Mao: a história desconhecida
28. Salvo por Washington
(1944-47; 50-53 anos)
Não era segredo que muitas autoridades americanas não tinham o menor entusiasmo por Chiang e, assim, Mao procurou explorar essa ambivalência, na esperança de que os Estados Unidos retirassem o apoio ao Generalíssimo e, talvez, adotassem uma linha mais amistosa em relação aos comunistas. Ele criou cuidadosamente o engodo de que o PCC, em vez de ser um partido realmente comunista, reunia reformistas agrários moderados que queriam cooperar com os Estados Unidos.
Em meados de 1944, Roosevelt enviou uma missão a Yenan. Logo depois que os primeiros americanos chegaram, Mao lançou no ar a ideia de mudar o nome do partido: “Andei pensando em rebatizar nosso partido”, disse a Vladímirov em 12 de agosto, “em não chamá-lo ‘comunista’, mas outra coisa. Então a situação [...] será mais favorável, especialmente com os americanos”. Os russos concordaram imediatamente. No final daquele mês, Mólotov seguiu a mesma linha ao dizer para o então enviado especial de Roosevelt à China, general Patrick Hurley, que na China “alguns [...] se diziam ‘comunistas’, mas não têm nenhuma relação com o comunismo. Eles estavam apenas expressando insatisfação com sua condição econômica ao se chamarem comunistas. Porém, depois que suas condições econômicas melhorassem, eles esqueceriam essa inclinação política. O governo soviético [...] [não estava] associado aos ‘elementos
comunistas’”. a
O engodo comunista se tornou especialmente importante quando o sucessor de Roosevelt, Harry Truman, enviou George Marshall, o principal general americano, à China em dezembro de 1945 para tentar deter a guerra civil. Marshall, que servira na China na década de 1920, já estava de má vontade com Chiang, graças principalmente à corrupção dos parentes do Generalíssimo, e era susceptível às alegações do PCC de ter muito em comum com os Estados Unidos. Na primeira reunião entre eles, Chou En-lai adulou Marshall ao lhe dizer o quanto o PCC “desejava uma democracia baseada [...] no estilo americano”. Um mês depois, Chou sugeriu que Mao preferia os Estados Unidos à Rússia, contando ao general “uma pequena anedota que poderia ser de seu interesse. Correu recentemente o rumor de que Mao vai visitar Moscou. Ao saber disso, o presidente Mao riu e observou, meio de brincadeira, que se alguma vez tirasse uma licença para ir ao exterior [...] preferiria ir aos Estados Unidos”. Marshall repassou essas observações a Truman. Anos depois, ele ainda sustentaria diante de Truman que os comunistas haviam sido mais cooperativos do que os nacionalistas.
Marshall não entendeu Mao, ou a relação de Mao com Stálin. Em 26 de dezembro de 1945, ele disse a Chiang que “era muito importante determinar se o governo russo estava ou não em contato com o Partido Comunista Chinês e se o estava assessorando” — como se isso ainda precisasse de verificação. Mais tarde (em fevereiro de 1948), ele expôs ao Congresso americano que “na China, não temos provas concretas de que [o Exército comunista] é apoiado por comunistas do exterior”. Essa ignorância é particularmente notável porque os americanos, tal como os britânicos, vinham interceptando telegramas da Rússia, alguns deles endereçados a Yenan, que mostravam claramente a relação. Marshall também recebeu enérgicas advertências de outros funcionários americanos, inclusive do chefe da missão em Yenan, que iniciou seu relatório final com um alarme
de três palavras: “Comunismo é Internacional!”.b
Marshall visitou Yenan de 4 a 5 de março de 1946. Para a ocasião, Mao fez questão de se assegurar de que tudo estava bem arrumado e perfeito. Uma de suas medidas foi mandar o filho An-ying para uma aldeia, explicando que isso o ajudaria a aprender o trabalho agrícola e os modos chineses. Mas o verdadeiro motivo era que Mao estava aborrecido com a atenção que os americanos davam ao seu filho que falava inglês. Logo depois que An-ying chegara da Rússia, Mao o apresentara ao correspondente da Associated Press John Roderick, que o entrevistou ao lado de uma pista de dança, numa festa de sábado à noite. Depois disso, Mao explodiu. Ele “nem leu toda a entrevista”, relembrou An-ying, “amassou o jornal numa bola e me disse asperamente: ‘[...] Como você ousa dar uma entrevista a um repórter estrangeiro desse jeito, da sua cabeça, sem instruções?’”. An-ying frequentara a escola do mundo duro da Rússia stalinista, mas nem isso o deixara preparado para a disciplina férrea do acampamento de seu pai. Enquanto An-ying era banido para o interior, madame Mao, que não falava inglês, estava a postos para sua estreia como primeira-dama.
