A Gênese: Os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo

Allan Kardec · Capítulo 34 de 81 · parte 2/3

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A Gênese: Os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo

Capítulo X · dos outros. essa multiplicação tão generalizada e,…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

são, como se sabe, os mais poderosos motores.

o fluido perispirítico constitui, pois, o traço de união entre o es-

pírito e a matéria. enquanto aquele se acha unido ao corpo, serve-lhe ele

de veículo ao pensamento, para transmitir o movimento às diversas par-

tes do organismo, as quais atuam sob a impulsão da sua vontade e para

fazer que repercutam no espírito as sensações que os agentes exteriores

produzam. servem-lhe de fios condutores os nervos como, no telégrafo,

ao fluido elétrico serve de condutor o fio metálico.

18. Quando o espírito tem de encarnar num corpo humano em

vias de formação, um laço fluídico, que mais não é do que uma expansão

 

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Capítulo XI

 

do seu perispírito, o liga ao gérmen que o atrai por uma força irresistível,

desde o momento da concepção. À medida que o gérmen se desenvolve,

o laço se encurta. sob a influência do princípio vital e material do gérmen,

o perispírito, que possui certas propriedades da matéria, se une, molé-

cula a molécula, ao corpo em formação, donde o poder dizer-se que o

espírito, por intermédio do seu perispírito, se enraíza, de certa maneira,

nesse gérmen, como uma planta na terra. Quando o gérmen chega ao

seu pleno desenvolvimento, completa é a união; nasce então o ser para a

vida exterior.

por um efeito contrário, a união do perispírito e da matéria carnal,

que se efetuara sob a influência do princípio vital do gérmen, cessa, desde

que esse princípio deixa de atuar, em consequência da desorganização do

corpo. mantida que era por uma força atuante, tal união se desfaz, logo

que essa força deixa de atuar. então, o perispírito se desprende, molécu-

la a molécula, conforme se unira, e ao espírito é restituída a liberdade.

Assim, não é a partida do Espírito que causa a morte do corpo; a morte é que

determina a partida do Espírito.

dado que, um instante após a morte, completa é a integração do

espírito; que suas faculdades adquirem até maior poder de penetração, ao

passo que o princípio de vida se acha extinto no corpo, provado eviden-

temente fica que são distintos o princípio vital e o princípio espiritual.

19. o espiritismo, pelos fatos cuja observação ele faculta, dá a

conhecer os fenômenos que acompanham essa separação, que, às vezes,

é rápida, fácil, suave e insensível, ao passo que doutras é lenta, laboriosa,

horrivelmente penosa, conforme o estado moral do espírito, e pode du-

rar meses inteiros.

20. um fenômeno particular, que a observação igualmente assinala,

acompanha sempre a encarnação do espírito. desde que este é apanhado

no laço fluídico que o prende ao gérmen, entra em estado de perturba-

ção, que aumenta, à medida que o laço se aperta, perdendo o espírito,

nos últimos momentos, toda a consciência de si próprio, de sorte que

jamais presencia o seu nascimento. Quando a criança respira, começa o

espírito a recobrar as faculdades, que se desenvolvem à proporção que se

formam e consolidam os órgãos que lhe hão de servir às manifestações.

21. mas, ao mesmo tempo que o espírito recobra a consciência de

si mesmo, perde a lembrança do seu passado, sem perder as faculdades,

 

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Gênese espiritual

 

as qualidades e as aptidões anteriormente adquiridas, que haviam ficado

temporariamente em estado de latência e que, voltando à atividade, vão

ajudá-lo a fazer mais e melhor do que antes. ele renasce qual se fizera

pelo seu trabalho anterior; o seu renascimento lhe é um novo ponto de

partida, um novo degrau a subir. Ainda aí a bondade do criador se ma-

nifesta, porquanto, adicionada aos amargores de uma nova existência, a

lembrança, muitas vezes aflitiva e humilhante, do passado, poderia turbá-

-lo e lhe criar embaraços. ele apenas se lembra do que aprendeu, por lhe

ser isso útil. se às vezes lhe é dado ter uma intuição dos acontecimentos

passados, essa intuição é como a lembrança de um sonho fugitivo. ei-lo,

pois, novo homem por mais antigo que seja como espírito. Adota novos

processos, auxiliado pelas suas aquisições precedentes. Quando retorna

à vida espiritual, seu passado se lhe desdobra diante dos olhos e ele julga

de como empregou o tempo, se bem ou mal.

22. não há, portanto, solução de continuidade na vida espiritual,

sem embargo do esquecimento do passado. cada espírito é sempre o

mesmo eu, antes, durante e depois da encarnação, sendo esta, apenas,

uma fase da sua existência. o próprio esquecimento se dá tão só no cur-

so da vida exterior de relação. durante o sono, desprendido, em parte,

dos liames carnais, restituído à liberdade e à vida espiritual, o espírito se

lembra, pois que, então, já não tem a visão tão obscurecida pela matéria.

23. tomando-se a humanidade no grau mais ínfimo da escala espi-

ritual, como se encontra entre os mais atrasados selvagens, perguntar-se-á

se é aí o ponto inicial da alma humana.

na opinião de alguns filósofos espiritualistas, o princípio inteligen-

te, distinto do princípio material, se individualiza e elabora, passando pe-

los diversos graus da animalidade. é aí que a alma se ensaia para a vida e

desenvolve, pelo exercício, suas primeiras faculdades. esse seria para ela,

por assim dizer, o período de incubação. chegada ao grau de desenvol-

vimento que esse estado comporta, ela recebe as faculdades especiais que

constituem a alma humana. Haveria assim filiação espiritual do animal

para o homem, como há filiação corporal.

este sistema, fundado na grande lei de unidade que preside à cria-

ção, corresponde, forçoso é convir, à justiça e à bondade do criador; dá

uma saída, uma finalidade, um destino aos animais, que deixam então

de formar uma categoria de seres deserdados, para terem, no futuro que

 

