Mao: a história desconhecida

Jung Chang e Jon Halliday · Capítulo 41 de 69

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Mao: a história desconhecida

39. A morte das “Cem Flores”

 

(1957-58; 63-64 anos)

 

A aterrorização sempre foi o método usado por Mao quando ele queria obter alguma coisa. Mas em 1956, depois que Khruchióv condenou o uso do terror por Stálin, Mao teve de diminuir a taxa de prisões e mortes. Em 29 de fevereiro, assim que soube do discurso secreto de Khruchióv, mandou seu chefe de polícia revisar os planos estabelecidos: “Neste ano, o número de prisões deve ser muito reduzido em relação ao ano passado [...] A quantidade de execuções, em especial, deve ser menor”.

Ainda no mesmo ano, porém, quando os tanques de Khruchióv invadiram a Hungria, Mao viu sua chance de reavivar as perseguições. Seus colegas ainda diziam que os problemas da Europa oriental eram consequência do excesso de concentração na indústria pesada e do esquecimento do padrão de vida. Liu Shao-chi argumentava que a China deveria andar “mais devagar” com a industrialização, de modo que “o povo não vá para a rua se manifestar [...] e, além disso, ficará bastante contente”. Chou também queria deixar de lado algumas fábricas de armamentos. Embora totalmente de acordo com Mao a respeito da prioridade das armas nucleares, observou a propósito: “Não podemos comer canhões, ou armas de fogo”.

A visão de Mao das “lições da Europa oriental” era completamente diferente. Em 15 de novembro, disse ao seu alto escalão: “Na Hungria, é verdade que o padrão de vida não melhorou muito, mas não era ruim demais. Porém [...] houve grandes perturbações lá”. “O problema básico de alguns países do Leste Europeu é que eles não eliminaram todos aqueles contrarrevolucionários [...] Agora estão provando de seu próprio fruto amargo.” “A Europa oriental simplesmente não mata em grande escala.” “Precisamos matar”, declarou Mao. “E dizemos que é bom matar.”

Mas, com os ventos no mundo comunista soprando no sentido da desestalinização, Mao decidiu que não era inteligente fazer muito barulho para iniciar um expurgo. A fim de criar uma justificativa, maquinou um plano tortuoso. Fez isso principalmente enquanto estava deitado na cama, onde passou boa parte de seu tempo no inverno de 1956-57. Comia na cama, sentado na beira, e só se levantava para ir ao banheiro.

 

* * *

 

Em 27 de fevereiro de 1957, Mao fez um discurso de quatro horas no dócil Conselho Supremo para anunciar um convite a críticas ao Partido Comunista. Disse que o partido precisava responder por seus atos e ficar “sob supervisão”. Suas palavras pareciam razoáveis, com críticas a Stálin por seus expurgos “excessivos”, e davam a impressão de que não haveria mais esse tipo de repressão na China. Nesse contexto, citou o ditado: “Deixai que cem flores desabrochem”.

Poucos imaginaram que Mao estava montando uma armadilha e que convidava as pessoas a falar a fim de ter uma desculpa para persegui-las. Seu alvo eram os intelectuais e os mais instruídos, as pessoas que com maior probabilidade se manifestariam. Após tomar o poder, a política de Mao fora dar-lhes um padrão de vida, em geral, melhor do que a média. Aqueles que eram bem conhecidos ou “úteis” ganhavam privilégios especiais. Mas várias vezes Mao os havia pressionado, sobretudo com a “reforma do pensamento”, que ele mesmo descrevia como lavagem cerebral: “Alguns estrangeiros dizem que nossa reforma do pensamento é lavagem cerebral. Penso que isso está correto, é exatamente lavagem cerebral”. Na verdade, até a temível expressão “lavagem cerebral” não expressa a angústia mental do processo que dobrava e entortava as mentes das pessoas. Agora Mao planejava perseguir os mais instruídos em massa.

