A Gênese: Os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo
Capítulo X · dos outros. essa multiplicação tão generalizada e,…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
sobre a terra.” — 23. e da tarde e da manhã se fez o quinto dia.
24. também disse deus: “produza a terra animais vivos, cada um de sua espécie,
os animais domésticos e os animais selvagens, em suas diferentes espécies.” e as-
sim se fez. — 25. deus fez, pois, os animais selvagens da terra em suas espécies,
os animais domésticos e todos os reptis, cada um de sua espécie. e deus viu que
estava bom.
26. disse, em seguida: “façamos o homem a nossa imagem e semelhança e
que ele mande sobre os peixes do mar, os pássaros do céu, os animais, sobre
toda a terra e sobre todos os reptis que se movem na terra.” — 27. deus então
criou o homem à sua imagem e o criou à imagem de deus e o criou macho e
fêmea. — 28. deus os abençoou e lhes disse: “crescei e multiplicai-vos, enchei
a terra e sujeitai-a, dominai sobre os peixes do mar, sobre os pássaros do céu
e sobre todos os animais que se movem na terra.” — 29. disse deus ainda:
“dei-vos todas as ervas que trazem sua semente à terra e todas as árvores que
encerram em si mesmas suas sementes, cada uma de uma espécie, a fim de que
vos sirvam de alimento.” — 30. e dei-as a todos os animais da terra, a todos os
pássaros do céu, a tudo o que se move na terra e que é vivo e animado, a fim
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Gênese moisaica
de que tenham com que se alimentar. e assim se fez. — 31. deus viu todas as
coisas que havia feito; eram todas muito boas. — 32. e da tarde e da manhã
se fez o sexto dia.
cApítulo 2. — 1. o céu e a terra ficaram, pois, acabados assim, com todos
os seus ornamentos. — 2. deus terminou no sétimo dia toda a obra que fizera e
repousou nesse sétimo dia, após haver acabado todas as suas obras. — 3. Aben-
çoou o sétimo dia e o santificou, porque cessara nesse dia de produzir todas as
obras que criara. — 4. tal a origem do céu e da terra e é assim que eles foram
criados no dia que o senhor fez um e outro. — 5. e que criou todas as plantas
dos campos antes que houvessem saído da terra e todas as ervas das planícies
antes que houvessem germinado. porque o senhor deus ainda não tinha feito
que chovesse sobre a terra e não havia homem para lavrá-la. — 6. mas da terra
se elevava uma fonte que lhe regava toda a superfície.
7. o senhor deus formou, pois, o homem do limo da terra e lhe espalhou sobre
o rosto um sopro de vida, e o homem se tornou vivente e animado.
2. depois das explanações contidas nos capítulos precedentes so-
bre a origem e a constituição do universo, conformemente aos dados
fornecidos pela ciência, quanto à parte material, e pelo espiritismo,
quanto à parte espiritual, convém ponhamos em confronto com tudo
isso o próprio texto da gênese de moisés, a fim de que cada um faça a
comparação e julgue com conhecimento de causa. Algumas explicações
complementares bastarão para tornar compreensíveis as partes que preci-
sam de esclarecimentos especiais.
3. sobre alguns pontos, há, sem dúvida, notável concordância en-
tre a gênese moisaica e a doutrina científica, mas fora erro acreditar que
basta se substituam os seis dias de 24 horas da criação por seis períodos
indeterminados, para se tornar completa a analogia. não menor erro
seria o acreditar-se que, afora o sentido alegórico de algumas palavras, a
gênese e a ciência caminham lado a lado, sendo uma, como se vê, sim-
ples paráfrase da outra.
4. notemos, em primeiro lugar, que, como já se disse (cap. vii,
item 14), é inteiramente arbitrário o número de seis períodos geológicos,
pois que se eleva a mais de vinte e cinco o das formações bem caracteriza-
das, número que, ademais, apenas determina as grandes fases gerais. ele
só foi adotado, em começo, para encaixar as coisas, o mais possível, no
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Capítulo XII
texto bíblico, numa época, aliás, pouco distante, em que se entendia que
a ciência devia ser controlada pela Bíblia. essa a razão por que os autores
da maior parte das teorias cosmogônicas, tendo em vista facilitar-lhe a
aceitação, se esforçaram por pôr-se de acordo com o texto sagrado. logo
que se apoiou no método experimental, a ciência sentiu-se mais forte e
se emancipou. Hoje, é ela que controla a Bíblia.
doutro lado, a geologia, tomando por ponto de partida unicamen-
te a formação dos terrenos graníticos, não abrange, no cômputo de seus
períodos, o estado primitivo da terra. tampouco se ocupa com o sol, com
a lua e com as estrelas, nem com o conjunto do universo, assuntos esses
que pertencem à Astronomia. para enquadrar tudo na gênese, cumpre se
acrescente um primeiro período, que abarque essa ordem de fenômenos e
ao qual se poderia chamar — período astronômico.
Além disso, nem todos os geólogos consideram o diluviano como
formando um período distinto, mas como um fato transitório e passa-
geiro, que não mudou sensivelmente o estado climático do globo, nem
marcou uma fase nova para as espécies vegetais e animais, pois que, com
poucas exceções, as mesmas espécies se encontram, assim antes, como
depois do dilúvio. pode-se, pois, abstrair desse período, sem menospre-
zo da verdade.
5. o quadro comparativo aqui abaixo, em o qual se acham resu-
midos os fenômenos que caracterizam cada um dos seis períodos, per-
mite se considere o conjunto e se notem as relações e as diferenças que
existem entre os referidos períodos e a gênese bíblica.
ciênciA gênese
i. período AstronÔmico – Aglomeração
da matéria cósmica universal, num ponto do espa-
ço, em nebulosa que deu origem, pela condensação o 1 diA – o céu e a terra. da matéria em diversos pontos, às estrelas, ao sol, à – A luz. terra, à lua e a todos os planetas.
estado primitivo, fluídico e incandescente da terra.
