a putrefação não ocorria e, portanto, muito menos a “geração espontânea”.
Walter Raleigh : citado in H. Haydn, The Counter-Renaissance (Nova York, 1960), p. 209.
Mitos antiquíssimos : v. U. Harva, Les représentations religieuses des peuples altaïques , trad. fr. (Paris, 1959), p. 63 ss.
No princípio ... : v. ACAU , proc. n. 126, f. 6r (e v. p. 105).
Não se pode excluir o fato de que ... : v. G. de Santillana e H. von Dechend, Hamlet’s Mill (Londres, 1970), pp. 382-3, que a rmam que o estudo exaustivo dessa tradição cosmogônica exigiria um livro só para o assunto. Quem sabe, por terem escrito um livro fascinante sobre a roda do moinho como imagem do círculo celeste, eles não considerariam não casual o fato de um moleiro citar essa antiquíssima cosmogonia. Infelizmente, não tenho competência su ciente para julgar uma pesquisa como a Hamlet’s Mill . Seus pressupostos e a audácia de certas passagens inspiram uma descon ança que é óbvia. Mas só pondo em discussão as certezas preguiçosamente adquiridas que é possível enfrentar o estudo de continuidades culturais tão persistentes.
O teólogo inglês Thomas Burnet : “Tellurem genitam esse atque ortum olim traxisse ex Chao, ut testatur antiquitas tam sacra quam profana, supponamus: per Chaos autem nihil aliud intelligo quam massam materiae exolutam indiscretam et uidam... Et cum notissimum sit liquores pingues et macros commixtos, data occasione vel libero aeri expositos, secedere ab invicem et separari, pinguesque innatare tenuibus; uti videmus in mistique aquae et olei, et in separatione oris lactis a lacte tenui, aliisque plurimus exemplis: aequum erit credere, hanc massam liquidorum se partitam esse induas massas, parte ipsius pingutore supernatante reliquae...” (suponhamos que a terra foi gerada e sua origem tenha sido o Caos, como reconhece a tradição sagrada e profana. Para mim o Caos nada mais é que uma massa de matéria dissociada, contínua e uida. E como é muito bem sabido que os uidos gordos e os magros estão misturados, dada a ocasião ou expostos ao ar livre, eles se desprendem e se separam e os gordos sobrenadam aos magros como vemos na mistura da água e do óleo, e na separação entre a nata do leite e o leite magro, e em muitos outros exemplos. Será justo acreditar que essa massa de líquidos se dividiu em duas massas das quais a mais gorda se sobrepôs à outra) (T. Burnet, Telluris theoria sacra , originem et mutationes generales orbis nostri , quas aut jam subiit , aut olim subiturus est , complectens , Amsterdã, 1699, p. 17, 22; agradeço de coração a Nicola Badaloni por ter me indicado essa passagem). Para as alusões sobre a cosmologia indiana, v. ibid., pp. 344-7, 541-4.