Mao: a história desconhecida

Jung Chang e Jon Halliday · Capítulo 22 de 69

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Mao: a história desconhecida

20. Combater os rivais e Chiang – não o Japão

20. Combater os rivais e Chiang

 

— não o Japão

 

(1937-40; 43-46 anos)

 

Uma pessoa que procurou explorar a vulnerabilidade de Mao foi Chang Kuo-tao. Ele se encontrara com Mao em junho de 1935, durante a Longa Marcha, com um exército de 80 mil homens, em contraste com os 10 mil devastados de Mao. Naquela ocasião, também tinha sólidas credenciais para ser líder do PCC. Porém, nos meses seguintes, Mao sabotara metodicamente seu exército e monopolizara a rota para o norte para fazer a conexão com os russos, deixando-o definhar na fronteira tibetana. Quando Kuo-tao chegou ao QG do partido no norte de Shaanxi, em outubro de 1936, seu exército se reduzira à metade e ele se tornara um parceiro menor. Mesmo assim, Mao estava inclinado a enfraquecê-lo mais, porque seu exército ainda tinha o dobro do tamanho do de Mao e ele continuava sendo um rival em potencial.

Naquele mês de outubro de 1936, quando mandou o Exército Vermelho tentar abrir o caminho até o suprimento de armas russas, perto da fronteira da Mongólia Exterior, Mao designou as unidades endurecidas pelo combate de Kuo-tao para romper as linhas nacionalistas que bloqueavam o caminho. Quando essa operação fracassou, 21 800 soldados de Kuo-tao — metade de sua força remanescente — ficaram isolados do outro lado do rio Amarelo. Moscou então lançou a ideia de que o PCC poderia recolher armas em Xinjiang, outra região controlada pelos soviéticos. A missão era irrealizável, uma vez que compreendia a travessia de mais de 1500 quilômetros através de um deserto desabitado e territórios sob controle de um exército muçulmano ferozmente anticomunista. Mas Mao aceitou sofregamente a ideia e designou a força encalhada de Kuo-tao para essa missão condenada, sob o nome de Contingente Ocidental.

Mao conseguiu tornar a jornada ainda mais inútil ao emitir um rosário de ordens contraditórias que levaram o contingente de um local infernal para outro, lançando-o em batalhas frontais contínuas. Seu comandante registrou amargamente que as tarefas atribuídas a ele por Yenan eram “evasivas e cambiáveis”. No início de fevereiro de 1937, quando o contingente telegrafou do meio do deserto para dizer que não poderia manter a posição por muito mais tempo nem avançar, e pediu permissão para ir para Yenan, Mao ordenou que ficassem onde estavam e lutassem “até a última pessoa e a última gota de sangue”.

Em meados de março, o contingente, outrora a espinha dorsal do exército de Kuo-tao, estava praticamente liquidado. Os que foram capturados tiveram morte horrível. Depois de uma batalha culminante no oeste de Gansu, mais de mil foram enterrados vivos. Fotografias de partir o coração foram tiradas de um grande grupo de prisioneiros confiantes antes de serem massacrados. As 2 mil mulheres foram estupradas, algumas torturadas e mortas, outras vendidas em mercados de escravos. Dos 21 800 homens e mulheres da força original, somente cerca de quatrocentos conseguiram chegar a Xinjiang no final de abril, mais mortos do que vivos.

A exterminação dessa força permitiu que Mao fechasse a tampa do caixão de Kuo-tao, transformado por ele no bode expiatório do desastre; segundo Mao, o contingente vinha seguindo “a linha de Chang Kuo-tao”. Mas Moscou se recusou a apoiar a tentativa de Mao de expulsar Kuo-tao do Politburo. Ainda assim, ele foi denunciado diante de seus oficiais.

