A Gênese: Os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo

Allan Kardec · Capítulo 76 de 81 · parte 3/3

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A Gênese: Os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo

cApítulo Xvi · teoria da presciência

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

feiçoados. moralmente, a humanidade progride pelo desenvolvimento

da inteligência, do senso moral e do abrandamento dos costumes. Ao

mesmo tempo que o melhoramento do globo se opera sob a ação das

forças materiais, os homens para isso concorrem pelos esforços de sua

inteligência. saneiam as regiões insalubres, tornam mais fáceis as comu-

nicações e mais produtiva a terra.

de duas maneiras se executa esse duplo progresso: uma, lenta, gra-

dual e insensível; a outra, caracterizada por mudanças bruscas, a cada

uma das quais corresponde um movimento ascensional mais rápido, que

assinala, mediante impressões bem acentuadas, os períodos progressivos

da humanidade. esses movimentos, subordinados, quanto às particula-

ridades, ao livre-arbítrio dos homens, são, de certo modo, fatais em seu

conjunto, porque estão sujeitos a leis, como os que se verificam na germi-

nação, no crescimento e na maturidade das plantas. por isso é que o mo-

vimento progressivo se efetua, às vezes, de modo parcial, isto é, limitado

a uma raça ou a uma nação, doutras vezes, de modo geral.

o progresso da humanidade se cumpre, pois, em virtude de uma

lei. ora, como todas as leis da natureza são obra eterna da sabedoria e da

presciência divinas, tudo o que é efeito dessas leis resulta da vontade de

deus, não de uma vontade acidental e caprichosa, mas de uma vontade

imutável. Quando, por conseguinte, a humanidade está madura para su-

bir um degrau, pode dizer-se que são chegados os tempos marcados por

deus, como se pode dizer também que, em tal estação, eles chegam para

a maturação dos frutos e sua colheita.

3. do fato de ser inevitável, porque é da natureza o movimento

progressivo da humanidade, não se segue que deus lhe seja indiferente e

que, depois de ter estabelecido leis, se haja recolhido à inação, deixando

que as coisas caminhem por si sós. sem dúvida, suas leis são eternas e

imutáveis, mas porque a sua própria vontade é eterna e constante e por-

que o seu pensamento anima sem interrupção todas as coisas. esse pen-

samento, que em tudo penetra, é a força inteligente e permanente que

 

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São chegados os tempos

 

mantém a harmonia em tudo. cessasse ele um só instante de atuar e o

universo seria como um relógio sem pêndulo regulador. deus, pois, vela

incessantemente pela execução de suas leis e os espíritos que povoam

o espaço são seus ministros, encarregados de atender aos pormenores,

dentro de atribuições que correspondem ao grau de adiantamento que

tenham alcançado.

4. o universo é, ao mesmo tempo, um mecanismo incomensurá-

vel, acionado por um número incontável de inteligências, e um imenso

governo em o qual cada ser inteligente tem a sua parte de ação sob as

vistas do soberano senhor, cuja vontade única mantém por toda parte a

unidade. sob o império dessa vasta potência reguladora, tudo se move,

tudo funciona em perfeita ordem. onde nos parece haver perturbações,

o que há são movimentos parciais e isolados, que se nos afiguram irregu-

lares apenas porque circunscrita é a nossa visão. se lhes pudéssemos abar-

car o conjunto, veríamos que tais irregularidades são apenas aparentes e

que se harmonizam com o todo.

5. A humanidade tem realizado, até o presente, incontestáveis pro-

gressos. os homens, com a sua inteligência, chegaram a resultados que

jamais haviam alcançado, sob o ponto de vista das ciências, das artes e do

bem-estar material. resta-lhes ainda um imenso progresso a realizar: o de

fazerem que entre si reinem a caridade, a fraternidade, a solidariedade, que

lhes assegurem o bem-estar moral. não poderiam consegui-lo nem com as

suas crenças, nem com as suas instituições antiquadas, restos de outra

idade, boas para certa época, suficientes para um estado transitório, mas

que, havendo dado tudo o que comportavam, seriam hoje um entrave. Já

não é somente de desenvolver a inteligência o de que os homens necessi-

tam, mas de elevar o sentimento e, para isso, faz-se preciso destruir tudo

o que superexcite neles o egoísmo e o orgulho.

tal o período em que doravante vão entrar e que marcará uma das

fases principais da vida da humanidade. essa fase, que neste momento

se elabora, é o complemento indispensável do estado precedente, como

a idade viril o é da juventude. ela podia, pois, ser prevista e predita de

antemão e é por isso que se diz que são chegados os tempos determinados

por deus.

6. nestes tempos, porém, não se trata de uma mudança parcial,

de uma renovação limitada a certa região, ou a um povo, a uma raça.

 

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Capítulo XVIII

 

trata-se de um movimento universal, a operar-se no sentido do progresso

moral. uma nova ordem de coisas tende a estabelecer-se, e os homens,

que mais opostos lhe são, para ela trabalham a seu mau grado. A geração

futura, desembaraçada das escórias do velho mundo e formada de ele-

mentos mais depurados, se achará possuída de ideias e de sentimentos

muito diversos dos da geração presente, que se vai a passo de gigante. o

velho mundo estará morto e apenas viverá na História, como o estão hoje

os tempos da idade média, com seus costumes bárbaros e suas crenças

supersticiosas.

