A Gênese: Os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo

Allan Kardec · Capítulo 34 de 81 · parte 3/3

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A Gênese: Os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo

Capítulo X · dos outros. essa multiplicação tão generalizada e,…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

sobre a terra.” — 23. e da tarde e da manhã se fez o quinto dia.

 

24. também disse deus: “produza a terra animais vivos, cada um de sua espécie,

os animais domésticos e os animais selvagens, em suas diferentes espécies.” e as-

sim se fez. — 25. deus fez, pois, os animais selvagens da terra em suas espécies,

os animais domésticos e todos os reptis, cada um de sua espécie. e deus viu que

estava bom.

 

26. disse, em seguida: “façamos o homem a nossa imagem e semelhança e

que ele mande sobre os peixes do mar, os pássaros do céu, os animais, sobre

toda a terra e sobre todos os reptis que se movem na terra.” — 27. deus então

criou o homem à sua imagem e o criou à imagem de deus e o criou macho e

fêmea. — 28. deus os abençoou e lhes disse: “crescei e multiplicai-vos, enchei

a terra e sujeitai-a, dominai sobre os peixes do mar, sobre os pássaros do céu

e sobre todos os animais que se movem na terra.” — 29. disse deus ainda:

“dei-vos todas as ervas que trazem sua semente à terra e todas as árvores que

encerram em si mesmas suas sementes, cada uma de uma espécie, a fim de que

vos sirvam de alimento.” — 30. e dei-as a todos os animais da terra, a todos os

pássaros do céu, a tudo o que se move na terra e que é vivo e animado, a fim

 

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Gênese moisaica

 

de que tenham com que se alimentar. e assim se fez. — 31. deus viu todas as

coisas que havia feito; eram todas muito boas. — 32. e da tarde e da manhã

se fez o sexto dia.

 

cApítulo 2. — 1. o céu e a terra ficaram, pois, acabados assim, com todos

os seus ornamentos. — 2. deus terminou no sétimo dia toda a obra que fizera e

repousou nesse sétimo dia, após haver acabado todas as suas obras. — 3. Aben-

çoou o sétimo dia e o santificou, porque cessara nesse dia de produzir todas as

obras que criara. — 4. tal a origem do céu e da terra e é assim que eles foram

criados no dia que o senhor fez um e outro. — 5. e que criou todas as plantas

dos campos antes que houvessem saído da terra e todas as ervas das planícies

antes que houvessem germinado. porque o senhor deus ainda não tinha feito

que chovesse sobre a terra e não havia homem para lavrá-la. — 6. mas da terra

se elevava uma fonte que lhe regava toda a superfície.

 

7. o senhor deus formou, pois, o homem do limo da terra e lhe espalhou sobre

o rosto um sopro de vida, e o homem se tornou vivente e animado.

 

2. depois das explanações contidas nos capítulos precedentes so-

bre a origem e a constituição do universo, conformemente aos dados

fornecidos pela ciência, quanto à parte material, e pelo espiritismo,

quanto à parte espiritual, convém ponhamos em confronto com tudo

isso o próprio texto da gênese de moisés, a fim de que cada um faça a

comparação e julgue com conhecimento de causa. Algumas explicações

complementares bastarão para tornar compreensíveis as partes que preci-

sam de esclarecimentos especiais.

3. sobre alguns pontos, há, sem dúvida, notável concordância en-

tre a gênese moisaica e a doutrina científica, mas fora erro acreditar que

basta se substituam os seis dias de 24 horas da criação por seis períodos

indeterminados, para se tornar completa a analogia. não menor erro

seria o acreditar-se que, afora o sentido alegórico de algumas palavras, a

gênese e a ciência caminham lado a lado, sendo uma, como se vê, sim-

ples paráfrase da outra.

4. notemos, em primeiro lugar, que, como já se disse (cap. vii,

item 14), é inteiramente arbitrário o número de seis períodos geológicos,

pois que se eleva a mais de vinte e cinco o das formações bem caracteriza-

das, número que, ademais, apenas determina as grandes fases gerais. ele

só foi adotado, em começo, para encaixar as coisas, o mais possível, no

 

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Capítulo XII

 

texto bíblico, numa época, aliás, pouco distante, em que se entendia que

a ciência devia ser controlada pela Bíblia. essa a razão por que os autores

da maior parte das teorias cosmogônicas, tendo em vista facilitar-lhe a

aceitação, se esforçaram por pôr-se de acordo com o texto sagrado. logo

que se apoiou no método experimental, a ciência sentiu-se mais forte e

se emancipou. Hoje, é ela que controla a Bíblia.

doutro lado, a geologia, tomando por ponto de partida unicamen-

te a formação dos terrenos graníticos, não abrange, no cômputo de seus

períodos, o estado primitivo da terra. tampouco se ocupa com o sol, com

a lua e com as estrelas, nem com o conjunto do universo, assuntos esses

que pertencem à Astronomia. para enquadrar tudo na gênese, cumpre se

acrescente um primeiro período, que abarque essa ordem de fenômenos e

ao qual se poderia chamar — período astronômico.

Além disso, nem todos os geólogos consideram o diluviano como

formando um período distinto, mas como um fato transitório e passa-

geiro, que não mudou sensivelmente o estado climático do globo, nem

marcou uma fase nova para as espécies vegetais e animais, pois que, com

poucas exceções, as mesmas espécies se encontram, assim antes, como

depois do dilúvio. pode-se, pois, abstrair desse período, sem menospre-

zo da verdade.

5. o quadro comparativo aqui abaixo, em o qual se acham resu-

midos os fenômenos que caracterizam cada um dos seis períodos, per-

mite se considere o conjunto e se notem as relações e as diferenças que

existem entre os referidos períodos e a gênese bíblica.