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Capítulo XI

 

lhes está reservado, uma compensação a seus sofrimentos. o que consti-

tui o homem espiritual não é a sua origem: são os atributos especiais de

que ele se apresenta dotado ao entrar na humanidade, atributos que o

transformam, tornando-o um ser distinto, como o fruto saboroso é dis-

tinto da raiz amarga que lhe deu origem. por haver passado pela fieira da

animalidade, o homem não deixaria de ser homem; já não seria animal,

como o fruto não é a raiz, como o sábio não é o feto informe que o pôs

no mundo.

mas este sistema levanta múltiplas questões, cujos prós e contras

não é oportuno discutir aqui, como não o é o exame das diferentes hipó-

teses que se têm formulado sobre este assunto. sem, pois, pesquisarmos a

origem do espírito, sem procurarmos conhecer as fieiras pelas quais haja

ele, porventura, passado, tomamo-lo ao entrar na humanidade, no ponto

em que, dotado de senso moral e de livre-arbítrio, começa a pesar-lhe a

responsabilidade dos seus atos.

24. A obrigação que tem o espírito encarnado de prover ao ali-

mento do corpo, à sua segurança, ao seu bem-estar, o força a empregar

suas faculdades em investigações, a exercitá-las e desenvolvê-las. Útil,

portanto, ao seu adiantamento é a sua união com a matéria. daí o consti-

tuir uma necessidade a encarnação. Além disso, pelo trabalho inteligente

que ele executa em seu proveito, sobre a matéria, auxilia a transforma-

ção e o progresso material do globo que lhe serve de habitação. é assim

que, progredindo, colabora na obra do criador, da qual se torna fator

inconsciente.

25. todavia, a encarnação do espírito não é constante, nem per-

pétua: é transitória. deixando um corpo, ele não retoma imediatamente

outro. durante mais ou menos considerável lapso de tempo, vive da vida

espiritual, que é sua vida normal, de tal sorte que insignificante vem a ser

o tempo que lhe duram as encarnações, se comparado ao que passa no

estado de espírito livre.

no intervalo de suas encarnações, o espírito progride igualmen-

te, no sentido de que aplica ao seu adiantamento os conhecimentos e a

experiência que alcançou no decorrer da vida corporal; examina o que fez

enquanto habitou a terra, passa em revista o que aprendeu, reconhece

suas faltas, traça planos e toma resoluções pelas quais conta guiar-se em

nova existência, com a ideia de melhor se conduzir. desse jeito, cada

 

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Gênese espiritual

 

existência representa um passo para a frente no caminho do progresso,

uma espécie de escola de aplicação.

26. normalmente, a encarnação não é uma punição para o espíri-

to, conforme pensam alguns, mas uma condição inerente à inferioridade

do espírito e um meio de ele progredir. (O céu e o inferno, cap. iii, itens

8 e seguintes.)

À medida que progride moralmente, o espírito se desmaterializa,

isto é, depura-se, com o subtrair-se à influência da matéria; sua vida se

espiritualiza, suas faculdades e percepções se ampliam; sua felicidade se

torna proporcional ao progresso realizado. entretanto, como atua em

virtude do seu livre-arbítrio, pode ele, por negligência ou má vontade,

retardar o seu avanço; prolonga, conseguintemente, a duração de suas

encarnações materiais, que, então, se lhe tornam uma punição, pois que,

por falta sua, ele permanece nas categorias inferiores, obrigado a reco-

meçar a mesma tarefa. depende, pois, do espírito abreviar, pelo traba-

lho de depuração executado sobre si mesmo, a extensão do período das

encarnações.

27. o progresso material de um planeta acompanha o progresso

moral de seus habitantes. ora, sendo incessante, como é a criação dos

mundos e dos espíritos e progredindo estes mais ou menos rapidamente,

conforme o uso que façam do livre-arbítrio, segue-se que há mundos

mais ou menos antigos, em graus diversos de adiantamento físico e mo-

ral, onde é mais ou menos material a encarnação e onde, por conseguin-

te, o trabalho, para os espíritos, é mais ou menos rude. deste ponto de

vista, a terra é um dos menos adiantados. povoada de espíritos relativa-

mente inferiores, a vida corpórea é aí mais penosa do que noutros orbes,

havendo-os também mais atrasados, onde a existência é ainda mais peno-

sa do que na terra e em confronto com os quais esta seria, relativamente,

um mundo ditoso.

28. Quando, em um mundo, os espíritos hão realizado a soma

de progresso que o estado desse mundo comporta, deixam-no para en-

carnar em outro mais adiantado, onde adquiram novos conhecimentos

e assim por diante, até que, não lhes sendo mais de proveito algum a

encarnação em corpos materiais, passam a viver exclusivamente da vida

espiritual, na qual continuam a progredir, mas noutro sentido e por

outros meios. chegados ao ponto culminante do progresso, gozam da

 

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Capítulo XI

 

suprema felicidade. Admitidos nos conselhos do onipotente, conhecem-

-lhe o pensamento e se tornam seus mensageiros, seus ministros diretos

no governo dos mundos, tendo sob suas ordens os espíritos de todos os

graus de adiantamento.

Assim, qualquer que seja o grau em que se achem na hierarquia

espiritual, do mais ínfimo ao mais elevado, têm eles suas atribuições no

grande mecanismo do universo; todos são úteis ao conjunto, ao mesmo

tempo que a si próprios. Aos menos adiantados, como a simples serviçais,

incumbe o desempenho, a princípio inconsciente, depois, cada vez mais

inteligente, de tarefas materiais. por toda parte, no mundo espiritual,

atividade, em nenhum ponto a ociosidade inútil.