Aliás, todos sabem quanto ainda deixa a desejar a atual ordem de

coisas. depois de se haver, de certo modo, considerado todo o bem-estar

material, produto da inteligência, logra-se compreender que o comple-

mento desse bem-estar somente pode achar-se no desenvolvimento mo-

ral. Quanto mais se avança, tanto mais se sente o que falta, sem que,

entretanto, se possa ainda definir claramente o que seja: é isso efeito do

trabalho íntimo que se opera em prol da regeneração. surgem desejos,

aspirações, que são como que o pressentimento de um estado melhor.

7. mas uma mudança tão radical como a que se está elaborando

não pode realizar-se sem comoções. Há, inevitavelmente, luta de ideias.

desse conflito forçosamente se originarão passageiras perturbações, até

que o terreno se ache aplanado e restabelecido o equilíbrio. é, pois, da

luta das ideias que surgirão os graves acontecimentos preditos e não de

cataclismos ou catástrofes puramente materiais. os cataclismos gerais fo-

ram consequência do estado de formação da terra. Hoje, não são mais as

entranhas do planeta que se agitam: são as da humanidade.

8. se a terra já não tem que temer os cataclismos gerais, nem por

isso deixa de estar sujeita a periódicas revoluções, cujas causas, do ponto

de vista científico, se encontram explicadas nas instruções seguintes, pro-

manantes de dois espíritos eminentes:187

“cada corpo celeste, além das leis simples que presidem à divisão

dos dias e das noites, das estações etc., experimenta revoluções que de-

mandam milhares de séculos para sua realização completa, porém que,

como as revoluções mais breves, passam por todos os períodos, desde o

 

187 Nota de Allan Kardec: Extrato de duas comunicações dadas na Sociedade de Paris e publicadas na

Revista espírita de outubro de 1868. São corolários das de Galileu, reproduzidas no capítulo VI, e com-

plementares do capítulo IX, sobre as revoluções do globo.

 

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São chegados os tempos

 

de nascimento até o de um máximo de efeito, após o qual há decresci-

mento, até o limite extremo, para recomeçar em seguida o percurso das

mesmas fases.

“o homem apenas apreende as fases de duração relativamente cur-

ta e cuja periodicidade ele pode comprovar. Algumas, no entanto, há que

abrangem longas gerações de seres e, até, sucessões de raças, revoluções

essas cujos efeitos, conseguintemente, se lhe apresentam com caráter de

novidade e de espontaneidade, ao passo que, se seu olhar pudesse proje-

tar-se para trás alguns milhares de séculos, veria, entre aqueles mesmos

efeitos e suas causas, uma correlação de que nem suspeita. esses períodos

que, pela sua extensão relativa, confundem a imaginação dos humanos,

não são, contudo, mais do que instantes na duração eterna.

“num mesmo sistema planetário, todos os corpos que o consti-

tuem reagem uns sobre os outros; todas as influências físicas são nele so-

lidárias e nem um só há, dos efeitos que designais pelo nome de grandes

perturbações, que não seja consequência da componente das influências

de todo o sistema.

“vou mais longe: digo que os sistemas planetários reagem uns so-

bre os outros, na razão da proximidade ou do afastamento resultantes

do movimento de translação deles, através das miríades de sistemas que

compõem a nossa nebulosa. Ainda vou mais longe: digo que a nossa

nebulosa, que é um como arquipélago na imensidade, tendo também

seu movimento de translação através das miríades de nebulosas, sofre a

influência das de que ela se aproxima.

“de sorte que as nebulosas reagem sobre as nebulosas, os sistemas

reagem sobre os sistemas, como os planetas reagem sobre os planetas,

como os elementos de cada planeta reagem uns sobre os outros e assim

sucessivamente até o átomo. daí, em cada mundo, revoluções locais ou

gerais, que sê não parecem perturbações porque a brevidade da vida não

permite se lhes percebam mais do que os efeitos parciais.

“A matéria orgânica não poderia escapar a essas influências; as per-

turbações que ela sofre podem, pois, alterar o estado físico dos seres vivos

e determinar algumas dessas enfermidades que atacam de modo geral

as plantas, os animais e os homens, enfermidades que, como todos os

flagelos, são, para a inteligência humana, um estimulante que a impele,

 

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Capítulo XVIII

 

por força da necessidade, a procurar meios de os combater e a descobrir

leis da natureza.

“mas a matéria orgânica, a seu turno, reage sobre o espírito. este,

pelo seu contato e sua ligação íntima com os elementos materiais, tam-

bém sofre influências que lhe modificam as disposições, sem, no entanto,

privá-lo do livre-arbítrio, que lhe sobre-excitam ou atenuam a atividade

e que, pois, contribuem para o seu desenvolvimento. A efervescência que

por vezes se manifesta em toda uma população, entre os homens de uma

mesma raça, não é coisa fortuita, nem resultado de um capricho; tem sua

causa nas leis da natureza. essa efervescência, inconsciente a princípio,

não passando de vago desejo, de aspiração indefinida por alguma coisa

melhor, de certa necessidade de mudança, traduz-se por uma surda agi-

tação, depois por atos que levam às revoluções sociais, que, acreditai-o,

também têm sua periodicidade, como as revoluções físicas, pois que tudo

se encadeia. se não tivésseis a visão espiritual limitada pelo véu da maté-

ria, veríeis as correntes fluídicas que, como milhares de fios condutores,

ligam as coisas do mundo espiritual às do mundo material.