 

ciênciA gênese

 

i. período AstronÔmico – Aglomeração

da matéria cósmica universal, num ponto do espa-

 

ço, em nebulosa que deu origem, pela condensação o 1 diA – o céu e a terra. da matéria em diversos pontos, às estrelas, ao sol, à – A luz. terra, à lua e a todos os planetas.

estado primitivo, fluídico e incandescente da terra.

– Atmosfera imensa, carregada de toda a água em

vapor e de todas as matérias volatilizáveis.

 

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Gênese moisaica

 

ii. período primÁrio – endurecimento da

superfície da terra, pelo resfriamento; formação 2o diA – o firmamento.

das camadas graníticas. – Atmosfera espessa e ar- – separação das águas que

dente, impenetrável aos raios solares. – precipita- estão acima do firmamento

ção gradual da água e das matérias sólidas volatili- das que lhe estão debaixo.

zadas no ar. – Ausência completa de vida orgânica.

 

iii. período de trAnsição – As águas co-

brem toda a superfície do globo. – primeiros depó-

sitos de sedimentos formados pelas águas. – calor 3o diA – As águas que estão

úmido. – o sol começa a atravessar a atmosfera debaixo do firmamento se

brumosa. – primeiros seres organizados da mais reúnem; aparece o elemento

rudimentar constituição. – liquens, musgos, fetos, árido. – A terra e os mares. –

licopódios, plantas herbáceas. vegetação colossal. – As plantas.

primeiros animais marinhos: zoófitos, polipeiros,

crustáceos. — depósitos de hulha.

 

iv. período secundÁrio – superfície da

terra pouco acidentada; águas pouco profundas e

 

paludosas. temperatura menos ardente; atmosfera o 4 diA – o sol, a lua e as mais depurada. consideráveis depósitos de calcá-estrelas. rios pelas águas. – vegetação menos colossal; novas

espécies; plantas lenhosas; primeiras árvores. – pei-

xes; cetáceos; animais aquáticos e anfíbios.

 

v. período terciÁrio – grandes intumesci-

mentos da crosta sólida; formação dos continentes.

 

retirada das águas para os lugares baixos; forma- o 5 diA – os peixes e os ção dos mares. – Atmosfera depurada; temperatu- pássaros. ra atual produzida pelo calor solar. – gigantescos

animais terrestres. vegetais e animais da atualidade.

pássaros.

 

dilÚvio universAl

 

vi. período QuAternÁrio ou o 6 diA – os animais terres- pÓs-diluviAno – terrenos de aluvião. – vege-tres. – o homem. tais e animais da atualidade. – o homem.

 

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Capítulo XII

 

6. desse quadro comparativo, o primeiro fato que ressalta é que

a obra de cada um dos seis dias não corresponde de maneira rigorosa,

como o supõem muitos, a cada um dos seis períodos geológicos. A con-

cordância mais notável se verifica na sucessão dos seres orgânicos, que é

quase a mesma, com pequena diferença, e no aparecimento do homem,

por último. é esse um fato importante.

Há também coincidência, não quanto à ordem numérica dos pe-

ríodos, mas quanto ao fato em si, na passagem em que se lê que, ao

terceiro dia, “as águas que estão debaixo do céu se reuniram num só

lugar e apareceu o elemento árido”. é a expressão do que ocorreu no

período terciário, quando as elevações da crosta sólida puseram a desco-

berto os continentes e repeliram as águas, que foram formar os mares.

foi somente então que apareceram os animais terrestres,122 segundo a

geologia e segundo moisés.

7. dizendo que a criação foi feita em seis dias, terá moisés queri-

do falar de dias de 24 horas, ou terá empregado essa palavra no sentido

de período, de duração? é mais provável a primeira hipótese, se nos ati-

vermos ao texto acima, primeiramente, porque esse é o sentido próprio

da palavra hebraica iôm, traduzida por dia. depois, a referência à tarde

e à manhã, como limitações de cada um dos seis dias, dá lugar a que se

suponha haja ele querido falar de dias comuns. não se pode conceber

qualquer dúvida a tal respeito, estando dito, no versículo 5: “ele deu à

luz o nome de dia e às trevas o nome de noite; e da tarde e da manhã se

fez o primeiro dia.” isto, evidentemente, só se pode aplicar ao dia de 24

horas, constituído de períodos de luz e de trevas. Ainda mais preciso se

torna o sentido, quando ele diz, no versículo 17, falando do sol, da lua

e das estrelas: “colocou-as no firmamento do céu, para luzirem sobre a

terra; para presidirem ao dia e à noite e para separarem a luz das trevas.

e da tarde e da manhã se fez o quarto dia.”

Aliás, tudo, na criação, era miraculoso e, desde que se envereda pela

senda dos milagres, pode-se perfeitamente crer que a terra foi feita em seis

vezes 24 horas, sobretudo quando se ignoram as primeiras leis naturais.

todos os povos civilizados partilharam dessa crença, até o momento em

que a geologia surgiu a lhe demonstrar a impossibilidade.

 

122 N.E.: Anfíbios e insetos foram os primeiros animais presentes no planeta, sugiram no Período

Devoniano, da Era Paleozoica.

 

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Gênese moisaica

 

8. um dos pontos que mais criticados têm sido na gênese é o da

criação do sol depois da luz. tentaram explicá-lo, com o auxílio mesmo

dos dados fornecidos pela geologia, dizendo que, nos primeiros tempos

de sua formação, por se achar carregada de vapores densos e opacos, a

atmosfera terrestre não permitia se visse o sol que, assim, efetivamente

não existia para a terra. semelhante explicação seria, porventura, admis-

sível se, naquela época, já houvesse na terra habitantes que verificassem

a presença ou a ausência do sol. ora, segundo o próprio moisés, então,

somente plantas havia, as quais, contudo, não teriam podido crescer e

multiplicar-se sem o calor solar.

