Mao: a história desconhecida
9. Mao e o primeiro Estado comunista
(1931-34; 37-40 anos)
Ruijin, a capital do novo Estado comunista, situava-se no sudeste de Jiangxi, no meio de uma bacia de terra vermelha, cercada por morros em três lados. Ficava a trezentos quilômetros sem estradas de Nanchang, a capital provincial controlada pelos nacionalistas, mas a apenas quarenta quilômetros da grande cidade controlada pelos comunistas de Tingzhou, do outro lado da fronteira com Fujian, ligada ao mundo exterior por um rio. Essa área semitropical era abençoada com ricos produtos agrícolas e dotada de árvores gigantescas incomuns, como cânfora e figueira-de-bengala, cujas raízes velhas saíam do solo, enquanto novas raízes desciam da copa.
A sede do governo comunista ficava fora da cidade, no lugar de um grande templo de clã de quinhentos anos de idade, com um salão suficientemente espaçoso para reunir centenas de pessoas para as inevitáveis reuniões. Onde outrora ficava o altar, foi construído um palco à maneira soviética. Nele estavam penduradas xilogravuras de Marx e Lênin e, entre elas, uma bandeira vermelha com uma estrela dourada e a foice e o martelo. Um pano vermelho acima dos retratos trazia bordado em letras douradas o slogan “Proletários de todo o mundo, uni-vos!”. Ao lado, em letras prateadas, outro slogan: “Luta de classes”. De ambos os lados do salão, divisórias improvisadas demarcavam quinze escritórios da nova administração estatal. Tinham nomes que eram traduções diretas do russo e difíceis de pronunciar em chinês, como “Comissariado do Povo para Assuntos Internos”.
Atrás do templo do clã, uma grande área foi limpa de árvores e roças a fim de abrir espaço para a atividade básica dos comunistas: comícios de massa. Mais tarde, vários monumentos foram construídos nessa praça. Em uma das extremidades, ficava uma plataforma de madeira e tijolos para realizar revistas militares ao estilo soviético. Na outra, havia uma torre para comemorar os mortos do Exército Vermelho (chamados de “mártires”), no formato de uma bala gigante, da qual se projetavam numerosas pedras semelhantes a balas. Ao lado da torre havia dois memoriais — um pavilhão e uma fortaleza —, batizados com os nomes de dois comandantes vermelhos mortos. O conjunto todo antecipava a praça Tiananmen (da Paz Celestial) na Pequim comunista, embora os monumentos fossem muito mais imaginativos e coloridos do que a arquitetura pesada que desfiguraria Tiananmen.
Nas proximidades, no fundo de um bosque, os comunistas construíram um auditório camuflado com capacidade para 2 mil pessoas, cuja excelente acústica foi projetada para suprir a ausência de microfones. Era octogonal, no formato do boné que o Exército Vermelho usava na época. A fachada lembrava uma catedral europeia, mas com janelas com persianas, através das quais era possível olhar para fora, mas não para dentro. Acima do portão central havia uma enorme estrela vermelha em cujo centro sobressaía um globo, preso por uma foice e um martelo. Ao lado do auditório havia um abrigo antiaéreo com capacidade para mais de mil pessoas, com duas portas de acesso localizadas logo atrás do palco, para que os líderes pudessem chegar primeiro.
Os líderes moravam numa mansão que pertencera à pessoa mais rica da cidade, situada ao lado do templo do clã transformado em sede do governo. Mao escolheu para si a melhor acomodação, uma suíte de canto, nos fundos, com uma janela que dava para o templo. Essa janela foi feita especialmente para ele, pois o dono anterior, por deferência ao templo, não teria janelas de onde fosse possível avistá-lo. Mao também mandou pôr um piso de tijolos sobre o assoalho de madeira, para evitar a entrada de ratos.
As terras adjacentes à residência dos líderes foram ocupadas para abrigar guardas e ordenanças, bem como instalações de alta segurança, como o depósito de ouro, a mesa telefônica e a estação de rádio. Afora alguns moradores locais mantidos para servir de criados, os restantes foram expulsos em massa e toda a área foi cercada por barricadas. Nenhum dos chefes do partido sabia falar o dialeto local e a maioria não fez esforço algum para aprendê-lo; assim, precisavam de intérpretes para se comunicar com os moradores locais, com quem, de qualquer forma, tinham pouco contato. Os quadros comunistas da região funcionavam como seus elos. Era o estilo e o padrão de um exército de ocupação.