“Quando se vos diz que a humanidade chegou a um período de

transformação e que a terra tem que se elevar na hierarquia dos mundos,

nada de místico vejais nessas palavras; vede, ao contrário, a execução da

uma das grandes leis fatais do universo, contra as quais se quebra toda a

má vontade humana.”188

Arago

 

9. sim, decerto, a humanidade se transforma, como já se trans-

formou noutras épocas, e cada transformação se assinala por uma crise

que é, para o gênero humano, o que são, para os indivíduos, as crises de

crescimento. Aquelas se tornam, muitas vezes, penosas, dolorosas, e arre-

batam consigo as gerações e as instituições, mas, são sempre seguidas de

uma fase de progresso material e moral.

A humanidade terrestre, tendo chegado a um desses períodos de

crescimento, está em cheio, há quase um século, no trabalho da sua trans-

formação, pelo que a vemos agitar-se de todos os lados, presa de uma es-

pécie de febre e como que impelida por invisível força. Assim continuará,

até que se haja outra vez estabilizado em novas bases. Quem a observar,

188 N.E.: Ver Nota Explicativa, p. 375.

 

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São chegados os tempos

 

então, achá-la-á muito mudada em seus costumes, em seu caráter, nas

suas leis, em suas crenças, numa palavra: em todo o seu estado social.

“uma coisa que vos parecerá estranhável, mas que por isso não

deixa de ser rigorosa verdade, é que o mundo dos espíritos, mundo que

vos rodeia, experimenta o contrachoque de todas as comoções que aba-

lam o mundo dos encarnados. digo mesmo que aquele toma parte ativa

nessas comoções. nada tem isto de surpreendente, para quem sabe que

os espíritos fazem corpo com a humanidade; que eles saem dela e a ela

têm de voltar, sendo, pois, natural se interessem pelos movimentos que

se operam entre os homens. ficai, portanto, certos de que, quando uma

revolução social se produz na terra, abala igualmente o mundo invisível,

onde todas as paixões, boas e más, se exacerbam, como entre vós. indi-

zível efervescência entra a reinar na coletividade dos espíritos que ainda

pertencem ao vosso mundo e que aguardam o momento de a ele volver.

“À agitação dos encarnados e desencarnados se juntam às vezes, e

frequentemente mesmo, já que tudo se conjuga em a natureza, as pertur-

bações dos elementos físicos. dá-se então, durante algum tempo, verda-

deira confusão geral, mas que passa como furacão, após o qual o céu volta

a estar sereno, e a humanidade, reconstituída sobre novas bases, imbuída

de novas ideias, começa a percorrer nova etapa de progresso.

“é no período que ora se inicia que o espiritismo florescerá e dará

frutos. trabalhais, portanto, mais para o futuro, do que para o presente.

era, porém, necessário que esses trabalhos se preparassem antecipada-

mente, porque eles traçam as sendas da regeneração, pela unificação e ra-

cionalidade das crenças. ditosos os que deles aproveitam desde já. tantas

penas se pouparão esses, quantos forem os proveitos que deles aufiram.”

Doutor Barry

 

10. do que precede resulta que, em consequência do movimento

de translação que executam no espaço, os corpos celestes exercem, uns

sobre os outros, maior ou menor influência, conforme a proximidade em

que se achem entre si e as suas respectivas posições; que essa influência

pode acarretar uma perturbação momentânea aos seus elementos cons-

titutivos e modificar as condições de vitalidade dos seus habitantes; que

a regularidade dos movimentos determina a volta periódica das mesmas

causas e dos mesmos efeitos; que, se demasiado curta é a duração de

 

361

Capítulo XVIII

 

certos períodos para que os homens os apreciem, outros veem passar

gerações e raças que deles não se apercebem e às quais se afigura normal

o estado de coisas que observam. Ao contrário, as gerações contemporâ-

neas da transição lhe sofrem o contrachoque e tudo lhes parece fora das

leis ordinárias. essas gerações veem uma causa sobrenatural, maravilhosa,

miraculosa no que, em realidade, mais não é do que a execução das leis

da natureza.

se, pelo encadeamento e a solidariedade das causas e dos efeitos, os

períodos de renovação moral da humanidade coincidem, como tudo leva

a crer, com as revoluções físicas do globo, podem os referidos períodos

ser acompanhados ou precedidos de fenômenos naturais, insólitos para

os que com eles não se acham familiarizados, de meteoros que parecem

estranhos, de recrudescência e intensificação desusadas dos flagelos des-

truidores, que não são nem causa, nem presságios sobrenaturais, mas

uma consequência do movimento geral que se opera no mundo físico e

no mundo moral.

Anunciando a época de renovação que se havia de abrir para a

humanidade e determinar o fim do velho mundo, a Jesus, pois, foi lícito

dizer que ela se assinalaria por fenômenos extraordinários, tremores de

terra, flagelos diversos, sinais no céu, que mais não são do que meteoros,

sem ab-rogação das leis naturais. o vulgo, porém, ignorante, viu nessas

palavras a predição de fatos miraculosos.189

11. A previsão dos movimentos progressivos da humanidade nada

apresenta de surpreendente, quando feita por seres desmaterializados,

que veem o fim a que tendem todas as coisas, tendo alguns deles co-

nhecimento direto do pensamento de deus. pelos movimentos parciais,

esses seres veem em que época poderá operar-se um movimento geral,

do mesmo modo que o homem pode calcular de antemão o tempo que

uma árvore levará para dar frutos, do mesmo modo que os astrônomos

calculam a época de um fenômeno astronômico, pelo tempo que um

astro gasta para efetuar a sua revolução.