Há, pois, evidentemente, um anacronismo na ordem que moisés

estabeleceu para a criação do sol; mas, involuntariamente ou não, ele

não errou, dizendo que a luz precedeu o sol.

o sol não é o princípio da luz universal; é uma concentração do

elemento luminoso em um ponto, ou, por outra, do fluido que, em da-

das circunstâncias, adquire as propriedades luminosas. esse fluido, que

é a causa, havia necessariamente de preceder ao sol, que é apenas um

efeito. o sol é causa, relativamente à luz que dele se irradia; é efeito, com

relação à que recebeu.

numa câmara escura, uma vela acesa é um pequeno sol. Que é

que se fez para acender a vela? desenvolveu-se a propriedade iluminante

do fluido luminoso e concentrou-se num ponto esse fluido. A vela é a

causa da luz que se difunde pela câmara; mas, se não existira o princípio

luminoso antes da vela, esta não pudera ter sido acesa.

o mesmo se dá com o sol. o erro provém da ideia falsa, alimen-

tada por longo tempo, de que o universo inteiro começou com a terra.

daí o não compreenderem que o sol pudesse ser criado depois da luz.

em princípio, pois, a asserção de moisés é perfeitamente exata: é falsa

no fazer crer que a terra tenha sido criada antes do sol. estando, pelo

seu movimento de translação, sujeita a esse último, a terra houve de ser

formada depois dele. é o que moisés não podia saber, pois que ignorava

a lei de gravitação.123

 

123 N.E.: A lei da gravitação universal foi formulada pelo cientista inglês Isaac Newton (1642–1727), que

concluiu: “Duas partículas se atraem com forças cuja intensidade é diretamente proporcional ao pro-

duto de suas massas e inversamente proporcional ao quadrado da distância que as separa.”

 

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Capítulo XII

 

com a mesma ideia se depara na gênese dos antigos persas. no

primeiro capítulo do Vendidad,124 ormuzd,125 narrando a origem do

mundo, diz: “eu criei a luz que foi iluminar o sol, a lua e as estrelas.”

(Dicionário de mitologia universal) A forma, aqui, é sem dúvida mais clara

e mais científica do que em moisés e não reclama comentários.

9. moisés, evidentemente, partilhava das mais primitivas crenças

sobre a cosmogonia. como os do seu tempo, ele acreditava na solidez da

abóbada celeste e em reservatórios superiores para as águas. essa ideia se

acha expressa sem alegoria, nem ambiguidade, neste passo (versículos 6

e seguintes): “deus disse: ‘faça-se o firmamento no meio das águas para

separar das águas as águas.’ deus fez o firmamento e separou as águas que

estavam debaixo do firmamento das que estavam por cima do firmamen-

to.” (veja-se: cap. v, Antigos e modernos sistemas do mundo, itens 3 a 5.)

segundo uma crença antiga, a água era tida como o princípio

primitivo, o elemento gerador, pelo que moisés não fala da criação das

águas, parecendo que já elas existiam. “As trevas cobriam o abismo”, isto

é, as profundezas do espaço, que a imaginação imprecisamente figurava

ocupada pelas águas e em trevas, antes da criação da luz. eis aí por que

moisés diz: “o espírito de deus era levado (ou boiava) sobre as águas.”

tida a terra como formada no meio das águas, era preciso insulá-la.

imaginou-se então que deus fizera o firmamento, uma abóbada sólida,

para separar as águas de cima das que estavam sobre a terra.

A fim de compreendermos certas partes da gênese, faz-se indis-

pensável que nos coloquemos no ponto de vista das ideias cosmogônicas

da época que ela reflete.

10. em face dos progressos da física e da Astronomia, é insusten-

tável semelhante doutrina.126 entretanto, moisés atribui ao próprio deus

aquelas palavras. ora, visto que elas exprimem um fato notoriamente

 

124 N.E.: Um dos livros do Avesta, que são os textos sagrados do Zoroastrismo. Código de leis civis e

religiosas.

125 N.E.: Aúra-Masda, Ormasde — deus supremo da Criação; princípio do bem, da harmonia, da beleza e

da luz, na religião zoroastriana (antiga religião persa, fundada no século VII a.C. por Zoroastro, carac-

terizada pelo dualismo ético, cósmico e teogônico, que implica a luta primordial entre dois deuses,

representantes do bem e do mal. O zoroastrismo influenciou em diversos aspectos doutrinários a

tradição judaico-cristã).

126 Nota de Allan Kardec: Embora muito grosseiro o erro de tal crença, com ela ainda se embalam pre-

sentemente as crianças, como se se tratara de uma verdade sagrada. Só a tremer ousam os educado-

res aventurar-se a uma tímida interpretação. Como quererem que isso não venha mais tarde a fazer

incrédulos?

 

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Gênese moisaica

 

falso, uma de duas: ou deus se enganou na narrativa que fez da sua obra,

ou essa narrativa não é de origem divina. não sendo admissível a primei-

ra hipótese, forçoso é concluir que moisés apenas exprimiu suas próprias

ideias. (cap. i, item 3.)

11. ele se houve com mais acerto, dizendo que deus formou o

homem do limo da terra.127 A ciência, com efeito, mostra (cap. X) que o

corpo do homem se compõe de elementos tomados à matéria inorgânica,

ou, por outra, ao limo da terra.

A mulher formada de uma costela de Adão é uma alegoria, apa-

rentemente pueril, se admitida ao pé da letra, mas profunda, quanto ao

sentido. tem por fim mostrar que a mulher é da mesma natureza que

o homem, que é por conseguinte igual a este perante deus e não uma

criatura à parte, feita para ser escravizada e tratada qual hilota. tendo-a

como saída da própria carne do homem, a imagem da igualdade é bem

mais expressiva, do que se ela fora tida como formada, separadamente,

do mesmo limo. equivale a dizer ao homem que ela é sua igual e não sua

escrava, que ele a deve amar como parte de si mesmo.