Ele contou seu plano apenas para alguns asseclas especiais, como o mandachuva de Xangai Ke Qing-shi, e o escondeu até da maioria do Politburo. No início de abril, disse a esses poucos camaradas que, em consequência de sua solicitação de críticas, “os intelectuais estão começando a [...] mudar seu comportamento de cauteloso para mais aberto [...] Um dia, a punição cairá sobre a cabeça deles [...] Queremos que eles se manifestem. Vocês devem retesar os músculos e deixá-los atacar! [...] Vamos deixar todos aqueles demônios e serpentes [...] praguejar durante alguns meses”. Aos mesmos asseclas, Mao revelou que estava “jogando uma linha longa para pegar peixes grandes”. Mais tarde, descreveu sua armadilha nestes termos: “Como poderemos capturar as serpentes se não as atrairmos para fora de suas tocas? Queríamos que aqueles filhos da puta saíssem, cantassem e peidassem [...] assim poderíamos pegá-los”.

A armadilha de Mao foi um grande sucesso. Uma vez aberta uma pequena fresta na tampa, irrompeu um dilúvio de dissensão, principalmente em murais e reuniões de pequena escala chamadas de “seminários”, que eram os únicos fóruns permitidos.

Uma das primeiras coisas contestadas foi o monopólio do poder pelos comunistas, que um crítico descreveu como “a fonte de todos os males”. Um cartaz tinha por título “Poder totalitário é perigo!”. O exercício do poder pelos comunistas foi comparado ao de Hitler. Em um seminário, um homem disse que “ao não proteger os direitos dos cidadãos, o governo de hoje é pior do que as dinastias feudais ou Chiang Kai-shek”. Um professor chamou a Constituição de “papel higiênico”. Outro, um economista, foi direto ao cerne dos métodos maoístas e propôs a proibição das denúncias públicas, “que são muito pior do que a prisão — só de pensar nelas, trememos dos pés à cabeça”. Democracia era uma demanda popular.

Assim como o império da lei. Um vice-ministro pediu a independência do poder judiciário. Outro administrador disse que queria ser capaz “de simplesmente seguir a lei, não as ordens do partido”. Referindo-se aos métodos asfixiantes do PCC de controlar tudo, um dramaturgo bem conhecido perguntou: “Por que é necessário haver ‘liderança’ nas artes? Quem liderou Shakespeare, Tolstói, Beethoven, Molière?”.

A política externa também foi questionada por alguns membros da elite que tinham acesso a informações parciais. O ex-governador nacionalista da província de Yunnan, que se passara para os comunistas, protestou que era “injusto que a China tivesse de pagar por todos os custos da guerra na Coreia” e pediu uma redução do nível de ajuda esbanjado com países estrangeiros.

O sigilo do regime também foi atacado. “Todas as estatísticas econômicas absolutas são segredos de Estado”, protestou um crítico, “até a produção de álcalis [...] Que é isso senão uma tentativa de manter o povo num estado de estupidez?” Ele exigia informações sobre o programa de industrialização. Outro escreveu: “Com efeito, ouvi falar de camponeses [...] morrendo por ter apenas raízes de capim para comer, em áreas tão ricas em produção que são conhecidas como as terras do peixe e do arroz. Mas os jornais não dizem nada sobre isso”.

Muitos contrastavam a vida dura dos camponeses com a dos líderes (da qual tinham apenas vislumbres). O Diário do Povo noticiara um banquete oferecido ao presidente russo Kliment Vorochílov, ao qual compareceram mil pessoas. “Para que tanta grandiosidade?”, perguntava um cartaz, “quando ‘os imperadores locais do partido’ estão usando métodos como espancamento, tortura e detenção para arrancar alimentos dos camponeses?” “Devemos saber que camponeses descontentes poderiam jogar o retrato do presidente Mao no toalete”, advertia esse ousado autor.

