A Gênese: Os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo

Allan Kardec · Capítulo 76 de 81 · parte 2/3

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A Gênese: Os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo

cApítulo Xvi · teoria da presciência

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

com admiração. — por isso eu vos declaro que o reino de deus vos será tirado e

será dado a um povo que dele tirará frutos. — Aquele que se deixar cair sobre essa

pedra se despedaçará e ela esmagará aquele sobre quem cair.”

 

tendo ouvido de Jesus essas palavras, os príncipes dos sacerdotes reconheceram

que era deles que o mesmo Jesus falava. — Quiseram então apoderar-se dele, mas

tiveram medo do povo que o considerava um profeta. (Mateus, 21:42 a 46.)

 

28. A palavra de Jesus se tornou a pedra angular, isto é, a pedra de consolidação

do novo edifício da fé, erguido sobre as ruínas do antigo. Havendo os judeus, os

príncipes dos sacerdotes e os fariseus rejeitado essa pedra, ela os esmagou, do mes-

mo modo que esmagará os que, depois, a desconheceram, ou lhe desfiguraram o

sentido em prol de suas ambições.

 

Parábola dos vinhateiros homicidas

 

29. Havia um pai de família que, tendo plantado uma vinha, a cercou com uma

sebe e, cavando a terra, construiu uma torre. Arrendou-a depois a uns vinhateiros

e partiu para um país distante.

 

ora, estando próximo o tempo dos frutos, enviou ele seus servos aos vinhateiros,

para recolher o fruto da sua vinha. — os vinhateiros, apoderando-se dos servos,

deram num, mataram outro e a outro apedrejaram. enviou-lhes ele outros servos

em maior número do que os primeiros e eles os trataram da mesma maneira. —

por fim, enviou-lhes seu próprio filho, dizendo de si para si: “Ao meu filho eles

terão algum respeito.” — mas os vinhateiros, ao verem o filho, disseram entre si:

“Aqui está o herdeiro; vinde, matemo-lo e ficaremos donos da sua herança.” — e,

com isso, pegaram dele, lançaram-no fora da vinha e o mataram.

 

Quando o dono da vinha vier, como tratará esses vinhateiros? — responderam-lhe:

“fará que pereçam miseravelmente esses malvados e arrendará a vinha a outros vi-

nhateiros, que lhe entreguem os frutos na estação própria.” (Mateus, 21:33 a 41.)

 

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Predições do Evangelho

 

30. o pai de família é deus; a vinha que ele plantou é a lei que

estabeleceu; os vinhateiros a quem arrendou a vinha são os homens que

devem ensinar e praticar a lei; os servos que enviou aos arrendatários são

os profetas que estes últimos massacraram; seu filho, enviado por último,

é Jesus, a quem eles igualmente eliminaram. como tratará o senhor os

seus mandatários prevaricadores da lei? tratá-los-á como seus enviados

foram por eles tratados e chamará outros arrendatários que lhe prestem

melhores contas de sua propriedade e do proceder do seu rebanho.

Assim aconteceu com os escribas, com os príncipes dos sacerdotes

e com os fariseus; assim será, quando ele vier de novo pedir a cada um

contas do que fez da sua doutrina; retirará toda a autoridade ao que dela

houver abusado, porquanto ele quer que seu campo seja administrado de

acordo com a sua vontade.

Ao cabo de dezoito séculos, tendo chegado à idade viril, a huma-

nidade está suficientemente madura para compreender o que o cristo

apenas esflorou, porque então, como ele próprio o disse, não o teriam

compreendido. ora, a que resultado chegaram os que, durante esse longo

período, tiveram a seu cargo a educação religiosa da mesma humanida-

de? Ao de verem que a indiferença sucedeu à fé e que a incredulidade se

alçou em doutrina. em nenhuma outra época, com efeito, o ceticismo

e o espírito de negação estiveram mais espalhados em todas as classes da

sociedade.

mas se algumas das palavras do cristo se apresentam encobertas

pelo véu da alegoria, pelo que concerne à regra de proceder, às relações

de homem para homem, aos princípios morais a que ele expressamente

condicionou a salvação, seus ensinos são claros, explícitos, sem ambigui-

dade. (O evangelho segundo o espiritismo, cap. Xv.)

Que fizeram das suas máximas de caridade, de amor e de tolerân-

cia; das recomendações que fez a seus apóstolos para que convertessem os

homens pela brandura e pela persuasão; da simplicidade, da humildade, do

desinteresse e de todas as virtudes que ele exemplificou? em seu nome,

os homens se anatematizaram mutuamente e reciprocamente se amaldi-

çoaram; estrangularam-se em nome daquele que disse: “todos os homens

são irmãos.” do deus infinitamente justo, bom e misericordioso que ele

revelou, fizeram um deus cioso, cruel, vingativo e parcial; àquele deus, de

paz e de verdade, sacrificaram nas fogueiras, pelas torturas e perseguições,

 

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Capítulo XVII

 

muito maior número de vítimas, do que as que em todos os tempos os pa-

gãos sacrificaram aos seus falsos deuses; venderam-se as orações e as graças

do céu em nome daquele que expulsou do templo os vendedores e que

disse a seus discípulos: “dai de graça o que de graça recebestes.”