O relatório de Marshall a Truman sobre Yenan exsudava ilusões: “Tive uma longa conversa com Mao Tse-tung e fui extremamente franco. Ele não mostrou ressentimento e me deu todas as garantias de cooperação”. O general informava ao presidente que as forças comunistas na Manchúria eram “pouco mais que bandos frouxamente organizados”; e, o mais espantoso, que “tem sido impossível para o quartel-general de Yenan entrar em contato com os líderes” na Manchúria. Isso depois de os russos terem levado, de DC-3, líderes do PCC de Yenan à Manchúria e quando Yenan estava em contato diário com forças comunistas no campo que somavam centenas de milhares.
Marshall ainda estava em Yenan quando Mao chamou o dr. Orlov, contato do GRU, e lhe informou sobre as conversações.
Marshall prestaria um serviço monumental a Mao. Quando este estava contra a parede, no que poderia ser chamado seu Dunquerque, no final da primavera de 1946, o general americano fez uma pressão decisiva sobre Chiang para que parasse de perseguir os comunistas no norte da Manchúria, ao dizer que os Estados Unidos não o ajudariam se ele fosse adiante e ameaçar com o fim do transporte naval das tropas nacionalistas para a Manchúria. Em 31 de maio, Marshall escreveu ao Generalíssimo, invocando sua honra pessoal:
Diante da circunstância do avanço contínuo das tropas governamentais na Manchúria, devo [...] repetir que
[...] está se chegando num ponto em que a integridade de minha posição está sujeita a sério questionamento.
Portanto, solicito-lhe novamente que emita ordem imediata para acabar com os avanços, ataques ou
perseguições pelas tropas do governo [...]
Chiang cedeu e concordou com um cessar-fogo de quinze dias. Isso aconteceu no exato momento em que Mao se resignara a abandonar Harbin, a última grande cidade comunista na Manchúria, e a dispersar seu exército em unidades de guerrilha. Com efeito, ele emitira a ordem em 3 de junho, mas no dia 5, ao saber do cessar-fogo, despachou nova ordem: “Aguentem [...] especialmente mantenham Harbin”. A maré havia mudado.
A imposição de Marshall foi provavelmente a decisão mais importante a afetar o resultado da guerra civil. Os comunistas que viveram aquele período, de Lin Biao aos veteranos do Exército, concordaram confidencialmente que essa trégua foi um erro fatal de Chiang. Se ele tivesse pressionado, no mínimo teria evitado que os comunistas estabelecessem uma base grande e segura junto à fronteira soviética, com ligações ferroviárias com a Rússia, pelas quais enorme quantidade de artilharia pesada foi trazida para a China. Além disso, tendo concordado com uma trégua de duas semanas, Chiang viu-se diante da proposta de Marshall de estendê-la por quase quatro meses e cobrir toda a Manchúria — e que os comunistas tivessem permissão para manter o norte da região. Para Chiang, avançar significaria uma colisão de frente com Marshall, que, observou o Generalíssimo, “estava com uma fúria excepcionalmente violenta” nesse período.
Chiang sentiu a pressão não apenas do general americano, mas também do próprio presidente Truman. Em meados de julho, dois proeminentes intelectuais antinacionalistas foram mortos na área nacionalista. Naquele mês, uma pesquisa de opinião pública nos Estados Unidos mostrou que somente 13% eram a favor de ajudar Chiang, enquanto 50% queriam “ficar de fora”. Em 10 de agosto, Truman escreveu a ele em linguagem muito dura, citando os dois assassinatos e dizendo que o povo americano via “com violenta repugnância” os eventos na China. Truman fez a ameaça de que talvez tivesse de “redefinir” a posição americana se não houvesse progresso “no sentido de um acordo pacífico”.
