Mao: a história desconhecida
6. Subjugando o Supremo do Exército Vermelho
6. Subjugando o Supremo do
Exército Vermelho
(1928-30; 34-36 anos)
Mao recebeu o endosso como chefe do Exército Zhu-Mao em novembro de 1928 e começou de imediato a planejar a saída da terra dos bandidos para tomar novos domínios e novas forças armadas. Partia também porque a região estava em vias de ser atacada. Em junho daquele ano, Chiang Kai-shek derrotara o governo de Pequim e assumira o controle de grande parte da China, estabelecendo sua capital em Nanquim. As tropas de Chiang estavam a caminho do território de Mao e ele partiu em 14 de janeiro de 1929. O grosso do Exército Zhu-Mao, agora com cerca de 3 mil homens, partiu com ele, assim como Zhu De, a quem Xangai nomeara comandante supremo.
Quinze meses após sua chegada, Mao deixou para trás uma terra exaurida. Em sua primeira experiência de direção de uma base, ele mostrara que não tinha estratégia econômica a não ser a pilhagem, equivalente ao “derrubar e queimar”. Um inspetor do partido escreveu a Xangai:
Antes da chegada do Exército Vermelho [...] havia uma atmosfera de existência pacífica e feliz [...] os
camponeses [...] tinham o bastante para viver [...] Desde a chegada do Exército Vermelho, as coisas mudaram
totalmente. Porque a única renda do Exército Vermelho advinha do roubo dos ricos [...] porque até os
pequenos-burgueses, camponeses ricos e pequenos vendedores ambulantes foram todos tratados como
inimigos e, devido à grande destruição, nenhuma atenção foi dada à construção ou à crise econômica, o
campo está totalmente falido e entrou em colapso.
Os homens de Mao haviam exaurido o lugar e eram odiados pelos moradores locais. Quando ele partiu, deixou para trás seus feridos e os comunistas civis. Os que foram capturados pelo exército regular do governo tiveram sorte: foram apenas passados pelo fogo da metralhadora. Aqueles que caíram nas mãos das forças locais foram estripados, queimados vivos ou esfolados lentamente até a morte. Centenas de pessoas foram mortas.
Um relatório enviado a Xangai pelo comitê local do partido revelou que o ódio provocado pelo regime de Mao era tão intenso que até a atitude dos nacionalistas de “queimar casas e matar cabecilhas não gerou ódio das massas aos reacionários”. As pessoas desertavam quando podiam: os que estavam “sob nosso poder vermelho naturalmente não ousam agir reacionariamente”, declarava o relatório. “Mas as massas fora [de nosso controle] estão passando para o lado dos nacionalistas em massa.” O relatório culpava os habitantes locais, dizendo que eles “nunca foram bons”.
Os bandoleiros originais, que eram em grande parte da região e ficaram, deram-se muito melhor. A maioria sobreviveu, inclusive os dois chefes, Yuan e Zuo. Porém, os dois encontraram a morte um ano depois, em março de 1930 — nas mãos dos comunistas, que retornaram para a área. Moscou ordenara que o PCC traísse aqueles que chamava de “bandoleiros” — na verdade, que os usasse e depois os liquidasse. “A aliança com bandidos e outros grupos similares só é aplicável antes de uma revolta”, declarava uma resolução. “Depois, devem desarmá-los e suprimi-los severamente [...] Seus líderes devem ser considerados líderes contrarrevolucionários, mesmo que ajudem nos levantes. E esses líderes devem ser todos completamente eliminados.”
Os seguidores de Yuan e Zuo fugiram para as profundezas das montanhas e se tornaram anticomunistas ferozes. Uma unidade de busca vermelha relatou que “a população local não gosta de nós e fez tudo para protegê-los”. Tendo vivido sob o domínio dos bandidos e dos comunistas, os habitantes locais sabiam a quem preferir.
Na jornada de saída do território dos bandidos, Mao andou depressa, fazendo piadas para seu séquito. Tinha motivos para estar alegre. A aceitação de suas exigências por Xangai e Moscou mostrava que ele podia fazer o que quisesse. Com efeito, naquele exato momento, janeiro de 1929, em Moscou, o chefe do GRU, Jan Berzin, e o apparatchik de Stálin para a China, Pavel Mif, reuniam-se para discutir como o Exército soviético poderia dar “ajuda prática a Zhu-Mao”, cujos movimentos Moscou seguia de perto. Essa é a primeira ocasião conhecida em que os russos arranjaram ajuda militar específica para o Exército Zhu-Mao, agora publicamente descrito como “o mais formidável entre os comunistas”.