Em 7 de novembro de 1931, Ruijin realizou uma grande comemoração para marcar a fundação do Estado comunista. Naquela noite, dezenas de milhares de moradores locais foram organizados para montar uma parada, segurando tochas de bambu e lanternas com o formato de estrelas ou foices e martelos. As correntes de luz contra o pano de fundo da escuridão da noite compuseram um belo espetáculo. Houve tambores, fogos de artifício e cenas satíricas; uma delas mostrava um “imperialista britânico” empurrando prisioneiros acorrentados que personificavam a Índia e a Irlanda. Um gerador localizado no abrigo antiaéreo produzia eletricidade, que brilhava em numerosas lâmpadas pequenas penduradas de fios estendidos entre colunas. Elas iluminavam os incontáveis estandartes e slogans de diferentes cores que também pendiam dos fios — bem como gigantescos cartazes em vermelho, branco e preto afixados nas paredes. Mao e os outros líderes, na plataforma, batiam palmas e gritavam slogans enquanto a parada passava por eles. Para Mao, foi o primeiro gostinho de glórias futuras, quando até 1 milhão de pessoas o saudariam em Tiananmen.
Mas havia uma diferença vital: em Ruijin, Mao não era o líder supremo. Embora Moscou o tivesse feito “presidente” e “primeiro-ministro”, isso não fazia dele um ditador. Os russos o cercaram de outros indivíduos em quem podiam confiar que obedeceriam às suas ordens. Na cabeça do Exército estava Zhu De, designado chefe do Conselho Militar. Zhu fora treinado na Rússia e os russos o conheciam — e sabiam que ele era leal. Moscou pensara em Mao para o posto, mas mudara de ideia. Ele ficou sendo apenas um dos quinze membros do conselho.
O mais importante ainda é que Mao tinha um chefe chinês direto e in loco: Chou En-lai, que chegaria de Xangai em dezembro de 1931, um mês depois do estabelecimento do regime, e assumiria o posto de secretário-geral do partido. No sistema comunista, o secretário-geral era a autoridade maior, acima do chefe de Estado. Com a chegada de Chou, o centro do próprio partido mudou para Ruijin e Xangai se tornou pouco mais do que um escritório de ligação com os russos. Estabeleceu-se uma comunicação por
rádio confiável entre Ruijin e Moscou, via Xangai, onde um jovem chamado Po Kua ficou no comando. A pessoa que controlava as comunicações com Moscou não era Mao, mas Chou En-lai. Foi ele que transformou Ruijin em um Estado stalinista. Mao não foi o responsável principal pela fundação e operação do Ruijin Vermelho.
Chou era um mestre da organização e, sob sua liderança, toda a sociedade foi coagida a se tornar uma máquina entrosada que abrangia tudo. Ele foi útil na montagem de uma enorme burocracia cuja função não era apenas governar a base, mas também obrigar a população a executar as ordens do partido. Em todas as aldeias, o Estado estabeleceu dezenas de comitês — “de recrutamento”, “da terra”, “de confiscação”, “de registro”, “de toque de recolher”, para citar apenas alguns. As pessoas se viam enredadas numa organização desde os seis anos de idade, quando tinham de entrar para o Corpo Infantil. Aos quinze, eram automaticamente inscritas na Brigada da Juventude. Todos os adultos, exceto os muito velhos e aleijados, eram postos do Exército de Defesa Vermelho. Desse modo, toda a população era arregimentada e formava-se uma rede de controle.
Essa máquina abriu os olhos de Mao. Antes da chegada de Chou, ele mandara no território comunista ao estilo dos bandoleiros, com menos arregimentação da população como um todo, mas não demorou a perceber as vantagens e o potencial da nova estrutura. Quando tomou o poder nacional, herdou essa máquina totalitária e a tornou ainda mais inconsútil e intrusiva do que Ruijin — ou a Rússia de Stálin. E manteve os serviços de Chou até o último suspiro dele.
Em 1928, Chou criara também a KGB chinesa, chamada então de Birô de Segurança Política, sob a supervisão de Moscou. Ele e seus assistentes levaram o sistema para Ruijin e mantiveram o Estado vivo mediante o terror. Enquanto Mao vinha usando o terror para obter poder pessoal, Chou o utilizava para aumentar o domínio comunista. Os asseclas que Mao usava em seus expurgos eram cínicos e corruptos, interessados no ganho pessoal. Chou utilizava profissionais treinados pelos soviéticos.