A maioria das críticas jamais chegou ao público em geral, pois Mao só permitia que aparecessem na imprensa trechos cuidadosamente selecionados. O resto ficava confinado a dois canais — seminários e cartazes de parede —, que eram transitórios e fáceis de apagar. E Mao assegurou-se de que essas válvulas de escape ficassem restritas a campi universitários e instituições isoladas, aos quais o público em geral não tinha acesso. Essas instituições também não tinham permissão para estabelecer contato entre si e as pessoas que lá estavam foram proibidas de sair para difundir suas opiniões. Quando alguns estudantes tentaram distribuir jornais feitos à mão, seus samizdats foram imediatamente confiscados e eles foram punidos como “contrarrevolucionários”. O dissenso foi mantido rigidamente fragmentado, de tal forma que um levante popular era impossível.

 

Em 6 de junho de 1957, Mao leu um panfleto mimeografado que especulava que a liderança estava dividida, sendo ele o defensor do dissenso, postado contra os “conservadores”. No vazio de informação que Mao criara, alguém havia erroneamente pensado que ele era um liberal e ouviram-se apelos do tipo: “Unamo-nos em torno de Mao Tse-tung e Khruchióv!”. Alguns até manifestavam preocupação com ele: “Parece que nosso querido camarada Mao Tse-tung está numa posição muito difícil”. Essa sugestão de que era um liberal lhe era perigosa, pois poderia fortalecer a dissensão.

No dia seguinte, ordenou que o editorial do Diário do Povo, que seria transmitido pelo rádio naquela noite, informasse que estava proibido desafiar o partido. Uma vez apertado esse botão, a máquina de perseguição começou a funcionar naquilo que foi chamado de “Campanha Antidireitista”, que durou um ano. O curto e excitante momento das “cem flores” acabara.

Em 12 de junho, Mao mandou uma circular ao partido, para ser lida por todos os membros, “exceto os não confiáveis”, em que deixava explícito que havia montado uma armadilha. Não queria que seu partido pensasse que ele era um liberal — caso eles mesmos se transformassem em liberais.

Nessa circular, Mao estabelecia uma cota para vítimas: entre 1% e 10% dos “intelectuais” (o que significava os mais instruídos), que somavam cerca de 5 milhões na época. Em consequência, pelo menos 550 mil pessoas foram rotuladas de “direitistas”. Enquanto muitos se haviam manifestado, outros não haviam dito nada contra o regime e foram incluídos apenas para preencher a cota exigida por Mao.

Para ele, escritores, artistas e historiadores eram supérfluos. Mas cientistas e técnicos ficaram, em larga medida, isentos da perseguição — “especialmente aqueles que têm realizações importantes”, decretava uma ordem de setembro de 1957; estes “deveriam ser absolutamente protegidos”. Em particular, os cientistas que haviam retornado da Europa e dos Estados Unidos não deveriam ser “rotulados ou denunciados”. Os físicos nucleares e os especialistas em foguetes receberam tratamento excepcional (durante todo o reinado de Mao, os melhores cientistas ganharam privilégios superiores aos gozados por altas autoridades).

Como o objetivo último desse castigo era criar a atmosfera para um confisco maior, a fim de financiar o Programa de Superpotência, Mao fez questão de reprimir qualquer contestação de sua política para o campesinato. Uma manchete do Diário do Povo proclamava: “Refutem a asneira de que a vida dos ‘camponeses é dura’!”. Para martelar sua mensagem, Mao montou pessoalmente uma encenação sádica. Uma figura bem conhecida vinha dizendo que os camponeses estavam “prestes a morrer de inanição”, de modo que arranjaram-lhe uma excursão para “descobrir os fatos”. O Diário do Povo noticiou que, aonde quer que ele fosse, era perseguido por multidões de até 50 mil pessoas, que “refutavam sua asneira”, e foi forçado finalmente a fugir, escondido sob sacos de juta, no porta-malas de um carro.

Ao lado da encenação, vieram as execuções. Mao revelou mais tarde ao alto escalão que a província de Hunan “denunciou 100 mil, prendeu 10 mil e matou mil. As outras províncias fizeram o mesmo. Assim nossos problemas foram resolvidos”.