– Atmosfera imensa, carregada de toda a água em
vapor e de todas as matérias volatilizáveis.
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Gênese moisaica
ii. período primÁrio – endurecimento da
superfície da terra, pelo resfriamento; formação 2o diA – o firmamento.
das camadas graníticas. – Atmosfera espessa e ar- – separação das águas que
dente, impenetrável aos raios solares. – precipita- estão acima do firmamento
ção gradual da água e das matérias sólidas volatili- das que lhe estão debaixo.
zadas no ar. – Ausência completa de vida orgânica.
iii. período de trAnsição – As águas co-
brem toda a superfície do globo. – primeiros depó-
sitos de sedimentos formados pelas águas. – calor 3o diA – As águas que estão
úmido. – o sol começa a atravessar a atmosfera debaixo do firmamento se
brumosa. – primeiros seres organizados da mais reúnem; aparece o elemento
rudimentar constituição. – liquens, musgos, fetos, árido. – A terra e os mares. –
licopódios, plantas herbáceas. vegetação colossal. – As plantas.
primeiros animais marinhos: zoófitos, polipeiros,
crustáceos. — depósitos de hulha.
iv. período secundÁrio – superfície da
terra pouco acidentada; águas pouco profundas e
paludosas. temperatura menos ardente; atmosfera o 4 diA – o sol, a lua e as mais depurada. consideráveis depósitos de calcá-estrelas. rios pelas águas. – vegetação menos colossal; novas
espécies; plantas lenhosas; primeiras árvores. – pei-
xes; cetáceos; animais aquáticos e anfíbios.
v. período terciÁrio – grandes intumesci-
mentos da crosta sólida; formação dos continentes.
retirada das águas para os lugares baixos; forma- o 5 diA – os peixes e os ção dos mares. – Atmosfera depurada; temperatu- pássaros. ra atual produzida pelo calor solar. – gigantescos
animais terrestres. vegetais e animais da atualidade.
pássaros.
dilÚvio universAl
vi. período QuAternÁrio ou o 6 diA – os animais terres- pÓs-diluviAno – terrenos de aluvião. – vege-tres. – o homem. tais e animais da atualidade. – o homem.
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Capítulo XII
6. desse quadro comparativo, o primeiro fato que ressalta é que
a obra de cada um dos seis dias não corresponde de maneira rigorosa,
como o supõem muitos, a cada um dos seis períodos geológicos. A con-
cordância mais notável se verifica na sucessão dos seres orgânicos, que é
quase a mesma, com pequena diferença, e no aparecimento do homem,
por último. é esse um fato importante.
Há também coincidência, não quanto à ordem numérica dos pe-
ríodos, mas quanto ao fato em si, na passagem em que se lê que, ao
terceiro dia, “as águas que estão debaixo do céu se reuniram num só
lugar e apareceu o elemento árido”. é a expressão do que ocorreu no
período terciário, quando as elevações da crosta sólida puseram a desco-
berto os continentes e repeliram as águas, que foram formar os mares.
foi somente então que apareceram os animais terrestres,122 segundo a
geologia e segundo moisés.
7. dizendo que a criação foi feita em seis dias, terá moisés queri-
do falar de dias de 24 horas, ou terá empregado essa palavra no sentido
de período, de duração? é mais provável a primeira hipótese, se nos ati-
vermos ao texto acima, primeiramente, porque esse é o sentido próprio
da palavra hebraica iôm, traduzida por dia. depois, a referência à tarde
e à manhã, como limitações de cada um dos seis dias, dá lugar a que se
suponha haja ele querido falar de dias comuns. não se pode conceber
qualquer dúvida a tal respeito, estando dito, no versículo 5: “ele deu à
luz o nome de dia e às trevas o nome de noite; e da tarde e da manhã se
fez o primeiro dia.” isto, evidentemente, só se pode aplicar ao dia de 24
horas, constituído de períodos de luz e de trevas. Ainda mais preciso se
torna o sentido, quando ele diz, no versículo 17, falando do sol, da lua
e das estrelas: “colocou-as no firmamento do céu, para luzirem sobre a
terra; para presidirem ao dia e à noite e para separarem a luz das trevas.
e da tarde e da manhã se fez o quarto dia.”
Aliás, tudo, na criação, era miraculoso e, desde que se envereda pela
senda dos milagres, pode-se perfeitamente crer que a terra foi feita em seis
vezes 24 horas, sobretudo quando se ignoram as primeiras leis naturais.
todos os povos civilizados partilharam dessa crença, até o momento em
que a geologia surgiu a lhe demonstrar a impossibilidade.
122 N.E.: Anfíbios e insetos foram os primeiros animais presentes no planeta, sugiram no Período
Devoniano, da Era Paleozoica.
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Gênese moisaica
8. um dos pontos que mais criticados têm sido na gênese é o da
criação do sol depois da luz. tentaram explicá-lo, com o auxílio mesmo
dos dados fornecidos pela geologia, dizendo que, nos primeiros tempos
de sua formação, por se achar carregada de vapores densos e opacos, a
atmosfera terrestre não permitia se visse o sol que, assim, efetivamente
não existia para a terra. semelhante explicação seria, porventura, admis-
sível se, naquela época, já houvesse na terra habitantes que verificassem
a presença ou a ausência do sol. ora, segundo o próprio moisés, então,
somente plantas havia, as quais, contudo, não teriam podido crescer e
multiplicar-se sem o calor solar.