12. para espíritos incultos, sem nenhuma ideia das leis gerais, in-

capazes de apreender o conjunto e de conceber o infinito, essa criação

milagrosa e instantânea apresentava qualquer coisa de fantástico que fe-

ria a imaginação. o quadro do universo tirado do nada em alguns dias,

por um só ato da vontade criadora, era, para tais espíritos, o sinal mais

evidente do poder de deus. Que configuração, com efeito, mais sublime

e mais poética desse poder, do que a que estas palavras traçam: “deus

disse: ‘faça-se a luz e a luz foi feita!’” deus, a criar o universo pela ação

lenta e gradual das leis da natureza, lhes houvera parecido menor e me-

nos poderoso. fazia-se-lhes indispensável qualquer coisa de maravilhoso,

que saísse dos moldes comuns, do contrário teriam dito que deus não

era mais hábil do que os homens. uma teoria científica e racional da

criação os deixaria frios e indiferentes.

não rejeitemos, pois, a gênese bíblica; ao contrário, estudemo-

-la, como se estuda a história da infância dos povos. trata-se de uma

época rica de alegorias, e seu sentido oculto se deve pesquisar; que se de-

vem comentar e explicar com o auxílio das luzes da razão e da ciência.

 

127 Nota de Allan Kardec: O termo hebreu haadam, homem, do qual se compôs Adão e o termo haadama,

terra, têm a mesma raiz.

 

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Capítulo XII

 

fazendo, porém, ressaltar as suas belezas poéticas e os seus ensinamentos

velados pela forma imaginosa, cumpre se lhe apontem expressamente os

erros, no próprio interesse da religião. esta será muito mais respeitada,

quando esses erros deixarem de ser impostos à fé, como verdade, e deus

parecerá maior e mais poderoso, quando não lhe envolverem o nome em

fatos de pura invenção.

 

Perda do paraíso128

 

13. cApítulo 2. — 8. ora, o senhor deus plantara desde o começo um

jardim de delícias, no qual pôs o homem que ele formara. — 9. o senhor deus

também fizera sair da terra toda espécie de árvores belas ao olhar e de fruto

agradável ao paladar e, no meio do paraíso,129 a árvore da vida, com a árvore da

ciência do bem e do mal. (Ele fez sair, Jeová Eloim, da terra [min haadama] toda

árvore bela de ver-se e boa para comer-se e a árvore da vida [vehetz hachayim] no

meio do jardim e a árvore da ciência do bem e do mal.)

 

15. o senhor tomou, pois, do homem e o colocou em o paraíso de delícias,

a fim de que o cultivasse e guardasse. — 16. deu-lhe também esta ordem e

lhe disse: “come de todas as árvores do paraíso.” (Ele ordenou, Jeová Eloim, ao

homem [hal haadam] dizendo: “De toda árvore do jardim podes comer.) — 17.

mas, não comas absolutamente o fruto da árvore da ciência do bem e do mal;

porquanto, logo que o comeres, morrerás com toda a certeza.” (E da árvore do

bem e do mal [oumehetz hadaat tob vara] não comerás, pois que no dia em que

dela comeres morrerás.)

 

14. cApítulo 3. — 1. ora, a serpente era o mais astuto de todos os animais

que o senhor deus formara na terra. e ela disse à mulher: “por que vos ordenou

deus que não comêsseis os frutos de todas as árvores do paraíso?” (E a serpente

[nâhâsch] era mais astuta do que todos os animais terrestres que Jeová Eloim havia

feito; ela disse à mulher [el haïscha]: “Terá dito Eloim: ‘Não comereis de nenhuma

árvore do jardim?’”) — 2. A mulher respondeu: “comemos dos frutos de to-

das as árvores que estão no paraíso.” (Disse ela, a mulher, à serpente: “Do fruto

 

128 Nota de Allan Kardec: Em seguida a alguns versículos se acha a tradução literal do texto hebreu, expri-

mindo mais fielmente o pensamento primitivo. O sentido alegórico ressalta assim mais claramente.

129 Nota de Allan Kardec: “Paraíso”, do latim paradīsus, derivado do grego: paradeisos, jardim, vergel, lugar

plantado de árvores. O termo hebreu empregado em Gênesis é hagan, que tem a mesma significação.

 

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Gênese moisaica

 

(miperi) das árvores do jardim podemos comer.) — 3. mas, quanto ao fruto da

árvore que está no meio do paraíso, deus nos ordenou que não comêssemos dele

e que não lhe tocássemos, para que não corramos o perigo de morrer.” — 4. A

serpente replicou à mulher: “certamente não morrereis. — 5. mas é que deus

sabe que, assim houverdes comido desse fruto, vossos olhos se abrirão e sereis

como deuses, conhecendo o bem e o mal.”

 

6. A mulher considerou então que o fruto daquela árvore era bom de comer;

que era belo e agradável à vista. e, tomando dele, o comeu e o deu a seu marido,

que também comeu. (Ela viu, a mulher, que ela era boa, a árvore como alimento,

e que era desejável a árvore para compreender [léaskil], e tomou de seu fruto etc.)

 

8. e como ouvissem a voz do senhor deus, que passeava à tarde pelo jardim,

quando sopra um vento brando, eles se retiraram para o meio das árvores do

paraíso, a fim de se ocultarem de diante da sua face.

 

9. então o senhor deus chamou Adão e lhe disse: “onde estás?” — 10. Adão

lhe respondeu: “ouvi a tua voz no paraíso e tive medo, porque estava nu, essa

a razão por que me escondi.” — 11. o senhor lhe retrucou: “e como soubeste

que estavas nu, senão porque comeste o fruto da árvore da qual eu vos proibi que

comêsseis?” — 12. Adão lhe respondeu: A mulher que me deste por companhei-

ra me apresentou o fruto dessa árvore e eu dele comi.” — 13. o senhor deus

disse à mulher: “por que fizeste isso?” ela respondeu: “A serpente me enganou e

eu comi desse fruto.”