A coletividade dos espíritos constitui, de certo modo, a alma do

universo. por toda parte, o elemento espiritual é que atua em tudo, sob o

influxo do pensamento divino. sem esse elemento, só há matéria inerte,

carente de finalidade, de inteligência, tendo por único motor as forças

materiais, cuja exclusividade deixa insolúveis uma imensidade de proble-

mas. com a ação do elemento espiritual individualizado, tudo tem uma

finalidade, uma razão de ser, tudo se explica. prescindindo da espirituali-

dade, o homem esbarra em dificuldades insuperáveis.

29. Quando a terra se encontrou em condições climáticas apro-

priadas à existência da espécie humana, encarnaram nela espíritos hu-

manos. donde vinham? Quer eles tenham sido criados naquele mo-

mento; quer tenham procedido, completamente formados, do espaço,

de outros mundos, ou da própria terra, a presença deles nesta, a partir

de certa época, é um fato, pois que antes deles só animais havia. revesti-

ram-se de corpos adequados às suas necessidades especiais, às suas apti-

dões, e que, fisiologicamente, tinham as características da animalidade.

sob a influência deles e por meio do exercício de suas faculdades, esses

corpos se modificaram e aperfeiçoaram: é o que a observação comprova.

deixemos então de lado a questão da origem, insolúvel por enquanto;

consideremos o espírito, não em seu ponto de partida, mas no momen-

to em que, manifestando-se nele os primeiros germens do livre-arbítrio

e do senso moral o vemos a desempenhar o seu papel humanitário, sem

cogitarmos do meio onde haja transcorrido o período de sua infância,

ou, se o preferirem, de sua incubação. malgrado a analogia do seu envol-

tório com o dos animais, poderemos diferençá-lo destes últimos pelas

 

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Gênese espiritual

 

faculdades intelectuais e morais que o caracterizam, como, debaixo das

mesmas vestes grosseiras, distinguimos o rústico do homem civilizado.

30. conquanto devessem ser pouco adiantados os primeiros que

vieram, pela razão mesma de terem de encarnar em corpos muito imper-

feitos, diferenças sensíveis haveria decerto entre seus caracteres e apti-

dões. os que se assemelhavam, naturalmente se agruparam por analogia

e simpatia. Achou-se a terra, assim, povoada de espíritos de diversas

categorias, mais ou menos aptos ou rebeldes ao progresso. recebendo os

corpos a impressão do caráter do espírito e procriando-se esses corpos

na conformidade dos respectivos tipos, resultaram daí diferentes raças,

quer quanto ao físico, quer quanto ao moral (item 11). continuando a

encarnar entre os que se lhes assemelhavam, os espíritos similares perpe-

tuaram o caráter distintivo, físico e moral, das raças e dos povos, caráter

que só com o tempo desaparece, mediante a fusão e o progresso deles.

(Revista espírita, julho de 1860: Frenologia e Fisiognomonia.)116

31. podem comparar-se os espíritos que vieram povoar a terra a

esses bandos de emigrantes de origens diversas, que vão estabelecer-se

numa terra virgem, onde encontram madeira e pedra para erguerem ha-

bitações, cada um dando à sua um cunho especial, de acordo com o grau

do seu saber e com o seu gênio particular. grupam-se então por analogia

de origens e de gostos, acabando os grupos por formar tribos, em seguida

povos, cada qual com costumes e caracteres próprios.

32. não foi, portanto, uniforme o progresso em toda a espécie hu-

mana. como era natural, as raças mais inteligentes adiantaram-se às ou-

tras, mesmo sem se levar em conta que muitos espíritos recém-nascidos

para a vida espiritual, vindo encarnar na terra com os primeiros aí che-

gados, tornaram ainda mais sensível a diferença em matéria de progresso.

fora, com efeito, impossível atribuir-se a mesma ancianidade de criação

aos selvagens, que mal se distinguem do macaco, e aos chineses, nem,

ainda menos, aos europeus civilizados.

entretanto, os espíritos dos selvagens também fazem parte da hu-

manidade e alcançarão um dia o nível em que se acham seus irmãos

mais velhos. mas sem dúvida, não será em corpos da mesma raça física,

impróprios a um certo desenvolvimento intelectual e moral. Quando

o instrumento já não estiver em correspondência com o progresso que

116 N.E.: Ver Nota Explicativa, p. 375.

 

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Capítulo XI

 

hajam alcançado, eles emigrarão daquele meio, para encarnar noutro

mais elevado e assim por diante, até que tenham conquistado todas as

graduações terrestres, ponto em que deixarão a terra, para passar a mun-

dos mais avançados. (Revista espírita, abril de 1862: Perfectibilidade da

Raça Negra.)

 

Reencarnações

 

33. o princípio da reencarnação é uma consequência necessária

da lei de progresso. sem a reencarnação, como se explicaria a diferença

que existe entre o presente estado social e o dos tempos de barbárie? se

as almas são criadas ao mesmo tempo que os corpos, as que nascem hoje

são tão novas, tão primitivas, quanto as que viviam há mil anos; acrescen-

temos que nenhuma conexão haveria entre elas, nenhuma relação neces-

sária; seriam de todo estranhas umas às outras. por que, então, as de hoje

haviam de ser melhor dotadas por deus, do que as que as precederam?

por que têm aquelas melhor compreensão? por que possuem instintos

mais apurados, costumes mais brandos? por que têm a intuição de certas

coisas, sem as haverem aprendido? duvidamos de que alguém saia desses

dilemas, a menos admita que deus cria almas de diversas qualidades, de

acordo com os tempos e lugares, proposição inconciliável com a ideia de

uma justiça soberana. (cap. ii, item 10.)

Admiti, ao contrário, que as almas de agora já viveram em tempos

distantes; que possivelmente foram bárbaras como os séculos em que es-

tiveram no mundo, mas que progrediram; que para cada nova existência

trazem o que adquiriram nas existências precedentes; que, por conse-

guinte, as dos tempos civilizados não são almas criadas mais perfeitas,

porém que se aperfeiçoaram por si mesmas com o tempo, e tereis a única

explicação plausível da causa do progresso social. (O livro dos espíritos,

parte 2a, caps. iv e v.)