As forças do governo estavam em seus calcanhares e Mao teve de travar batalhas campais, em uma das quais a esposa de Zhu De foi capturada. Mais tarde, ela foi executada e sua cabeça enfiada em um poste, em Changsha. Foi durante esse mau momento na fortuna de Zhu que Mao montou um golpe para tomar-lhe o poder. Duas semanas depois da partida, ele aboliu o posto de comandante supremo de Zhu, concedido por Xangai, e concentrou todo o poder em suas mãos. Como estavam sob ataque dos nacionalistas, Zhu não retaliou. Ele não era páreo para Mao na exploração de crises.
Mao não informou Xangai sobre sua tomada do poder. Ao contrário, escreveu para dizer como estava contente de se submeter às ordens do partido. “Como deve avançar o Exército Vermelho?”, perguntou. “Estamos particularmente sedentos de instruções. Por favor, podem mandá-las voando para mim?” “As resoluções do VI Congresso são extremamente corretas. Aceitamo-las pulando de alegria.” “No futuro, esperamos que o centro nos mande uma carta todos os meses.” Mao bajulava Xangai na esperança de que, quando soubessem de seu golpe contra Zhu De, estariam com uma disposição melhor para com ele.
Ainda assim, Zhu De não o denunciou. Ele não tinha sede de poder, nem qualquer dom para a intriga. E, uma vez que mandar relatórios era função do chefe, se tomasse a iniciativa de escrever, isso equivaleria a uma declaração de guerra a Mao.
Em março, Mao teve a sorte de outra pausa, dessa vez envolvendo os nacionalistas. Havia um ano que estava em funcionamento um governo central, mas Chiang Kai-shek enfrentava oponentes poderosos, alguns dos quais começaram uma guerra contra ele. As tropas que estavam no encalço de Mao foram desviadas para a luta contra os rebeldes. Feliz, ele informou a Xangai que o inimigo, que estava a meio quilômetro de sua retaguarda, havia “subitamente dado as costas” e o deixara seguir.
A essa altura, Mao entrara em Fujian, uma província costeira do sudeste, onde conseguiu capturar Tingzhou — uma cidade considerável, mas com defesa fraca. Localizada junto a um rio navegável que fervilhava de barcos de carga, era um lugar rico, com fortes ligações com o exterior. Havia ali grandiosas edificações europeias ao lado de bazares enfeitados que vendiam artigos de todo o Sudeste Asiático. Mao encheu seus cofres roubando os ricos. “Nosso suprimento não é problema”, contou a Xangai, “e o moral é extremamente alto.”
O exército ganhou um uniforme pela primeira vez, de uma fábrica que os vinha confeccionando para os nacionalistas. Até então, os soldados vermelhos usavam roupas de todos os tipos e cores, às vezes até roupas femininas e vestes de padres católicos. (Um padre italiano ficou particularmente preocupado quando pegaram sua camisa fascista.) O novo uniforme dos comunistas, cinzento, era parecido com o dos nacionalistas, mas tinha uma estrela vermelha no boné e uma insígnia vermelha.
O defensor da cidade, brigadeiro Kuo, fora capturado com vida por ordem específica de Mao, e depois morto. Realizou-se um comício, em que seu cadáver foi pendurado de cabeça para baixo em um castanheiro, ao lado do estrado em que Mao fez um discurso, e depois exibido pelas ruas da cidade. Para mostrar que a velha ordem havia sido derrotada, Mao também mandou arrasar a sede do governo municipal.
Ele montou seu quartel-general numa magnífica vila de estilo antigo, com vista para o rio. Mas em maio, seu novo refúgio foi perturbado quando chegou um homem chamado Liu An-gong, enviado por Xangai para assumir o terceiro posto hierárquico de comando do Exército Zhu-Mao. An-gong acabara de chegar da Rússia, onde recebera treinamento militar, e ficou estarrecido com o que Mao fizera com Zhu De e com o modo como estava comandando o Exército. Acusou-o de “apossar-se do poder”, de “ditatorial”, e de que estava “criando seu próprio sistema e desobedecendo à liderança”.