Três professores de um condado da província de Hubei foram tomados para exemplo e executados por supostamente atiçar uma manifestação de escolares contra cortes na educação. O efeito dos cortes foi que somente uma em vinte crianças poderia dar continuidade a seus estudos no ginásio. A manifestação foi rotulada de “Pequena Hungria” e tratou-se de dar divulgação nacional à execução. É quase certo que Mao ordenou pessoalmente as execuções, pois chegara à província no dia anterior à promulgação da sentença e, até aquele momento, as autoridades estavam indecisas quanto à pena de morte. A enorme publicidade destinava-se a instilar o medo nas escolas rurais, que suportaram o impacto dos cortes na educação que Mao introduzira a fim de arrancar mais fundos para o Programa de Superpotência.

Os fundos para a educação já eram minúsculos. Agora, seriam cortados ainda mais. A ideia de Mao não era elevar o padrão geral de educação da sociedade como um todo, mas concentrar-se numa pequena elite, predominantemente nas ciências e outros temas “úteis”, e manter o resto da população na condição de trabalhadores escravos analfabetos ou semianalfabetos. Os fundos destinados à educação iam principalmente para as cidades; as escolas de aldeia não recebiam financiamento, e as escolas de cidades pequenas, muito pouco. Em consequência, somente uma quantidade mínima da juventude rural conseguia continuar os estudos.

Mesmo nas cidades, as chances dos jovens de obter educação foram cortadas drasticamente em 1957, quando 80% dos 5 milhões que saíam das escolas primárias (isto é, 4 milhões de pessoas) e 800 mil do 1 milhão que se formava nas escolas secundárias ficaram sabendo que não poderiam continuar seus estudos. O descontentamento espalhou-se pelas cidades, e a execução dos professores do caso da “Pequena Hungria” servia também de advertência para os habitantes urbanos.

A execução não foi a única causa de mortes nessa campanha: o suicídio foi corrente entre aqueles acusados de “direitistas”. No Palácio de Verão, em Pequim, os praticantes de exercícios matinais encontravam com frequência cadáveres pendurados nas árvores e pés que emergiam das águas do lago.

A maioria dos que foram rotulados de “direitistas” teve de enfrentar reuniões de denúncia infernais, embora, em larga medida, não violentas. Suas famílias tornaram-se párias, seus cônjuges foram jogados em empregos indesejáveis e seus filhos perderam toda a esperança de uma educação decente. Para proteger os filhos — e a si mesmas —, muitas pessoas se divorciaram quando foram rotuladas de direitistas. Numerosas famílias se romperam, causando tragédias infindáveis para filhos e pais.

Depois de denunciada, a maioria dos direitistas foi deportada para campos de trabalho forçado em regiões remotas. Mao precisava de mão de obra, especialmente para abrir terras virgens. Um jornalista chamado Dai Huang descreveu como os deportados eram jogados em lugares como o extremo norte da Manchúria, conhecido como o Grande Deserto do Norte, e tinham de erguer um abrigo “depressa, usando talos de trigos para fazer um telhado” numa temperatura de 38 graus negativos. Mesmo com fogo, ela “ainda ficava uma dezena de graus abaixo de zero”.

A relva e as cabanas de terra batida em que vivíamos eram açoitadas por vento que vinha de todos os lados [...]

mal havia vegetais ou carne [...] Levantávamos [...] logo depois das quatro da manhã e não parávamos até sete

ou oito da noite [...] Nessas quinze ou dezesseis horas [...] nós basicamente trabalhávamos sem parar [...] no

verão [...] Tínhamos de levantar às duas da manhã [...] Tínhamos no máximo três horas de sono.