Que diria o cristo, se viesse hoje entre nós? se visse os que se di-

zem seus representantes a ambicionar as honras, as riquezas, o poder e o

fausto dos príncipes do mundo, ao passo que ele, mais rei do que todos

os reis da terra, fez a sua entrada em Jerusalém montado num jumento?

não teria o direito de dizer-lhes: “Que fizestes dos meus ensinos, vós que

incensais o bezerro de ouro, que dais a maior parte das vossas preces aos

ricos, reservando uma parte insignificante aos pobres, sem embargo de

haver eu dito: os primeiros serão os últimos e os últimos serão os pri-

meiros no reino dos céus?” mas, se ele não está carnalmente entre nós,

está em espírito e, como o senhor da parábola, virá pedir contas aos seus

vinhateiros do produto da sua vinha, quando chegar o tempo da colheita.

 

Um só rebanho e um só pastor

 

31. “tenho ainda outras ovelhas que não são deste aprisco; é preciso que tam-

bém a essas eu conduza; elas escutarão a minha voz e haverá um só rebanho e

um único pastor.” (João, 10:16.)

 

32. por essas palavras, Jesus claramente anuncia que os homens

um dia se unirão por uma crença única; mas como poderá efetuar-se essa

união? difícil parecerá isso, tendo-se em vista as diferenças que existem

entre as religiões, o antagonismo que elas alimentam entre seus adeptos,

a obstinação que manifestam em se acreditarem na posse exclusiva da

verdade. todas querem a unidade, mas cada uma se lisonjeia de que essa

unidade se fará em seu proveito e nenhuma admite a possibilidade de

fazer qualquer concessão, no que respeita às suas crenças.

entretanto, a unidade se fará em religião, como já tende a fazer-

-se socialmente, politicamente, comercialmente, pela queda das barrei-

ras que separam os povos, pela assimilação dos costumes, dos usos, da

linguagem.184 os povos do mundo inteiro já confraternizam, como os

184 N.E.: Kardec pressentia a supressão das barreiras linguísticas vinte anos antes do aparecimento do

Esperanto, quando Zamenhof tinha somente sete anos. Hoje a profecia se cumpre sob nossos olhos

com o progresso constante do Esperanto.

 

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Predições do Evangelho

 

das províncias de um mesmo império. pressente-se essa unidade e to-

dos a desejam. ela se fará pela força das coisas, porque há de tornar-se

uma necessidade, para que se estreitem os laços da fraternidade entre as

nações; far-se-á pelo desenvolvimento da razão humana, que se tornará

apta a compreender a puerilidade de todas as dissidências; pelo progresso

das ciências, a demonstrar cada dia mais os erros materiais sobre que tais

dissidências assentam e a destacar pouco a pouco das suas fiadas as pedras

estragadas. demolindo nas religiões o que é obra dos homens e fruto

de sua ignorância das leis da natureza, a ciência não poderá destruir,

malgrado a opinião de alguns, o que é obra de deus e eterna verdade.

Afastando os acessórios, ela prepara as vias para a unidade.

A fim de chegarem a esta, as religiões terão que encontrar-se num

terreno neutro, se bem que comum a todas; para isso, todas terão que fa-

zer concessões e sacrifícios mais ou menos importantes, conformemente

à multiplicidade dos seus dogmas particulares. mas, em virtude do pro-

cesso de imutabilidade que todas professam, a iniciativa das concessões

não poderá partir do campo oficial; em lugar de tomarem no alto o ponto

de partida, tomá-lo-ão embaixo por iniciativa individual. desde algum

tempo, um movimento se vem operando de descentralização, tendente a

adquirir irresistível força. o princípio da imutabilidade, que as religiões

hão sempre considerado uma égide conservadora, tornar-se-á elemento

de destruição, dado que, imobilizando-se, ao passo que a sociedade cami-

nha para a frente, os cultos serão ultrapassados e depois absorvidos pela

corrente das ideias de progressão.

A imobilidade, em vez de ser uma força, torna-se uma causa de

fraqueza e de ruína para quem não acompanha o movimento geral; ela

quebra a unidade, porque os que querem avançar se separam dos que se

obstinam em permanecer parados.

no estado atual da opinião e dos conhecimentos, a religião, que

terá de congregar um dia todos os homens sob o mesmo estandarte, será

a que melhor satisfaça à razão e às legítimas aspirações do coração e do es-

pírito; que não seja em nenhum ponto desmentida pela ciência positiva;

que, em vez de se imobilizar, acompanhe a humanidade em sua marcha

progressiva, sem nunca deixar que a ultrapassem; que não for nem exclu-

sivista, nem intolerante; que for a emancipadora da inteligência, com o

não admitir senão a fé racional; aquela cujo código de moral seja o mais

 

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Capítulo XVII

 

puro, o mais lógico, o mais de harmonia com as necessidades sociais, o

mais apropriado, enfim, a fundar na terra o reinado do bem, pela prática

da caridade e da fraternidade universais.

o que alimenta o antagonismo entre as religiões é a ideia, generaliza-

da por todas elas, de que cada uma tem o seu deus particular e a pretensão

de que este é o único verdadeiro e o mais poderoso, em luta constante

com os deuses dos outros cultos e ocupado em lhes combater a influência.

Quando elas se houverem convencido de que só existe um deus no uni-

verso e que, em definitiva, ele é o mesmo que elas adoram sob os nomes

de Jeová, Alá ou Deus; quando se puserem de acordo sobre os atributos

essenciais da divindade, compreenderão que, sendo um único o ser, uma

única tem que ser a vontade suprema; estender-se-ão as mãos umas às ou-

tras, como os servidores de um mesmo mestre e os filhos de um mesmo pai

e, assim, grande passo terão dado para a unidade.

 

Advento de Elias

 

33. então, seus discípulos lhe perguntaram: “por que, pois, dizem os escribas ser

preciso que, antes, venha elias?” — Jesus lhes respondeu: “é certo que elias tem

de vir e que restabelecerá todas as coisas.