Nessas circunstâncias, Chiang segurou seu fogo na Manchúria (embora tenha perseguido as forças de Mao em outros lugares, com algum sucesso). Chen Li-fu, um dos colegas mais próximos do Generalíssimo, discordou dessa posição. “Seja como Franco da Espanha”, disse a Chiang, “se você quer combater o comunismo, combata-o até o fim.” Segundo ele, uma abordagem do tipo “stop-go” não funcionaria: “Não é bom alternar fogo e cessar-fogo, cessar-fogo e fogo”. Mas Chiang precisava da ajuda americana, que chegou a cerca de 3 bilhões de dólares para toda a guerra civil (quase 1,6 bilhão em subvenções em dinheiro e cerca de 850 milhões em doações de armas), e cedeu às pressões.
Mao ganhou assim uma base segura no norte da Manchúria com uma área de cerca de mil quilômetros por quinhentos quilômetros, muito maior que a Alemanha, com longas fronteiras terrestres e ligações ferroviárias com a Rússia e seus satélites. Para seus altos comandantes, Mao comparou essa base com uma poltrona confortável, tendo a Rússia como encosto sólido e a Coreia do Norte e a Mongólia Exterior como braços para descansar.
Com quatro meses de pausa, os comunistas tiveram tempo para integrar o Exército títere de Manchukuo, de quase 200 mil homens, e outros recrutas novos, além de recondicionar as tropas antigas. Qualquer soldado que os comunistas não conseguissem controlar era “limpado” (qing-xi), o que significava amiúde ser morto. Números secretos revelam que o total de “limpos”, somado aos “evadidos”, chegou a espantosos 150 mil em três anos, quase tanto quanto o total dos mortos em ação, supostamente capturados e inválidos (172 400).
Motivar os soldados a lutar contra Chiang era um aspecto fundamental do recondicionamento das tropas. Isso foi feito principalmente por meio de comícios em que os soldados eram estimulados a “expressar amargura”. A maioria era composta por camponeses pobres, com histórias de fome e injustiça. Remexia-se nas memórias amargas, trazendo à tona traumas pessoais. A multidão ficava febril. Um relatório enviado a Mao contava que um soldado explodira numa tal tempestade de dor e ódio que “ele desmaiou. E, quando voltou a si, jamais recuperou a sanidade mental e é agora um idiota”. Quando a assembleia de massa atingia seu clímax emocional, o partido dizia à multidão inflamada que estava agora lutando para “vingar-se de Chiang Kai-shek”, cujo regime era a fonte de todos os males. Os soldados encontravam assim uma motivação pessoal para lutar. Pessoas que passaram pelo processo dão testemunho de sua eficácia, embora achem difícil acreditar nisso quando refletem com mais calma sobre os eventos.
Porém, muitos evitavam essa espécie de lavagem cerebral e alguns faziam observações céticas. Logo se viam condenados como membros das “classes exploradoras” e entravam para as fileiras daqueles destinados à “limpeza”.
O treinamento militar era tão intenso quanto a doutrinação política. Nesse aspecto, os russos eram indispensáveis. Quando a primeira unidade comunista chinesa chegou à Manchúria, os russos tomaram algumas delas por grupos de bandidos. Não pareciam tropas regulares e eram incapazes de manejar armas modernas. Durante a trégua, os russos abriram pelo menos dezesseis instituições militares importantes, entre elas escolas de aeronáutica, artilharia e engenharia. Muitos oficiais chineses foram fazer treinamento na Rússia e outros seguiram para os enclaves soviéticos de Port Arthur e Dalian. Esses dois portos, que Stálin obtivera em Ialta, serviam agora também de refúgio para as unidades e quadros de Mao despedaçados no sul da Manchúria; ali obtiveram abrigo, treinamento e armas novas.
Moscou acelerou o aparelhamento de Mao. Os russos transferiram para suas forças cerca de novecentos aviões japoneses, setecentos tanques, mais de 3700 peças de artilharia, morteiros e lança-granadas, quase 12 mil metralhadoras, além da flotilha do rio Sungari, de numerosos blindados e canhões antiaéreos e centenas de milhares de rifles. Mais de 2 mil vagões carregados de armas e material de guerra vieram da Coreia do Norte, que abrigara importantes arsenais de guerra do Japão, e mais armas capturadas aos japoneses chegaram da Mongólia Exterior. Também vieram armas de fabricação russa, além das de origem alemãs com as marcas apagadas, que os comunistas simularam serem armas americanas capturadas.