 

14. então, o senhor deus disse à serpente: “por teres feito isso, serás maldita

entre todos os animais e todas as bestas da terra; rojar-te-ás sobre o ventre e

comerás a terra por todos os dias de tua vida. — 15. porei uma inimizade entre

ti e a mulher, entre a sua raça e a tua. ela te esmagará a cabeça e tu tentarás

morder-lhe o calcanhar.”

 

16. deus disse também à mulher: “Afligir-te-ei com muitos males durante a

tua gravidez; parirás com dor; estarás sob a dominação de teu marido e ele te

dominará.”

 

17. disse em seguida a Adão: “por haveres escutado a voz de tua mulher e ha-

veres comido do fruto da árvore de que te proibi que comesses, a terra te será

maldita por causa do que fizeste e só com muito trabalho tirarás dela com que

te alimentes, durante toda a tua vida. — 18. ela te produzirá espinhos e sarças

e te alimentarás com a erva da terra. — 19. e comerás o teu pão com o suor

 

219

Capítulo XII

 

do teu rosto, até que voltes à terra donde foste tirado, porque és pó e em pó te

tornarás.”

 

20. e Adão deu à sua mulher o nome de Eva, que significa “a vida”, porque ela

era a mãe de todos os viventes.

 

21. o senhor deus também fez para Adão e sua mulher vestiduras de peles

com que os cobriu. — 22. e disse: “eis aí, Adão feito um de nós, sabendo o

bem e o mal. impeçamos, pois, agora, que ele deite a mão à árvore da vida, que

também tome do seu fruto e que, comendo desse fruto, viva eternamente.” (Ele

disse, Jeová Eloim: “Eis aí, o homem foi como um de nós para o conhecimento do

bem e do mal; agora ele pode estender a mão e tomar da árvore da vida [veata pen

ischlachyado velakach mehetz hachayim]; comerá dela e viverá eternamente.”)

 

23. o senhor deus o fez sair do jardim de delícias, a fim de que fosse trabalhar

no cultivo da terra donde ele fora tirado. — 24. e, tendo-o expulsado, colocou

querubins130 diante do jardim de delícias, os quais faziam luzir uma espada de

fogo, para guardarem o caminho que levava à árvore da vida.

 

15. sob uma imagem pueril e às vezes ridícula, se nos ativermos

à forma, a alegoria oculta frequentemente as maiores verdades. Haverá

fábula mais absurda, à primeira vista, do que a de saturno, o deus que

devorava pedras, tomando-as por seus filhos? todavia, que de mais pro-

fundamente filosófico e verdadeiro do que essa figura, se lhe procuramos

o sentido moral! saturno é a personificação do tempo; sendo todas as

coisas obra do tempo, ele é o pai de tudo o que existe; mas, também,

tudo se destrói com o tempo. saturno a devorar pedras é o símbolo da

destruição, pelo tempo, dos mais duros corpos, seus filhos, visto que se

formaram com o tempo. e quem, segundo essa mesma alegoria, escapa

a semelhante destruição? somente Júpiter, símbolo da inteligência su-

perior, do princípio espiritual, que é indestrutível. é mesmo tão natural

essa imagem, que, na linguagem moderna, sem alusão à fábula antiga, se

diz, de uma coisa que afinal se deteriorou, ter sido devorada pelo tempo,

carcomida, devastada pelo tempo.

toda a mitologia pagã, aliás, nada mais é, em realidade, do que um

vasto quadro alegórico das diversas faces, boas e más, da humanidade.

 

130 Nota de Allan Kardec: Do hebreu cherub, keroub, boi, charab, lavrar; anjos do segundo coro da primeira

hierarquia, que eram representados com quatro asas, quatro faces e pés de boi.

 

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Gênese moisaica

 

para quem lhe busca o espírito, é um curso completo da mais alta fi-

losofia, como acontece com as modernas fábulas. o absurdo estava em

tomarem a forma pelo fundo.

16. outro tanto se dá com a gênese, onde se tem que perceber

grandes verdades morais debaixo das figuras materiais que, tomadas ao

pé da letra, seriam tão absurdas como se, em nossas fábulas, tomássemos

em sentido literal as cenas e os diálogos atribuídos aos animais.

Adão personifica a humanidade; sua falta individualiza a fraqueza

do homem, em quem predominam os instintos materiais a que ele não

sabe resistir.131

A árvore, como árvore de vida, é o emblema da vida espiritual;

como árvore da ciência, é o da consciência, que o homem adquire, do

bem e do mal, pelo desenvolvimento da sua inteligência e do livre-arbí-

trio, em virtude do qual ele escolhe entre um e outro. Assinala o ponto

em que a alma do homem, deixando de ser guiada unicamente pelos

instintos, toma posse da sua liberdade e incorre na responsabilidade dos

seus atos.

o fruto da árvore simboliza o objeto dos desejos materiais do ho-

mem; é a alegoria da cobiça e da concupiscência; concretiza, numa figura

única, os motivos de arrastamento ao mal. o comer é sucumbir à tenta-

ção. A árvore se ergue no meio do jardim de delícias, para mostrar que a

sedução está no seio mesmo dos prazeres e para lembrar que, se dá pre-

ponderância aos gozos materiais, o homem se prende à terra e se afasta

do seu destino espiritual.132

A morte de que ele é ameaçado, caso infrinja a proibição que se lhe

faz, é um aviso das consequências inevitáveis, físicas e morais, decorrentes

da violação das leis divinas que deus lhe gravou na consciência. é por

demais evidente que aqui não se trata da morte corporal, pois que, depois

 

131 Nota de Allan Kardec: Está hoje perfeitamente reconhecido que a palavra hebreia haadam não é

um nome próprio, mas significa o homem em geral, a humanidade, o que destrói toda a estrutura

levantada sobre a personalidade de Adão.