 

mas eu vos declaro que elias já veio e eles não o conheceram; antes o trataram

como lhes aprouve. é assim que farão morrer o filho do Homem.”

 

então, seus discípulos compreenderam que era de João batista que ele lhes falara.

(Mateus, 17:10 a 13.)

 

34. elias já voltara na pessoa de João batista. seu novo advento é

anunciado de modo explícito. ora, como ele não pode voltar, senão toman-

do um novo corpo, aí temos a consagração formal do princípio da plurali-

dade das existências. (O evangelho segundo o espiritismo, cap. iv, item 10.)

 

Anunciação do Consolador

 

35. “se me amais, guardai os meus mandamentos — e eu pedirei a meu pai e ele

vos enviará outro consolador, a fim de que fique eternamente convosco: — O

Espírito de Verdade que o mundo não pode receber, porque não o vê; vós, porém,

 

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Predições do Evangelho

 

o conhecereis, porque permanecerá convosco e estará em vós. — mas o conso-

lador, que é o espírito santo, que meu pai enviará em meu nome, vos ensinará

todas as coisas e fará vos lembreis de tudo o que vos tenho dito.” (João, 14:15 a

17 e 26; O evangelho segundo o espiritismo, cap. vi.)

 

36. “entretanto, digo-vos a verdade: convém que eu me vá, porquanto, se eu

não me for, o consolador não vos virá; eu, porém, me vou e vo-lo enviarei. — e,

quando ele vier, convencerá o mundo no que respeita ao pecado, à justiça e ao

juízo; — no que respeita ao pecado, por não terem acreditado em mim; — no

que respeita à justiça, porque me vou para meu pai e não mais me vereis; no que

respeita ao juízo, porque já está julgado o príncipe deste mundo.

 

tenho ainda muitas coisas a dizer-vos, mas presentemente não as podeis suportar.

 

Quando vier esse espírito de verdade, ele vos ensinará toda a verdade, porquanto

não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tenha escutado e vos anunciará as coisas

porvindouras.

 

Ele me glorificará, porque receberá do que está em mim e vo-lo anunciará.”

(João, 16:7 a 14.)

 

37. esta predição, não há contestar, é uma das mais importantes,

do ponto de vista religioso, porquanto comprova, sem a possibilidade do

menor equívoco, que Jesus não disse tudo o que tinha a dizer, pela razão de

que não o teriam compreendido nem mesmo seus apóstolos, visto que a

eles é que o mestre se dirigia. se lhes houvesse dado instruções secretas,

os evangelhos fariam referência a tais instruções. ora, desde que ele não

disse tudo a seus apóstolos, os sucessores destes não terão podido saber

mais do que eles, com relação ao que foi dito; ter-se-ão possivelmente en-

ganado, quanto ao sentido das palavras do senhor, ou dado interpretação

falsa aos seus pensamentos, muitas vezes velados sob a forma parabólica.

As religiões que se fundaram no evangelho não podem, pois, dizer-se

possuidoras de toda a verdade, porquanto ele, Jesus, reservou para si a

completação ulterior de seus ensinamentos. o princípio da imutabilida-

de, em que elas se firmam, constitui um desmentido às próprias palavras

do cristo.

sob o nome de Consolador e de Espírito de Verdade, Jesus anunciou

a vinda daquele que havia de ensinar todas as coisas e de lembrar o que ele

dissera. logo, não estava completo o seu ensino. e, ao demais, prevê não

 

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Capítulo XVII

 

só que ficaria esquecido, como também que seria desvirtuado o que por

ele fora dito, visto que o espírito de verdade viria tudo lembrar e, de

combinação com elias, restabelecer todas as coisas, isto é, pô-las de acordo

com o verdadeiro pensamento de seus ensinos.

38. Quando terá de vir esse novo revelador? é evidente que se,

na época em que Jesus falava, os homens não se achavam em estado de

compreender as coisas que lhe restavam a dizer, não seria em alguns anos

apenas que poderiam adquirir as luzes necessárias a entendê-las. para a

inteligência de certas partes do evangelho, excluídos os preceitos morais,

faziam-se mister conhecimentos que só o progresso das ciências facultaria

e que tinham de ser obra do tempo e de muitas gerações. se, portanto,

o novo messias tivesse vindo pouco tempo depois do cristo, houvera

encontrado o terreno ainda nas mesmas condições e não teria feito mais

do que o mesmo cristo. ora, desde aquela época até os nossos dias, ne-

nhuma grande revelação se produziu que haja completado o evangelho

e elucidado suas partes obscuras, indício seguro de que o enviado ainda

não aparecera.

39. Qual deverá ser esse enviado? dizendo: “pedirei a meu pai

e ele vos enviará outro consolador”, Jesus claramente indica que esse

consolador não seria ele, pois, do contrário, dissera: “voltarei a comple-

tar o que vos tenho ensinado.” não só tal não disse, como acrescentou:

“A fim de que fique eternamente convosco e ele estará em vós.” esta propo-

sição não poderia referir-se a uma individualidade encarnada, visto que

não poderia ficar eternamente conosco, nem, ainda menos, estar em nós;

compreendemo-la, porém, muito bem com referência a uma doutrina,

a qual, com efeito, quando a tenhamos assimilado, poderá estar eterna-

mente em nós. o Consolador é, pois, segundo o pensamento de Jesus, a

personificação de uma doutrina soberanamente consoladora, cujo inspi-

rador há de ser o Espírito de Verdade.