Há, pois, evidentemente, um anacronismo na ordem que moisés
estabeleceu para a criação do sol; mas, involuntariamente ou não, ele
não errou, dizendo que a luz precedeu o sol.
o sol não é o princípio da luz universal; é uma concentração do
elemento luminoso em um ponto, ou, por outra, do fluido que, em da-
das circunstâncias, adquire as propriedades luminosas. esse fluido, que
é a causa, havia necessariamente de preceder ao sol, que é apenas um
efeito. o sol é causa, relativamente à luz que dele se irradia; é efeito, com
relação à que recebeu.
numa câmara escura, uma vela acesa é um pequeno sol. Que é
que se fez para acender a vela? desenvolveu-se a propriedade iluminante
do fluido luminoso e concentrou-se num ponto esse fluido. A vela é a
causa da luz que se difunde pela câmara; mas, se não existira o princípio
luminoso antes da vela, esta não pudera ter sido acesa.
o mesmo se dá com o sol. o erro provém da ideia falsa, alimen-
tada por longo tempo, de que o universo inteiro começou com a terra.
daí o não compreenderem que o sol pudesse ser criado depois da luz.
em princípio, pois, a asserção de moisés é perfeitamente exata: é falsa
no fazer crer que a terra tenha sido criada antes do sol. estando, pelo
seu movimento de translação, sujeita a esse último, a terra houve de ser
formada depois dele. é o que moisés não podia saber, pois que ignorava
a lei de gravitação.123
123 N.E.: A lei da gravitação universal foi formulada pelo cientista inglês Isaac Newton (1642–1727), que
concluiu: “Duas partículas se atraem com forças cuja intensidade é diretamente proporcional ao pro-
duto de suas massas e inversamente proporcional ao quadrado da distância que as separa.”
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Capítulo XII
com a mesma ideia se depara na gênese dos antigos persas. no
primeiro capítulo do Vendidad,124 ormuzd,125 narrando a origem do
mundo, diz: “eu criei a luz que foi iluminar o sol, a lua e as estrelas.”
(Dicionário de mitologia universal) A forma, aqui, é sem dúvida mais clara
e mais científica do que em moisés e não reclama comentários.
9. moisés, evidentemente, partilhava das mais primitivas crenças
sobre a cosmogonia. como os do seu tempo, ele acreditava na solidez da
abóbada celeste e em reservatórios superiores para as águas. essa ideia se
acha expressa sem alegoria, nem ambiguidade, neste passo (versículos 6
e seguintes): “deus disse: ‘faça-se o firmamento no meio das águas para
separar das águas as águas.’ deus fez o firmamento e separou as águas que
estavam debaixo do firmamento das que estavam por cima do firmamen-
to.” (veja-se: cap. v, Antigos e modernos sistemas do mundo, itens 3 a 5.)
segundo uma crença antiga, a água era tida como o princípio
primitivo, o elemento gerador, pelo que moisés não fala da criação das
águas, parecendo que já elas existiam. “As trevas cobriam o abismo”, isto
é, as profundezas do espaço, que a imaginação imprecisamente figurava
ocupada pelas águas e em trevas, antes da criação da luz. eis aí por que
moisés diz: “o espírito de deus era levado (ou boiava) sobre as águas.”
tida a terra como formada no meio das águas, era preciso insulá-la.
imaginou-se então que deus fizera o firmamento, uma abóbada sólida,
para separar as águas de cima das que estavam sobre a terra.
A fim de compreendermos certas partes da gênese, faz-se indis-
pensável que nos coloquemos no ponto de vista das ideias cosmogônicas
da época que ela reflete.
10. em face dos progressos da física e da Astronomia, é insusten-
tável semelhante doutrina.126 entretanto, moisés atribui ao próprio deus
aquelas palavras. ora, visto que elas exprimem um fato notoriamente
124 N.E.: Um dos livros do Avesta, que são os textos sagrados do Zoroastrismo. Código de leis civis e
religiosas.
125 N.E.: Aúra-Masda, Ormasde — deus supremo da Criação; princípio do bem, da harmonia, da beleza e
da luz, na religião zoroastriana (antiga religião persa, fundada no século VII a.C. por Zoroastro, carac-
terizada pelo dualismo ético, cósmico e teogônico, que implica a luta primordial entre dois deuses,
representantes do bem e do mal. O zoroastrismo influenciou em diversos aspectos doutrinários a
tradição judaico-cristã).
126 Nota de Allan Kardec: Embora muito grosseiro o erro de tal crença, com ela ainda se embalam pre-
sentemente as crianças, como se se tratara de uma verdade sagrada. Só a tremer ousam os educado-
res aventurar-se a uma tímida interpretação. Como quererem que isso não venha mais tarde a fazer
incrédulos?
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Gênese moisaica
falso, uma de duas: ou deus se enganou na narrativa que fez da sua obra,
ou essa narrativa não é de origem divina. não sendo admissível a primei-
ra hipótese, forçoso é concluir que moisés apenas exprimiu suas próprias
ideias. (cap. i, item 3.)
11. ele se houve com mais acerto, dizendo que deus formou o
homem do limo da terra.127 A ciência, com efeito, mostra (cap. X) que o
corpo do homem se compõe de elementos tomados à matéria inorgânica,
ou, por outra, ao limo da terra.
A mulher formada de uma costela de Adão é uma alegoria, apa-
rentemente pueril, se admitida ao pé da letra, mas profunda, quanto ao
sentido. tem por fim mostrar que a mulher é da mesma natureza que
o homem, que é por conseguinte igual a este perante deus e não uma
criatura à parte, feita para ser escravizada e tratada qual hilota. tendo-a
como saída da própria carne do homem, a imagem da igualdade é bem
mais expressiva, do que se ela fora tida como formada, separadamente,
do mesmo limo. equivale a dizer ao homem que ela é sua igual e não sua
escrava, que ele a deve amar como parte de si mesmo.