Mao não acabou apenas com as perspectivas políticas de Kuo-tao, mas também com a vida dos poucos remanescentes do Contingente Ocidental que conseguiram chegar a Yenan. Um funcionário local descreveu o que aconteceu:

Quando eles foram perseguidos até nossa [área], primeiro lhes oferecemos uma festa de recepção e tomamos

suas armas. Depois dissemos a eles: “Camaradas, vocês passaram por muita coisa e estão sendo transferidos

para a retaguarda a fim de descansar”. Então nós os levamos em grupos para os vales e enterramos todos

aqueles netos de tartarugas [isto é, filhos da puta] vivos.

Foi muito divertido enterrá-los. De início, dissemos com sorrisos: “Camaradas, cavem bem, queremos

enterrar soldados nacionalistas vivos”. Eles realmente trabalharam duro, uma pá depois da outra. Limpando o

suor do rosto. [...] Depois que terminaram, os empurramos e chutamos para dentro. No começo, acharam

que estávamos brincando. Mas, quando começamos a jogar terra no buraco, começaram a gritar: “Camaradas,

não somos soldados nacionalistas”. Nós praguejamos: “Filhos da puta. Não nos importa se são soldados

nacionalistas ou não. Queremos que morram e vocês vão morrer”.

 

A essa altura, o fanfarrão foi contestado: “Recuso-me totalmente a acreditar que isso é ordem do partido”.

Mas o sujeito continuou: “O quê? Foi nosso comandante de regimento que nos mandou fazer isso. E ele disse que foi ordem do camarada Gao Gang [o líder comunista local] que, é claro, estava cumprindo ordens do presidente Mao. Nós só reconhecemos a autoridade do presidente Mao. O que ele nos pedir para fazer, nós faremos”.

O próprio Kuo-tao foi submetido a múltiplos “tormentos [...] arquitetados por Mao”, escreveu ele mais tarde. Foi despejado de sua casa pelo secretário de Mao para que o presidente pudesse tomá-la, e seu ordenança foi preso. Mao atormentou até o jovem filho de Kuo-tao, que ganhou o papel do trotskista Chang Mu-tao numa encenação escolar. Kuo-tao contou que chegou à escola e viu “um grupo de pessoas ridicularizando meu filho. Mao Tse-tung também estava lá, se divertindo. Ele gargalhou com malícia: ‘É perfeitamente adequado que o filho de Chang Kuo-tao faça o papel de Chang Mu-tao’. [...] Rasguei a máscara que meu filho estava usando e o tirei de cena. Gritei com raiva enquanto saíamos: ‘Bárbaros! [...] Piores do que bestas!’”.

Na primavera de 1938, Kuo-tao já estava no limite de sua paciência, justamente no momento em que a posição de Mao estava fraca, pois este não concordava com as ordens de Moscou de lutar contra o Japão. Kuo-tao vislumbrou uma chance de se unir a Wang Ming, que representava o ponto de vista de Moscou. Na ocasião, Wang Ming estava em Wuhan, capital temporária de Chiang Kai-shek, com Chou En-lai e Po Ku. Em 4 de abril, na qualidade de presidente da região comunista, Kuo-tao saiu de Yenan para uma cerimônia conjunta de nacionalistas e comunistas no túmulo do mítico Imperador Amarelo, fora da área da base. Depois da cerimônia, ele foi a Xian e dali para Wuhan a fim de se encontrar com Wang Ming e seus colegas.

Essa foi uma das raríssimas oportunidades de encontro da maioria da liderança do PCC, todos em desacordo com Mao, fora de Yenan e das garras dele (Xiang Ying, seu mais acerbo crítico e comandante do N4E, estava perto de Wuhan). O conteúdo das confabulações de Kuo-tao em Wuhan é um dos segredos mais guardados do PCC. É quase certo que Kuo-tao tenha defendido a expulsão de Mao. Mais tarde, Yenan contou a Moscou que Kuo-tao havia “tentado romper a unidade do partido” quando se encontrava em Wuhan. Mas ele foi embora de mãos vazias, provavelmente porque o trio de Wuhan não acreditava que Moscou apoiaria a medida. Enquanto Kuo-tao estava desesperado, Wang Ming mostrava-se no auge de sua confiança, e talvez tenha sido difícil para ele perceber que a aparente aceitação de Mao das decisões da maioria mascarava uma determinação feroz de voltar de qualquer maneira ao controle.