Mao não pôde mais esconder seu golpe. Em 1 o de junho de 1929, quase quatro meses depois que rebaixara Zhu, escreveu a Xangai dizendo que “o Exército” havia “decidido temporariamente suspender” Zhu do posto porque “se viu numa situação especial”. Ele fez o melhor que pôde para minimizar o impacto, ao enfiar essa informação no décimo lugar de seu longo relatório de catorze itens. O resto do relatório estava escrito num tom muito obediente e até insinuante, recheado de declarações de ansiedade por receber instruções do partido: “Por favor [...] montem uma agência especial de comunicações”, escreveu ele, para que fosse possível se comunicar diretamente com Xangai, acrescentando: “Aqui mando ópio que vale 10 mil yuans como fundo inicial para a agência”. Mao tentava de tudo, até dinheiro da droga, para persuadir Xangai a endossar sua tomada do poder.
Com An-gong ao seu lado — e com o Exército Vermelho livre da perseguição dos nacionalistas —, Zhu De fez frente a Mao. E contava com o apoio da maior parte das tropas. Mao era extremamente impopular, como um oficial relatou depois a Xangai: “A massa como um todo estava descontente com Mao”. “Muitos camaradas realmente não gostavam dele” e o “consideravam ditatorial”. “Ele tem um temperamento abominável e gosta de abusar das pessoas.” Em nome do equilíbrio, Zhu também era criticado, mas por coisas triviais como “bravatas” e falta de decoro — “quando estava falando sem parar, ele inconscientemente levantava a calça até as coxas, parecendo um vadio, sem dignidade”.
Ainda havia um grau de procedimento democrático entre os comunistas e as questões eram frequentemente debatidas e votadas. Os representantes do partido no Exército reuniram-se em 22 de junho, votaram pela demissão de Mao da chefia partidária do Exército e recolocaram Zhu no posto de comandante supremo. Mais tarde, Mao descreveu-se como tendo ficado “muito isolado”. Antes da votação, ele ameaçara: “Tenho um esquadrão e vou brigar!”. Mas não havia nada que pudesse fazer, pois seus seguidores foram desarmados antes da reunião.
Ao perder o controle de sua própria força, Mao começou a manobrar para recuperar o poder. Seu plano era assumir o controle da região em que estava, um território recém-ocupado em Fujian, perto da costa meridional, com sua própria força vermelha. Era também a área mais rica que os comunistas haviam até então controlado, com uma população de cerca de 1,25 milhão de habitantes. Mao disse à nova liderança do Exército que, agora que fora retirado do comando, queria ir embora para “fazer trabalho junto aos civis locais”. Aparentemente, ninguém se deu conta de que seu pedido era um disfarce para que pudesse se aproximar dos comunistas locais e apoderar-se de sua organização partidária.
Mao deixou o quartel-general numa liteira, com a esposa e alguns seguidores fiéis. Um deles lembrou mais tarde: “Quando partimos [...] nossos cavalos foram confiscados e nossa comitiva parecia realmente desanimada”. Esse grupo enlameado seguiu para Jiaoyang, onde Mao conseguira que um companheiro local convocasse um congresso. O Exército Zhu-Mao ajudara a criar a base, de modo que Mao tinha influência, ainda que Xangai não a tivesse atribuído a ele, mas ao comitê de Fujian. O plano de Mao era manipular o congresso e inserir seus seguidores nos cargos principais.
Em 10 de julho, cerca de cinquenta delegados locais já estavam em Jiaoyang, depois de notificados de que o congresso começaria no dia seguinte. Mas Mao os manteve longe durante toda uma semana, para realizar “todos os tipos de investigações”, nas palavras de um relatório escrito imediatamente depois. Quando o conclave finalmente se abriu, Mao fingiu estar doente e atrasou ainda mais a reunião. Na verdade, não estava doente, como seu secretário revelou mais tarde. O relatório reclamava que o congresso “durara tempo demais” e funcionara em estilo “mole”, tendo se prolongado por “até vinte dias” — quando então as forças do governo se aproximavam. A essa altura, continuava o relatório, “chegaram notícias de que as tropas [nacionalistas] estavam vindo [...] então o comitê do front [...] mudou o plano [...] e o congresso [...] foi encerrado”.