132 Nota de Allan Kardec: Em nenhum texto o fruto é especializado na maçã, palavra que só se en-

contra nas versões infantis. O termo do texto hebreu é peri, que tem as mesmas acepções que em

francês, sem determinação de espécie e pode ser tomado em sentido material, moral, alegórico,

em sentido próprio e figurado. Para os israelitas, não há interpretação obrigatória; quando uma pa-

lavra tem muitas acepções, cada um a entende como quer, contanto que a interpretação não seja

contrária à gramática. O termo peri foi traduzido em latim por malum, que se aplica tanto à maçã,

como a qualquer espécie de frutos. Deriva do grego melon, particípio do verbo melo, interessar,

cuidar, atrair.

 

221

Capítulo XII

 

de cometida a falta, Adão ainda viveu longo tempo, mas sim da mor-

te espiritual, ou, por outras palavras, da perda dos bens que resultam

do adiantamento moral, perda figurada pela sua expulsão do jardim de

delícias.

17. A serpente está longe hoje de ser tida como tipo da astúcia.

ela, pois, entra aqui mais pela sua forma do que pelo seu caráter, como

alusão à perfídia dos maus conselhos, que se insinuam como a serpente e

da qual, por essa razão, o homem, muitas vezes, não desconfia. Ademais,

se a serpente, por haver enganado a mulher, é que foi condenada a andar

de rojo sobre o ventre, dever-se-á deduzir que antes esse animal tinha

pernas; mas, neste caso, não era serpente. por que, então, se há de impor

à fé ingênua e crédula das crianças, como verdades, tão evidentes alego-

rias, com o que, falseando-se-lhes o juízo, se faz que mais tarde venham

a considerar a Bíblia um tecido de fábulas absurdas?

deve-se, além disso, notar que o termo hebreu nâhâsch, traduzido

por serpente, vem da raiz nâhâsch, que significa: fazer encantamentos,

adivinhar as coisas ocultas, podendo, pois, significar: encantador, adivi-

nho. com esta acepção, ele é encontrado na própria Gênesis, 44:5 e 15,

a propósito da taça que José mandou esconder no saco de benjamim: “A

taça que roubaste é a em que meu senhor bebe e de que se serve para

adivinhar (nâhâsch).133 — ignoras que não há quem me iguale na ciência

de adivinhar (nâhâsch)?” — no livro Números, 23:23: “não há encan-

tamentos (nâhâsch) em Jacó, nem adivinhos em israel.” daí o haver a

palavra nâhâsch tomado também a significação de serpente, réptil que os

encantadores tinham a pretensão de encantar, ou de que se serviam em

seus encantamentos.

A palavra nâhâsch só foi traduzida por serpente na versão dos Setenta

— os quais, segundo Hutcheson, corromperam o texto hebreu em mui-

tos lugares — versão essa escrita em grego antes do segundo século da era

cristã. As suas inexatidões resultaram, sem dúvida, das modificações que

a língua hebraica sofrera no intervalo transcorrido, porquanto o hebreu

do tempo de moisés era uma língua morta, que diferia do hebreu vulgar,

 

133 Nota de Allan Kardec: Deste fato se poderá inferir que os egípcios conheciam a mediunidade pelo

copo de água? (Revista espírita, junho de 1868)

 

222

Gênese moisaica

 

tanto quanto o grego antigo e o árabe literário diferem do grego e do

árabe modernos.134

é, pois, provável que moisés tenha apresentado como sedutor da

mulher o desejo de conhecer as coisas ocultas, suscitado pelo espírito de

adivinhação, o que concorda com o sentido primitivo da palavra nâhâsch,

adivinhar, e, por outro lado, com estas palavras: “deus sabe que, logo

que houverdes comido desse fruto, vossos olhos se abrirão e sereis como

deuses. — ela, a mulher, viu que era cobiçável a árvore para compreender

(léaskil) e tomou do seu fruto.” não se deve esquecer que moisés queria

proscrever de entre os hebreus a arte da adivinhação praticada pelos egíp-

cios, como o prova o haver proibido que aqueles interrogassem os mortos

e o espírito píton. (O céu e o inferno, cap. Xi.)

18. A passagem que diz: “o senhor passeava pelo jardim à tarde,

quando se levanta vento brando”, é uma imagem ingênua e um tanto

pueril, que a crítica não deixou de assinalar; mas nada tem que surpreenda,

se nos reportamos à ideia que os hebreus dos tempos primitivos faziam de

deus. para aquelas inteligências frustas, incapazes de conceber abstrações,

deus havia de ter uma forma concreta e eles tudo referiam à humanidade,

como único ponto que conheciam. moisés, por isso, lhes falava como a

crianças, por meio de imagens sensíveis. no caso de que se trata, tem-se

personificada a potência soberana, como os pagãos personificavam, em

figuras alegóricas, as virtudes, os vícios e as ideias abstratas. mais tarde,

os homens despojaram da forma a ideia, do mesmo modo que a criança,

tornada adulta, procura o sentido moral dos contos com que a acalen-

taram. deve-se, portanto, considerar essa passagem como uma alegoria,

figurando a divindade a vigiar em pessoa os objetos da sua criação. o

grande rabino Wogue a traduziu assim: “eles ouviram a voz do eterno

deus, percorrendo o jardim, do lado donde vem o dia.”