12. para espíritos incultos, sem nenhuma ideia das leis gerais, in-
capazes de apreender o conjunto e de conceber o infinito, essa criação
milagrosa e instantânea apresentava qualquer coisa de fantástico que fe-
ria a imaginação. o quadro do universo tirado do nada em alguns dias,
por um só ato da vontade criadora, era, para tais espíritos, o sinal mais
evidente do poder de deus. Que configuração, com efeito, mais sublime
e mais poética desse poder, do que a que estas palavras traçam: “deus
disse: ‘faça-se a luz e a luz foi feita!’” deus, a criar o universo pela ação
lenta e gradual das leis da natureza, lhes houvera parecido menor e me-
nos poderoso. fazia-se-lhes indispensável qualquer coisa de maravilhoso,
que saísse dos moldes comuns, do contrário teriam dito que deus não
era mais hábil do que os homens. uma teoria científica e racional da
criação os deixaria frios e indiferentes.
não rejeitemos, pois, a gênese bíblica; ao contrário, estudemo-
-la, como se estuda a história da infância dos povos. trata-se de uma
época rica de alegorias, e seu sentido oculto se deve pesquisar; que se de-
vem comentar e explicar com o auxílio das luzes da razão e da ciência.
127 Nota de Allan Kardec: O termo hebreu haadam, homem, do qual se compôs Adão e o termo haadama,
terra, têm a mesma raiz.
217
Capítulo XII
fazendo, porém, ressaltar as suas belezas poéticas e os seus ensinamentos
velados pela forma imaginosa, cumpre se lhe apontem expressamente os
erros, no próprio interesse da religião. esta será muito mais respeitada,
quando esses erros deixarem de ser impostos à fé, como verdade, e deus
parecerá maior e mais poderoso, quando não lhe envolverem o nome em
fatos de pura invenção.
Perda do paraíso128
13. cApítulo 2. — 8. ora, o senhor deus plantara desde o começo um
jardim de delícias, no qual pôs o homem que ele formara. — 9. o senhor deus
também fizera sair da terra toda espécie de árvores belas ao olhar e de fruto
agradável ao paladar e, no meio do paraíso,129 a árvore da vida, com a árvore da
ciência do bem e do mal. (Ele fez sair, Jeová Eloim, da terra [min haadama] toda
árvore bela de ver-se e boa para comer-se e a árvore da vida [vehetz hachayim] no
meio do jardim e a árvore da ciência do bem e do mal.)
15. o senhor tomou, pois, do homem e o colocou em o paraíso de delícias,
a fim de que o cultivasse e guardasse. — 16. deu-lhe também esta ordem e
lhe disse: “come de todas as árvores do paraíso.” (Ele ordenou, Jeová Eloim, ao
homem [hal haadam] dizendo: “De toda árvore do jardim podes comer.) — 17.
mas, não comas absolutamente o fruto da árvore da ciência do bem e do mal;
porquanto, logo que o comeres, morrerás com toda a certeza.” (E da árvore do
bem e do mal [oumehetz hadaat tob vara] não comerás, pois que no dia em que
dela comeres morrerás.)
14. cApítulo 3. — 1. ora, a serpente era o mais astuto de todos os animais
que o senhor deus formara na terra. e ela disse à mulher: “por que vos ordenou
deus que não comêsseis os frutos de todas as árvores do paraíso?” (E a serpente
[nâhâsch] era mais astuta do que todos os animais terrestres que Jeová Eloim havia
feito; ela disse à mulher [el haïscha]: “Terá dito Eloim: ‘Não comereis de nenhuma
árvore do jardim?’”) — 2. A mulher respondeu: “comemos dos frutos de to-
das as árvores que estão no paraíso.” (Disse ela, a mulher, à serpente: “Do fruto
128 Nota de Allan Kardec: Em seguida a alguns versículos se acha a tradução literal do texto hebreu, expri-
mindo mais fielmente o pensamento primitivo. O sentido alegórico ressalta assim mais claramente.
129 Nota de Allan Kardec: “Paraíso”, do latim paradīsus, derivado do grego: paradeisos, jardim, vergel, lugar
plantado de árvores. O termo hebreu empregado em Gênesis é hagan, que tem a mesma significação.
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Gênese moisaica
(miperi) das árvores do jardim podemos comer.) — 3. mas, quanto ao fruto da
árvore que está no meio do paraíso, deus nos ordenou que não comêssemos dele
e que não lhe tocássemos, para que não corramos o perigo de morrer.” — 4. A
serpente replicou à mulher: “certamente não morrereis. — 5. mas é que deus
sabe que, assim houverdes comido desse fruto, vossos olhos se abrirão e sereis
como deuses, conhecendo o bem e o mal.”
6. A mulher considerou então que o fruto daquela árvore era bom de comer;
que era belo e agradável à vista. e, tomando dele, o comeu e o deu a seu marido,
que também comeu. (Ela viu, a mulher, que ela era boa, a árvore como alimento,
e que era desejável a árvore para compreender [léaskil], e tomou de seu fruto etc.)
8. e como ouvissem a voz do senhor deus, que passeava à tarde pelo jardim,
quando sopra um vento brando, eles se retiraram para o meio das árvores do
paraíso, a fim de se ocultarem de diante da sua face.
9. então o senhor deus chamou Adão e lhe disse: “onde estás?” — 10. Adão
lhe respondeu: “ouvi a tua voz no paraíso e tive medo, porque estava nu, essa
a razão por que me escondi.” — 11. o senhor lhe retrucou: “e como soubeste
que estavas nu, senão porque comeste o fruto da árvore da qual eu vos proibi que
comêsseis?” — 12. Adão lhe respondeu: A mulher que me deste por companhei-
ra me apresentou o fruto dessa árvore e eu dele comi.” — 13. o senhor deus
disse à mulher: “por que fizeste isso?” ela respondeu: “A serpente me enganou e
eu comi desse fruto.”
