Mao: a história desconhecida
2. Tornando-se comunista
(1911-20; 17-26 anos)
Mao chegou em Changsha na primavera de 1911, às vésperas da revolução republicana que acabaria com mais de 2 mil anos de regime imperial. Embora parecesse “exatamente uma cidade medieval” para o filósofo britânico Bertrand Russell, que a visitou uma década depois, com “ruas estreitas [...] sem tráfego possível senão de cadeirinhas e jinriquixás”, Changsha não estava apenas em contato com novas ideias e tendências, também fervilhava de atividade republicana.
A corte havia prometido uma monarquia constitucional, mas os republicanos queriam se ver totalmente livres dos manchus. Para eles, o regime vigente era dominação “estrangeira”, pois os manchus não eram chineses han, o grupo étnico que compunha a maioria da população — cerca de 94%. Os republicanos acendiam centelhas em jornais e revistas que haviam surgido em toda a China na década anterior, e por meio da prática inteiramente nova dos debates públicos, naquilo que até então havia sido uma sociedade quase totalmente privada. Eles fundaram organizações e fizeram vários levantes armados — e fracassados.
Mao logo se inteirou das questões pelos jornais, que lia pela primeira vez aos dezessete anos — o começo de um vício de toda a vida. Ele escreveu seu primeiro e um tanto confuso ensaio político em que expressava opiniões republicanas e o colou em uma parede da escola, de acordo com a última moda. Tal como muitos outros estudantes, cortou o rabo de cavalo, um costume manchu que era o símbolo mais óbvio do regime imperial. Com um amigo, fez uma emboscada a uma dezena de outros estudantes e também cortou à força seus rabichos.
Naquele verão, extremamente quente e úmido como era comum em Changsha, os estudantes debateram com intensidade sobre como derrubar o imperador. Um dia, no meio de uma discussão apaixonada, um jovem rasgou de repente sua longa bata escolar, jogou-a no chão e gritou: “Façamos alguns exercícios marciais e nos preparemos para a guerra [contra o imperador]!”.
Em outubro, uma insurreição armada na província vizinha de Hubei anunciou a revolução republicana. A dinastia manchu, que governara a China por mais de 260 anos, desmoronou e proclamou-se a república no dia 1 o de janeiro de 1912. O imperador criança Pu Yi abdicou no mês seguinte.
Yuan Shih-kai, chefe militar do país, tornou-se presidente, sucedendo ao presidente interino Sun Yat-sen. As províncias foram controladas por homens fortes do Exército, fiéis a Yuan. Quando ele morreu, em 1916, o governo central de Pequim se enfraqueceu e o poder se fragmentou entre os chefes provinciais, que se tornaram comandantes militares semi-independentes. Durante a década seguinte, eles travaram guerras esporádicas que interferiam na vida civil das zonas de combate. Mas, afora isso, esses comandantes pouco afetavam a maior parte da população. Com efeito, o governo frouxo da jovem república abriu todo tipo de oportunidade de carreira. O jovem Mao tinha diante de si uma grande variedade de escolhas — indústria, comércio, direito, administração, educação, jornalismo, cultura, Forças Armadas. Primeiro, alistou-se em um dos exércitos republicanos, abandonando-o depois de alguns meses, pois não gostava dos exercícios militares nem de tarefas como carregar água para a cozinha, para a qual contratara um vendedor de água que fazia o serviço por ele. Decidiu voltar para a escola e analisou os vários anúncios publicados nos jornais (a propaganda colorida e bastante sofisticada também era uma novidade na China). Seis instituições chamaram sua atenção, inclusive uma escola de polícia, uma escola de direito — e uma escola especializada na fabricação de sabão. Ele escolheu uma escola qualquer e lá ficou durante seis meses, antes que o tédio o levasse a estudar por conta própria na biblioteca provincial.
Por fim, Mao encontrou algo que adorava fazer. Passava os dias ali, devorando livros novos, inclusive traduções de escritos ocidentais. Mais tarde, descreveu-se como um búfalo atacando uma horta e engolindo tudo o que crescia lá. Essas leituras o ajudaram a libertar sua mente dos constrangimentos tradicionais.
Mas seu pai ameaçou deserdá-lo se ele não entrasse numa escola adequada. Mao foi então cursar magistério numa escola que não cobrava matrícula e oferecia pensão barata — como outras escolas desse tipo naquela época, dentro do esforço do país de promover a educação.