Os delegados foram embora sem escolher quem ocuparia os cargos principais. Assim que deram as costas, Mao designou seus companheiros para esses postos, como se seu ato fosse uma decisão do congresso. Um dos homens tornou-se chefe de facto da força regional do Exército Vermelho. Os seguidores de Mao eram todos de Hunan e nem falavam o dialeto local.
Quando os comunistas locais descobriram que Mao os privara do controle de sua própria região, sentiram-se ultrajados. No ano seguinte, eles se rebelariam contra Mao, o que o levou a desencadear um expurgo sangrento.
Enquanto o congresso estava ainda em andamento, os delegados já haviam mostrado não só que temiam como não gostavam de Mao. O relatório dizia que, quando ele estava presente, “os delegados raramente falavam”, enquanto na sua ausência “eles começaram a debater apaixonadamente e as coisas melhoraram muito”. Mao não tinha mandato sobre essa seção civil do partido, cuja autoridade pertencia ao Comitê Provincial de Fujian. Os delegados queriam que esse órgão estivesse representado no congresso, para protegê-los de Mao. Porém, o relatório posterior observou que “nosso mensageiro foi preso e nosso relatório se perdeu, então não houve ninguém do Comitê Provincial para [...] orientar o congresso”. Esse comunicado não dizia se alguém suspeitava de uma jogada suja, mas já havia um padrão de comunicações que se rompiam subitamente em momentos críticos para Mao.
Depois de assumir o controle desse novo território, Mao partiu para solapar Zhu De. Um aliado nesse plano foi um integrante do staff de Zhu chamado Lin Biao, homem solitário e independente de vinte e poucos anos, cuja amizade Mao vinha cultivando desde que ele chegara ao território dos bandidos, no ano anterior.
Lin Biao possuía três qualidades que chamaram a atenção de Mao. Uma era seu talento militar. Ele queria ser soldado desde a infância e adorara a vida na academia militar dos nacionalistas, em Whampoa. Era bem versado em estratégia militar e mostrara seu valor no campo de batalha. Sua segunda qualidade era não ser convencional. Ao contrário de outros militares mais velhos do PCC, não fora treinado na União Soviética e não estava embebido de disciplina comunista. Entre as fileiras de Zhu, era amplamente sabido que ele reservava coisas pilhadas para si mesmo, inclusive correntes de ouro, e contraíra gonorreia. A terceira qualidade — e a mais apreciada por Mao — era seu ressentimento contra Zhu, seu superior, por este tê-lo repreendido; isso era uma coisa que o orgulho extremado de Lin não podia suportar.
Assim que Lin apareceu, Mao o procurou e fez amizade com ele, conquistando sua simpatia ao convidá-lo para dar palestras para suas tropas, honra que não concedia a ninguém mais. A partir de então, construiu uma relação especial com Lin. Décadas depois, faria dele seu ministro da Defesa e segundo na linha de comando. Nessa duradoura amizade e camaradagem, Mao preocupou-se muito em massagear a vaidade de Lin e deixá-lo agir acima das regras e, em troca disso, conseguiu contar sempre com sua cumplicidade.
A primeira colaboração deles ocorreu no final de julho de 1929, quando os nacionalistas atacaram. Na qualidade de comandante supremo, Zhu traçou o plano de batalha, que convocava todas as unidades para um encontro em 2 de agosto. Mas, nesse dia, a unidade comandada por Lin não apareceu. Ele ficara para trás, junto com Mao e a unidade de Fujian que este acabara de reunir. Juntos, os dois controlavam cerca da metade das forças vermelhas, que totalizavam então mais de 6 mil homens, e Zhu teve de lutar com apenas a metade dos soldados que esperava. Não obstante, sua força saiu-se bem.
Mas, se metade de seu exército se recusava a obedecer a suas ordens, Zhu não poderia comandá-lo efetivamente. Diante do impasse, os membros fiéis do partido e do Exército Vermelho recorreram a Xangai em busca de uma solução.