Além disso, os russos transferiram secretamente ao PCC dezenas de milhares de prisioneiros de guerra japoneses. Esses soldados desempenharam um papel importante na transformação do indigente Exército comunista numa máquina de combate formidável e foram essenciais para treinar as forças vermelhas no uso de armas japonesas das quais elas dependiam, bem como para manter e consertar essas armas. Foram os japoneses também que fundaram a Força Aérea do PCC, e seus pilotos serviram de instrutores de voo. Milhares de profissionais japoneses da área médica proporcionaram aos comunistas feridos um novo nível de tratamento. E alguns soldados japoneses chegaram mesmo a participar de operações de combate.
Outro fator vital foi a Coreia do Norte, ocupada pelos soviéticos. Dali, os russos forneceram não somente armas, mas também um contingente de 200 mil soldados coreanos treinados pelos japoneses — e pelos soviéticos. Além disso, com sua fronteira de oitocentos quilômetros com a Manchúria, ela se tornou o que o PCC chamava de “nossa retaguarda clandestina” e refúgio. Em junho de 1946, quando estavam em fuga, os comunistas chineses levaram tropas, homens feridos e materiais para lá. Quando os nacionalistas tomaram boa parte do centro da Manchúria, dividindo ao meio as forças vermelhas, os comunistas puderam usar a Coreia do Norte como uma ligação entre suas forças no norte e no sul manchu e entre a Manchúria e a costa leste da China, em particular com a província vital de Shandong. Para supervisionar esse vasto complexo de transportes, o PCC montou escritórios em Pyongyang e em quatro portos coreanos.
Uma contribuição não menos importante dos russos foi pôr em funcionamento o sistema ferroviário. No final de 1946, uma vez consolidada a base no norte manchu, uma equipe de especialistas russos restaurou a extensa rede ferroviária no território de Mao, e na primavera de 1947 ela já estava ligada à Rússia. Em junho de 1948, quando o Exército de Mao se preparava para sua investida final para tomar toda a Manchúria, Stálin enviou seu ex-ministro das ferrovias Ivan Kovaliov para supervisionar o trabalho. No total, os russos supervisionaram os reparos de mais de 10 mil quilômetros de trilhos e 120 pontes importantes. Esse sistema ferroviário foi essencial no transporte das tropas comunistas e de artilharia pesada para o ataque às principais cidades manchus naquele outono.
A gigantesca assistência da Rússia, da Coreia do Norte e da Mongólia foi executada sob o maior sigilo — e ainda é pouco conhecida. Os comunistas esforçaram-se muito para ocultá-la. Mao instruiu Lin Biao a apagar a menção ao fato de que a base deles “foi apoiada pela Coreia, a União Soviética, a Mongólia Exterior” até de um documento
secreto do partido. c Moscou desempenhou seu papel costumeiro, classificando as notícias sobre ajuda soviética de “invencionices do início ao fim”. A verdadeira invencionice foi a alegação de Mao de que o PCC estava lutando “somente com painço e rifles”.
Porém, essa ajuda russa teve um preço atroz para aqueles que viviam sob o comando de Mao. Ele não queria dever favores a Stálin e precisava sentir-se livre para pedir mais. Por duas vezes, em agosto e outubro de 1946, se ofereceu para pagar em alimentos uma ajuda que o representante do comércio exterior da Rússia em Harbin inicialmente declinara. Então, em novembro, Mao mandou Liu Ya-lou, um de seus acólitos mais confiáveis, a Moscou para insistir. Chegou-se a um acordo secreto pelo qual o PCC mandaria para a Rússia 1 milhão de toneladas de alimentos por ano.