14. então, o senhor deus disse à serpente: “por teres feito isso, serás maldita
entre todos os animais e todas as bestas da terra; rojar-te-ás sobre o ventre e
comerás a terra por todos os dias de tua vida. — 15. porei uma inimizade entre
ti e a mulher, entre a sua raça e a tua. ela te esmagará a cabeça e tu tentarás
morder-lhe o calcanhar.”
16. deus disse também à mulher: “Afligir-te-ei com muitos males durante a
tua gravidez; parirás com dor; estarás sob a dominação de teu marido e ele te
dominará.”
17. disse em seguida a Adão: “por haveres escutado a voz de tua mulher e ha-
veres comido do fruto da árvore de que te proibi que comesses, a terra te será
maldita por causa do que fizeste e só com muito trabalho tirarás dela com que
te alimentes, durante toda a tua vida. — 18. ela te produzirá espinhos e sarças
e te alimentarás com a erva da terra. — 19. e comerás o teu pão com o suor
219
Capítulo XII
do teu rosto, até que voltes à terra donde foste tirado, porque és pó e em pó te
tornarás.”
20. e Adão deu à sua mulher o nome de Eva, que significa “a vida”, porque ela
era a mãe de todos os viventes.
21. o senhor deus também fez para Adão e sua mulher vestiduras de peles
com que os cobriu. — 22. e disse: “eis aí, Adão feito um de nós, sabendo o
bem e o mal. impeçamos, pois, agora, que ele deite a mão à árvore da vida, que
também tome do seu fruto e que, comendo desse fruto, viva eternamente.” (Ele
disse, Jeová Eloim: “Eis aí, o homem foi como um de nós para o conhecimento do
bem e do mal; agora ele pode estender a mão e tomar da árvore da vida [veata pen
ischlachyado velakach mehetz hachayim]; comerá dela e viverá eternamente.”)
23. o senhor deus o fez sair do jardim de delícias, a fim de que fosse trabalhar
no cultivo da terra donde ele fora tirado. — 24. e, tendo-o expulsado, colocou
querubins130 diante do jardim de delícias, os quais faziam luzir uma espada de
fogo, para guardarem o caminho que levava à árvore da vida.
15. sob uma imagem pueril e às vezes ridícula, se nos ativermos
à forma, a alegoria oculta frequentemente as maiores verdades. Haverá
fábula mais absurda, à primeira vista, do que a de saturno, o deus que
devorava pedras, tomando-as por seus filhos? todavia, que de mais pro-
fundamente filosófico e verdadeiro do que essa figura, se lhe procuramos
o sentido moral! saturno é a personificação do tempo; sendo todas as
coisas obra do tempo, ele é o pai de tudo o que existe; mas, também,
tudo se destrói com o tempo. saturno a devorar pedras é o símbolo da
destruição, pelo tempo, dos mais duros corpos, seus filhos, visto que se
formaram com o tempo. e quem, segundo essa mesma alegoria, escapa
a semelhante destruição? somente Júpiter, símbolo da inteligência su-
perior, do princípio espiritual, que é indestrutível. é mesmo tão natural
essa imagem, que, na linguagem moderna, sem alusão à fábula antiga, se
diz, de uma coisa que afinal se deteriorou, ter sido devorada pelo tempo,
carcomida, devastada pelo tempo.
toda a mitologia pagã, aliás, nada mais é, em realidade, do que um
vasto quadro alegórico das diversas faces, boas e más, da humanidade.
130 Nota de Allan Kardec: Do hebreu cherub, keroub, boi, charab, lavrar; anjos do segundo coro da primeira
hierarquia, que eram representados com quatro asas, quatro faces e pés de boi.
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Gênese moisaica
para quem lhe busca o espírito, é um curso completo da mais alta fi-
losofia, como acontece com as modernas fábulas. o absurdo estava em
tomarem a forma pelo fundo.
16. outro tanto se dá com a gênese, onde se tem que perceber
grandes verdades morais debaixo das figuras materiais que, tomadas ao
pé da letra, seriam tão absurdas como se, em nossas fábulas, tomássemos
em sentido literal as cenas e os diálogos atribuídos aos animais.
Adão personifica a humanidade; sua falta individualiza a fraqueza
do homem, em quem predominam os instintos materiais a que ele não
sabe resistir.131
A árvore, como árvore de vida, é o emblema da vida espiritual;
como árvore da ciência, é o da consciência, que o homem adquire, do
bem e do mal, pelo desenvolvimento da sua inteligência e do livre-arbí-
trio, em virtude do qual ele escolhe entre um e outro. Assinala o ponto
em que a alma do homem, deixando de ser guiada unicamente pelos
instintos, toma posse da sua liberdade e incorre na responsabilidade dos
seus atos.
o fruto da árvore simboliza o objeto dos desejos materiais do ho-
mem; é a alegoria da cobiça e da concupiscência; concretiza, numa figura
única, os motivos de arrastamento ao mal. o comer é sucumbir à tenta-
ção. A árvore se ergue no meio do jardim de delícias, para mostrar que a
sedução está no seio mesmo dos prazeres e para lembrar que, se dá pre-
ponderância aos gozos materiais, o homem se prende à terra e se afasta
do seu destino espiritual.132
A morte de que ele é ameaçado, caso infrinja a proibição que se lhe
faz, é um aviso das consequências inevitáveis, físicas e morais, decorrentes
da violação das leis divinas que deus lhe gravou na consciência. é por
demais evidente que aqui não se trata da morte corporal, pois que, depois
131 Nota de Allan Kardec: Está hoje perfeitamente reconhecido que a palavra hebreia haadam não é
um nome próprio, mas significa o homem em geral, a humanidade, o que destrói toda a estrutura
levantada sobre a personalidade de Adão.