Nessa época, o esteio da liderança do PCC em Xangai era Chou En-lai. Hsiang Chung-fa, o marinheiro estivador que ocupava o cargo principal de secretário-geral, era um testa de ferro, designado apenas por causa de seu passado proletário. Mas aqueles que realmente tomavam as decisões eram agentes enviados por Moscou, que naqueles dias eram sobretudo não russos, em geral comunistas europeus. Os chefes imediatos eram um alemão chamado Gerhart Eisler (depois chefe do serviço secreto de Moscou nos Estados Unidos) e um polonês conhecido como Rylsky. Esses agentes controlavam o orçamento do partido até os mínimos detalhes, bem como as comunicações com Moscou. Eles tomavam todas as decisões políticas e monitoravam seus resultados. Os assessores de Moscou supervisionavam as atividades militares. Seus colegas chineses referiam-se a eles como mao-zi, “os peludos”, pois tinham mais pelos no corpo do que os chineses. “Peludo Alemão”, “Peludo Polonês”, “Peludo Americano” e outras expressões apareciam com frequência nas conversas entre chineses. Um agente, provavelmente curvado, era chamado de “Peludo Corcunda”. Os “peludos” davam ordens por intermédio de Chou En-lai, que depois conquistou fama internacional como primeiro-ministro, cargo que ocupou durante um quarto de século. O verdadeiro Chou, porém, não era o diplomata suave que os estrangeiros conheciam, mas um implacável apparatchik escravizado por sua fé comunista. Durante toda a sua vida, serviu ao partido com uma intrépida falta de integridade pessoal.
Chou encontrou o comunismo pela primeira vez no Japão, onde chegou para estudar em 1917, com dezenove anos, no momento em que irrompia a revolução bolchevique. Ele fez sua escolha quando estudou na Europa ocidental, entrando para a seção do PCC na França, em 1921. Lá se tornou um crente fervoroso e sua dedicação refletiu-se em seu ascetismo. De boa aparência e atraente para as mulheres, também estava longe de ser indiferente à beleza. Quando chegou à França, expressava constantemente sua admiração por elas. “Que lindas garotas! [...] As mulheres aqui [em Paris] são tão atraentes”, escreveu para um amigo na China. Logo arrumou uma namorada sexy, por quem estava bastante apaixonado, mas, depois que se converteu à fé vermelha, fez o que muitos missionários haviam feito: escolheu uma esposa não por amor, mas porque ela poderia ser uma parceira na missão.
Muitos anos depois, em um raro momento de franqueza, Chou revelou a uma sobrinha como escolhera sua esposa. Mencionou a mulher pela qual estivera apaixonado e disse: “Quando decidi dedicar-me inteiramente à revolução, senti que ela não era adequada para ser uma parceira para toda a vida”. Chou precisava de uma esposa que fosse tão devotada quanto ele. “E assim escolhi sua tia, e comecei a escrever para ela. Estabelecemos nossa relação por correspondência.” Ele embarcou num casamento sem amor aos 27 anos, com uma fanática de 21 chamada Deng Ying-chao, que era notoriamente sem graça e deselegante.
Tenaz e infatigável, e até impermeável ao frio, Chou era um bom administrador e um brilhante organizador. Moscou o descobriu e deu-lhe a tarefa crucial de criar o exército comunista chinês. Em 1924, ele foi mandado de volta à China, onde logo se tornou diretor do Departamento Político da Academia Militar de Whampoa, a base de treinamento de oficiais nacionalistas fundada pelos russos. A responsabilidade secreta de Chou era infiltrar agentes comunistas nos altos escalões, com o objetivo de tomar parte do Exército nacionalista quando chegasse a hora — o que fez organizando o motim de Nanchang, em agosto de 1927, depois que Chiang rompeu com o PCC. Quando os amotinados foram derrotados na costa meridional, Chou estava atacado pela malária e gritava em delírio “Atacar! Atacar!”. Ele foi levado para um pequeno barco por colegas e escapou para Hong Kong por mares tão violentos que eles tiveram de se amarrar ao mastro para não serem varridos pelas ondas.