19. se a falta de Adão consistiu literalmente em ter comido um

fruto, essa falta não poderia, incontestavelmente, pela sua natureza quase

pueril, justificar o rigor com que foi punida. não se poderia tampouco

admitir, racionalmente, que o fato seja qual geralmente o supõem; se o

fosse, teríamos deus, considerando-o irremissível crime, a condenar a sua

 

134 Nota de Allan Kardec: O termo nâhâsch existia na língua egípcia, com a significação de negro, prova-

velmente porque os negros tinham o dom dos encantamentos e da adivinhação. Talvez também por

isso é que as esfinges, de origem assíria, eram representadas por uma figura de negro.

 

223

Capítulo XII

 

própria obra, pois que ele criara o homem para a propagação. se Adão

houvesse entendido assim a proibição de tocar no fruto da árvore e com

ela se houvesse conformado escrupulosamente, onde estaria a humanidade

e que teria sido feito dos desígnios do criador?

deus não criara Adão e eva para ficarem sós na terra; a prova disso

está nas próprias palavras que lhes dirige logo depois de os ter formado,

quando eles ainda estavam no paraíso terrestre: “deus os abençoou e

lhes disse: ‘crescei e multiplicai-vos, enchei a Terra e submetei-a ao vosso

domínio.’” (Gênesis,1:28.) uma vez que a multiplicação era lei já no

paraíso terrenal, a expulsão deles dali não pode ter tido como causa o

fato suposto.

o que deu crédito a essa suposição foi o sentimento de vergo-

nha que Adão e eva manifestaram ante o olhar de deus e que os levou

a se ocultarem. mas essa própria vergonha é uma figura por compara-

ção: simboliza a confusão que todo culpado experimenta em presença de

quem foi por ele ofendido.

20. Qual, então, em definitivo, a falta tão grande que mereceu

acarretar a reprovação perpétua de todos os descendentes daquele que a

cometeu? caim, o fratricida, não foi tratado tão severamente. nenhum

teólogo a pode definir logicamente, porque todos, apegados à letra, gira-

ram dentro de um círculo vicioso.

sabemos hoje que essa falta não é um ato isolado, pessoal, de um

indivíduo, mas que compreende, sob um único fato alegórico, o conjun-

to das prevaricações de que a humanidade da terra, ainda imperfeita,

pode tornar-se culpada e que se resumem nisto: infração da Lei de Deus.

eis por que a falta do primeiro homem, simbolizando este a humanida-

de, tem por símbolo um ato de desobediência.

21. dizendo a Adão que ele tiraria da terra a alimentação com o

suor de seu rosto, deus simboliza a obrigação do trabalho; mas por que

fez do trabalho uma punição? Que seria da inteligência do homem, se

ele não a desenvolvesse pelo trabalho? Que seria da terra, se não fosse

fecundada, transformada, saneada pelo trabalho inteligente do homem?

lá está dito (Gênesis, 2:5 e 7): “o senhor deus ainda não havia

feito chover sobre a terra e não havia nela homens que a cultivassem. o

senhor formou então, do limo da terra, o homem.” essas palavras, apro-

ximadas destas outras: “Enchei a Terra”, provam que o homem, desde a

 

224

Gênese moisaica

 

sua origem, estava destinado a ocupar toda a Terra e a cultivá-la, assim

como, ademais, que o paraíso não era um lugar circunscrito a um canto

do globo. se a cultura da terra houvesse de ser uma consequência da falta

de Adão, seguir-se-ia que, se Adão não tivesse pecado, a terra permane-

ceria inculta e os desígnios de deus não se teriam cumprido.

por que disse ele à mulher que, em consequência de haver come-

tido a falta, pariria com dor? como pode a dor do parto ser um castigo,

quando é um efeito do organismo e quando está provado que é uma

necessidade fisiológica? como pode ser punição uma coisa que se produz

segundo as leis da natureza? é o que os teólogos absolutamente ainda

não explicaram e que não poderão explicar, enquanto não abandonarem

o ponto de vista em que se colocaram. entretanto, podem justificar-se

aquelas palavras que parecem tão contraditórias.

22. notemos, antes de tudo, que, se no momento de serem criados

os dois, as almas de Adão e eva tivessem vindo do nada, como ainda se

ensina, eles haviam de ser bisonhos em todas as coisas; haviam, pois, de

ignorar o que é morrer. estando sós na terra, como estavam, enquanto

viveram no paraíso, não tinham assistido à morte de ninguém. como,

então, teriam podido compreender em que consistia a ameaça de morte

que deus lhes fazia? como teria eva podido compreender que parir com

dor seria uma punição, visto que, tendo acabado de nascer para a vida,

ela jamais tivera filhos e era a única mulher existente no mundo?

nenhum sentido, portanto, deviam ter, para Adão e eva, as pala-

vras de deus. mal surgidos do nada, eles não podiam saber como nem

por que haviam surgido dali; não podiam compreender nem o criador

nem o motivo da proibição que lhes era feita. sem nenhuma experiência

das condições da vida, pecaram como crianças que agem sem discerni-

mento, o que ainda mais incompreensível torna a terrível responsabilida-

de que deus fez pesar sobre eles e sobre a humanidade inteira.

23. entretanto, o que constitui para a teologia um beco sem saí-

da, o espiritismo o explica sem dificuldade e de maneira racional, pela

anterioridade da alma e pela pluralidade das existências, lei sem a qual

tudo é mistério e anomalia na vida do homem. com efeito, admitamos

que Adão e eva já tivessem vivido e tudo logo se justifica: deus não lhes

fala como a crianças, mas como a seres em estado de o compreenderem

e que o compreendem, prova evidente de que ambos trazem aquisições

 

225

Capítulo XII

 

anteriormente realizadas. Admitamos, ademais, que hajam vivido em um

mundo mais adiantado e menos material do que o nosso, onde o tra-

balho do espírito substituía o do corpo; que, por se haverem rebelado

contra a lei de deus, figurada na desobediência, tenham sido afastados

de lá e exilados, por punição, para a terra, onde o homem, pela natureza

do globo, é constrangido a um trabalho corporal e reconheceremos que

a deus assistia razão para lhes dizer: “no mundo onde, daqui em diante,

ides viver, cultivareis a terra e dela tirareis o alimento, com o suor da vos-

sa fronte”; e, à mulher: “parirás com dor”, porque tal é a condição desse

mundo. (cap. Xi, item 31 e seguintes.)