40. o Espiritismo realiza, como ficou demonstrado (cap. i, item

30), todas as condições do Consolador que Jesus prometeu. não é uma

doutrina individual, nem de concepção humana; ninguém pode dizer-se

seu criador. é fruto do ensino coletivo dos espíritos, ensino a que preside

o espírito de verdade. nada suprime do evangelho: antes o completa e

elucida. com o auxílio das novas leis que revela, conjugadas essas leis às

que a ciência já descobrira, faz se compreenda o que era ininteligível

 

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Predições do Evangelho

 

e se admita a possibilidade daquilo que a incredulidade considerava

inadmissível. teve precursores e profetas, que lhe pressentiram a vinda.

pela sua força moralizadora, ele prepara o reinado do bem na terra.

A doutrina de moisés, incompleta, ficou circunscrita ao povo ju-

deu; a de Jesus, mais completa, se espalhou por toda a terra, mediante

o cristianismo, mas não converteu a todos; o espiritismo, ainda mais

completo, com raízes em todas as crenças, converterá a humanidade.185

41. dizendo a seus apóstolos: “outro virá mais tarde, que vos en-

sinará o que agora não posso ensinar”, proclamava Jesus a necessidade

da reencarnação. como poderiam aqueles homens aproveitar do ensino

mais completo que ulteriormente seria ministrado; como estariam aptos

a compreendê-lo, se não tivessem de viver novamente? Jesus houvera pro-

ferido uma coisa inconsequente se, de acordo com a doutrina vulgar, os

homens futuros houvessem de ser homens novos, almas saídas do nada

por ocasião do nascimento. Admita-se, ao contrário, que os apóstolos e

os homens do tempo deles tenham vivido depois; que ainda hoje revivem,

e plenamente justificada estará a promessa de Jesus. tendo-se desenvol-

vido ao contato do progresso social, a inteligência deles pode presente-

mente comportar o que então não podia. sem a reencarnação a promessa

de Jesus fora ilusória.

42. se disserem que essa promessa se cumpriu no dia de pente-

costes, por meio da descida do espírito santo, poder-se-á responder que

o espírito santo os inspirou, que lhes desanuviou a inteligência, que

desenvolveu neles as aptidões mediúnicas destinadas a facilitar-lhes a

missão, porém que nada lhes ensinou além daquilo que Jesus já ensi-

nara, porquanto, no que deixaram, nenhum vestígio se encontra de um

ensinamento especial. o espírito santo, pois, não realizou o que Jesus

anunciara relativamente ao consolador; a não ser assim, os apóstolos

teriam elucidado o que, no evangelho, permaneceu obscuro até o dia de

hoje e cuja interpretação contraditória deu origem às inúmeras seitas que

dividiram o cristianismo desde os primeiros séculos.

 

185 Nota de Allan Kardec: Todas as doutrinas filosóficas e religiosas trazem o nome do seu fundador.

Diz-se: o Moisaísmo, o Cristianismo, o Maometismo, o Budismo, o Cartesianismo, o Furrierismo, o

Sansimonismo etc. A palavra Espiritismo, ao contrário, não lembra nenhuma personalidade; encerra

uma ideia geral, que ao mesmo tempo indica o caráter e o tronco multíplice da Doutrina.

 

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Capítulo XVII

 

Segundo advento do Cristo

 

43. disse então Jesus a seus discípulos: “se algum quiser vir nas minhas pegadas,

renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me — porquanto, aquele que quiser

salvar a vida a perderá e aquele que perder a vida por amor de mim a encontrará

de novo.

 

de que serviria a um homem ganhar o mundo inteiro e perder a alma? ou por

que preço poderá o homem comprar sua alma, depois de a ter perdido? — porque,

o filho do Homem há de vir na glória de seu pai, com seus anjos, e então dará a

cada um segundo as suas obras.

 

digo-vos, em verdade, que alguns daqueles que aqui se encontram não so-

frerão a morte, sem que tenham visto vir o filho do homem no seu reino.”

(Mateus, 16:24 a 28.)

 

44. então, levantando-se do meio da assembleia, o sumo sacerdote interrogou a

Jesus desta forma: “nada respondes ao que estes depõem contra ti?” — mas Jesus

se conservava em silêncio e não respondeu. interrogou-o de novo o sumo sacerdo-

te: “és o cristo, o filho de deus para sempre bendito?” — Jesus lhe respondeu:

“eu o sou e vereis um dia o filho do Homem assentado à direita da majestade de

deus e vindo sobre as nuvens do céu.”

 

logo o sumo sacerdote, rasgando as vestes, lhe diz: “Que necessidade temos de

mais testemunhos?” (Marcos, 16:60 a 63.)

 

45. Jesus anuncia o seu segundo advento, mas não diz que voltará à

terra com um corpo carnal, nem que personificará o Consolador. Apresen-

ta-se como tendo de vir em espírito, na glória de seu pai, a julgar o mérito

e o demérito e dar a cada um segundo as suas obras, quando os tempos

forem chegados.

estas palavras: “Alguns há dos que aqui estão que não sofrerão a

morte sem terem visto vir o filho do Homem no seu reinado” parecem

encerrar uma contradição, pois é incontestável que ele não veio em vida

de nenhum daqueles que estavam presentes. Jesus, entretanto, não podia

enganar-se numa previsão daquela natureza e, sobretudo, com relação a

uma coisa contemporânea e que lhe dizia pessoalmente respeito. Há, pri-

meiro, que indagar se suas palavras foram sempre reproduzidas fielmente.