Quando chegou em Ruijin, no final de 1931, Chou considerava os métodos de expurgo de Mao incorretos. Mao havia “confiado inteiramente em confissões e tortura” e “causado terror nas massas”. Chou reabilitou algumas vítimas. Um homem relembrou o processo. Um funcionário
pegou uma caderneta e começou a ler nomes. Aqueles cujos nomes foram lidos receberam ordens para sair ao
pátio e ficar sob a vigilância de homens armados. Eram muitos nomes [...] o meu foi chamado também. Eu
estava tão apavorado que fiquei empapado de suor. Então fomos interrogados um a um e liberados um a um.
Em pouco tempo, todos os detidos foram soltos. E todas as confissões incriminadoras foram queimadas na
mesma hora.
Mas, dentro de poucos meses, Chou acabou com essa folga. Até mesmo um período tão curto de reabilitação e afrouxamento desencadeara um maremoto de dissidência. “O relaxamento em relação aos expurgos fez com que os contrarrevolucionários [...] erguessem a cabeça de novo”, observaram, horrorizados, os homens da segurança de Chou. E quando as pessoas passaram a achar que não haveria mais “matanças”, “não mais prisões”, elas começaram a se reunir e desafiar as ordens comunistas. Logo ficou claro que o regime não poderia sobreviver sem mortes constantes, e a matança recomeçou.
O Estado vermelho considerava sua população uma fonte de quatro recursos principais: dinheiro, alimentos, trabalho e soldados, primeiro para sua guerra, e em última análise para conquistar a China.
Havia um grande negócio na região: o maior depósito mundial de tungstênio, um mineral estratégico extremamente valioso que antes fora explorado por um consórcio de capital estrangeiro. O regime comunista retomou a mineração no início de 1932. Usando soldados e trabalhadores escravos como mineiros, o tungstênio era exportado pela fronteira meridional para senhores da guerra cantoneses que, embora não fossem vermelhos, eram contra Chiang e ávidos por ganhar dinheiro. A região comunista estava, em teoria, sob bloqueio, mas o comércio com os cantoneses florescia, ainda que de vez em quando houvesse escaramuças entre eles e o Exército Vermelho. Sal, algodão, medicamentos e até armas eram abertamente trocados por tungstênio. A operação era dirigida por Tse-min, o irmão de Mao que era chefe do banco estatal.
Apesar dos enormes lucros obtidos com o tungstênio e outras exportações, o regime nunca relaxou sua disposição de extrair o máximo da população local. Embora os camponeses tivessem agora suas próprias terras e o aluguel de terrenos fosse abolido, eles estavam, em geral, em situação pior do que antes. Até então, a maioria das pessoas tinha algumas posses além do necessário para a pura sobrevivência; agora, esses extras haviam sido tirados, sob vários estratagemas. Um deles era coagi-los a comprar “bônus da guerra revolucionária”. Para pagá-los, as mulheres tiveram de cortar os cabelos para entregar seus grampos de cabelo de prata, bem como as últimas joias — que eram tradicionalmente suas poupanças. O fato de que as pessoas tivessem tais joias nos dias anteriores ao comunismo é um forte indício de que seu padrão de vida havia sido melhor antes. Depois que as pessoas compravam os bônus de guerra, havia “campanhas de devolução dos bônus”, para intimidar os compradores a devolver os bônus por nada. O resultado final, como lamentavam alguns habitantes mais ousados, era que “os bônus dos comunistas são piores do que os impostos dos nacionalistas”.
O método era o mesmo com a comida. Após pagar imposto sobre grãos, os camponeses eram pressionados a emprestar mais grãos ao Estado, em campanhas com slogans do tipo “Massas revolucionárias, emprestem grãos ao Exército Vermelho!”. Mas os alimentos “emprestados” jamais eram devolvidos. Na verdade, era comida da qual dependia a sobrevivência dos camponeses. Mao simplesmente mandou que cortassem seu já magro consumo.
A maioria dos homens em idade de trabalhar foi convocada para o Exército ou como mão de obra recrutada. Após três anos de regime comunista, dificilmente se encontravam homens nas aldeias entre a adolescência e os cinquenta anos.