 

Enquanto eram submetidos a arengas incessantes e implacáveis — “Você está aqui para se redimir de seu crime! Não ouse criar problemas ou procurar maneiras de ser preguiçoso!” —, os deportados tinham de trabalhar com rações inferiores ao nível de subsistência. Muitos morriam de desnutrição, doenças, frio, excesso de trabalho e em acidentes executando tarefas que desconheciam, como derrubar árvores.

Esse jornalista, Dai, havia de fato se manifestado depois de saber que Mao montara uma armadilha. Ele lhe escreveu uma petição, fazendo objeções ao fato de que “a nova classe dominante” oferecia suntuosas “recepções e banquetes”, enquanto “dezenas de milhares de pessoas [...] mascam raízes de capim ou cascas de árvores”. E até bateu forte no culto à personalidade de Mao. “Quando um chef prepara uma boa refeição, dizem que é ‘graças à liderança do presidente Mao’.” “Não pense que você é um deus sábio”, advertiu o jornalista.

A esposa de Dai Huang divorciou-se dele e seus parentes sofreram discriminação. O sobrinho de um professor primário teve negado seu pedido de fundos para uma operação que lhe salvaria a vida devido às conexões familiares. O próprio Dai mal sobreviveu ao deserto setentrional, de onde muita gente jamais retornou.

 

Depois de reprimir a dissensão entre os mais instruídos em geral, em 1958, logo após retornar da cúpula de Moscou, Mao tratou de causar temor em seu alto escalão, ameaçando rotular de direitista quem se opusesse ao relançamento do Programa de Superpotência. Sua principal preocupação era com o segundo e o terceiro da hierarquia, Liu Shao-chi e Chou En-lai, que haviam defendido os cortes no programa em 1956.

A tática que Mao escolheu dessa vez era nova — humilhar seus colegas de poder mais importantes diante de dezenas de chefes provinciais. Foi a primeira vez que Mao envolveu esses funcionários de segundo escalão no ataque direto aos superiores deles. Era uma maneira de humilhar e pressionar Chou e Liu, especialmente quando o próprio Mao os atacava diante de seus subordinados. Fazer esses chefes provinciais testemunhar o funcionamento do poder em sua expressão máxima — e a humilhação do segundo e do terceiro em comando do regime — era também um modo de Mao dar poder aos homens responsáveis pela supervisão direta do confisco de alimentos.

Ele concentrou o ataque em Chou, que estava encarregado de planejar e administrar o programa. Mao o descreveu como estando a “apenas cinquenta metros de ser um direitista”; as tentativas de Chou de cortar investimentos na indústria bélica em 1956, disse Mao, equivaliam ao levante húngaro e haviam “influenciado consideravelmente os direitistas”. Eram acusações sinistras que traziam consigo as consequências potencialmente mais medonhas. Para tornar as coisas ainda mais ameaçadoras, Mao tirou Chou do cargo de ministro do Exterior em fevereiro de 1958, e diplomatas antigos próximos a ele foram estimulados a atacá-lo.

A atmosfera em torno de Mao estava insuportável, mesmo para os padrões enervantes do seu regime. Um ministro que estivera na linha de tiro teve um colapso fatal. Quando o médico de Mao foi fazer-lhe um checkup, encontrou-o na cama, “murmurando sem parar: ‘Poupe-me! Por favor, me poupe!’”. O ministro foi levado de avião para um hospital em Cantão. Durante o voo, caiu de joelhos subitamente e bateu com a cabeça no chão, implorando: “Por favor, me poupe”. Ele morreu em Cantão poucas semanas

depois, aos 46 anos. a

No auge desse processo de intimidação e degradação, Mao mandou Chou fazer uma autocrítica que implicaria que ele era um quase direitista diante dos 1360 delegados de um congresso especial do partido, em maio de 1958. Chou pediu desculpas por seus esforços anteriores para dificultar a taxa de “industrialização” desejada por Mao, cuja natureza militar não foi revelada nem mesmo nessa reunião de alto nível, assim como suas implicações catastróficas. Essa autocrítica causou muita dor a Chou. Ele demorou dez dias para escrever seu discurso. O normalmente garboso premiê passou dias a fio fechado em seu quarto, sem fazer a barba e despenteado, sem nem mesmo vestir-se. A secretária que anotava seus ditados relembrou que Chou falava extremamente devagar,

às vezes incapaz de dizer uma palavra durante cinco ou seis minutos [...] Então sugeri sair do escritório e

deixá-lo criar o texto com tranquilidade [...] Era meia-noite e retornei ao meu quarto, deitei-me na cama

vestida e esperei ser chamada.