Era a primavera de 1913 e Mao estava com dezenove anos. A escola encarnava a abertura mental da época. Até o prédio era em estilo europeu, com arcos românicos e um amplo pórtico com colunas, e era chamado apropriadamente de yang-lou — Edifício Estrangeiro. As salas de aula tinham assoalho de madeira e janelas de vidro. Os alunos eram expostos a todos os tipos de ideias novas e estimulados a pensar com liberdade e organizar grupos de estudo. Eles produziam publicações sobre anarquismo, nacionalismo e marxismo, e durante algum tempo um retrato de Marx esteve pendurado na parede do auditório. Mao já havia cruzado com a palavra socialismo em um jornal. Agora encontrava comunismo pela primeira vez. Foi um verdadeiro período de “deixar florescer cem flores” — expressão que Mao invocaria em certo momento de seu governo, mas sem permitir uma fração mínima da liberdade que ele mesmo gozara quando jovem.
Mao não era um solitário e, como os estudantes de todo o mundo, ele e seus amigos conversavam muito. A escola ficava perto do rio Xiang, o maior de Hunan. A natação no rio inspirou Mao a escrever um poema um tanto floreado em 1917. À noite, os jovens faziam longas caminhadas pelas margens, deleitando-se com a visão dos juncos que deslizavam junto à ilha das Laranjas, que era coberta de laranjais. Nas noites de verão, subiam o morro que ficava atrás da escola, sentavam-se na grama e discutiam noite adentro, ouvindo grilos e vendo vaga-lumes, ignorando o chamado da corneta para dormir.
Mao e seus amigos também viajavam. Havia total liberdade para ir e vir e nenhuma necessidade de documentos de identificação. Durante as férias de verão de 1917, ele e um amigo perambularam pelo campo por um mês, ganhando comida e abrigo dos camponeses e, em troca, fazendo caligrafias para decorar suas portas da frente. Em outra ocasião, Mao e dois colegas de escola caminharam ao longo de uma ferrovia recém-construída e, quando a noite caiu, bateram à porta de um mosteiro que ficava no alto de um morro, com vista para o rio Xiang. Os monges permitiram que pernoitassem ali. Depois do jantar, os três desceram até o rio por um caminho de pedras, nadaram e em seguida sentaram-se na areia e expuseram suas opiniões, ao som das águas. O quarto de hóspedes tinha uma varanda e os jovens continuaram conversando no silêncio da noite. Um deles ficou emocionado com a beleza da noite tranquila e disse que queria se tornar monge.
Nessa e em outras conversas, Mao despejava desprezo sobre seus compatriotas. “A natureza do povo do país é a inércia”, dizia. “Eles cultivam a hipocrisia, estão contentes em ser escravos e são tacanhos.” Tratava-se de um sentimento comum entre as pessoas instruídas da época, quando se procuravam explicações para a fácil derrota da China para as potências estrangeiras e para o fato de o país se arrastar com dificuldade na direção do mundo moderno. Mas o que Mao disse em seguida significava um extremismo incomum. “O sr. Mao também propôs queimar todas as coleções de prosa e poesia posteriores às dinastias Tang e Sung de uma vez só”, escreveu um amigo em seu diário.
Essa foi a primeira vez em que Mao mencionou um tema que seria típico de seu regime — a destruição da cultura chinesa. Quando disse isso ali, no mosteiro iluminado pela lua, não soou totalmente despropositado. Naquele tempo de liberdade pessoal e intelectual sem precedentes, o momento mais livre da história chinesa, tudo que fora tido como certo era questionado, e o que fora considerado errado era proclamado certo. Deveriam existir países? Famílias? Casamento? Propriedade privada? Nada era chocante demais, exorbitante demais, ou indizível.
Foi nesse ambiente que as opiniões de Mao sobre moral se moldaram. No inverno de 1917-18, ainda estudante ao completar 24 anos, ele escreveu comentários extensos sobre um livro intitulado Um sistema de ética, de Friedrich Paulsen, um filósofo alemão menor do final do século XIX. Nessas notas, Mao expressava os elementos centrais de seu próprio caráter, que permaneceram consistentes pelo resto das seis décadas de sua vida e definiram seu modo de governar.
A atitude de Mao em relação à moralidade tinha um centro, o eu acima de tudo: “Não concordo com a ideia de que, para ser moral, o motivo de nossa ação deve ser beneficiar os outros. A moralidade não tem de ser definida em relação aos outros [...] As pessoas como eu querem [...] satisfazer plenamente o próprio coração, e, ao fazer isso, temos automaticamente o mais valioso dos códigos morais. Claro que existem pessoas e objetos no mundo, mas eles estão todos lá somente para mim”.