As mulheres se tornaram a principal força de trabalho. Tradicionalmente, elas faziam somente trabalhos leves no campo, pois, devido aos pés amarrados e aleijados, o trabalho manual pesado causava muita dor. Agora, elas tinham de fazer quase todo o trabalho agrícola, bem como outras tarefas para o Exército Vermelho, tais como transportar cargas, cuidar dos feridos, lavar e remendar roupas e fazer sapatos — com material pago por elas mesmas, o que não era pouca despesa. Mao, que desde a juventude achara que as mulheres eram capazes de suportar tanto trabalho duro quanto os homens, era o maior defensor dessa política, tendo decretado: “Confiem totalmente nas mulheres para fazer o trabalho agrícola”.
O bem-estar dos habitantes locais simplesmente não estava na agenda (ao contrário do mito passado por Mao para seu porta-voz americano Edgar Snow). Em algumas aldeias, os camponeses não tinham permissão para tirar nenhum dia de folga. Em vez disso, tinham reuniões, o grande mecanismo de controle dos comunistas. “A pessoa média tem o equivalente de cinco dias inteiros de reuniões por mês”, observou Mao, “que são um tempo de descanso muito bom para elas.”
Os padrões de saúde também não melhoraram. Havia um antigo hospital missionário inglês em Tingzhou que atendia pessoas comuns. Depois que Mao ficou lá e gostou, mandou desmontá-lo e levá-lo para Ruijin, reservando-o para a elite comunista. Mao tomava muito cuidado com a saúde e viajava com sua própria caneca, que usava sempre que lhe ofereciam chá. A certa altura, ficou numa aldeia chamada Ilhota de Areia, onde a única água de beber vinha de um lago estagnado. Para ter certeza de que não pegaria alguma doença, mandou perfurar um poço. Em consequência, os aldeões tiveram água limpa pela primeira vez na vida. Depois disso, os comunistas começaram a perfurar poços onde ficavam alojados, mas não houve nenhum esforço para fornecer água potável aos habitantes locais.
Por meio de Snow, Mao afirmou que, em alguns condados, a educação resultara em taxas de alfabetização mais altas “do que se conseguira em qualquer lugar da China rural durante séculos”. Na verdade, a educação, sob o regime comunista, reduziu-se às escolas primárias, chamadas “escolas Lênin”, onde as crianças eram ensinadas a ler e escrever até um nível em que pudessem aprender a propaganda básica. As escolas secundárias foram, em sua maioria, fechadas e transformadas em alojamentos para os líderes e locais de reuniões. As crianças eram usadas como sentinelas e reunidas em esquadrões de intimidação, chamados “equipes de humilhação”, para obrigar pessoas a entrar para o Exército e pressionar os desertores a retornar. Os adolescentes eram, às vezes, estimulados a participar das execuções de “inimigos de classe”.
Uma das principais contribuições de Mao para a direção do Estado comunista foi começar uma campanha em fevereiro de 1933 para oprimir mais a população. Ele ordenou que os quadros de base descobrissem “proprietários e kulaks escondidos”. Como os comunistas visavam a esses “inimigos de classe” havia anos, era inconcebível que alguém dessa espécie não tivesse sido detectado.
Mao não era um fanático, em busca de mais inimigos por fervor ideológico. Tratava-se de uma operação prática cujo objetivo era designar alvos a serem extorquidos e criar inimigos que poderiam ser, de acordo com a doutrina comunista, “legitimamente” esbulhados e obrigados a trabalhar até a morte — o que o próprio Mao chamava de “trabalho forçado ilimitado”. O outro objetivo era fazer com que, por medo, o resto da população cedesse tudo o que o regime exigisse.
As ordens de Mao aos quadros eram de “confiscar até a última coisa” dos escolhidos para vítimas. Com frequência, famílias inteiras eram tiradas de seus lares e obrigadas a ir viver em currais de búfalos, niu-peng. Foi durante essa época que as moradias miseráveis em que os banidos eram subitamente jogados passaram a ter esse nome. Mais de trinta anos depois, na Revolução Cultural, o termo foi muito usado para detenção, embora na ocasião as pessoas não fossem usualmente detidas em anexos rurais, mas em lugares como toaletes, salas de aula e cinemas.
A campanha de Mao produziu muitas dezenas de milhares de trabalhadores escravos, mas levou pouco para os cofres estatais, pois os camponeses não tinham mais nada que lhes pudesse ser arrancado. As autoridades relataram que somente dois dos doze condados de Jiangxi foram capazes de obter “multas” e “doações” e a quantia total era uma fração do objetivo estabelecido por Mao.
Os apuros das vítimas foram retratados vividamente por um oficial do Exército Vermelho chamado Gong Chu, que descreveu sua passagem por um lugar chamado Moinho Gong, perto de Ruijin, habitado por pessoas com o mesmo nome de sua família, o que significava que talvez tivessem os mesmos ancestrais.