 

189 Nota de Allan Kardec: A terrível epidemia que, de 1866 a 1868, dizimou a população da Ilha

Maurício, teve a precedê-la tão extraordinária e tão abundante chuva de estrelas cadentes, em

novembro de 1866, que aterrorizou os habitantes daquela ilha. A partir desse momento, a doença,

que reinava desde alguns meses de forma muito benigna, se transformou em verdadeiro flagelo

devastador. Aquele fora bem um sinal no céu e talvez nesse sentido é que se deva entender a frase

— estrelas caindo do céu, de que fala o Evangelho, como um dos sinais dos tempos. (Pormenores

sobre a epidemia da Ilha Maurício: Revista espírita, julho de 1867, e novembro de 1868.)

 

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São chegados os tempos

 

12. A humanidade é um ser coletivo em quem se operam as mes-

mas revoluções morais por que passa todo ser individual, com a diferença

de que umas se realizam de ano em ano e as outras de século em século.

Acompanhe-se a humanidade em suas evoluções através dos tempos e

ver-se-á a vida das diversas raças marcada por períodos que dão a cada

época uma fisionomia especial.190

13. de duas maneiras se opera, como já o dissemos, a marcha pro-

gressiva da humanidade: uma, gradual, lenta, imperceptível, se se con-

siderarem as épocas consecutivas, a traduzir-se por sucessivas melhoras

nos costumes, nas leis, nos usos, melhoras que só com a continuação se

podem perceber, como as mudanças que as correntes de água ocasionam

na superfície do globo; a outra, por movimentos relativamente bruscos,

semelhantes aos de uma torrente que, rompendo os diques que a conti-

nham, transpõe nalguns anos o espaço que levaria séculos a percorrer. é,

então, um cataclismo moral que traga em breves instantes as instituições

do passado e ao qual sobrevém uma nova ordem de coisas que pouco a

pouco se estabiliza, à medida que se restabelece a calma, e que acaba por

se tornar definitiva.

Àquele que viva bastante para abranger com a vista as duas vertentes

da nova fase, parecerá que um mundo novo surgiu das ruínas do antigo.

o caráter, os costumes, os usos, tudo está mudado. é que, com efeito,

surgiram homens novos, ou, melhor, regenerados. As ideias, que a ge-

ração que se extinguiu levou consigo, cederam lugar a ideias novas que

desabrocham com a geração que se ergue.

14. tornada adulta, a humanidade tem novas necessidades, as-

pirações mais vastas e mais elevadas; compreende o vazio com que foi

embalada, a insuficiência de suas instituições para lhe dar felicidade; já

não encontra, no estado das coisas, as satisfações legítimas a que se sente

com direito. despoja-se, em consequência, das faixas infantis e se lança,

impelida por irresistível força, para as margens desconhecidas, em busca

de novos horizontes menos limitados.

é a um desses períodos de transformação, ou, se o preferirem, de

crescimento moral, que ora chega a humanidade. da adolescência chega ao

estado viril. o passado já não pode bastar às suas novas aspirações, às suas

novas necessidades; ela já não pode ser conduzida pelos mesmos métodos;

190 N.E.: Ver Nota Explicativa, p. 375.

 

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Capítulo XVIII

 

não mais se deixa levar por ilusões, nem fantasmagorias; sua razão ama-

durecida reclama alimentos mais substanciosos. é demasiado efêmero o

presente; ela sente que mais amplo é o seu destino e que a vida corpórea é

excessivamente restrita para encerrá-lo inteiramente. por isso, mergulha o

olhar no passado e no futuro, a fim de descobrir num ou noutro o mistério

da sua existência e de adquirir uma consoladora certeza.

e é no momento em que ela se encontra muito apertada na esfera

material, em que transbordante se encontra de vida intelectual, em que o

sentimento da espiritualidade lhe desabrocha no seio, que homens que se

dizem filósofos pretendem encher o vazio com as doutrinas do niilismo e

do materialismo! singular aberração! esses mesmos homens, que inten-

tam impelir para a frente a humanidade, se esforçam por circunscrevê-la

no acanhado círculo da matéria, donde ela anseia por escapar-se. velam-

-lhe o aspecto da vida infinita e lhe dizem, apontando para o túmulo:

Nec plus ultra!191

15. Quem quer que haja meditado sobre o espiritismo e suas con-

sequências e não o circunscreva à produção de alguns fenômenos terá

compreendido que ele abre à humanidade uma estrada nova e lhe des-

venda os horizontes do infinito. iniciando-a nos mistérios do mundo in-

visível, mostra-lhe o seu verdadeiro papel na criação, papel perpetuamente

ativo, tanto no estado espiritual, como no estado corporal. o homem já

não caminha às cegas: sabe donde vem, para onde vai e por que está na

terra. o futuro se lhe revela em sua realidade, despojado dos prejuízos da

ignorância e da superstição. Já não se trata de uma vaga esperança, mas

de uma verdade palpável, tão certa como a sucessão do dia e da noite.

ele sabe que o seu ser não se acha limitado a alguns instantes de uma

existência transitória; que a vida espiritual não se interrompe por efeito

da morte; que já viveu e tornará a viver e que nada se perde do que haja

ganho em perfeição; em suas existências anteriores depara com a razão do

que é hoje e reconhece que: do que ele é hoje, qual se fez a si mesmo, poderá

deduzir o que virá a ser um dia.