Por volta das duas da manhã [a sra. Chou] me chamou. Ela disse: “En-lai está sentado no escritório

olhando para o vazio. Como você foi para a cama?”. Então [a] segui até o escritório, onde ela e o camarada

Chou En-lai discutiram por muito tempo [...]

 

Chou ditou então, à beira das lágrimas. Ele não escolhera a esposa por amor, mas pela devoção mútua à causa comunista, e ela estava à altura daquela especificação.

Chou fez devidamente seu discurso, para satisfação de Mao. O clima no congresso estava mais assustador do que o usual, como se refletiu na linguagem da notícia para a imprensa, que dizia que a reunião havia “denunciado direitistas que se haviam insinuado no partido” — no jargão comunista, distante apenas um passo de condenar essas pessoas como agentes do inimigo. Orquestradas por Mao, várias províncias anunciaram que haviam descoberto direitistas entre seus próprios líderes provinciais. O mandachuva de Henan foi condenado e demitido por dizer que os camponeses não podiam suportar dar tanto para o Estado, pois estavam “morrendo de inanição”. Henan, disse ele, havia suportado “enchentes sem fim, secas e outros desastres naturais”, e seus habitantes tinham de “puxar arados, pois muitos animais de tração haviam morrido devido à escassez de comida”.

Liu Shao-chi também foi ferozmente atacado pelos asseclas de Mao no congresso por seu papel nos cortes de 1956. Tal como Chou, ele também capitulou totalmente, assim como todos os que tinham um papel gerencial no Programa de Superpotência. As anotações de Mao mostram que ele estava pronto para acusar quem se recusasse a seguir sua linha de coisas que equivaliam à traição (“usar métodos ilegais [...] empreender atividades de oposição”). No fim, não precisou ir tão longe, pois todos se renderam.

Liu permaneceu o segundo em comando. Chou estava tão abatido que perguntou a Mao “se é apropriado eu continuar a ser primeiro-ministro”. Recebeu ordens para prosseguir e continuou a ser o chefe das relações exteriores, embora não tenha sido reintegrado no cargo. Mao sabia muito bem que ninguém mais poderia apresentar uma face tão sedutora do regime. O homem que assumiu o lugar de ministro do Exterior, Chen Yi, observou com pesar que se sentiu como “não mais que alguém que entretém e é louvado”.

 

Mao fez uma das mais importantes mudanças de pessoal no congresso: promoveu seu velho companheiro Lin Biao para uma das vice-presidências do partido (ao lado de Liu, Chou, Zhu De e Chen Yun). Isso lhe deu um aliado no núcleo do poder, alguém que também tinha a alta patente de marechal do Exército. Os postos militares formais haviam sido criados em 1955, quando Liu e outros nove generais foram promovidos a marechal.

Ao lado dessas medidas, Mao intensificou o culto a sua personalidade, que começara a promover na época do terror de Yenan, em 1942-43. Em março de 1958, disse ao alto escalão (colegas, chefes provinciais e ministros): “É preciso um culto da personalidade [...] É absolutamente necessário”. Seus asseclas competiram para declarar “fé cega” em Mao, e Ke, o chefão de Xangai, chegou a defender o instinto de rebanho: “Devemos seguir o presidente como um rebanho cego”.