Entrei num grande bangalô de telhas pretas [...] Fiquei chocado com a tremenda atmosfera de tristeza e
desolação. Não havia nenhum móvel, apenas uma mesa quebrada e um banco. Lá estavam duas mulheres de
meia-idade e uma velha, mais três crianças pequenas, todos esfarrapados e com aparência de famintos.
Quando me viram chegar com quatro guarda-costas usando pistolas, entraram num tremendo pânico [...]
Então elas ouviram o nome de Gong Chu e “caíram de joelhos na minha frente e me imploraram para salvar suas vidas”.
Entre soluços, a velha disse: “Meu velho havia lido alguns livros [o que significa que a família vivera
relativamente bem], e também meus dois filhos. Tínhamos mais de dez mu de terra e meus dois filhos a
cultivavam [...] meu marido e meus dois filhos foram todos presos [...] e foram espancados e pendurados, e
exigiram 250 yuans de nós. Fizemos tudo o que pudemos para completar 120 yuans e também lhes demos
todas as joias das mulheres [...] mas [...] meu velho foi deixado lá pendurado até morrer, e meus dois filhos
também foram mortos. Agora, eles estão nos forçando a pagar mais quinhentos yuans, senão nós seis iremos
para a prisão. Comandante! Não temos quase nada para comer, onde vamos achar quinhentos yuans? Por
favor, pense em nossos ancestrais comuns e diga algo em favor de nós”.
A mulher contou a Gong Chu que seu marido quisera ir embora e cuidar de si. Mas as autoridades
“nos proibiram de pôr um pé fora da aldeia. Hoje, os céus realmente abriram os olhos e nos mandaram o
senhor. Por favor, comandante, nos salve!” Depois dessas palavras, ela bateu com a cabeça no chão sem parar.
Suas duas noras e as crianças faziam reverências e choravam.
Gong Chu prometeu ajudar, mas acabou não fazendo nada, pois sabia que sua intervenção poderia facilmente piorar as coisas. Alguns meses antes, quando tentara ajudar um médico em situação semelhante, vingativos quadros de base haviam esperado por sua partida e depois “matado o médico e confiscado seu consultório. Sua viúva e seus filhos se tornaram mendigos”. Foram acontecimentos como esses que levaram
Gong Chu a rejeitar o comunismo e fugir na primeira oportunidade.b
Mao também era engenhoso para fazer os indivíduos se apresentarem como “voluntários” ao Exército Vermelho. Quando uma militante de base teve dificuldades para fazer as pessoas se alistarem, Mao lhe ordenou que “achasse contrarrevolucionários dentro de três dias”. Ela fez isso e aqueles que tinham medo de entrar em choque com o regime se alistaram. Em um distrito, Cai Dun-song, o homem encarregado do alistamento, não conseguiu recrutas suficientes. Mao mandou buscá-lo e inquiri-lo, muito provavelmente com torturas, pois Cai “confessou” ter formado uma “brigada anticomunista”. Em um comício de massa, Mao anunciou a confissão e Cai foi executado ali mesmo, junto com vários outros. Um quadro que trabalhara com Cai disse que, depois disso, “em menos de meio mês, alistei mais de 150 pessoas”.
O primeiro Estado comunista da China foi dirigido pelo terror e guardado como uma prisão. Era necessário um passe para sair da própria aldeia e sentinelas estavam sempre presentes dia e noite. Uma pessoa que teve a chance de ir embora foi o gerente de um prédio-monumento estatal que tinha acesso a dinheiro. Ele tomou 246,7 yuans, o suficiente para comprar um passe e pagar contatos. Mas, antes que pudesse fugir, foi preso. Conseguiu então escapar da prisão, com a conivência de dois quadros mais antigos, um dos quais vira seu irmão ser morto, acusado de ser AB. O gerente foi capturado e levado a um tribunal irregular, com uma plateia de centenas de pessoas, e depois executado. Gente que viveu aquela época lembra que não somente quem “tentava fugir para a área nacionalista” era morto, como, às vezes, “se um prisioneiro escapava, o carcereiro era executado”.
Nesse universo semelhante a uma prisão, o suicídio era comum — uma onda precoce do que depois se tornaria uma inundação durante o reinado de Mao. O número de suicídios era tão assombroso, mesmo entre as autoridades, que o regime teve de enfrentar a questão publicamente, com um slogan: “Os suicidas são os elementos mais vergonhosos das fileiras revolucionárias”.