16. com a ideia de que a atividade e a cooperação individuais na

obra geral da civilização se limitam à vida presente, que, antes, a criatu-

ra nada foi e nada será depois, em que interessa ao homem o progresso

ulterior da humanidade? Que lhe importa que no futuro os povos sejam

191 N.E.: Nada mais além.

 

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São chegados os tempos

 

mais bem governados, mais ditosos, mais esclarecidos, melhores uns para

com os outros? não fica perdido para ele todo o progresso, pois que deste

nenhum proveito tirará? de que lhe serve trabalhar para os que hão de

vir depois, se nunca lhe será dado conhecê-los, se os seus pósteros serão

criaturas novas, que pouco depois voltarão por sua vez ao nada? sob o

domínio da negação do futuro individual, tudo forçosamente se ames-

quinha às insignificantes proporções do momento e da personalidade.

entretanto, que amplitude, ao contrário, dá ao pensamento do ho-

mem a certeza da perpetuidade do seu ser espiritual! Que de mais racio-

nal, de mais grandioso, de mais digno do criador do que a lei segundo a

qual a vida espiritual e a vida corpórea são apenas dois modos de existên-

cia, que se alternam para a realização do progresso! Que de mais justo há

e de mais consolador do que a ideia de estarem os mesmos seres a progre-

dir incessantemente, primeiro, pelas gerações de um mesmo mundo, de

mundo em mundo depois, até a perfeição, sem solução de continuidade!

todas as ações têm, então, uma finalidade, porquanto, trabalhando para

todos, cada um trabalha para si e reciprocamente, de sorte que nunca se

podem considerar infecundos nem o progresso individual, nem o pro-

gresso coletivo. de ambos esses progressos aproveitarão as gerações e as

individualidades porvindouras, que outras não virão a ser senão as gera-

ções e as individualidades passadas, em mais alto grau de adiantamento.

17. A fraternidade será a pedra angular da nova ordem social; mas,

não há fraternidade real, sólida, efetiva, senão assente em base inabalável

e essa base é a fé, não a fé em tais ou tais dogmas particulares, que mudam

com os tempos e os povos e que mutuamente se apedrejam, porquanto,

anatematizando-se uns aos outros, alimentam o antagonismo, mas a fé

nos princípios fundamentais que toda a gente pode aceitar e aceitará:

Deus, a alma, o futuro, o progresso individual indefinito, a perpetuidade das

relações entre os seres. Quando todos os homens estiverem convencidos de

que deus é o mesmo para todos; de que esse deus, soberanamente justo

e bom, nada de injusto pode querer; que não dele, porém dos homens

vem o mal, todos se considerarão filhos do mesmo pai e se estenderão as

mãos uns aos outros.

essa a fé que o espiritismo faculta e que doravante será o eixo em

torno do qual girará o gênero humano, quaisquer que sejam os cultos e

as crenças particulares.

 

365

Capítulo XVIII

 

18. o progresso intelectual realizado até o presente, nas mais largas

proporções, constitui um grande passo e marca uma primeira fase no

avanço geral da humanidade; impotente, porém, ele é para regenerá-la.

enquanto o orgulho e o egoísmo o dominarem, o homem se servirá da

sua inteligência e dos seus conhecimentos para satisfazer às suas paixões

e aos seus interesses pessoais, razão por que os aplica em aperfeiçoar os

meios de prejudicar os seus semelhantes e de os destruir.

19. somente o progresso moral pode assegurar aos homens a feli-

cidade na terra, refreando as paixões más; somente esse progresso pode

fazer que entre os homens reinem a concórdia, a paz, a fraternidade.

será ele que deitará por terra as barreiras que separam os povos,

que fará caiam os preconceitos de casta e se calem os antagonismos de

seitas, ensinando os homens a se considerarem irmãos que têm por de-

ver auxiliarem-se mutuamente e não destinados a viver à custa uns dos

outros.

será ainda o progresso moral que, secundado então pelo da inteli-

gência, confundirá os homens numa mesma crença fundada nas verdades

eternas, não sujeitas a controvérsias e, em consequência, aceitáveis por

todos.

A unidade de crença será o laço mais forte, o fundamento mais

sólido da fraternidade universal, obstada, desde todos os tempos pelos

antagonismos religiosos que dividem os povos e as famílias, que fazem

sejam uns, os dissidentes, vistos, pelos outros, como inimigos a serem

evitados, combatidos, exterminados, em vez de irmãos a serem amados.

20. semelhante estado de coisas pressupõe uma mudança radical

no sentimento das massas, um progresso geral que não se podia realizar

senão fora do círculo das ideias acanhadas e corriqueiras que fomentam

o egoísmo. em diversas épocas, homens de escol procuraram impelir a

humanidade por esse caminho; mas, ainda muito jovem, ela se conservou

surda e os ensinamentos que eles ministraram foram como a boa semente

caída no pedregulho.

Hoje, a humanidade está madura para lançar o olhar a alturas que

nunca tentou divisar, a fim de nutrir-se de ideias mais amplas e com-

preender o que antes não compreendia.

A geração que desaparece levará consigo seus erros e prejuízos; a

geração que surge, retemperada em fonte mais pura, imbuída de ideias

 

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São chegados os tempos

 

mais sãs, imprimirá ao mundo ascensional movimento, no sentido do

progresso moral que assinalará a nova fase da evolução humana.

21. essa fase já se revela por sinais inequívocos, por tentativas

de reformas úteis e que começam a encontrar eco. Assim é que vemos

fundar-se uma imensidade de instituições protetoras, civilizadoras e

emancipadoras, sob o influxo e por iniciativa de homens evidentemente

predestinados à obra da regeneração; que as leis penais se vão apresentan-

do dia a dia impregnadas de sentimentos mais humanos. enfraquecem-

-se os preconceitos de raça, os povos entram a considerar-se membros

de uma grande família; pela uniformidade e facilidade dos meios de

realizarem suas transações, eles suprimem as barreiras que os separavam

e de todos os pontos do mundo reúnem-se em comícios universais, para

as justas pacíficas da inteligência.

falta, porém, a essas reformas uma base que permita se desenvol-

vam, completem e consolidem; falta uma predisposição moral mais ge-

neralizada, para fazer que elas frutifiquem e que as massas as acolham.