34. pensam alguns que as diferentes existências da alma se efetuam,

passando elas de mundo em mundo e não num mesmo orbe, onde cada

espírito viria uma única vez.

seria admissível esta doutrina, se todos os habitantes da terra es-

tivessem no mesmo nível intelectual e moral. eles então só poderiam

progredir indo de um mundo a outro e nenhuma utilidade lhes adviria

 

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Gênese espiritual

 

da encarnação na terra. desde que aí se notam a inteligência e a mo-

ralidade em todos os graus, desde a selvajaria que beira o animal até a

mais adiantada civilização, é evidente que esse mundo constitui um vasto

campo de progresso. por que haveria o selvagem de ir procurar alhures o

grau de progresso logo acima do em que ele está, quando esse grau se lhe

acha ao lado e assim sucessivamente? por que não teria podido o homem

adiantado fazer os seus primeiros estágios senão em mundos inferiores,

quando ao seu derredor estão seres análogos aos desses mundos? quando,

não só de povo a povo, mas no seio do mesmo povo e da mesma família,

há diferentes graus de adiantamento? se fosse assim, deus houvera feito

coisa inútil, colocando lado a lado a ignorância e o saber, a barbaria e a

civilização, o bem e o mal, quando precisamente esse contato é que faz

que os retardatários avancem.

não há, pois, necessidade de que os homens mudem de mundo a

cada etapa de aperfeiçoamento, como não há de que o estudante mude

de colégio para passar de uma classe a outra. longe de ser isso vantagem

para o progresso, ser-lhe-ia um entrave, porquanto o espírito ficaria

privado do exemplo que lhe oferece a observação do que ocorre nos

graus mais elevados e da possibilidade de reparar seus erros no mesmo

meio e em presença dos a quem ofendeu, possibilidade que é, para ele,

o mais poderoso modo de realizar o seu progresso moral. Após cur-

ta coabitação, dispersando-se os espíritos e tornando-se estranhos uns

aos outros, romper-se-iam os laços de família, à falta de tempo para se

consolidarem.

Ao inconveniente moral se juntaria um inconveniente material.

A natureza dos elementos, as leis orgânicas, as condições de existência

variam, de acordo com os mundos; sob esse aspecto, não há dois perfei-

tamente idênticos. os tratados de física, de Química, de Anatomia, de

medicina, de botânica etc., para nada serviriam nos outros mundos; en-

tretanto, não fica perdido o que neles se aprende; não só isso desenvolve a

inteligência, como também as ideias que se colhem de tais obras auxiliam

a aquisição de outras. (cap. vi, itens 61 e seguintes.) se apenas uma úni-

ca vez fizesse o espírito a sua aparição, frequentemente brevíssima, num

mesmo mundo, em cada imigração ele se acharia em condições inteira-

mente diversas; operaria de cada vez sobre elementos novos, com força

e segundo leis que desconheceria, antes de ter tido tempo de elaborar os

 

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Capítulo XI

 

elementos conhecidos, de os estudar, de os aplicar. teria de fazer, de cada

vez, um novo aprendizado e essas mudanças contínuas representariam

um obstáculo ao progresso. o espírito, portanto, tem que permanecer

no mesmo mundo, até que haja adquirido a soma de conhecimentos e o

grau de perfeição que esse mundo comporta. (item 31.)

Que os espíritos deixem, por um mundo mais adiantado, aquele

do qual nada mais podem auferir, é como deve ser e é. tal o princípio.

se alguns há que antecipadamente deixam o mundo em que vinham

encarnando, é isso devido a causas individuais que deus pesa em sua

sabedoria.

tudo na criação tem uma finalidade, sem o que deus não seria

nem prudente, nem sábio. ora, se a terra se destinasse a ser uma única

etapa do progresso para cada indivíduo, que utilidade haveria, para os

espíritos das crianças que morrem em tenra idade, vir passar aí alguns

anos, alguns meses, algumas horas, durante os quais nada podem hau-

rir dele? o mesmo ocorre se pondere com referência aos idiotas e aos

cretinos. uma teoria somente é boa sob a condição de resolver todas as

questões a que diz respeito. A questão das mortes prematuras há sido

uma pedra de tropeço para todas as doutrinas, exceto para a doutrina

espírita, que a resolveu de maneira racional e completa.

para o progresso daqueles que cumprem na terra uma missão nor-

mal, há vantagem real em volverem ao mesmo meio para aí continuarem

o que deixaram inacabado, muitas vezes na mesma família ou em contato

com as mesmas pessoas, a fim de repararem o mal que tenham feito, ou

de sofrerem a pena de talião.

 

Emigrações e imigrações dos Espíritos

 

35. no intervalo de suas existências corporais, os espíritos se en-

contram no estado de erraticidade e formam a população espiritual am-

biente da terra. pelas mortes e pelos nascimentos, as duas populações,

terrestre e espiritual, deságuam incessantemente uma na outra. Há, pois,

diariamente, emigrações do mundo corpóreo para o mundo espiritual e

imigrações deste para aquele: é o estado normal.

36. em certas épocas, determinadas pela sabedoria divina, es-

sas emigrações e imigrações se operam por massas mais ou menos

 

198

Gênese espiritual

 

consideráveis, em virtude das grandes revoluções que lhes ocasionam

a partida simultânea em quantidades enormes, logo substituídas por

equivalentes quantidades de encarnações. os flagelos destruidores e os

cataclismos devem, portanto, considerar-se como ocasiões de chegadas

e partidas coletivas, meios providenciais de renovamento da popula-

ção corporal do globo, de ela se retemperar pela introdução de novos

elementos espirituais mais depurados. na destruição, que por essas ca-

tástrofes se verifica, de grande número de corpos, nada mais há do que

rompimento de vestiduras; nenhum espírito perece; eles apenas mudam

de planos; em vez de partirem isoladamente, partem em bandos, essa a

única diferença, visto que, ou por uma causa ou por outra, fatalmente

têm que partir, cedo ou tarde.