132 Nota de Allan Kardec: Em nenhum texto o fruto é especializado na maçã, palavra que só se en-
contra nas versões infantis. O termo do texto hebreu é peri, que tem as mesmas acepções que em
francês, sem determinação de espécie e pode ser tomado em sentido material, moral, alegórico,
em sentido próprio e figurado. Para os israelitas, não há interpretação obrigatória; quando uma pa-
lavra tem muitas acepções, cada um a entende como quer, contanto que a interpretação não seja
contrária à gramática. O termo peri foi traduzido em latim por malum, que se aplica tanto à maçã,
como a qualquer espécie de frutos. Deriva do grego melon, particípio do verbo melo, interessar,
cuidar, atrair.
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Capítulo XII
de cometida a falta, Adão ainda viveu longo tempo, mas sim da mor-
te espiritual, ou, por outras palavras, da perda dos bens que resultam
do adiantamento moral, perda figurada pela sua expulsão do jardim de
delícias.
17. A serpente está longe hoje de ser tida como tipo da astúcia.
ela, pois, entra aqui mais pela sua forma do que pelo seu caráter, como
alusão à perfídia dos maus conselhos, que se insinuam como a serpente e
da qual, por essa razão, o homem, muitas vezes, não desconfia. Ademais,
se a serpente, por haver enganado a mulher, é que foi condenada a andar
de rojo sobre o ventre, dever-se-á deduzir que antes esse animal tinha
pernas; mas, neste caso, não era serpente. por que, então, se há de impor
à fé ingênua e crédula das crianças, como verdades, tão evidentes alego-
rias, com o que, falseando-se-lhes o juízo, se faz que mais tarde venham
a considerar a Bíblia um tecido de fábulas absurdas?
deve-se, além disso, notar que o termo hebreu nâhâsch, traduzido
por serpente, vem da raiz nâhâsch, que significa: fazer encantamentos,
adivinhar as coisas ocultas, podendo, pois, significar: encantador, adivi-
nho. com esta acepção, ele é encontrado na própria Gênesis, 44:5 e 15,
a propósito da taça que José mandou esconder no saco de benjamim: “A
taça que roubaste é a em que meu senhor bebe e de que se serve para
adivinhar (nâhâsch).133 — ignoras que não há quem me iguale na ciência
de adivinhar (nâhâsch)?” — no livro Números, 23:23: “não há encan-
tamentos (nâhâsch) em Jacó, nem adivinhos em israel.” daí o haver a
palavra nâhâsch tomado também a significação de serpente, réptil que os
encantadores tinham a pretensão de encantar, ou de que se serviam em
seus encantamentos.
A palavra nâhâsch só foi traduzida por serpente na versão dos Setenta
— os quais, segundo Hutcheson, corromperam o texto hebreu em mui-
tos lugares — versão essa escrita em grego antes do segundo século da era
cristã. As suas inexatidões resultaram, sem dúvida, das modificações que
a língua hebraica sofrera no intervalo transcorrido, porquanto o hebreu
do tempo de moisés era uma língua morta, que diferia do hebreu vulgar,
133 Nota de Allan Kardec: Deste fato se poderá inferir que os egípcios conheciam a mediunidade pelo
copo de água? (Revista espírita, junho de 1868)
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Gênese moisaica
tanto quanto o grego antigo e o árabe literário diferem do grego e do
árabe modernos.134
é, pois, provável que moisés tenha apresentado como sedutor da
mulher o desejo de conhecer as coisas ocultas, suscitado pelo espírito de
adivinhação, o que concorda com o sentido primitivo da palavra nâhâsch,
adivinhar, e, por outro lado, com estas palavras: “deus sabe que, logo
que houverdes comido desse fruto, vossos olhos se abrirão e sereis como
deuses. — ela, a mulher, viu que era cobiçável a árvore para compreender
(léaskil) e tomou do seu fruto.” não se deve esquecer que moisés queria
proscrever de entre os hebreus a arte da adivinhação praticada pelos egíp-
cios, como o prova o haver proibido que aqueles interrogassem os mortos
e o espírito píton. (O céu e o inferno, cap. Xi.)
18. A passagem que diz: “o senhor passeava pelo jardim à tarde,
quando se levanta vento brando”, é uma imagem ingênua e um tanto
pueril, que a crítica não deixou de assinalar; mas nada tem que surpreenda,
se nos reportamos à ideia que os hebreus dos tempos primitivos faziam de
deus. para aquelas inteligências frustas, incapazes de conceber abstrações,
deus havia de ter uma forma concreta e eles tudo referiam à humanidade,
como único ponto que conheciam. moisés, por isso, lhes falava como a
crianças, por meio de imagens sensíveis. no caso de que se trata, tem-se
personificada a potência soberana, como os pagãos personificavam, em
figuras alegóricas, as virtudes, os vícios e as ideias abstratas. mais tarde,
os homens despojaram da forma a ideia, do mesmo modo que a criança,
tornada adulta, procura o sentido moral dos contos com que a acalen-
taram. deve-se, portanto, considerar essa passagem como uma alegoria,
figurando a divindade a vigiar em pessoa os objetos da sua criação. o
grande rabino Wogue a traduziu assim: “eles ouviram a voz do eterno
deus, percorrendo o jardim, do lado donde vem o dia.”