é de duvidar-se, desde que se considere que ele nada escreveu; que elas só

 

344

Predições do Evangelho

 

foram registradas depois de sua morte; que o mesmo discurso cada evan-

gelista o exarou em termos diferentes, o que constitui prova evidente de

que as expressões de que eles se serviram não são textualmente as de que se

serviu Jesus. Além disso, é provável que o sentido tenha sofrido alterações

ao passar pelas traduções sucessivas.

por outro lado, é indubitável que, se Jesus houvesse dito tudo o que

pudera dizer, ele se teria expressado sobre todas as coisas de modo claro e

preciso, sem dar lugar a qualquer equívoco, conforme o fez com relação aos

princípios de moral, ao passo que foi obrigado a velar o seu pensamento

acerca dos assuntos que não julgou conveniente aprofundar. persuadidos

de que a geração de que faziam parte testemunharia o que ele anunciava,

os discípulos foram levados a interpretar o pensamento de Jesus de acordo

com aquela ideia. Assim é que redigiram do ponto de vista do presente

o que o mestre dissera, fazendo-o de maneira mais absoluta do que ele

próprio o teria feito. seja como for, o fato é que as coisas não se passaram

como eles o supuseram.

46. A grande e importante lei da reencarnação foi um dos pontos

capitais que Jesus não pôde desenvolver, porque os homens do seu tem-

po não se achavam suficientemente preparados para ideias dessa ordem e

para as suas consequências. contudo, assentou o princípio da referida lei,

como o fez relativamente a tudo mais. estudada e posta em evidência nos

dias atuais pelo espiritismo, a lei da reencarnação constitui a chave para

o entendimento de muitas passagens do evangelho que, sem ela, parecem

verdadeiros contrassensos.

é por meio dessa lei que se encontra a explicação racional das palavras

acima, admitidas que sejam como textuais. uma vez que elas não podem

ser aplicadas às pessoas dos apóstolos, é evidente que se referem ao futuro

reinado do cristo, isto é, ao tempo em que a sua doutrina, mais bem com-

preendida, for lei universal. dizendo que alguns dos ali presentes na ocasião

veriam o seu advento, ele forçosamente se referia aos que estarão vivos de

novo nessa época. os judeus, porém, imaginavam que lhes seria dado ver

tudo o que Jesus anunciava e tomavam ao pé da letra suas frases alegóricas.

Aliás, algumas de suas predições se realizaram no devido tempo, tais

como a ruína de Jerusalém, as desgraças que se lhe seguiram e a dispersão

dos judeus. sua visão, porém, se projetava muito mais longe, de sorte que,

quando falava do presente, sempre aludia ao futuro.

 

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Capítulo XVII

 

Sinais precursores

 

47. também ouvireis falar de guerra e de rumores de guerra; tratai de não vos

perturbardes, porquanto é preciso que essas coisas se deem; mas ainda não será o

fim — pois ver-se-á povo levantar-se contra povo e reino contra reino; e haverá

pestes, fomes e tremores de terra em diversos lugares — todas essas coisas serão

apenas o começo das dores. (Mateus, 24:6 a 8.)

 

48. então, o irmão entregará o irmão para ser morto; os filhos se levantarão

contra seus pais e suas mães e os farão morrer. — sereis odiados de toda a

gente por causa do meu nome; mas aquele que perseverar até o fim será salvo.

(Marcos, 13:12 e 13.)

 

49. Quando virdes que a abominação da desolação, que foi predita pelo profeta

daniel, está no lugar santo (que aquele que lê entenda bem o que lê); — fujam

então para as montanhas os que estiverem na Judeia;186 — não desça aquele que

estiver no telhado, para levar de sua casa qualquer coisa; — e não volte para

apanhar suas roupas aquele que estiver no campo. — mas ai das mulheres que

estiverem grávidas ou amamentando nesses dias. — pedi a deus que a vossa fuga

não se dê durante o inverno, nem em dia de sábado — porquanto a aflição desse

tempo será tão grande, como ainda não houve igual desde o começo do mundo

até o presente e como nunca mais haverá. — e se esses dias não fossem abrevia-

dos, nenhum homem se salvaria; mas esses dias serão abreviados em favor dos

eleitos. (Mateus, 24:15 a 22.)

 

50. logo depois desses dias de aflição, o sol se obscurecerá e a lua deixará de dar

sua luz; as estrelas cairão do céu e as potestades dos céus serão abaladas.

 

então, o sinal do filho do Homem aparecerá no céu e todos os povos da terra es-

tarão em prantos e em gemidos e verão o filho do Homem vindo sobre as nuvens

do céu com grande majestade.

 

ele enviará seus anjos, que farão ouvir a voz retumbante de suas trombetas e que reu-

nirão seus eleitos dos quatro cantos do mundo, de uma extremidade a outra do céu.

 

186 Nota de Allan Kardec: Esta expressão: a abominação da desolação não só carece de sentido, como se

presta ao ridículo. A tradução de Osterwald diz: “A abominação que causa a desolação”, o que é muito

diferente. O sentido então se torna perfeitamente claro, porquanto se compreende que as abomina-

ções hajam de acarretar a desolação, como castigo. Quando a abominação, diz Jesus, se instalar no

lugar santo, também a desolação para aí virá e isso constituirá um sinal de que estão próximos os

tempos.

 

346

Predições do Evangelho

 

Aprendei uma comparação tirada da figueira. Quando seus ramos já estão tenros

e dão folhas, sabeis que está próximo o estio. — do mesmo modo quando virdes

todas essas coisas, sabei que vem próximo o filho do homem, que ele se acha

como que à porta.

 

digo-vos, em verdade, que esta raça não passará, sem que todas essas coisas se

tenham cumprido. (Mateus, 24:29 a 34.)