As conversas duraram cerca de uma semana. Quando percebeu que não ia conseguir nada, Kuo-tao decidiu trocar o PCC pelos nacionalistas, o que fez em 17 de abril. O trio de Wuhan deixou-o partir. Ele então escreveu para a esposa, que, grávida, ficara em Yenan, pedindo-lhe que viesse ao seu encontro, com o filho de doze anos. Mao adiou a decisão por dois meses, a fim de ter certeza de que Kuo-tao não causara algum dano drástico, e então pemitiu que partissem. Quando a esposa de Kuo-tao chegou a Wuhan, Chou aconselhou-a a dizer ao marido para “não queimar suas pontes com o partido”. Kuo-tao levou em conta o conselho. Ele fora outrora chefe do Departamento Militar do PCC, encarregado de colocar agentes nas Forças Armadas de Chiang, mas jamais revelou um único nome aos nacionalistas. Na verdade, fez pouco por eles, que ficaram decepcionados. Sua autobiografia de mais de mil páginas não revelou segredos. Um sinal de que ele manteve a boca fechada foi que, depois de sua fuga do continente, após a conquista da China por Mao, um de seus filhos teve permissão para voltar e frequentar a universidade em Cantão, em meados da década de 1950. Ele sobreviveu a Mao e morreu num asilo para idosos em Toronto, Canadá, em 1979, aos 82 anos, depois de converter-se ao cristianismo no ano anterior.

A deserção de Kuo-tao permitiu que Mao o desacreditasse aos olhos de seu exército; ele foi imediatamente expulso do partido. Alguns de seus antigos seguidores em Yenan ficaram “extremamente insatisfeitos”, relatou o chefe do serviço secreto nacionalista Tai Li a Chiang Kai-shek. Eles se encontravam em segredo e, em consequência, as forças de Mao “liquidaram todos. Cerca de duzentos foram enterrados vivos”.

Moscou esperou dois meses para endossar a expulsão. Durante esse período, aconteceu algo crucial para Mao: Stálin acabou com o expurgo no Comintern. Piatnitski e Miélnikov, que haviam implicado Mao como espião japonês, foram executados (no mesmo dia) com vários outros ligados à China. O dossiê de Mao ficou no arquivo, pronto para ser ressuscitado quando Stálin precisasse dele, o que aconteceu uma década depois. Mas, por enquanto, Mao estava fora de perigo.

Assim que soube que o Kremlin havia aprovado a expulsão de Kuo-tao e que ele próprio estava limpo, Mao tratou de derrubar Wang Ming.

 

Àquela altura, ele tinha um importante aliado em Moscou, seu velho companheiro de tramas na Longa Marcha Wang Jia-xiang, o Professor Vermelho. Desde o restabelecimento das comunicações por rádio, em junho de 1936, Mao insistiu e bombardeou Moscou com pedidos para que o Professor Vermelho fosse para a Rússia, supostamente para tratamento médico. Ele chegou em Moscou em julho de 1937 e se tornou o representante do PCC depois que Wang Ming voltou para a China. Em junho de 1938, Mao pediu por telegrama que o Professor Vermelho voltasse. Ele estava em condição de realizar um serviço extraordinário para Mao. Antes de partir, viu o líder do Comintern Dimítrov e, numa conversa sobre unidade do partido, ouviu dele que o PCC precisava resolver seus problemas “sob a liderança chefiada por Mao Tse-tung”. Mao usaria essa única frase para reverter sua sorte pessoal — e a política do partido.