Para atiçar seu culto, Mao tomou a medida inusitada de visitar lugares como fábricas e cooperativas agrícolas, e essas visitas foram noticiadas com estardalhaço. Mao foi filmado para cinejornais exibidos em todo o país e retratado em um quadro apropriadamente intitulado O presidente Mao caminha por toda a China, que se tornou uma imagem doméstica. Depois que visitou uma aldeia próxima de Chengdu, em Sichuan, deu-se enorme publicidade à história de que os entusiasmados habitantes do povoado mudaram seu nome para “Cooperativa da Felicidade”. Quando ergueu alguns torrões de terra numa pá, na represa do Túmulo Ming, nos arredores de Pequim, o Diário do Povo noticiou: “Assim que o presidente Mao largou a pá, um soldado chamado Yu Bing-sen a enrolou em suas roupas. Ele disse com emoção transbordante: ‘Sempre que virmos essa pá, pensaremos no presidente Mao e teremos mais energia’. Um

membro de cooperativa agrícola chorou e contou ao repórter”. b Essas exaltações de Mao na imprensa eram então enfiadas goela abaixo de toda a população, tanto alfabetizada quando analfabeta, em sessões de estudo dos jornais, que eram um aspecto permanente da vida sob o regime de Mao.

Em 13 de agosto, pela única vez em 27 anos de reinado, Mao comeu em um restaurante, em Tianjin. Ali ele foi visto, sem dúvida intencionalmente, não só quando desceu do carro, como quando apareceu na janela do andar superior. “Presidente Mao! Presidente Mao!”, as pessoas começaram a gritar. A notícia espalhou-se depressa e logo uma multidão histérica de dezenas de milhares de pessoas ocupava várias quadras ao redor do restaurante, saltando e gritando “Viva o presidente Mao!”. Um dos seus secretários ficou preocupado com a segurança e sugeriu que Mao deveria sair enquanto um guarda-costas de compleição semelhante à dele atraía a atenção para longe. Mas Mao não aceitou o dublê. Ele viera àquele lugar para ser visto e não corria nenhum perigo, pois aquela era uma visita de surpresa e ele estava suficientemente longe da multidão (e, de qualquer modo, ninguém teria uma arma, pois um dos primeiros atos de seu regime fora confiscar todas as armas de fogo). Ademais, as pessoas em torno do restaurante haviam sido certamente pré-selecionadas, como acontecia em outros lugares onde Mao aparecia. Ele acenou para a multidão, que respondeu com mais frenesi e choro. Tudo isso foi noticiado em minúcias pelos jornais.

Quando finalmente foi embora, depois de várias horas, ele descreveu sua partida para o círculo íntimo em linguagem quase divina: “Dei um aceno e a multidão recuou”. Mao deleitava-se com o florescimento de seu culto e disse ao grupo íntimo que estava “profundamente impressionado”. Anos de martelação do culto de sua personalidade lhe haviam dotado de um poder apavorante.

 

a Esse ministro, chamado Huang Jing, fora o segundo marido de madame Mao. Eles tinham casado em 1932, quando ele era um belo estudante radical de vinte anos, e ela, uma bibliotecária de dezoito, e ela entrou para o partido por influência dele. Depois que casou com Mao, ela convidava ocasionalmente o ex-marido “para um papo”, mas ele sempre declinava do convite. A pressão sobre ele não foi nada pessoal da parte de Mao, que jamais foi ciumento. Com efeito, em Chongqing, em 1945, Mao fizera questão de convidar outro dos ex-maridos de sua esposa, Tang Na, para uma recepção e saudou-o com uma piscadela e um chiste, pois Tang Na tentara suicidar-se certa vez, por causa da futura madame Mao. Ele se estabeleceu em Paris depois que Mao tomou o poder e lá morreu mais tarde.

b Cavar a terra na represa do Túmulo Ming por alguns minutos foi o único trabalho físico que Mao executou em todo o seu governo, embora tenha tornado o trabalho duro compulsório e rotineiro para quase todos os chineses, inclusive crianças, sob o pretexto de que o trabalho ajudava a manter a pureza ideológica.