 

e acontecerá no advento do filho do homem o que aconteceu ao tempo de noé

— pois, como nos últimos tempos antes do dilúvio, os homens comiam e bebiam,

se casavam e casavam seus filhos, até o dia em que noé entrou na arca; — e assim

como eles não conheceram o momento do dilúvio, senão quando este sobreveio

e arrebatou toda a gente, assim também será no advento do filho do Homem.

(Mateus, 24:37 a 39.)

 

51. Quanto a esse dia e a essa hora, ninguém o sabe, nem os anjos que estão no

céu, nem o filho, mas somente o pai. (Marcos, 13:32.)

 

52. em verdade, em verdade vos digo: chorareis e gemereis, e o mundo se rejubila-

rá; estareis em tristeza, mas a vossa tristeza se mudará em alegria. — uma mulher,

quando dá à luz, está em dor, porque é vinda a sua hora; mas depois que ela dá

à luz um filho, não mais se lembra de todos os males que sofreu, pela alegria que

experimenta de haver posto no mundo um homem. — é assim que agora estais

em tristeza; mas, eu vos verei de novo e o vosso coração rejubilará e ninguém vos

arrebatará a vossa alegria. (João, 16:20 a 22.)

 

53. levantar-se-ão muitos falsos profetas que seduzirão a muitas pessoas; — e,

porque abundará a iniquidade, a caridade de muitos esfriará; — mas aquele que

perseverar até o fim será salvo. — e este evangelho do reino será pregado em toda

a terra, para servir de testemunho a todas as nações. é então que o fim chegará.

(Mateus, 24:11 a 14.)

 

54. é evidentemente alegórico este quadro do fim dos tempos, como

a maioria dos que Jesus compunha. pelo seu vigor, as imagens que ele

encerra são de natureza a impressionar inteligências ainda rudes. para to-

car fortemente aquelas imaginações pouco sutis, eram necessárias pintu-

ras vigorosas, de cores bem acentuadas. ele se dirigia principalmente ao

povo, aos homens menos esclarecidos, incapazes de compreender as abs-

trações metafísicas e de apanhar a delicadeza das formas. A fim de atingir

 

347

Capítulo XVII

 

o coração, fazia-se-lhe mister falar aos olhos, com o auxílio de sinais mate-

riais, e aos ouvidos, por meio da força da linguagem.

como consequência natural daquela disposição de espírito, à supre-

ma potestade, segundo a crença de então, não era possível manifestar-se,

a não ser por meio de fatos extraordinários, sobrenaturais. Quanto mais

impossíveis fossem esses fatos, tanto mais facilmente aceita era a probabi-

lidade deles.

o filho do Homem, a vir sobre nuvens, com grande majestade,

cercado de seus anjos e ao som de trombetas, lhes parecia de muito maior

imponência, do que a simples vinda de uma entidade investida apenas de

poder moral. por isso mesmo, os judeus, que esperavam no messias um rei

terreno, mais poderoso do que todos os outros reis, destinado a colocar-

-lhes a nação à frente de todas as demais e a reerguer o trono de davi e de

salomão, não quiseram reconhecê-lo no humilde filho de um carpinteiro,

sem autoridade material.

no entanto, aquele pobre proletário da Judeia se tornou o maior

entre os grandes; conquistou para a sua soberania maior número de rei-

nos, do que os mais poderosos potentados; exclusivamente com a sua

palavra e o concurso de alguns miseráveis pescadores, revolucionou o

mundo e a ele é que os judeus virão a dever sua reabilitação. disse, pois,

uma verdade, quando, respondendo a esta pergunta de pilatos: “és rei?”

respondeu: “tu o dizes.”

55. é de notar-se que, entre os antigos, os tremores de terra e o obs-

curecimento do sol eram acessórios forçados de todos os acontecimentos

e de todos os presságios sinistros. com eles deparamos, por ocasião da

morte de Jesus, da de césar e num sem-número de outras circunstâncias

da história do paganismo. se tais fenômenos se houvessem produzido tão

amiudadas vezes quantas são relatados, fora de ter-se por impossível que

os homens não houvessem guardado deles lembrança pela tradição. Aqui,

acrescenta-se a queda de estrelas do céu, como que a mostrar às gerações fu-

turas, mais esclarecidas, que não há nisso senão uma ficção, pois que agora

se sabe que as estrelas não podem cair.

56. entretanto, sob essas alegorias, grandes verdades se ocultam. Há,

primeiramente, a predição das calamidades de todo gênero que assolarão e

dizimarão a humanidade, calamidades decorrentes da luta suprema entre o

bem e o mal, entre a fé e a incredulidade, entre as ideias progressistas e as

 

348

Predições do Evangelho

 

ideias retrógradas. Há, em segundo lugar, a da difusão, por toda a terra, do

evangelho restaurado na sua pureza primitiva; depois, a do reinado do bem,

que será o da paz e da fraternidade universais, a derivar do código de moral

evangélica, posto em prática por todos os povos. será, verdadeiramente, o

reino de Jesus, pois que ele presidirá à sua implantação, passando os ho-

mens a viver sob a égide da sua lei. será o reinado da felicidade, porquanto

diz ele que — “depois dos dias de aflição, virão os de alegria”.

57. Quando sucederão tais coisas? “ninguém o sabe” diz Jesus, “nem

mesmo o Filho.” mas, quando chegar o momento, os homens serão adverti-

dos por meio de sinais precursores. esses indícios, porém, não estarão nem

no sol, nem nas estrelas; mostrar-se-ão no estado social e nos fenômenos

mais de ordem moral do que físicos e que, em parte, se podem deduzir das

suas alusões.