O Professor Vermelho retornou a Yenan no final de agosto. Mao fez com que ele convocasse imediatamente Wang Ming e os outros para uma plenária do Comitê Central “a fim de ouvir as instruções do Comintern”. Era a primeira vez que o Comitê Central se reunia desde antes da Longa Marcha, havia mais de quatro anos. Wuhan, a capital temporária, estava sob ataque feroz dos japoneses. No entanto, Mao chamou os comandantes de campo e os altos dirigentes a Yenan, que era um remanso. Wang Ming protestou, dizendo que aquele não era o momento para que toda a liderança do partido se ausentasse da capital da nação e sugeriu realizar a reunião em Wuhan. “Não vou a lugar nenhum!”, declarou Mao. O Professor Vermelho telegrafou ameaçadoramente a Wang Ming: “Obedeça ao centro, senão”.

Wang Ming concordou com relutância, chegando lá em 15 de setembro. O Professor Vermelho dirigiu-se primeiro ao Politburo e citou a frase de Dimítrov. Então Mao disse que ele faria o relatório político na plenária, restabelecendo desse modo sua posição de líder. Wang Ming não ofereceu resistência. Quando a reunião se abriu, no dia 29, na catedral franciscana de Yenan, o Professor Vermelho, sentado sob o retrato de Lênin no altar, repetiu as palavras de Dimítrov para o público maior. Assim, plantou-se nas mentes do alto-comando do PCC a ideia de que Moscou havia endossado explicitamente a liderança de Mao.

Como recompensa para o Professor Vermelho, Mao deu-lhe uma porção de postos-chave, inclusive o de vice-presidente do Conselho Militar. Mao também achou para o solteiro de 32 anos uma bela e coquete noiva, uma estudante de medicina de 23 anos cujo pai era um velho amigo de Mao. Assim, depois de fazer feliz o chefe nominal do partido, Lo Fu, com uma esposa mignone e vivaz, Mao enrolou o “fio vermelho” ao redor de outro coração útil, amarrando dois aliados vitais ao seu cinturão. Mao gostava de bancar o casamenteiro e era esperto em relação aos meandros do coração, em particular de homens sexualmente inibidos.

Mao partiu então para desacreditar Wang Ming. Porém, destruir a unidade do partido era algo que Moscou havia especificamente vetado — e era de esperar que Wang Ming reagisse se atacado de frente. Então Mao apelou para seu velho golpe de arrastar a reunião até que Wang Ming e outros oponentes importantes tivessem partido, para depois atacá-los.

Mao esticou a plenária por quase dois meses, fazendo dela a mais longa de todas, embora se realizasse em meio a uma crise nacional, durante a qual não somente Wuhan, mas também Cantão, o último porto importante dos nacionalistas, caíram para os japoneses. As bases comunistas atrás das linhas japonesas também foram ameaçadas. Apelos urgentes chegavam — “Situação de emergência aqui. Por favor, pedimos a volta de Peng De-huai o mais breve [...]” — mas Mao recusou-se a liberar os comandantes militares até alcançar seus objetivos.

Chiang Kai-shek mudou sua capital para Chongqing, mais para o interior, onde marcou uma nova assembleia nacional para 28 de outubro, à qual Wang Ming deveria comparecer. Mao fez com que sua plenária ainda estivesse em sessão quando Wang Ming teve de partir para Chongqing — o mesmo golpe que havia utilizado em 1929 para pôr as mãos no Fujian Vermelho.

A fim de prolongar as coisas, Mao insistiu em que cada membro do Politburo fizesse dois discursos praticamente iguais — um ao Politburo, outro à plenária. Por sua vez, atrasou seu relatório político por duas semanas, durante as quais os participantes ficaram sem ter o que fazer. Quando afinal falou, foi extremamente prolixo e, com seu hábito de dormir pela manhã, demorou não menos de três dias.

No final de outubro, todos os oponentes mais fortes de Mao — Chou, Xiang Ying, Po Ku e Wang Ming — já haviam partido. Então Mao lançou seu ataque furioso, especialmente contra Wang Ming, por “seguir as ordens de Chiang Kai-shek” e até pelos expurgos sangrentos nas áreas comunistas antes da Longa Marcha, quando Wang Ming nem estava lá.