Ainda aí há um sinal característico da época, porque há o prelúdio do

que se efetuará em mais larga escala, à proporção que o terreno se for

tornando mais favorável.

22. outro sinal não menos característico do período em que entra-

mos encontra-se na reação que se opera no sentido das ideias espiritualis-

tas; na repulsão instintiva que se manifesta contra as ideias materialistas.

o espírito de incredulidade, que se apoderara das massas, ignorantes ou

esclarecidas, e as levava a rejeitar com a forma a substância mesma de

toda crença, parece ter sido um sono, a cujo despertar se sente a neces-

sidade de respirar um ar mais vivificante. involuntariamente, lá onde o

vácuo se fizera, procura-se alguma coisa, um ponto de apoio.

23. se supusermos possuída desses sentimentos a maioria dos ho-

mens, poderemos facilmente imaginar as modificações que daí decorre-

rão para as relações sociais; todos terão por divisa: caridade, fraternidade,

benevolência para com todos, tolerância para todas as crenças. é a meta

para que tende evidentemente a humanidade; esse o objeto de suas as-

pirações, de seus desejos, sem que, entretanto, ela perceba claramente

por que meio as há de realizar. ensaia, tateia, mas é detida por muitas

resistências ativas, ou pela força de inércia dos preconceitos, das cren-

ças estacionárias e refratárias ao progresso. faz-se-lhe mister vencer tais

 

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Capítulo XVIII

 

resistências e essa será a obra da nova geração. Quem acompanhar o

curso atual das coisas reconhecerá que tudo parece predestinado a lhe

abrir caminho. ela terá por si a dupla força do número e das ideias e, de

acréscimo, a experiência do passado.

24. A nova geração marchará, pois, para a realização de todas as

ideias humanitárias compatíveis com o grau de adiantamento a que hou-

ver chegado. Avançando para o mesmo alvo e realizando seus objetivos,

o espiritismo se encontrará com ela no mesmo terreno. Aos homens

progressistas se deparará nas ideias espíritas poderosa alavanca e o es-

piritismo achará, nos novos homens, espíritos inteiramente dispostos a

acolhê-lo. dado esse estado de coisas, que poderão fazer os que enten-

dam de opor-se-lhe?

25. o espiritismo não cria a renovação social; a madureza da hu-

manidade é que fará dessa renovação uma necessidade. pelo seu poder

moralizador, por suas tendências progressistas, pela amplitude de suas

vistas, pela generalidade das questões que abrange, o espiritismo é mais

apto, do que qualquer outra doutrina, a secundar o movimento de rege-

neração; por isso, é ele contemporâneo desse movimento. surgiu na hora

em que podia ser de utilidade, visto que também para ele os tempos são

chegados. se viera mais cedo, teria esbarrado em obstáculos insuperá-

veis; houvera inevitavelmente sucumbido, porque, satisfeitos com o que

tinham, os homens ainda não sentiriam falta do que ele lhes traz. Hoje,

nascido com as ideias que fermentam, encontra preparado o terreno para

recebê-lo. os espíritos cansados da dúvida e da incerteza, horrorizados

com o abismo que se lhes abre à frente, o acolhem como âncora de salva-

ção e consolação suprema.

26. grande, por certo, é ainda o número dos retardatários; mas,

que podem eles contra a onda que se alteia, senão atirar-lhe algumas

pedras? essa onda é a geração que surge, ao passo que eles se somem

com a geração que vai desaparecendo todos os dias a passos largos. Até

lá, porém, eles defenderão palmo a palmo o terreno. Haverá, portanto,

uma luta inevitável, mas luta desigual, porque é a do passado decrépito,

a cair em frangalhos, contra o futuro juvenil. será a luta da estagnação

contra o progresso, da criatura contra a vontade do criador, uma vez que

chegados são os tempos por ele determinados.

 

368

São chegados os tempos

 

A geração nova

 

27. para que na terra sejam felizes os homens, preciso é que somen-

te a povoem espíritos bons, encarnados e desencarnados, que somente

ao bem se dediquem. Havendo chegado o tempo, grande emigração se

verifica dos que a habitam: a dos que praticam o mal pelo mal, ainda não

tocados pelo sentimento do bem, os quais, já não sendo dignos do planeta

transformado, serão excluídos, porque, senão, lhe ocasionariam de novo

perturbação e confusão e constituiriam obstáculo ao progresso. irão ex-

piar o endurecimento de seus corações, uns em mundos inferiores, ou-

tros em raças terrestres ainda atrasadas, equivalentes a mundos daquela

ordem, aos quais levarão os conhecimentos que hajam adquirido, tendo

por missão fazê-las avançar. substituí-los-ão espíritos melhores, que fa-

rão reinem em seu seio a justiça, a paz e a fraternidade.