Depois disso, foi para Xangai, onde dirigiu os assuntos diários do PCC a partir do início de 1928. Revelou-se um gênio nas operações em condições clandestinas, como testemunham pessoas que trabalharam com ele. Naquele verão, foi à Rússia e se encontrou com Stálin antes do VI Congresso do PCC. Foi a figura dominante no congresso, apresentando não menos que três relatórios fundamentais, além de ser o
secretário do encontro. Seu domínio era vasto: montou a a KGB chinesa, sob a orientação de Moscou, e dirigiu seu esquadrão de assassinatos. Mas organizar o Exército Vermelho chinês era sua principal missão.
Entre as qualidades que tornaram Chou um apparatchik ideal estavam sua disciplina e sua obediência inabalável à linha de Moscou, bem como seu servilismo. Era capaz de absorver qualquer quantidade de vergastadas de seus senhores. Em anos futuros, como primeiro-ministro de Mao, se mostraria várias vezes disposto a se rebaixar, usando uma linguagem tão subserviente que suas plateias se encolheriam de constrangimento. Ele já começara a produzir autocríticas humilhantes décadas antes. “Eu [...] gostaria que todo o partido visse e condenasse meus erros”, disse em 1930, e prometeu criticar seus próprios “erros sistemáticos graves” na imprensa do partido. Certa vez, em uma reunião a que compareceu, um dos enviados alemães de Moscou, talvez percebendo um traço de masoquismo em Chou, disse: “Quanto ao camarada En-lai, nós certamente deveríamos bater em seu traseiro. Mas não queremos expulsá-lo. Devemos reformá-lo [...] e ver se ele corrige seus erros”. Chou ficou calado e aceitou o comentário.
Não há indícios de que ele aspirasse a ser o chefe: não era um criador de programas e aparentemente precisava de ordens superiores. Podia também ser prolixo. Um de seus subordinados nos anos 1920 lembrou: “Depois que começava a falar, não conseguia parar. O que dizia era claro, mas sem vigor [...] falava como se estivesse ensinando crianças da escola primária”. Era capaz de falar por sete ou oito horas ininterruptas, entediando seus ouvintes tão completamente que eles cochilavam.
A lealdade de Chou combinada com sua indiscutível capacidade foram as principais razões para que Moscou o escolhesse para líder do partido a partir de 1928; assim, coube a ele resolver a disputa no Exército Zhu-Mao. Sob instruções de Moscou, escreveu ao Exército em 21 de agosto de 1929, dando pleno apoio a Mao e rejeitando todas as críticas. Mao, dizia ele, era “absolutamente não patriarcal”. A extinção do posto de Zhu por Mao era considerada correta. An-gong, o enviado do partido que se manifestara contra Mao, foi chamado de volta. Logo depois, seria morto em combate.
Ainda que Mao tivesse quebrado todas as regras, Xangai o apoiou. Ele era um insubordinado, mas um vencedor. Sua ambição demonstrava o tipo de ânsia pelo poder essencial para conquistar a China, em especial quando as forças comunistas eram de poucos milhares, contra os milhões do lado nacionalista.
Naquele momento, houve dois outros fatores que jogaram a favor de Mao. A 2 mil quilômetros ao norte de sua localização, os russos controlavam a Ferrovia Oriental da China, na Manchúria, que cortava por 1500 quilômetros o nordeste da China, da Sibéria a Vladivostok. Junto com isso, Moscou herdara dos czares a maior concessão estrangeira dentro do território chinês, que ocupava bem mais de mil quilômetros quadrados. De início, a Rússia comunista prometera desistir de seus privilégios extraterritoriais, mas
nunca cumpriu essa promessa,b e os chineses tomaram a ferrovia no verão de 1929.
Moscou criou o Exército Especial do Extremo Oriente, chefiado pelo ex-assessor militar mais importante de Chiang Kai-shek, marechal Bliukher, e se preparou para invadir a Manchúria. Stálin também discutiu a organização de um levante na Manchúria para ocupar Harbin, a principal cidade no norte dessa região, “e estabelecer um governo revolucionário”. Com brutalidade característica, listou um objetivo, quase casualmente, entre parênteses: “(massacrar os donos de terras)”. Em novembro, as tropas russas invadiram, avançando 125 quilômetros Manchúria adentro.