Diante da ausência de seus adversários, Mao impôs sua política à plenária: expandir agressivamente as bases comunistas e combater as tropas nacionalistas, se necessário. Foi a primeira vez que deixou claras suas verdadeiras intenções. Havia muitas tropas nacionalistas atrás das linhas japonesas, competindo por território com os comunistas. Até então, a política fora de evitar a luta com elas e priorizar a unidade com Chiang. Mao expressara acordo total enquanto Wang Ming estava presente, chamara Chiang Kai-shek de “grande líder”, comprometera-se a colocar as novas bases vermelhas sob o comando do governo central e prometera “apontar todas as armas contras os japoneses”. Chegou mesmo a proclamar: “A nação chinesa ergueu-se! O estado de ser intimidado, insultado, invadido e oprimido por cem anos [...] acabou”. Essas palavras são quase idênticas às que usou ao fundar a China comunista, em 1949, quando disse: “Os chineses se ergueram”. A frase de 1949 é muito citada como sendo a primeira. Na verdade, não foi. Além disso, quando Mao a usou originalmente, a China, em suas palavras, estava “sob a liderança do senhor Chiang”!

Sem a presença de Wang Ming, Mao disse aos seus colegas que o Generalíssimo era o inimigo máximo e que deveriam começar naquele momento a se preparar para tomar-lhe o poder. O Exército Vermelho deveria atacar as forças nacionalistas que impedissem sua expansão. Tratava-se de uma ordem marcante para o alto escalão: Chiang continua sendo o inimigo número um. Podem abrir fogo contra o exército dele.

 

Um partidário fundamental dessa posição era o futuro presidente Liu Shao-chi, que dirigia a rede clandestina no norte da China. Liu passara dois longos períodos na Rússia, conhecera Lênin em 1921 e tivera um caso com Larissa Reysner, uma das amigas mais íntimas do líder bolchevique. Homem de considerável visão, Liu concordava com a estratégia inflexível de Mao para tomar o poder. Imediatamente após a plenária, Mao fez dele chefe de uma grande área no centro da China oriental, onde o N4E estava atuando — e, assim, chefe de Xiang Ying e do N4E.

Mao contava também com o apoio de Peng De-huai, o subcomandante do 8EM, para quem a guerra civil era inevitável se os comunistas quisessem se expandir — ou mesmo ficar em alguns lugares. Zhu De, comandante do 8EM , concordava com isso. Mao garantia assim o apoio para sua política dos chefes de todas as forças comunistas.

Como sua estratégia ia diretamente de encontro às instruções de Stálin, Mao temia que a notícia pudesse vazar para Wang Ming e, por meio dele, para Moscou. Então ordenou que seus discursos fossem mantidos em segredo absoluto. Para selar a boca de sua plateia, apresentou duas “Resoluções sobre disciplina” admoestatórias, que proibiam “revelar segredos” a “qualquer pessoa dentro ou fora do partido”. Isso significava que os participantes não poderiam contar a seus colegas — mesmo àqueles que haviam participado da primeira parte da plenária — que Mao ordenara a guerra civil contra os nacionalistas. E ninguém ousou contar a Wang Ming toda a história dos ataques de Mao a ele.

Para lançar um manto de medo, Mao confiava no depois infame chefe da segurança Kang Sheng. Na Rússia, Kang supervisionara os expurgos de centenas de chineses, muitos dos quais foram torturados, executados ou condenados a trabalhar até a morte no gulag. Ele fora o vice de Wang Ming na delegação do PCC ao Comintern e o seguira de perto. Quando os dois chegaram a Yenan, Kang liderara o grito de “Viva nosso líder genial do partido, camarada Wang Ming!” nas sessões de treinamento do aparelho de segurança. Mas Kang logo percebeu que Mao seria o vencedor e trocou de lado. Foi então que testemunhou a favor de Jiang Qing, possibilitando seu casamento com Mao e estabelecendo um laço forte com ele. Mao fez dele o chefe da KGB do PCC, confiando-lhe inclusive a seleção de seus guardas pessoais.