19. se a falta de Adão consistiu literalmente em ter comido um
fruto, essa falta não poderia, incontestavelmente, pela sua natureza quase
pueril, justificar o rigor com que foi punida. não se poderia tampouco
admitir, racionalmente, que o fato seja qual geralmente o supõem; se o
fosse, teríamos deus, considerando-o irremissível crime, a condenar a sua
134 Nota de Allan Kardec: O termo nâhâsch existia na língua egípcia, com a significação de negro, prova-
velmente porque os negros tinham o dom dos encantamentos e da adivinhação. Talvez também por
isso é que as esfinges, de origem assíria, eram representadas por uma figura de negro.
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Capítulo XII
própria obra, pois que ele criara o homem para a propagação. se Adão
houvesse entendido assim a proibição de tocar no fruto da árvore e com
ela se houvesse conformado escrupulosamente, onde estaria a humanidade
e que teria sido feito dos desígnios do criador?
deus não criara Adão e eva para ficarem sós na terra; a prova disso
está nas próprias palavras que lhes dirige logo depois de os ter formado,
quando eles ainda estavam no paraíso terrestre: “deus os abençoou e
lhes disse: ‘crescei e multiplicai-vos, enchei a Terra e submetei-a ao vosso
domínio.’” (Gênesis,1:28.) uma vez que a multiplicação era lei já no
paraíso terrenal, a expulsão deles dali não pode ter tido como causa o
fato suposto.
o que deu crédito a essa suposição foi o sentimento de vergo-
nha que Adão e eva manifestaram ante o olhar de deus e que os levou
a se ocultarem. mas essa própria vergonha é uma figura por compara-
ção: simboliza a confusão que todo culpado experimenta em presença de
quem foi por ele ofendido.
20. Qual, então, em definitivo, a falta tão grande que mereceu
acarretar a reprovação perpétua de todos os descendentes daquele que a
cometeu? caim, o fratricida, não foi tratado tão severamente. nenhum
teólogo a pode definir logicamente, porque todos, apegados à letra, gira-
ram dentro de um círculo vicioso.
sabemos hoje que essa falta não é um ato isolado, pessoal, de um
indivíduo, mas que compreende, sob um único fato alegórico, o conjun-
to das prevaricações de que a humanidade da terra, ainda imperfeita,
pode tornar-se culpada e que se resumem nisto: infração da Lei de Deus.
eis por que a falta do primeiro homem, simbolizando este a humanida-
de, tem por símbolo um ato de desobediência.
21. dizendo a Adão que ele tiraria da terra a alimentação com o
suor de seu rosto, deus simboliza a obrigação do trabalho; mas por que
fez do trabalho uma punição? Que seria da inteligência do homem, se
ele não a desenvolvesse pelo trabalho? Que seria da terra, se não fosse
fecundada, transformada, saneada pelo trabalho inteligente do homem?
lá está dito (Gênesis, 2:5 e 7): “o senhor deus ainda não havia
feito chover sobre a terra e não havia nela homens que a cultivassem. o
senhor formou então, do limo da terra, o homem.” essas palavras, apro-
ximadas destas outras: “Enchei a Terra”, provam que o homem, desde a
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Gênese moisaica
sua origem, estava destinado a ocupar toda a Terra e a cultivá-la, assim
como, ademais, que o paraíso não era um lugar circunscrito a um canto
do globo. se a cultura da terra houvesse de ser uma consequência da falta
de Adão, seguir-se-ia que, se Adão não tivesse pecado, a terra permane-
ceria inculta e os desígnios de deus não se teriam cumprido.
por que disse ele à mulher que, em consequência de haver come-
tido a falta, pariria com dor? como pode a dor do parto ser um castigo,
quando é um efeito do organismo e quando está provado que é uma
necessidade fisiológica? como pode ser punição uma coisa que se produz
segundo as leis da natureza? é o que os teólogos absolutamente ainda
não explicaram e que não poderão explicar, enquanto não abandonarem
o ponto de vista em que se colocaram. entretanto, podem justificar-se
aquelas palavras que parecem tão contraditórias.
22. notemos, antes de tudo, que, se no momento de serem criados
os dois, as almas de Adão e eva tivessem vindo do nada, como ainda se
ensina, eles haviam de ser bisonhos em todas as coisas; haviam, pois, de
ignorar o que é morrer. estando sós na terra, como estavam, enquanto
viveram no paraíso, não tinham assistido à morte de ninguém. como,
então, teriam podido compreender em que consistia a ameaça de morte
que deus lhes fazia? como teria eva podido compreender que parir com
dor seria uma punição, visto que, tendo acabado de nascer para a vida,
ela jamais tivera filhos e era a única mulher existente no mundo?
nenhum sentido, portanto, deviam ter, para Adão e eva, as pala-
vras de deus. mal surgidos do nada, eles não podiam saber como nem
por que haviam surgido dali; não podiam compreender nem o criador
nem o motivo da proibição que lhes era feita. sem nenhuma experiência
das condições da vida, pecaram como crianças que agem sem discerni-
mento, o que ainda mais incompreensível torna a terrível responsabilida-
de que deus fez pesar sobre eles e sobre a humanidade inteira.
23. entretanto, o que constitui para a teologia um beco sem saí-
da, o espiritismo o explica sem dificuldade e de maneira racional, pela
anterioridade da alma e pela pluralidade das existências, lei sem a qual
tudo é mistério e anomalia na vida do homem. com efeito, admitamos
que Adão e eva já tivessem vivido e tudo logo se justifica: deus não lhes
fala como a crianças, mas como a seres em estado de o compreenderem
e que o compreendem, prova evidente de que ambos trazem aquisições
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Capítulo XII
anteriormente realizadas. Admitamos, ademais, que hajam vivido em um
mundo mais adiantado e menos material do que o nosso, onde o tra-
balho do espírito substituía o do corpo; que, por se haverem rebelado
contra a lei de deus, figurada na desobediência, tenham sido afastados
de lá e exilados, por punição, para a terra, onde o homem, pela natureza
do globo, é constrangido a um trabalho corporal e reconheceremos que
a deus assistia razão para lhes dizer: “no mundo onde, daqui em diante,
ides viver, cultivareis a terra e dela tirareis o alimento, com o suor da vos-
sa fronte”; e, à mulher: “parirás com dor”, porque tal é a condição desse
mundo. (cap. Xi, item 31 e seguintes.)