A terra, no dizer dos espíritos, não terá de transformar-se por

meio de um cataclismo que aniquile de súbito uma geração. A atual de-

saparecerá gradualmente e a nova lhe sucederá do mesmo modo, sem que

haja mudança alguma na ordem natural das coisas.

tudo, pois, se processará exteriormente, como sói acontecer, com

a única, mas capital diferença de que uma parte dos espíritos que encar-

navam na terra aí não mais tornarão a encarnar. em cada criança que

nascer, em vez de um espírito atrasado e inclinado ao mal, que antes nela

encarnaria, virá um espírito mais adiantado e propenso ao bem.

muito menos, pois, se trata de uma nova geração corpórea, do que

de uma nova geração de espíritos. sem dúvida, neste sentido é que Jesus

entendia as coisas, quando declarava: “digo-vos, em verdade, que esta ge-

ração não passará sem que estes fatos tenham ocorrido.” Assim, decep-

cionados ficarão os que contem ver a transformação operar-se por efeitos

sobrenaturais e maravilhosos.192

28. A época atual é de transição; confundem-se os elementos das

duas gerações. colocados no ponto intermédio, assistimos à partida de

uma e à chegada da outra, já se assinalando cada uma, no mundo, pelos

caracteres que lhes são peculiares.

têm ideias e pontos de vista opostos as duas gerações que se su-

cedem. pela natureza das disposições morais, porém, sobretudo das

 

192 N.E.: Ver Nota Explicativa, p. 375.

 

369

Capítulo XVIII

 

disposições intuitivas e inatas, torna-se fácil distinguir a qual das duas

pertence cada indivíduo.

cabendo-lhe fundar a era do progresso moral, a nova geração se

distingue por inteligência e razão geralmente precoces, juntas ao sen-

timento inato do bem e a crenças espiritualistas, o que constitui sinal

indubitável de certo grau de adiantamento anterior. não se comporá

exclusivamente de espíritos eminentemente superiores, mas dos que, já

tendo progredido, se acham predispostos a assimilar todas as ideias pro-

gressistas e aptos a secundar o movimento de regeneração.

o que, ao contrário, distingue os espíritos atrasados é, em pri-

meiro lugar, a revolta contra deus, pelo se negarem a reconhecer qual-

quer poder superior aos poderes humanos; a propensão instintiva para as

paixões degradantes, para os sentimentos antifraternos de egoísmo, de

orgulho, de inveja, de ciúme; enfim, o apego a tudo o que é material: a

sensualidade, a cupidez, a avareza.

desses vícios é que a terra tem de ser expurgada pelo afastamento

dos que se obstinam em não emendar-se; porque são incompatíveis com

o reinado da fraternidade e porque o contato com eles constituirá sempre

um sofrimento para os homens de bem. Quando a terra se achar livre

deles, os homens caminharão sem óbices para o futuro melhor que lhes

está reservado, mesmo neste mundo, por prêmio de seus esforços e de sua

perseverança, enquanto esperem que uma depuração mais completa lhes

abra o acesso aos mundos superiores.

29. não se deve entender que por meio dessa emigração de espí-

ritos sejam expulsos da terra e relegados para mundos inferiores todos

os espíritos retardatários. muitos, ao contrário, aí voltarão, porquanto

muitos há que o são porque cederam ao arrastamento das circunstâncias

e do exemplo. nesses, a casca é pior do que o cerne. uma vez subtraídos

à influência da matéria e dos prejuízos do mundo corporal, eles, em sua

maioria, verão as coisas de maneira inteiramente diversa daquela por que

as viam quando em vida, conforme os múltiplos casos que conhecemos.

para isso, têm a auxiliá-los espíritos benévolos que por eles se interes-

sam e se dão pressa em esclarecê-los e em lhes mostrar quão falso era o

caminho que seguiam. nós mesmos, pelas nossas preces e exortações,

podemos concorrer para que eles se melhorem, visto que entre mortos e

vivos há perpétua solidariedade.

 

370

São chegados os tempos

 

é muito simples o modo por que se opera a transformação, sendo,

como se vê, todo ele de ordem moral, sem se afastar em nada das leis da

natureza.

30. sejam os que componham a nova geração espíritos melhores,

ou espíritos antigos que se melhoraram, o resultado é o mesmo. desde

que trazem disposições melhores, há sempre uma renovação. Assim, se-

gundo suas disposições naturais, os espíritos encarnados formam duas

categorias: de um lado, os retardatários, que partem; de outro, os pro-

gressistas, que chegam. o estado dos costumes e da sociedade estará,

portanto, no seio de um povo, de uma raça, ou do mundo inteiro, em

relação com aquela das duas categorias que preponderar.

31. uma comparação vulgar ainda melhor dará a compreender o

que se passa nessa circunstância. figuremos um regimento composto na

sua maioria de homens turbulentos e indisciplinados, os quais ocasiona-

rão nele constantes desordens que a lei penal terá por vezes dificuldades

em reprimir. esses homens são os mais fortes, porque mais numerosos

do que os outros. eles se amparam, animam e estimulam pelo exemplo.

os poucos bons nenhuma influência exercem; seus conselhos são des-

prezados; sofrem com a companhia dos outros, que os achincalham e

maltratam. não é essa uma imagem da sociedade atual?

suponhamos que esses homens são retirados um a um, dez a dez,

cem a cem, do regimento e substituídos gradativamente por iguais nú-

meros de bons soldados, mesmo por alguns dos que, já tendo sido expul-

sos, se corrigiram. Ao cabo de algum tempo, existirá o mesmo regimento,

mas transformado. A boa ordem terá sucedido à desordem.