Foi para essa Yenan sob forte controle que Wang Ming recebeu ordens de voltar depois da sessão da Assembleia Nacional em Chongqing. Ele foi nomeado chefe do Departamento da Frente Nacional, um posto aparentemente importante, mas logo se viu reduzido a um chefe nominal. Uma testemunha ocular lembrou de vê-lo na rua, “com a cabeça baixa, os passos pesados [...] mergulhado em seus próprios pensamentos”. Mas Wang Ming não foi denunciado abertamente, pois suas ligações com Moscou eram fortes. Assim, para o membro comum do partido, ele ainda era um dos líderes — e popular. Muitos o relembraram como “um bom orador, cujos discursos eram muito animados e estimulantes. Os jovens gostavam dele”. Mao não era orador. Wang Ming permaneceu como um assunto não acabado.

 

A partir de 1939, depois que Mao mandou o partido adotar uma postura agressiva em relação aos nacionalistas, houve combates de grande escala por território atrás das linhas japonesas entre forças nacionalistas e comunistas, nos quais estes, em geral, se saíram melhor. Em janeiro de 1940, o 8EM, sob o comando de Zhu De e Peng, já havia crescido para 240 mil homens (de 46 mil, no início da guerra). E o N4E, atuando sob o comando de Liu Shao-chi perto de Xangai e Nanquim, triplicara para 30 mil soldados. Várias bases de bom tamanho surgiram na retaguarda japonesa. A base de Jinchaji, por exemplo, distante apenas cerca de oitenta quilômetros de Pequim, se expandiu para controlar uma população de 25 milhões de habitantes. Nesse ponto, com mais de dois anos de guerra, quando o realismo substituiu o ardor patriótico inicial, muitos líderes comunistas passaram a admirar o brilho da visão fria de Mao. Peng De-huai o descreveu, em um discurso de fevereiro de 1940, como “um líder sábio com visão política, que pode prever desdobramentos e é bom no enfrentamento deles”. E foi nesse período que Chou En-lai converteu-se totalmente a Mao.

Mao fizera bem ao PCC. Mas tinha de manter Stálin no mesmo barco. Durante muitos meses, ele escondeu de Moscou seus choques com os nacionalistas. Só abriu o jogo quando a luta ficou óbvia e grave, em junho de 1939, e então sustentou que ela era puramente defensiva, dizendo que os nacionalistas pretendiam varrer os comunistas da face da Terra.

Mao sabia como representar para a plateia de Moscou. Na primavera de 1939, Stálin mandou Roman Karmen, seu principal documentarista, a Yenan para filmar Mao. Este deixou um livro de Stálin aberto em seu estúdio quando Karmen chegou e depois posou para uma longa tomada segurando um texto de Stálin, com um retrato do autor em destaque na capa. Fez um brinde a ele, dizendo que o único lugar no exterior que queria conhecer era Moscou, para vê-lo. Quando deu adeus a Karmen da porta de sua caverna, no escuro, fez questão de perguntar em que direção ficava Moscou, soltou um suspiro profundo e depois mergulhou num longo silêncio. “Com que entusiasmo Mao fala do

camarada Stálin!”, escreveu Karmen.a

Mas, o que era mais importante, Mao tinha seus homens em Moscou para defender sua posição — e denegrir seus adversários. Ele se certificou de que os enviados do PCC a Moscou fossem seus aliados: primeiro, o Professor Vermelho, depois Ren Bi-shi. Ao entrar num curso de ação quanto a Chiang que desafiava as ordens de Stálin, mandou uma série de emissários adicionais, a começar por Lin Biao, que foi à Rússia no final de 1938 para tratar ferimentos a bala. Lin fora ferido por tropas nacionalistas que o tomaram por um japonês porque ele estava usando o sobretudo de um japonês capturado.