Mao evitava todas as restrições que provinham da responsabilidade e do dever. “Pessoas como eu têm um dever somente para consigo mesmas; não temos dever para com outras pessoas.” “Sou responsável somente pela realidade que conheço e absolutamente não responsável por qualquer outra coisa. Não sei do passado, não sei do futuro. Eles não têm nada a ver com a realidade de meu próprio eu.” Ele rejeitava explicitamente qualquer responsabilidade em relação a gerações futuras. “Alguns dizem que temos responsabilidade perante a História. Não creio nisso. Estou preocupado apenas com meu desenvolvimento [...] Tenho meu desejo e ajo de acordo com ele. Não sou responsável perante ninguém.”
Mao não acreditava em nada, exceto no que pudesse beneficiá-lo. Um bom nome após a morte, disse ele, “não pode me trazer nenhuma alegria, pois ele pertence ao futuro e não à minha própria realidade”. “Pessoas como eu não estão construindo a fim de deixar para as gerações futuras.” Mao não se preocupava com o que deixaria para o futuro.
Ele argumentava que a consciência poderia ir para o inferno se houvesse um conflito com seus impulsos:
Essas duas coisas devem ser uma e a mesma. Todas as nossas ações [...] são dirigidas por impulso e a
consciência que é sábia vai junto com isso em todas as instâncias. Às vezes [...] a consciência restringe impulsos
como comer demais ou entregar-se demais ao sexo. Mas a consciência só está ali para constranger, não para se
opor. E o constrangimento é para melhor completar o impulso.
Como a consciência sempre implica alguma preocupação com as outras pessoas e não é um corolário do hedonismo, Mao estava rejeitando o conceito. Sua ideia era: “Não penso que esses [mandamentos como ‘não matarás’, ‘não roubarás’ e ‘não caluniarás’] têm a ver com consciência. Penso que eles são produto apenas do interesse próprio e da autopreservação”. Todas as considerações devem “ser puro cálculo para si mesmo e de forma alguma para obedecer a códigos éticos externos, ou para os assim chamados sentimentos de responsabilidade”.
Egoísmo absoluto e irresponsabilidade estavam no cerne da visão de Mao.
Ele sustentava que esses atributos estavam reservados para os “grandes heróis” — grupo no qual se incluía. Para essa elite, dizia:
Tudo que está fora da sua natureza, tais como restrições e constrangimentos, deve ser varrido pela grande
força da natureza deles [...] Quando dão rédeas aos seus impulsos, os Grandes Heróis são magnificamente
poderosos, tempestuosos e invencíveis. Seu poder é como um furacão levantando-se de uma garganta
profunda, e como um maníaco por sexo no cio e na caça de uma amante [...] não há como detê-los.
O outro elemento central de seu caráter que Mao revelou então foi o prazer que sentia com a sublevação e a destruição: “Guerras gigantescas durarão tanto quanto o céu e a terra e jamais se extinguirão [...] O ideal de um mundo de Grande Igualdade e Harmonia [da tong, sociedade ideal confucionista] está errado”. Não se tratava apenas da previsão que poderia ser feita por um pessimista: era o desideratum de Mao, que ele asseverava que a população em geral desejava. “A paz duradoura”, sustentava,
é insuportável para os seres humanos, e ondas enormes de perturbação precisam ser criadas nesse estado de
paz [...] Quando olhamos para a história, adoramos os tempos de [guerra] quando dramas aconteceram um
depois do outro [...] que tornam a leitura sobre eles uma grande diversão. Quando chegamos aos períodos de
paz e prosperidade, ficamos entediados [...] A natureza humana ama mudanças rápidas e súbitas.
Mao simplesmente esquecia a diferença entre ler sobre eventos eletrizantes e viver um cataclismo real. Ignorava o fato de que, para a avassaladora maioria, a guerra significava miséria.
Ele até articulou uma atitude de cavaleiro perante a morte:
Os seres humanos são dotados do sentimento de curiosidade. Por que deveríamos tratar a morte de modo
diferente? Não queremos experimentar coisas estranhas? A morte é a coisa mais estranha, que você jamais
experimentará se continuar vivendo [...] Alguns têm medo dela porque a mudança é demasiado drástica. Mas
penso que essa é a coisa mais maravilhosa: em que outro lugar deste mundo podemos achar uma mudança tão
fantástica e drástica?