o paraíso terrestre, cujos vestígios têm sido inutilmente procura-
dos na terra, era, por conseguinte, a figura do mundo ditoso, onde vivera
Adão, ou, antes, a raça dos espíritos que ele personifica. A expulsão do
paraíso marca o momento em que esses espíritos vieram encarnar entre
os habitantes do mundo terráqueo e a mudança de situação foi a conse-
quência da expulsão. o anjo que, empunhando uma espada flamejante,
veda a entrada do paraíso simboliza a impossibilidade em que se acham
os espíritos dos mundos inferiores, de penetrar nos mundos superiores,
antes que o mereçam pela sua depuração. (veja-se, adiante, o cap. Xiv,
itens 8 e seguintes.)
24. cApítulo 4. 13. caim, depois do assassínio de Abel, responde ao senhor:
“A minha iniquidade é extremamente grande, para que me possa ser perdoada.
— 14. vós me expulsais hoje de cima da terra e eu me irei ocultar da vossa
face. irei fugitivo e vagabundo pela terra e qualquer um então que me encontre
matar-me-á.” — 15. o senhor lhe respondeu: “não, isto não se dará, porquan-
to severamente punido será quem matar caim.” e o senhor pôs um sinal sobre
caim, a fim de que não o matassem os que viessem a encontrá-lo.
16. tendo-se retirado de diante do senhor, caim ficou vagabundo pela terra
e habitou a região oriental do éden. — 17. Havendo conhecido sua mulher,
ela concebeu e pariu enoque. ele construiu (vaïehi bôné; literalmente: estava
construindo) uma cidade a que chamou Enoque (enoquia) do nome de seu filho.
(Gênesis, 4:13 a 16.)
25. se nos apegarmos à letra da gênese, eis as consequências a que
chegaremos: Adão e eva estavam sós no mundo, depois de expulsos do
paraíso terrestre; só posteriormente tiveram os dois filhos caim e Abel.
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Gênese moisaica
ora, tendo-se caim retirado para outra região depois de haver assassi-
nado o irmão, não tornou a ver seus pais, que de novo ficaram isolados.
só muito mais tarde, na idade de cento e trinta anos, foi que Adão teve
um terceiro filho, que se chamou set, depois desse nascimento, ele ainda
viveu, segundo a genealogia bíblica, oitocentos anos, e teve mais filhos
e filhas.
Quando, pois, caim foi estabelecer-se a leste do éden, somente
havia na terra três pessoas: seu pai e sua mãe, e ele, sozinho, de seu lado.
entretanto, caim teve mulher e um filho. Que mulher podia ser essa e
onde pudera ele desposá-la? o texto hebreu diz: Ele estava construindo
uma cidade e não: ele construiu, o que indica ação presente e não ulterior.
mas uma cidade pressupõe a existência de habitantes, visto não ser de
presumir que caim a fizesse para si, sua mulher e seu filho, nem que a
pudesse edificar sozinho.
dessa própria narrativa, portanto, se tem de inferir que a região era
povoada. ora, não podia sê-lo pelos descendentes de Adão, que então se
reduziam a um só: caim.
Aliás, a presença de outros habitantes ressalta igualmente destas
palavras de caim: “serei fugitivo e vagabundo e quem quer que me en-
contre matar-me-á”, e da resposta que deus lhe deu. Quem poderia ele
temer que o matasse e que utilidade teria o sinal que deus lhe pôs para
preservá-lo de ser morto, uma vez que ele a ninguém iria encontrar? ora,
se havia na terra outros homens afora a família de Adão, é que esses ho-
mens aí estavam antes dele, donde se deduz esta consequência, tirada do
texto mesmo do Gênesis: Adão não é nem o primeiro, nem o único pai
do gênero humano. (cap. Xi, item 34.)135
26. eram necessários os conhecimentos que o espiritismo minis-
trou acerca das relações do princípio espiritual com o princípio material,
acerca da natureza da alma, da sua criação em estado de simplicidade e de
ignorância, da sua união com o corpo, da sua indefinida marcha progres-
siva através de sucessivas existências e através dos mundos, que são ou-
tros tantos degraus da senda do aperfeiçoamento, acerca da sua gradual
libertação da influência da matéria, mediante o uso do livre-arbítrio, da
135 Nota de Allan Kardec: Não é nova esta ideia. La Peyrère, sábio teólogo do século XVII, em seu livro
Preadamitas, escrito em latim e publicado em 1655, extraiu do texto original da Bíblia, adulterado
pelas traduções, a prova evidente de que a Terra era habitada antes da vinda de Adão e essa opinião
é hoje a de muitos eclesiásticos esclarecidos.
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Capítulo XII
causa dos seus pendores bons ou maus e de suas aptidões, do fenômeno
do nascimento e da morte, da situação do espírito na erraticidade e, fi-
nalmente, do futuro como prêmio de seus esforços por se melhorar e da
sua perseverança no bem, para que se fizesse luz sobre todas as partes da
gênese espiritual.
graças a essa luz, o homem sabe doravante donde vem, para onde
vai, por que está na terra e por que sofre. sabe que tem nas mãos o seu
futuro e que a duração do seu cativeiro neste mundo unicamente dele
depende. despida da alegoria acanhada e mesquinha, a gênese se lhe
apresenta grande e digna da majestade, da bondade e da justiça do cria-
dor. considerada desse ponto de vista, ela confundirá a incredulidade e
triunfará.
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