As renovações rápidas, quase instantâneas, que se produzem no

elemento espiritual da população, por efeito dos flagelos destruidores,

apressam o progresso social; sem as emigrações e imigrações que de tem-

pos a tempos lhe vêm dar violento impulso, só com extrema lentidão esse

progresso se realizaria.

é de notar-se que todas as grandes calamidades que dizimam as

populações são sempre seguidas de uma era de progresso de ordem física,

intelectual, ou moral e, por conseguinte, no estado social das nações que

as experimentam. é que elas têm por fim operar uma remodelação na

população espiritual, que é a população normal e ativa do globo.

37. essa transfusão, que se efetua entre a população encarnada e de-

sencarnada de um planeta, igualmente se efetua entre os mundos, quer in-

dividualmente, nas condições normais, quer por massas, em circunstâncias

especiais. Há, pois, emigrações e imigrações coletivas de um mundo para

outro, donde resulta a introdução, na população de um deles, de elementos

inteiramente novos. novas raças de espíritos, vindo misturar-se às exis-

tentes, constituem novas raças de homens. ora, como os espíritos nunca

mais perdem o que adquiriram, consigo trazem eles sempre a inteligência

e a intuição dos conhecimentos que possuem, o que faz que imprimam o

caráter que lhes é peculiar à raça corpórea que venham animar. para isso,

só necessitam de que novos corpos sejam criados para serem por eles usa-

dos. uma vez que a espécie corporal existe, eles encontram sempre corpos

prontos para os receber. não são mais, portanto, do que novos habitantes.

 

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Capítulo XI

 

chegando à terra, integram-lhe, a princípio, a população espiritual; depois,

encarnam, como os outros.

 

Raça adâmica

 

38. de acordo com o ensino dos espíritos, foi uma dessas grandes

imigrações, ou, se quiserem, uma dessas colônias de Espíritos, vinda de

outra esfera, que deu origem à raça simbolizada na pessoa de Adão e, por

essa razão mesma, chamada raça adâmica. Quando ela aqui chegou, a

terra já estava povoada desde tempos imemoriais, como a América, quan-

do aí chegaram os europeus.

mais adiantada do que as que a tinham precedido neste planeta, a

raça adâmica é, com efeito, a mais inteligente, a que impele ao progresso

todas as outras. A gênese no-la mostra, desde os seus primórdios, indus-

triosa, apta às artes e às ciências, sem haver passado aqui pela infância

espiritual, o que não se dá com as raças primitivas, mas concorda com a

opinião de que ela se compunha de espíritos que já tinham progredido

bastante. tudo prova que a raça adâmica não é antiga na terra e nada

se opõe a que seja considerada como habitando este globo desde apenas

alguns milhares de anos, o que não estaria em contradição nem com os

fatos geológicos, nem com as observações antropológicas, antes tenderia

a confirmá-las.

39. no estado atual dos conhecimentos, não é admissível a dou-

trina segundo a qual todo o gênero humano procede de uma individua-

lidade única, de há seis mil anos somente a esta parte. tomadas à ordem

física e à ordem moral, as considerações que a contradizem se resumem

no seguinte:

do ponto de vista fisiológico, algumas raças apresentam carac-

terísticos tipos particulares, que não permitem se lhes assinale uma

origem comum. Há diferenças que evidentemente não são simples

efeito do clima, pois que os brancos que se reproduzem nos países dos

negros não se tornam negros e reciprocamente. o ardor do sol tosta

e brune a epiderme, porém, nunca transformou um branco em negro,

nem lhe achatou o nariz, ou mudou a forma dos traços da fisiono-

mia, nem lhe tornou lanzudo e encarapinhado o cabelo comprido e

 

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Gênese espiritual

 

sedoso. sabe-se hoje que a cor do negro provém de um tecido especial

subcutâneo,117 peculiar à espécie.

Há, pois, de se considerar as raças negras, mongólicas, caucásicas

como tendo origem própria, como tendo nascido simultânea ou suces-

sivamente em diversas partes do globo. o cruzamento delas produziu as

raças mistas secundárias. os caracteres fisiológicos das raças primitivas

constituem indício evidente de que elas procedem de tipos especiais.

As mesmas considerações se aplicam, conseguintemente, assim aos ho-

mens, quanto aos animais, no que concerne à pluralidade dos troncos.

(cap. X, itens 2 e seguintes.)

40. Adão e seus descendentes são apresentados na gênese como

homens sobremaneira inteligentes, pois que, desde a segunda geração,

constroem cidades, cultivam a terra, trabalham os metais. são rápidos e

duradouros seus progressos nas artes e nas ciências. não se conceberia,

portanto, que esse tronco tenha tido, como ramos, numerosos povos tão

atrasados, de inteligência tão rudimentar, que ainda em nossos dias ras-

tejam a animalidade, que hajam perdido todos os traços e, até, a menor

lembrança do que faziam seus pais. tão radical diferença nas aptidões in-

telectuais e no desenvolvimento moral atesta, com evidência não menor,

uma diferença de origem.