o paraíso terrestre, cujos vestígios têm sido inutilmente procura-

dos na terra, era, por conseguinte, a figura do mundo ditoso, onde vivera

Adão, ou, antes, a raça dos espíritos que ele personifica. A expulsão do

paraíso marca o momento em que esses espíritos vieram encarnar entre

os habitantes do mundo terráqueo e a mudança de situação foi a conse-

quência da expulsão. o anjo que, empunhando uma espada flamejante,

veda a entrada do paraíso simboliza a impossibilidade em que se acham

os espíritos dos mundos inferiores, de penetrar nos mundos superiores,

antes que o mereçam pela sua depuração. (veja-se, adiante, o cap. Xiv,

itens 8 e seguintes.)

 

24. cApítulo 4. 13. caim, depois do assassínio de Abel, responde ao senhor:

“A minha iniquidade é extremamente grande, para que me possa ser perdoada.

— 14. vós me expulsais hoje de cima da terra e eu me irei ocultar da vossa

face. irei fugitivo e vagabundo pela terra e qualquer um então que me encontre

matar-me-á.” — 15. o senhor lhe respondeu: “não, isto não se dará, porquan-

to severamente punido será quem matar caim.” e o senhor pôs um sinal sobre

caim, a fim de que não o matassem os que viessem a encontrá-lo.

 

16. tendo-se retirado de diante do senhor, caim ficou vagabundo pela terra

e habitou a região oriental do éden. — 17. Havendo conhecido sua mulher,

ela concebeu e pariu enoque. ele construiu (vaïehi bôné; literalmente: estava

construindo) uma cidade a que chamou Enoque (enoquia) do nome de seu filho.

(Gênesis, 4:13 a 16.)

 

25. se nos apegarmos à letra da gênese, eis as consequências a que

chegaremos: Adão e eva estavam sós no mundo, depois de expulsos do

paraíso terrestre; só posteriormente tiveram os dois filhos caim e Abel.

 

226

Gênese moisaica

 

ora, tendo-se caim retirado para outra região depois de haver assassi-

nado o irmão, não tornou a ver seus pais, que de novo ficaram isolados.

só muito mais tarde, na idade de cento e trinta anos, foi que Adão teve

um terceiro filho, que se chamou set, depois desse nascimento, ele ainda

viveu, segundo a genealogia bíblica, oitocentos anos, e teve mais filhos

e filhas.

Quando, pois, caim foi estabelecer-se a leste do éden, somente

havia na terra três pessoas: seu pai e sua mãe, e ele, sozinho, de seu lado.

entretanto, caim teve mulher e um filho. Que mulher podia ser essa e

onde pudera ele desposá-la? o texto hebreu diz: Ele estava construindo

uma cidade e não: ele construiu, o que indica ação presente e não ulterior.

mas uma cidade pressupõe a existência de habitantes, visto não ser de

presumir que caim a fizesse para si, sua mulher e seu filho, nem que a

pudesse edificar sozinho.

dessa própria narrativa, portanto, se tem de inferir que a região era

povoada. ora, não podia sê-lo pelos descendentes de Adão, que então se

reduziam a um só: caim.

Aliás, a presença de outros habitantes ressalta igualmente destas

palavras de caim: “serei fugitivo e vagabundo e quem quer que me en-

contre matar-me-á”, e da resposta que deus lhe deu. Quem poderia ele

temer que o matasse e que utilidade teria o sinal que deus lhe pôs para

preservá-lo de ser morto, uma vez que ele a ninguém iria encontrar? ora,

se havia na terra outros homens afora a família de Adão, é que esses ho-

mens aí estavam antes dele, donde se deduz esta consequência, tirada do

texto mesmo do Gênesis: Adão não é nem o primeiro, nem o único pai

do gênero humano. (cap. Xi, item 34.)135

26. eram necessários os conhecimentos que o espiritismo minis-

trou acerca das relações do princípio espiritual com o princípio material,

acerca da natureza da alma, da sua criação em estado de simplicidade e de

ignorância, da sua união com o corpo, da sua indefinida marcha progres-

siva através de sucessivas existências e através dos mundos, que são ou-

tros tantos degraus da senda do aperfeiçoamento, acerca da sua gradual

libertação da influência da matéria, mediante o uso do livre-arbítrio, da

135 Nota de Allan Kardec: Não é nova esta ideia. La Peyrère, sábio teólogo do século XVII, em seu livro

Preadamitas, escrito em latim e publicado em 1655, extraiu do texto original da Bíblia, adulterado

pelas traduções, a prova evidente de que a Terra era habitada antes da vinda de Adão e essa opinião

é hoje a de muitos eclesiásticos esclarecidos.

 

227

Capítulo XII

 

causa dos seus pendores bons ou maus e de suas aptidões, do fenômeno

do nascimento e da morte, da situação do espírito na erraticidade e, fi-

nalmente, do futuro como prêmio de seus esforços por se melhorar e da

sua perseverança no bem, para que se fizesse luz sobre todas as partes da

gênese espiritual.

graças a essa luz, o homem sabe doravante donde vem, para onde

vai, por que está na terra e por que sofre. sabe que tem nas mãos o seu

futuro e que a duração do seu cativeiro neste mundo unicamente dele

depende. despida da alegoria acanhada e mesquinha, a gênese se lhe

apresenta grande e digna da majestade, da bondade e da justiça do cria-

dor. considerada desse ponto de vista, ela confundirá a incredulidade e

triunfará.

 

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