Moscou queria que os comunistas chineses criassem alguma pressão militar diversionária e deu ordens ao PCC para “mobilizar todo o partido e a população para estarem prontos a defender a União Soviética com armas”. Foi nesse contexto de proteger os interesses da Rússia que o impulso de Mao assumiu importância urgente. A carta de Chou que reintegrava Mao dizia: “Sua primeira e principal tarefa é desenvolver sua área de guerrilha [...] e expandir o Exército Vermelho”. Em 9 de outubro, o Politburo soviético, com Stálin presente, indicou “as regiões de Mao Tse-tung” (sem mencionar Zhu) como área-chave para expandir a guerra de guerrilhas em conexão com a crise da ferrovia da Manchúria.
Moscou tinha outra razão urgente para escolher Mao, e ela tinha a ver com Trótski, a bête noire de Stálin, a quem este acabara de exilar. Trótski tinha um pequeno mas dedicado número de seguidores na China, e o professor Chen Tu-hsiu, o ex-chefe do PCC e bode expiatório de Moscou dois anos antes, dava sinais de que se inclinava para o trotskismo. Chen também se manifestou contra o apoio do PCC à Rússia na questão da ferrovia — uma postura que, segundo ele, “só faz as pessoas suporem que dançamos ao som de rublos”.
Stálin preocupava-se com a possibilidade de Chen jogar seu considerável prestígio a favor do trotskismo. Os agentes de Moscou em Xangai preocupavam-se com a possibilidade de Mao, de quem Chen fora outrora mentor, ficar ao lado dele.
Por todos esses motivos, os russos apoiaram Mao e o promoveram com fervor em sua imprensa. Durante os meses críticos da crise da Manchúria, publicaram não menos que quatro artigos sobre ele no Pravda, órgão central do partido soviético, que passou a descrevê-lo como o “líder” (vojd, a mesma palavra usada para Stálin). Nenhum outro comunista chinês foi tão aclamado, nem mesmo os superiores nominais de Mao, como o secretário-geral do PCC.
Quando as instruções de Chou chegaram, Zhu De e seus colegas curvaram-se ao édito de Xangai e encaminharam a carta a Mao. Naquela ocasião, ele se encontrava numa aldeia pitoresca, um pouco distante, numa elegante mansão de dois andares, com palmeiras no jardim. Estava descansando, consumindo muito leite (uma raridade para os chineses), bem como um quilo de carne cozida na sopa todos os dias, com um frango inteiro por cima. Ele descreveria como estava em forma aplicando sua medida característica: “Posso comer um monte e cagar um monte”.
A carta deixou-o exultante. Longe de lhe valer uma repreensão, sua violação das regras do partido e sua sabotagem dos colegas haviam lhe trazido apenas recompensas. Em triunfo, ele permaneceu na aldeia por mais de um mês, esperando pela pressão de Xangai para fazer Zhu De se submeter a ele.
Na época, Mao estava acompanhado da esposa Gui-yuan, bem como de um casal de acólitos. Não falava de política com as mulheres, preferindo passar horas de descontração com elas. Depois do jantar, os dois casais caminhavam até uma pequena ponte para apreciar o crepúsculo sobre um córrego coberto de vegetação. Quando a noite caía, os camponeses acendiam tochas à beira da água. Cardumes de peixes convergiam na direção da luz das tochas e eles os pegavam com redes, ou mesmo com as mãos. Cabeça de peixe era o petisco preferido de Mao, e dizia-se que desenvolvia o cérebro. Durante o dia, ele ficava sentado junto à janela e lia em inglês em voz alta, com seu forte sotaque de Hunan, para a diversão dos amigos. Essa performance aos tropeços, sem realmente buscar um aperfeiçoamento, era um tipo de descontração para Mao.
Zhu De e seus colegas “escreveram várias vezes instando o camarada Mao a retornar”, como relataram à direção obviamente ansiosa em Xangai. Mas ele não se mexeu até o final de novembro, quando Zhu mandou soldados para escoltá-lo de volta formalmente, como uma demonstração de submissão.
No dia 28 de novembro, Mao escreveu uma carta a Xangai que deixou Chou En-lai deliciado com seu espírito “muito positivo” e a declaração de que aceitava “completamente as instruções do centro”. Mas o principal ato de deferência de Mao estava reservado a Moscou. Ele condenou seu antigo mentor, o professor Chen, por ser “antirrevolução” e propôs uma “campanha de propaganda” contra ele. Fez questão de denunciar Trótski pelo nome. As tropas ouviam todos os dias discursos sobre “apoio armado à União Soviética”.