41. independentemente dos fatos geológicos, da população do glo-

bo se tira a prova da existência do homem na terra, antes da época fixada

pela gênese.

sem falar da cronologia chinesa, que remonta, dizem, a trinta mil

anos,118 documentos mais autênticos provam que o egito, a índia e ou-

tros países já eram povoados e floresciam, pelo menos, três mil anos antes

da era cristã, mil anos, portanto, depois da criação do primeiro homem,

segundo a cronologia bíblica. documentos e observações recentes não

consentem hoje dúvida alguma quanto às relações que existiram entre a

América e os antigos egípcios, donde se tem de concluir que essa região

já era povoada naquela época. forçoso então seria admitir-se que, em mil

 

117 N.E.: A pele é praticamente idêntica em todos os grupos étnicos humanos. Nos indivíduos de pele

escura, os melanócitos produzem mais melanina que naqueles de pele clara. A responsável pela pig-

mentação da pele humana é a atividade química de melanócitos, que varia de acordo com o DNA de

cada indivíduo.

118 N.E.: Os vestígios humanos mais antigos encontrados na China datam de 1,7 milhão de anos. A dinas-

tia Xia é considerada a primeira e data de 2000 a.C.

 

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Capítulo XI

 

anos, a posteridade de um único homem pôde povoar a maior parte da

terra. ora, semelhante fecundidade estaria em antagonismo com todas

as leis antropológicas.119

42. Ainda mais evidente se torna a impossibilidade, desde que se

admita, com a gênese, que o dilúvio destruiu todo o gênero humano, com

exceção de noé e de sua família, que não era numerosa, no ano de 1656

do mundo, ou seja, 2.348 anos antes da era cristã. em realidade, pois,

daquele patriarca é que dataria o povoamento da terra. ora, quando os

hebreus se estabeleceram no egito, 612 anos após o dilúvio, já o egito

era um poderoso império, que teria sido povoado, sem falar de outros

países, em menos de seis séculos, só pelos descendentes de noé, o que

não é admissível.

notemos, de passagem, que os egípcios acolheram os hebreus

como estrangeiros. seria de espantar que houvessem perdido a lembran-

ça de uma tão próxima comunidade de origem, quando conservaram

religiosamente os monumentos de sua história.

rigorosa lógica, com os fatos a corroborá-la da maneira mais pe-

remptória, mostra, pois, que o homem está na terra desde tempo in-

determinado, muito anterior à época que a gênese assinala. o mesmo

ocorre com a diversidade dos troncos primitivos, porquanto demons-

trar a impossibilidade de uma proposição é demonstrar a proposição

contrária. se a geologia descobre traços autênticos da presença do

homem antes do grande período diluviano, ainda mais completa é a

demonstração.

 

119 Nota de Allan Kardec: Na Exposição Universal de 1867, apresentaram-se antiguidades do México que

nenhuma dúvida deixam sobre as relações que os povos desse país tiveram com os antigos egípcios.

O Sr. Léon Méchedin, numa nota afixada no templo mexicano da Exposição, assim se exprimia:

“Não é conveniente se publiquem, prematuramente, as descobertas feitas, do ponto de vista da his-

tória do homem, pela recente expedição científica do México.

Entretanto, nada se opõe a que o público saiba, desde já, que a exploração assinalou a existência

de grande número de cidades desaparecidas com o tempo, mas que a picareta e o incêndio podem

retirar de suas mortalhas. As escavações puseram a descoberto, por toda parte, três camadas de civi-

lizações, que dão ao mundo americano uma antiguidade fabulosa.”

É assim que todos os dias a Ciência opõe o desmentido dos fatos à doutrina que limita a 6.000 anos a

aparição do homem na Terra e pretende fazê-lo derivar de um tronco único.

 

202

Gênese espiritual

 

Doutrina dos anjos decaídos e

 

da perda do paraíso120

 

43. os mundos progridem, fisicamente, pela elaboração da maté-

ria e, moralmente, pela purificação dos espíritos que os habitam. A feli-

cidade neles está na razão direta da predominância do bem sobre o mal

e a predominância do bem resulta do adiantamento moral dos espíritos.

o progresso intelectual não basta, pois que com a inteligência podem

eles fazer o mal.

logo que um mundo tem chegado a um de seus períodos de

transformação, a fim de ascender na hierarquia dos mundos, operam-se

mutações na sua população encarnada e desencarnada. é quando se dão

as grandes emigrações e imigrações (itens 34 e 35). os que, apesar da sua

inteligência e do seu saber, perseveraram no mal, sempre revoltados con-

tra deus e suas leis, se tornariam daí em diante um embaraço ao ulterior

progresso moral, uma causa permanente de perturbação para a tranquili-

dade e a felicidade dos bons, pelo que são excluídos da humanidade a que

até então pertenceram e tangidos para mundos menos adiantados, onde

aplicarão a inteligência e a intuição dos conhecimentos que adquiriram

ao progresso daqueles entre os quais passam a viver, ao mesmo tempo

que expiarão, por uma série de existências penosas e por meio de árduo

trabalho, suas passadas faltas e seu voluntário endurecimento.

Que serão tais seres, entre essas outras populações, para eles no-

vas, ainda na infância da barbárie, senão anjos ou espíritos decaídos, ali

vindos em expiação? não é, precisamente, para eles, um paraíso perdido

a terra donde foram expulsos? essa terra não lhes era um lugar de delícias,

em comparação com o meio ingrato onde vão ficar relegados por milha-

res de séculos, até que hajam merecido libertar-se dele? A vaga lembrança

 

120 Nota de Allan Kardec: Quando, na Revista espírita de janeiro de 1862, publicamos um artigo sobre

a interpretação da doutrina dos anjos decaídos, apresentamos essa teoria como simples hipótese,

sem outra autoridade afora a de uma opinião pessoal controvertível, porque nos faltavam então

elementos bastantes para uma afirmação peremptória. Expusemo-la a título de ensaio, tendo em

vista provocar o exame da questão, decididos, porém, a abandoná-la ou modificá-la, se fosse pre-

ciso. Presentemente, essa teoria já passou pela prova do controle universal. Não só foi bem-aceita

pela maioria dos espíritas, como a mais racional e a mais concorde com a soberana Justiça de Deus,

mas também foi confirmada pela generalidade das instruções que os Espíritos deram sobre o as-

sunto. O mesmo se verificou com a que concerne à origem da raça adâmica.