32. As grandes partidas coletivas, entretanto, não têm por único

fim ativar as saídas; têm igualmente o de transformar mais rapidamen-

te o espírito da massa, livrando-a das más influências e o de dar maior

ascendente às ideias novas.

por estarem muitos, apesar de suas imperfeições, maduros para a

transformação, é que muitos partem, a fim de apenas se retemperarem

em fonte mais pura. enquanto se conservassem no mesmo meio e sob as

mesmas influências, persistiriam nas suas opiniões e nas suas maneiras de

apreciar as coisas. uma estada no mundo dos espíritos bastará para lhes

descerrar os olhos, por isso que aí veem o que não podiam ver na terra. o

incrédulo, o fanático, o absolutista, poderão, conseguintemente, voltar

 

371

Capítulo XVIII

 

com ideias inatas de fé, tolerância e liberdade. Ao regressarem, acharão

mudadas as coisas e experimentarão a influência do novo meio em que

houverem nascido. longe de se oporem às novas ideias, constituir-se-ão

seus auxiliares.

33. A regeneração da humanidade, portanto, não exige absolu-

tamente a renovação integral dos espíritos: basta uma modificação em

suas disposições morais. essa modificação se opera em todos quantos lhe

estão predispostos, desde que sejam subtraídos à influência perniciosa

do mundo. Assim, nem sempre os que voltam são outros espíritos; são

com frequência os mesmos espíritos, mas pensando e sentindo de outra

maneira.

Quando insulado e individual, esse melhoramento passa desper-

cebido e nenhuma influência ostensiva alcança sobre o mundo. muito

outro é o efeito, quando a melhora se produz simultaneamente sobre

grandes massas, porque, então, conforme as proporções que assuma,

numa geração, pode modificar profundamente as ideias de um povo ou

de uma raça.

é o que quase sempre se nota depois dos grandes choques que di-

zimam as populações. os flagelos destruidores apenas destroem corpos,

não atingem o espírito; ativam o movimento de vaivém entre o mundo

corporal e o mundo espiritual e, por conseguinte, o movimento progres-

sivo dos espíritos encarnados e desencarnados. é de notar-se que em

todas as épocas da História, às grandes crises sociais se seguiu uma era de

progresso.

34. opera-se presentemente um desses movimentos gerais, des-

tinados a realizar uma remodelação da humanidade. A multiplicidade

das causas de destruição constitui sinal característico dos tempos, visto

que elas apressarão a eclosão dos novos germens. são as folhas que caem

no outono e às quais sucedem outras folhas cheias de vida, porquanto a

humanidade tem suas estações, como os indivíduos têm suas várias ida-

des. As folhas mortas da humanidade caem batidas pelas rajadas e pelos

golpes de vento, porém, para renascerem mais vivazes sob o mesmo sopro

de vida, que não se extingue, mas se purifica.

35. para o materialista, os flagelos destruidores são calamidades

carentes de compensação, sem resultados aproveitáveis, pois que, na opi-

nião deles, os aludidos flagelos aniquilam os seres para sempre. para aquele,

 

372

São chegados os tempos

 

porém, que sabe que a morte unicamente destrói o envoltório, tais flage-

los não acarretam as mesmas consequências e não lhe causam o mínimo

pavor; ele lhes compreende o objetivo e não ignora que os homens não

perdem mais por morrerem juntos, do que por morrerem isolados, dado

que, duma forma ou doutra, a isso hão de todos sempre chegar.

os incrédulos rirão destas coisas e as qualificarão de quiméricas;

mas, digam o que disserem, não fugirão à lei comum; cairão a seu turno,

como os outros, e, então, que lhes acontecerá? eles dizem: Nada! vive-

rão, no entanto, a despeito de si próprios e se verão, um dia, forçados a

abrir os olhos.

 

373

notA eXplicAtivA193

 

Hoje creem e sua fé é inabalável, porque assentada na evidência e na demonstra-

ção, e porque satisfaz à razão. [...]. tal é a fé dos espíritas, e a prova de sua força

é que se esforçam por se tornarem melhores, domarem suas inclinações más e

porem em prática as máximas do cristo, olhando todos os homens como irmãos,

sem acepção de raças, de castas, nem de seitas, perdoando aos seus inimigos, retri-

buindo o mal com o bem, a exemplo do divino modelo. (KArdec, Allan. Revista

Espírita de 1868. 1. ed. rio de Janeiro: feb, 2005. p. 28, janeiro de 1868.)

 

A investigação rigorosamente racional e científica de fatos que re-

velavam a comunicação dos homens com os espíritos, realizada por Allan

Kardec, resultou na estruturação da doutrina espírita, sistematizada sob

os aspectos científico, filosófico e religioso.

A partir de 1854 até seu falecimento, em 1869, seu trabalho foi

constituído de cinco obras básicas: O Livro dos Espíritos (1857), O Livro

dos Médiuns (1861), O Evangelho segundo o Espiritismo (1864), O Céu e

o Inferno (1865), A Gênese (1868), além da obra O Que é o Espiritismo

(1859), de uma série de opúsculos e 136 edições da Revista Espírita (de

janeiro de 1858 a abril de 1869). Após sua morte, foi editado o livro Obras

Póstumas (1890).

o estudo meticuloso e isento dessas obras permite-nos extrair con-

clusões básicas: a) todos os seres humanos são espíritos imortais criados por

deus em igualdade de condições, sujeitos às mesmas leis naturais de pro-

gresso que levam todos, gradativamente, à perfeição; b) o progresso ocorre

 

193 N.E.: Esta Nota Explicativa, publicada em face de acordo com o Ministério Público Federal, tem por

objetivo demonstrar a ausência de qualquer discriminação ou preconceito em alguns trechos das obras

de Allan Kardec, caracterizadas, todas, pela sustentação dos princípios de fraternidade e solidariedade

cristãs, contidos na Doutrina Espírita.