Até mesmo um oficial de alto escalão chamado Yang Yue-bin, um favorito de Mao, ficou suficientemente desesperado para fugir e desertar para os nacionalistas. Ele informou a localização das casas dos líderes do partido. Os nacionalistas bombardearam o lugar e os líderes tiveram todos de se mudar.
As pessoas comuns tinham mais chance de escapar se morassem nas bordas da região vermelha, e alguns quadros de base que odiavam o regime organizaram fugas em massa. Qualquer quadro sob a menor suspeita de não ser confiável era transferido para longe dos distritos distantes imediatamente. Muitos esperavam pelo ataque dos nacionalistas e então tentavam passar para o outro lado. Nos últimos dias do Estado comunista, quando os nacionalistas estavam fechando o cerco, aldeias inteiras se rebelaram e começaram a atacar o Exército Vermelho em seu recuo, empunhando as únicas armas de que dispunham, facas e lanças, pois todas as armas de fogo haviam sido confiscadas pelo regime.
A reação do Estado foi impiedosa, a fim de evitar o menor risco. Em seu nadir, até mesmo as relações sociais cotidianas e a hospitalidade podiam causar a morte. “Nenhuma família tinha permissão para deixar as visitas passarem a noite”, lembram os veteranos. “Qualquer família que o fizesse e fosse descoberta era morta junto com o visitante.”
A base de Ruijin, sede do primeiro Estado comunista, consistia em grandes pedaços das províncias de Jiangxi e Fujian. Ambas sofreram o maior decréscimo populacional de toda a China entre 1931, ano em que o Estado comunista foi fundado, e 1935, um ano depois que os vermelhos foram embora. A população do Jiangxi Vermelho caiu em mais de meio milhão — uma queda de 20%. A queda no Fujian Vermelho foi comparável. Tendo em vista que as fugas foram poucas, isso significa que, no total, cerca de 700 mil pessoas morreram na base de Ruijin. Grande parte delas foi morta por ser “inimiga de classe”, ou foi obrigada a trabalhar até morrer, ou cometeu suicídio, ou teve outras
mortes prematuras atribuíveis ao regime. c A cifra de 700 mil não inclui as muitas mortes nas grandes áreas que os comunistas ocuparam por períodos intermitentes, ou o enorme número de mortes nas cinco bases vermelhas em outras partes da China que ficaram sob o comando de Ruijin.
Anos depois, os habitantes locais mostravam aos viajantes covas coletivas e aldeias abandonadas. As pessoas que viveram sob o primeiro regime comunista da China o rejeitaram. Quando o primeiro oficial do serviço secreto russo visitou a área, imediatamente depois que os comunistas a tomaram, no final de 1949, o recém-chegado chefe do partido lhe disse que em todo o Jiangxi “não há um único membro do PCC”.
a O líder nominal do partido, Hsiang Chung-fa, fora executado pelos nacionalistas em junho de 1931, depois de uma informação que o chefe da inteligência nacionalista U. T. Hsu sugeriu fortemente ter vindo dos próprios comunistas. De início, Hsiang recusou-se a admitir sua identidade. “E vendo aquele sujeito com aparência de estúpido”, escreveu Hsu, “achamos que podíamos até estar errados. Mas um colega disse que [...] quando Hsiang era marinheiro, sofria do vício do jogo e, certa ocasião em que perdera todos os tostões, jurara largar o vício e cortara a ponta do dedo mínimo da mão esquerda [...] De fato, faltava um pedaço do dedo mínimo da mão esquerda do sujeito.” Depois de identificado, Hsiang caiu de joelhos para implorar por sua vida “e de imediato nos deu quatro endereços importantes”. Mais tarde, Chou En-lai observou que a fidelidade de Hsiang ao comunismo não podia ser comparada nem com a castidade de uma prostituta.
b As devastadoras memórias de Gong foram publicadas em Hong Kong em 1954. Yang Shang-kun, presidente da China depois de Mao e testemunha ocular da época de Ruijin, reconheceu para um pequeno círculo que as memórias eram verdadeiras, embora estivessem proibidas na China. Gong teve permissão para voltar e viver no país em 1991, aos noventa anos.
c Em 1983, depois da morte de Mao, 238 844 pessoas de Jiangxi foram computadas como “mártires revolucionários”, isto é, pessoas que foram mortas em guerras e expurgos no interior do PCC.