 

203

Capítulo XI

 

intuitiva que guardam da terra donde vieram é uma como longínqua

miragem a lhes recordar o que perderam por culpa própria.

44. Ao mesmo tempo que os maus se afastam do mundo em que

habitavam, espíritos melhores aí os substituem, vindos quer da erratici-

dade, concernente a esse mundo, quer de um mundo menos adiantado,

que mereceram abandonar; espíritos esses para os quais a nova habitação

é uma recompensa. Assim renovada e depurada a população espiritual

dos seus piores elementos, ao cabo de algum tempo o estado moral do

mundo se encontra melhorado.

são às vezes parciais essas mutações, isto é, circunscritas a um

povo, a uma raça; doutras vezes, são gerais, quando chega para o globo o

período de renovação.

45. A raça adâmica apresenta todos os caracteres de uma raça pros-

crita. os espíritos que a integram foram exilados para a terra, já po-

voada, mas de homens primitivos, imersos na ignorância, que aqueles

tiveram por missão fazer progredir, levando-lhes as luzes de uma inteli-

gência desenvolvida. não é esse, com efeito, o papel que essa raça há de-

sempenhado até hoje? sua superioridade intelectual prova que o mundo

donde vieram os espíritos que a compõem era mais adiantado do que

a terra. Havendo entrado esse mundo numa nova fase de progresso e

não tendo tais espíritos querido, pela sua obstinação, colocar-se à altura

desse progresso, lá estariam deslocados e constituiriam um obstáculo à

marcha providencial das coisas. foram, em consequência, desterrados de

lá e substituídos por outros que isso mereceram.

relegando aquela raça para esta terra de labor e de sofrimentos,

teve deus razão para lhe dizer: “dela tirarás o alimento com o suor da

tua fronte.” na sua mansuetude, prometeu-lhe que lhe enviaria um Sal-

vador, isto é, um ser que a esclareceria sobre o caminho que lhe cumpria

tomar, para sair desse lugar de miséria, desse inferno, e ganhar a felicidade

dos eleitos. esse salvador, ele lho enviou na pessoa do cristo, que lhe

ensinou a lei de amor e de caridade que ela, a raça, desconhecia e que

seria a verdadeira âncora de salvação.

é igualmente com o objetivo de fazer que a humanidade se adian-

te em determinado sentido que espíritos superiores, embora não te-

nham as qualidades do cristo, encarnam de tempos a tempos na terra

para desempenhar missões especiais, proveitosas, simultaneamente, ao

 

204

Gênese espiritual

 

adiantamento pessoal deles, se as cumprirem de acordo com os desígnios

do criador.

46. sem a reencarnação, a missão do cristo seria um contrassenso,

assim como a promessa feita por deus. suponhamos, com efeito, que a

alma de cada homem seja criada por ocasião do nascimento do corpo e

não faça mais do que aparecer e desaparecer da terra: nenhuma relação

haveria entre as que vieram desde Adão até Jesus cristo, nem entre as

que vieram depois; todas são estranhas umas às outras. A promessa que

deus fez de um salvador não poderia entender-se com os descendentes

de Adão, uma vez que suas almas ainda não estavam criadas. para que

a missão do cristo pudesse corresponder às palavras de deus, fora mis-

ter se aplicassem às mesmas almas. se estas são novas, não podem estar

maculadas pela falta do primeiro pai, que é apenas pai carnal e não pai

espiritual. A não ser assim, deus houvera criado almas com a mácula

de uma falta que não podia deixar nelas vestígio, pois que elas não exis-

tiam. A doutrina vulgar do pecado original implica, conseguintemente,

a necessidade de uma relação entre as almas do tempo do cristo e as do

tempo de Adão; implica, portanto, a reencarnação.

dizei que todas essas almas faziam parte da colônia de espíritos

exilados na terra ao tempo de Adão e que se achavam manchadas dos

vícios que lhes acarretaram ser excluídas de um mundo melhor e tereis a

única interpretação racional do pecado original, pecado peculiar a cada

indivíduo e não resultado da responsabilidade da falta de outrem a quem

ele jamais conheceu. dizei que essas almas ou espíritos renascem diversas

vezes na terra para a vida corpórea, a fim de progredirem, depurando-se;

que o cristo veio esclarecer essas mesmas almas, não só acerca de suas vi-

das passadas, como também com relação às suas vidas ulteriores e então,

mas só então, lhe dareis à missão um sentido real e sério, que a razão

pode aceitar.

47. um exemplo familiar, mas frisante pela analogia, ainda mais

compreensíveis tornará os princípios que acabam de ser expostos.

A 24 de maio de 1861, a fragata Ifigênia transportou à nova

caledônia121 uma companhia disciplinar composta de 291 homens. À

chegada, o comandante lhes baixou uma ordem do dia concebida assim:

 

121 N.E.: Território francês ultramarino.

 

205

Capítulo XI

 

“pondo os pés nesta terra longínqua, já sem dúvida compreendes-

tes o papel que vos está reservado.

A exemplo dos bravos soldados da nossa marinha, que servem sob

as vossas vistas, ajudar-nos-eis a levar com brilho o facho da civilização

ao seio das tribos selvagens da nova caledônia. não é uma bela e nobre

missão, pergunto? desempenhá-la-eis dignamente.

escutai a palavra e os conselhos dos vossos chefes. estou à frente

deles. entendei bem as minhas palavras.

A escolha do vosso comandante, dos vossos oficiais, dos vossos su-

boficiais e cabos constitui garantia certa de que todos os esforços serão

tentados para fazer-vos excelentes soldados, digo mais: para vos elevar

à altura de bons cidadãos e vos transformar em colonos honrados, se o

quiserdes.