Lin levou com ele apenas documentos que Mao queria que Moscou visse, de tal modo que Stálin ficou no escuro a respeito das suas maquinações e políticas reais. Lin disse que Mao era “o sólido, decisivo e principal líder do PCC” e difamou Chou (“um trapaceiro”) e Zhu De (“o ex-gendarme”) que, segundo ele, “não são dos nossos”.

Depois de Lin, em junho de 1939 foi a vez de Tse-min, o irmão de Mao, ir para a Rússia por motivos de “saúde”, embora, como observaram os russos, ele não tenha passado um único dia no hospital. A principal missão de Tse-min era minar a posição de Wang Ming, a quem chamou de “canalha”, denunciando-o, entre outras coisas, por exagerar a força do Exército Vermelho chinês na presença de Stálin — uma acusação potencialmente mortal. Outro objetivo de Mao era rebaixar o papel de Wang Ming no congresso seguinte do partido. Ele deveria apresentar o segundo relatório, sobre organização. Mas Tse-min disse a Moscou que Wang Ming não era a pessoa certa, fazendo a alegação falsa de que ele “jamais dirigira trabalho prático de organização”. Tse-min também jogou lama em outros adversários do irmão, como Po Ku e Li Wei-han, um velho líder comunista de Hunan, ao acusá-los de “grandes crimes” e sugerir que eles deveriam ficar de fora de todos os órgãos de liderança. Ele comparou Po Ku a “oportunistas, trotskistas e bandidos”.

O terceiro emissário “extra” de Mao foi Chou En-lai, que chegou justamente quando começava a guerra na Europa. Ele deu baixa no hospital do Kremlin em 14 de setembro para operar o braço direito, que fora mal engessado quando da queda de um cavalo. Chou acabara de se converter a Mao — uma conversão incondicional que fez dele um servidor muito fiel desde então. Ele trabalhou assiduamente para defender Mao e disse aos russos que a liderança do PCC “considerava que ele [Mao] deveria ser eleito secretário-geral”. Chou garantiu a Moscou que a política do PCC continuava sustentando que “a guerra antijaponesa está acima de todo o resto” e que o partido estava comprometido com “a frente unida” ao lado de Chiang. Detalhou a expansão das forças comunistas e seus territórios, recheando seu relato com várias afirmações exageradas, tais como a de que o 8EM travara não menos que 2689 batalhas contra os japoneses. O número de membros do PCC havia “aumentado sete vezes [para] 498 mil” desde o início da guerra.

Ao mesmo tempo que usava Chou, Mao tratava de mantê-lo em seu devido lugar. Depois de visitá-lo no hospital, Tse-min disse aos russos que Chou tinha opiniões “doentias” sobre as relações com os nacionalistas e afirmou que ele se opusera ao fuzilamento do proeminente trotskista Chang Mu-tao.

Mao também estava preocupado com Otto Braun, o assessor de Moscou que estava na China desde muito antes da Longa Marcha e que foi à Rússia com Chou: ele poderia dizer coisas aos russos que Mao não queria que escutassem. Tse-min fez questão de chamar as táticas de Braun de “contrarrevolucionárias”, uma acusação que poderia ter levado o assessor ao fuzilamento. Braun, que sobreviveu, afirma que essa era a intenção. Chou também ajudou nisso, ao chamar seu ex-amigo e colega íntimo de “inimigo da revolução chinesa” (Braun descreveu Chou como seu “principal acusador”).

Mais tarde, Mao acusou seus rivais de “falarem mal de outros a estrangeiros”. Mas nenhum deles se entregou a alguma coisa remotamente parecida com o assassinato de personalidades que Mao praticava.

 

a Parece que a primeira exibição de uma imagem de Mao em celuloide em Moscou foi em 1935, quando um cinejornal dos líderes do PCC foi apresentado ao VII Congresso do Comintern. O número três do Comintern, Piatnitski, depois executado por Stálin, disse que achava que Mao tinha a aparência de um “arruaceiro”.