é indubitável que aquela mutação não poderia operar-se em vida

dos apóstolos, pois, do contrário, Jesus não lhe desconheceria o momen-

to. Aliás, semelhante transformação não era possível se desse dentro de

apenas alguns anos. contudo, dela lhes fala como se eles a houvessem de

presenciar; é que, com efeito, eles poderão estar reencarnados quando a

transformação se der e, até, colaborar na sua efetivação. ele ora fala da

sorte próxima de Jerusalém, ora toma esse fato por ponto de referência ao

que ocorreria no futuro.

58. será que, predizendo a sua segunda vinda, era o fim do mundo o

que Jesus anunciava, dizendo: “Quando o evangelho for pregado por toda

a terra, então é que virá o fim?”

não é racional se suponha que deus destrua o mundo precisamente

quando ele entre no caminho do progresso moral, pela prática dos ensinos

evangélicos. nada, aliás, nas palavras do cristo, indica uma destruição uni-

versal que, em tais condições, não se justificaria.

devendo a prática geral do evangelho determinar grande melhora

no estado moral dos homens, ela, por isso mesmo, trará o reinado do bem

e acarretará a queda do mal. é, pois, o fim do mundo velho, do mundo

governado pelos preconceitos, pelo orgulho, pelo egoísmo, pelo fanatismo,

pela incredulidade, pela cupidez, por todas as paixões pecaminosas, que o

cristo aludia, ao dizer: “Quando o evangelho for pregado por toda a terra,

então é que virá o fim.” esse fim, porém, para chegar, ocasionaria uma luta

e é dessa luta que advirão os males por ele previstos.

 

349

Capítulo XVII

 

Vossos filhos e vossas filhas profetizarão

 

59. nos últimos tempos, diz o senhor, espalharei do meu espírito por sobre toda

a carne; vossos filhos e vossas filhas profetizarão; vossos jovens terão visões e vos-

sos velhos terão sonhos. — nesses dias, espalharei do meu espírito sobre os meus

servidores e servidoras e eles profetizarão. (Atos, 2:17 e 18; Joel, 2:28 e 29.)

 

60. se considerarmos o estado atual do mundo físico e do mundo

moral, as tendências, aspirações e pressentimentos das massas, a deca-

dência das ideias antigas que em vão se debatem há um século contra as

ideias novas, não poderemos duvidar de que uma nova ordem de coisas

se prepara e que o mundo velho chega a seu termo.

se, agora, levando em conta a forma alegórica de alguns quadros

e perscrutando o sentido profundo das palavras de Jesus, compararmos

a situação atual com os tempos por ele descritos, como assinaladores da

era da renovação, não poderemos deixar de convir em que muitas das

suas predições se estão presentemente realizando; donde a conclusão de

que atingimos os tempos anunciados, o que confirmam, em todos os

pontos do globo, os espíritos que se manifestam.

61. como vimos (cap. i, item 32), coincidindo com outras cir-

cunstâncias, o advento do espiritismo realiza uma das mais importantes

predições de Jesus, pela influência que ele forçosamente tem de exercer

sobre as ideias. ele se encontra, além disso, anunciado, nos Atos dos

Apóstolos: “nos últimos tempos, diz o senhor, derramarei do meu espí-

rito sobre toda carne; vossos filhos e filhas profetizarão.”

é a predição inequívoca da vulgarização da mediunidade, que pre-

sentemente se revela em indivíduos de todas as idades, de ambos os sexos

e de todas as condições; a predição, por conseguinte, da manifestação

universal dos espíritos, pois que sem os espíritos não haveria médiuns.

isso, conforme está dito, acontecerá nos últimos tempos; ora, visto que não

chegamos ao fim do mundo, mas, ao contrário, à época da sua regene-

ração, devemos entender aquelas palavras como indicativas dos últimos

tempos do mundo moral que chega a seu termo. (O evangelho segundo o

espiritismo, cap. XXi.)

 

350

Predições do Evangelho

 

Juízo final

 

62. ora, quando o filho do Homem vier em sua majestade, acompanhado de

todos os anjos, assentar-se-á no trono de sua glória; — e, reunidas à sua frente

todas as nações, ele separará uns dos outros, como um pastor separa dos bodes

as ovelhas, e colocará à sua direita as ovelhas e à sua esquerda os bodes. — então,

dirá o rei aos que estiverem à sua direita: “vinde a mim, benditos de meu pai

[...].” (Mateus, 25:31 a 46; O evangelho segundo o espiritismo, cap. Xv.)

 

63. tendo que reinar na terra o bem, necessário é sejam dela ex-

cluídos os espíritos endurecidos no mal e que possam acarretar-lhe per-

turbações. deus permitiu que eles aí permanecessem o tempo de que

precisavam para se melhorarem; mas, chegado o momento em que, pelo

progresso moral de seus habitantes, o globo terráqueo tem de ascender

na hierarquia dos mundos, interdito será ele, como morada, a encarna-

dos e desencarnados que não hajam aproveitado os ensinamentos que

uns e outros se achavam em condições de aí receber. serão exilados para

mundos inferiores, como o foram outrora para a terra os da raça adâ-

mica, vindo substituí-los espíritos melhores. essa separação, a que Jesus

presidirá, é que se acha figurada por estas palavras sobre o juízo final: “os

bons passarão à minha direita e os maus à minha esquerda.” (cap. Xi,

itens 31 e seguintes.)

64. A doutrina de um juízo final, único e universal, pondo fim

para sempre à humanidade, repugna à razão, por implicar a inatividade

de deus, durante a eternidade que precedeu à criação da terra e durante

a eternidade que se seguirá à sua destruição. Que utilidade teriam então o

sol, a lua e as estrelas que, segundo a gênese, foram feitos para iluminar

o mundo? causa espanto que tão imensa obra se haja produzido para tão

pouco tempo e a benefício de seres votados de antemão, em sua maioria,

aos suplícios eternos.