Isso resultou em fome e morte por inanição em algumas áreas da China ocupadas pelos comunistas. Na região de Yenan, de acordo com o gerente de logística de Mao, mais de 10 mil camponeses morreram de fome em 1947. Mao conhecia muito bem a situação, pois viajou pela região naquele ano e viu crianças caçando ervilhas perdidas nos estábulos de seu séquito e mulheres recolhendo a água em que seu arroz fora lavado, em busca de gotículas de nutrientes. Depois de visitar a família na base comunista vizinha de Shanxi, o chefe de sua guarda lhe contou que as pessoas estavam definhando e que sua família tinha sorte de estar viva — isso logo depois da época da colheita. Na própria Manchúria, as mortes de civis por inanição chegaram à casa das centenas de milhares em 1948 e até os soldados comunistas ficavam frequentemente meio mortos de fome.
Poucos sabiam que a epidemia de fome daquela época nas regiões comunistas se devia, em larga medida, ao fato de que Mao estava exportando alimentos; a escassez foi atribuída à “guerra”. Tratava-se de um antegosto da futura Grande Fome, que também foi uma criação de Mao: mais uma vez, resultado de sua decisão de exportar alimentos para a Rússia.
Em junho de 1946, quando ocorreu o cessar-fogo ordenado por Marshall, Chiang ainda era militarmente muito superior a Mao. O Exército nacionalista contava com 4,3 milhões de soldados, muito acima do 1,27 milhão de Mao. Durante algum tempo, pareceu que o Generalíssimo triunfaria. Apesar de deixar os comunistas em paz na Manchúria, ele os expulsava da maioria de seus redutos na China, inclusive da única cidade importante que ainda detinham, Zhangjiakou, em outubro. Mais ao sul, os comunistas foram praticamente varridos da região do Yangtze. Em todos os teatros da luta, Mao repetiu sua abordagem fracassada na Manchúria e instou seus generais a tomar grandes cidades a qualquer custo. Seu plano para a China oriental de 22 de junho, por exemplo, pedia um fechamento sobre Nanquim, onde Chiang acabara de reinstalar sua capital. Embora Mao dissesse que o ataque não apresentava riscos, ele teve de ser abortado, tal como outros planos.
Apesar dessas perdas substanciais, Mao continuava totalmente confiante, porque tinha a base do norte da Manchúria. Quando Chiang começou a atacá-la, em outubro de 1946, depois que o cessar-fogo dera aos comunistas mais de quatro meses para se consolidar, não conseguiu romper suas defesas. No inverno de 1946-47, o mais frio na memória de muita gente, os nacionalistas se viram travando duras batalhas de vaivém com as forças comunistas transformadas, sob o comando de Lin Biao, cujo talento militar firmou-se nesses meses. Mao resumiu elogiosamente o estilo de Lin como sendo “impiedoso e tortuoso”. Um de seus métodos era fazer uso do tempo frio. Em temperaturas de até quarenta graus negativos, quando urinar podia causar ulcerações no pênis, suas tropas ficavam emboscadas no gelo e na neve durante dias seguidos. Veteranos comunistas estimaram em até 100 mil os companheiros mortos ou mutilados pelo congelamento. Os nacionalistas sofreram muito menos porque tinham roupas melhores — e comandantes menos implacáveis.
Na primavera de 1947, a base comunista no norte da Manchúria já se tornara inabalável. Marshall deixara a China em janeiro, marcando o fim das tentativas de mediação dos americanos. Os Estados Unidos deram depois uma considerável ajuda a Chiang, mas isso não fez diferença. O objetivo que os comunistas vinham buscando secretamente havia mais de duas décadas — “estabelecer ligação com a União Soviética” — fora alcançado, com a ajuda de Washington, embora involuntária. A vitória de Mao em todo o país era apenas uma questão de tempo.
a O jogo duplo de Moscou e Mao enganou muita gente, sugerindo durante décadas que este poderia ser atraído pelos Estados Unidos e que os americanos haviam perdido a chance de afastá-lo do campo soviético. Na verdade, em segredo, Mao sempre disse ao seu partido que a amizade com os americanos “é somente uma tática de conveniência em nossa luta contra Chiang”.
b Averell Harriman, o experiente embaixador de Washington em Moscou, preocupara-se com a designação de Marshall exatamente por achar que o general não se dava conta o suficiente do “perigo russo”.
c Ele também ordenou a Lin: “Diga que lutamos por democracia política, econômica e militar [...] Não utilize o slogan da luta de classes”.