Depois de subjugar Zhu, Mao o manteve como chefe nominal e deixou que o Exército continuasse a se chamar Zhu-Mao. Desse modo, satisfazia tanto Moscou como Xangai, que mandava especificamente manter a “unidade”, e explorava o alto prestígio de Zhu entre os soldados. Zhu continuou a ser uma fachada para Mao durante quase meio século, até a morte de ambos, com poucas semanas de diferença, em 1976.
Porém, às vezes Zhu dava vazão à sua raiva e frustração. Em fevereiro de 1931, ele resmungou para líderes militares que era “apenas um joguete nas mãos de Mao, não tinha poder, Mao simplesmente jogava com ele”. Isso foi relatado a Moscou, mas os russos não levantaram um dedo para controlar Mao.
O retorno de Mao ao comando foi anunciado num grande encontro de delegados do Exército realizado na cidade de Gutian, em dezembro de 1929. Para impedir a dissensão, ele utilizou um estratagema. Sabia que aquilo que os soldados mais detestavam era a prática de executar os desertores. De acordo com um relatório da época enviado a Xangai, “antes de cada partida, alguns desertores eram executados e deixados ao longo da estrada como advertência aos outros”. Isso demonstra como era difícil manter as pessoas no Exército Vermelho, ao contrário do que foi dito muitas vezes. O fato é que até as execuções nem sempre funcionavam, como dizia o relatório em seguida: “Mas ainda não conseguimos deter os desertores”.
Em Gutian, Mao apresentou uma resolução para abolir essa prática. Essa medida foi muito bem recebida pelos soldados. Mas alguns meses depois, quando as resoluções de Gutian circularam, esse item não estava entre elas. Depois que Mao se estabeleceu, ela desapareceu, e os desertores continuaram a ser executados.
Depois de engambelar os delegados em Gutian para que o vissem de modo mais favorável, mostrando uma tolerância especiosa quanto à questão da deserção, Mao conseguiu o que realmente queria: resoluções para condenar o que quer que se colocasse entre ele e o poder absoluto, em especial a autoridade dos militares profissionais. Mao não era um soldado profissional. Zhu era. Então, Mao inventou um chavão pejorativo, ao estilo soviético — “ponto de vista puramente militar” —, para definir que era errado valorizar demais o profissionalismo militar. Ele detestava cada vez mais a convenção de votar, pois fora o voto livre que o havia tirado do cargo. Então chamou a votação de “ultrademocracia” e aboliu a prática.
Mao era viciado em conforto, enquanto Zhu levava a vida de um soldado comum. A aversão ao privilégio era particularmente forte no Exército porque muitos haviam sido atraídos para suas fileiras pela sedução da igualdade, que era o principal atrativo do partido. Para sufocar qualquer protesto em relação a privilégios, Mao cunhou a expressão “igualitarismo absoluto” para designar uma ofensa, acrescentando a palavra “absoluto” para tornar mais difícil a discordância de oponentes. Foi a partir de então que os privilégios foram formalmente endossados como parte inalienável do comunismo chinês.
Ao final de 1930, Mao, que acabara de fazer 36 anos, podia ver o ano decorrido com considerável satisfação. O partido lhe entregara o maior exército vermelho fora do bloco soviético depois que ele infringira todas as regras. Moscou e Xangai o estavam visivelmente subornando, o que significava que precisavam dele. Agora, ele poderia explorar mais a alavancagem que isso lhe dava.
“Para onde vou agora?”, perguntou-se Mao, ao partir a cavalo cantarolando um poema ao longo de trilhas musgosas da floresta. Ele sabia exatamente para onde ia: realizar mais tomadas de poder.
a Tal como seu similar soviético, esse órgão teve seu nome mudado várias vezes, e o chamaremos simplesmente de KGB chinesa.
b O chefe do Comintern Bukhárin chamou a zona da ferrovia de “nosso dedo revolucionário apontado para dentro da China”, e ela servia como uma importante base para o financiamento e patrocínio russo dos comunistas chineses.