65. materialmente, a ideia de um julgamento único seria, até certo

ponto, admissível para os que não procuram a razão das coisas, quando se

cria que a humanidade toda se achava concentrada na terra e que para seus

habitantes fora feito tudo o que o universo contém. é, porém, inadmissí-

vel, desde que se sabe que há milhares de milhares de mundos semelhantes,

 

351

Capítulo XVII

 

que perpetuam as humanidades pela eternidade em fora e entre os quais a

terra é dos menos consideráveis, simples ponto imperceptível.

vê-se, só por este fato, que Jesus tinha razão de declarar a seus dis-

cípulos: “Há muitas coisas que não vos posso dizer, porque não as com-

preenderíeis”, dado que o progresso das ciências era indispensável para

uma interpretação legítima de algumas de suas palavras. certamente, os

apóstolos, paulo e os primeiros discípulos teriam estabelecido de modo

muito diverso alguns dogmas se tivessem os conhecimentos astronômi-

cos, geológicos, físicos, químicos, fisiológicos e psicológicos que hoje

possuímos. daí vem o ter Jesus adiado a completação de seus ensinos e

anunciado que todas as coisas haviam de ser restabelecidas.

66. moralmente, um juízo definitivo e sem apelação não se conci-

lia com a bondade infinita do criador, que Jesus nos apresenta de con-

tínuo como um bom pai, que deixa sempre aberta uma senda para o

arrependimento e que está pronto sempre a estender os braços ao filho

pródigo. se Jesus entendesse o juízo naquele sentido, desmentiria suas

próprias palavras.

Além disso, se o juízo final houvesse de apanhar de improviso os

homens, em meio de seus trabalhos ordinários, e grávidas as mulheres,

caberia perguntar-se com que fim deus, que não faz coisa alguma inútil

ou injusta, faria nascessem crianças e criaria almas novas naquele mo-

mento supremo, no termo fatal da humanidade. seria para submetê-las a

julgamento logo ao saírem do ventre materno, antes de terem consciência

de si mesmas, quando, a outros, milhares de anos foram concedidos para

se inteirarem do que respeita à própria individualidade? para que lado,

direito ou esquerdo, iriam essas almas, que ainda não são nem boas nem

más e para as quais, no entanto, todos os caminhos de ulterior progresso

se encontrariam desde então fechados, visto que a humanidade não mais

existiria? (cap. ii, item 19.)

conservem-nas os que se contentam com semelhantes crenças; es-

tão no seu direito e ninguém nada tem que dizer a isso; mas, não achem

mau que nem toda gente partilhe delas.

67. o juízo, pelo processo da emigração, conforme ficou explicado

acima (item 63), é racional; funda-se na mais rigorosa justiça, visto que

conserva para o espírito, eternamente, o seu livre-arbítrio; não constitui

privilégio para ninguém; a todas as suas criaturas, sem exceção alguma,

 

352

Predições do Evangelho

 

concede deus igual liberdade de ação para progredirem; o próprio ani-

quilamento de um mundo, acarretando a destruição do corpo, nenhuma

interrupção ocasionará à marcha progressiva do espírito. tais as conse-

quências da pluralidade dos mundos e da pluralidade das existências.

segundo essa interpretação, não é exata a qualificação de juízo fi-

nal, pois que os espíritos passam por análogas fieiras a cada renovação

dos mundos por eles habitados, até que atinjam certo grau de perfeição.

não há, portanto, juízo final propriamente dito, mas juízos gerais em

todas as épocas de renovação parcial ou total da população dos mundos,

por efeito das quais se operam as grandes emigrações e imigrações de

espíritos.

 

353

cApítulo Xviii

 

M

 

são chegados os tempos

 

• sinais dos tempos • A geração nova

 

Sinais dos tempos

 

1. são chegados os tempos, dizem-nos de todas as partes, marca-

dos por deus, em que grandes acontecimentos se vão dar para regene-

ração da humanidade. em que sentido se devem entender essas pala-

vras proféticas? para os incrédulos, nenhuma importância têm; aos seus

olhos, nada mais exprimem que uma crença pueril, sem fundamento.

para a maioria dos crentes, elas apresentam qualquer coisa de místico

e de sobrenatural, parecendo-lhes prenunciadoras da subversão das leis

da natureza. são igualmente errôneas ambas essas interpretações: a pri-

meira, porque envolve uma negação da providência; a segunda, porque

tais palavras não anunciam a perturbação das leis da natureza, mas o

cumprimento dessas leis.

2. tudo na criação é harmonia; tudo revela uma previdência que

não se desmente, nem nas menores, nem nas maiores coisas. temos, pois,

que afastar, desde logo, toda ideia de capricho, por inconciliável com a

sabedoria divina. em segundo lugar, se a nossa época está designada para

a realização de certas coisas, é que estas têm uma razão de ser na marcha

do conjunto.

isto posto, diremos que o nosso globo, como tudo o que existe,

esta submetido à lei do progresso. ele progride, fisicamente, pela trans-

formação dos elementos que o compõem e, moralmente, pela depuração

Capítulo XVIII

 

dos espíritos encarnados e desencarnados que o povoam. Ambos esses

progressos se realizam paralelamente, porquanto o melhoramento da ha-

bitação guarda relação com o do habitante. fisicamente, o globo terrá-

queo há experimentado transformações que a ciência tem comprovado

e que o tornaram sucessivamente habitável por seres cada vez mais aper-

Continuar: parte 3 de 3