A nossa disciplina é severa e assim tem que ser. colocada em nos-

sas mãos, ela será firme e inflexível, ficai sabendo, do mesmo modo que,

justa e paternal, saberá distinguir o erro do vício e da degradação...”

Aí tendes um punhado de homens expulsos, pelo seu mau pro-

ceder, de um país civilizado e mandados, por punição, para o meio de

um povo bárbaro. Que lhes diz o chefe? — “infringistes as leis do vosso

país; nele vos tornastes causa de perturbação e escândalo e fostes expul-

sos; mandam-vos para aqui, mas aqui podeis resgatar o vosso passado;

podeis, pelo trabalho, criar-vos aqui uma posição honrosa e tornar-vos

cidadãos honestos. tendes uma bela missão a cumprir: levar a civilização

a estas tribos selvagens. A disciplina será severa, mas justa, e saberemos

distinguir os que procederem bem. tendes nas mãos a vossa sorte; podeis

melhorá-la, se o quiserdes, porque tendes o livre-arbítrio.”

para aqueles homens, lançados ao seio da selvajaria, a mãe-pátria

não é um paraíso que eles perderam pelas suas próprias faltas e por se re-

belarem contra a lei? naquela terra distante, não são eles anjos decaídos?

A linguagem do chefe não é idêntica à de que usou deus falando aos

espíritos exilados na terra: “desobedecestes às minhas leis e, por isso,

eu vos expulsei do mundo onde podíeis viver ditosos e em paz. Aqui,

estareis condenados ao trabalho; mas, podereis, pelo vosso bom procedi-

mento, merecer perdão e reganhar a pátria que perdestes por vossa falta,

isto é, o céu?”

 

206

Gênese espiritual

 

48. À primeira vista, a ideia de decaimento parece em contradição

com o princípio segundo o qual os espíritos não podem retrogradar.

deve-se, porém, considerar que não se trata de um retrocesso ao esta-

do primitivo. o espírito, ainda que numa posição inferior, nada perde

do que adquiriu; seu desenvolvimento moral e intelectual é o mesmo,

qualquer que seja o meio onde se ache colocado. ele está na situação do

homem do mundo condenado à prisão por seus delitos. certamente,

esse homem se encontra degradado, decaído, do ponto de vista social,

mas não se torna nem mais estúpido, nem mais ignorante.

49. será crível, perguntamos agora, que esses homens mandados

para a nova caledônia vão transformar-se de súbito em modelos de vir-

tude? Que vão abjurar repentinamente seus erros do passado? para supor

tal coisa, fora necessário desconhecer a humanidade. pela mesma razão,

os espíritos da raça adâmica, uma vez transplantados para a terra do

exílio, não se despojaram instantaneamente do seu orgulho e de seus

maus instintos; ainda por muito tempo conservaram as tendências que

traziam, um resto da velha levedura. ora, não é esse o pecado original?

 

207

cApítulo Xii

 

M

 

gênese moisaica

 

• os seis dias • perda do paraíso

 

Os seis dias

 

1. cApítulo 1. — 1. no começo criou deus o céu e a terra. — 2. A terra

era uniforme e inteiramente nua; as trevas cobriam a face do abismo e o espírito

de deus boiava sobre as águas. — 3. ora, deus disse: “faça-se a luz e a luz foi

feita.” — 4. deus viu que a luz era boa e separou a luz das trevas. — 5. deu

à luz o nome de dia e às trevas o nome de noite e da tarde e da manhã se fez o

primeiro dia.

 

6. disse deus também: “faça-se o firmamento no meio das águas e que ele se-

pare das águas as águas.” — 7. e deus fez o firmamento e separou as águas que

estavam debaixo do firmamento das que estavam acima do firmamento. e assim

se fez. — 8. e deus deu ao firmamento o nome de céu; da tarde e da manhã se

fez o segundo dia.

 

9. disse deus ainda: “reúnam-se num só lugar as águas que estão sob o céu e

apareça o elemento árido.” e assim se fez. — 10. deus deu ao elemento árido

o nome de terra e chamou mar a todas as águas reunidas. e viu que isso estava

bem. — 11. disse mais: “produza a terra a erva verde que traz a semente e árvo-

res frutíferas que deem frutos cada um de uma espécie, e que contenham em si

mesmas as suas sementes, para se reproduzirem na terra.” e assim se fez. — 12.

A terra então produziu a erva verde que trazia consigo a sua semente, conforme

Capítulo XII

 

a espécie, e árvores frutíferas que continham em si mesmas suas sementes, cada

uma de acordo com a sua espécie. e deus viu que estava bom. — 13. e da tarde

e da manhã se fez o terceiro dia.

 

14. deus disse também: “façam-se corpos de luz no firmamento do céu, a fim

de que separem o dia da noite e sirvam de sinais para marcar o tempo e as esta-

ções, os dias e os anos. — 15. brilhem eles no firmamento do céu e iluminem a

terra.” e assim se fez. — 16. deus então fez dois grandes corpos luminosos, um,

maior, para presidir ao dia, o outro, menor, para presidir à noite; fez também as

estrelas. — 17. e os pôs no firmamento do céu, para brilharem sobre a terra. —

18. para presidirem ao dia e à noite e para separarem a luz das trevas. e deus viu

que estava bom. — 19. e da tarde e da manhã se fez o quarto dia.

 

20. disse deus ainda: “produzam as águas animais vivos que nadem e pássaros

que voem sobre a terra debaixo do firmamento do céu.” —21. deus então criou

os grandes peixes e todos os animais que têm vida e movimento, que as águas

produziram, cada um de uma espécie, e criou também todos os pássaros, cada

um de uma espécie. viu que estava bom. — 22. e os abençoou, dizendo: “cres-

cei e multiplicai-vos e enchei as águas do mar; e que os pássaros se multipliquem

Continuar: parte 3 de 3