Usando o plural majestático, Mao continuava: “Nós amamos velejar num mar de sublevações. Ir da vida para a morte é experimentar a maior sublevação. Não é magnífico?!”. À primeira vista, essa declaração pode parecer surreal, mas depois que dezenas de milhões de chineses morreram de fome durante seu regime, Mao disse ao círculo dos mais íntimos que não importava se as pessoas morressem — e até aquelas mortes deviam ser comemoradas. Como fazia frequentemente, só aplicava o que dizia aos outros, não a si mesmo. Ao longo de toda a vida, carregou a obsessão de encontrar modos de driblar a morte, fazendo de tudo para aperfeiçoar sua segurança e melhorar seus cuidados médicos.
Quando chegou à questão de como mudar a China, Mao pôs grande ênfase na destruição: “o país precisa ser [...] destruído e depois reformado”. Essa ideia não se aplicava apenas à China, mas também ao resto do mundo — e até ao universo: “Isso se aplica ao país, à nação e à humanidade [...] A destruição do universo é a mesma coisa [...] Pessoas como eu anseiam por essa destruição, porque, quando o velho universo for destruído, um novo universo se formará. Não é melhor assim?!”.
Essas opiniões, ditas com tanta clareza aos 24 anos de idade, permaneceram no cerne do pensamento de Mao durante toda a sua vida. Em 1918, tinha poucas perspectivas de pô-las em prática e elas não tiveram nenhum impacto, embora ele pareça ter sido alguém que impressionava. Seu professor Yang Chang-chi escreveu em seu diário, em 5 de abril de 1915: “Meu aluno Mao Tse-tung disse que [...] seu [...] pai era camponês e agora está se tornando comerciante [...] Contudo, ele [Mao] é muito fino e destacado. Realmente difícil de encontrar [...] Como a origem camponesa produz frequentemente talentos extraordinários, eu o estimulei”. Mas Mao não parecia ter qualidades de liderança. Outro professor disse mais tarde que ele não mostrava “nenhum talento especial para a liderança” na escola. Quando tentou criar uma espécie de clube e divulgou a notícia, somente umas poucas pessoas apareceram e a coisa não deu em nada. Quando uma dezena de amigos criou a Nova Sociedade Popular de Estudos, em abril de 1918, Mao não foi eleito líder.
Ele chegou mesmo a ter dificuldade para encontrar emprego depois que se formou na escola normal, em junho de 1918. Na época, era comum que os jovens formados tivessem a aspiração de viajar ao exterior para estudar. Para as famílias que não tinham meios de sustentá-los, como a de Mao, havia um esquema de ir para a França num programa de estudos e trabalho. A França precisava de mão de obra depois de perder tantos jovens na Primeira Guerra Mundial (um dos trabalhos para os quais importaram trabalhadores chineses foi o de remover cadáveres dos campos de batalha).
Alguns dos amigos de Mao foram para a França, ele não. A perspectiva da labuta física o desanimava. E outro fator parece ter desempenhado um papel nisso — a exigência de aprender francês. Mao não era bom em línguas e durante toda a vida usou apenas seu dialeto local, não falava nem mesmo o putonghua (“fala comum”), que seu próprio regime transformou em língua oficial. Em 1920, quando ir à Rússia estava em voga, Mao pensou na possibilidade de viajar para lá (disse a uma namorada que “minha mente está cheia de felicidade e esperança” com essa ideia), mas acabou desistindo por ter de aprender russo. Fez uma tentativa, tomando lições com o emigrado (e agente) russo Serguei Polevoi, mas, segundo Polevoi, os outros alunos caçoaram dele por não conseguir dominar nem o alfabeto, e ele foi embora ofendido. Ao contrário de muitos de seus contemporâneos radicais, inclusive a maioria dos futuros líderes comunistas chineses, Mao não foi à França nem à Rússia.
Em vez disso, depois de deixar a escola, tomou emprestado algum dinheiro e partiu para a capital a fim de tentar a sorte. Em 1918, Pequim era uma das cidades mais lindas do mundo, onde camelos passavam pelas ruas, diante de palácios magníficos. Os jardins imperiais, perto de onde Mao se instalou, acabavam de ser abertos ao público. Quando chegou o inverno, ele e os amigos — sulistas que raramente haviam visto neve ou gelo — maravilharam-se diante dos lagos congelados, cercados por salgueiros carregados de sincelos e ameixas de inverno abertas.
Mas a vida na capital era dura. A grande liberdade e as oportunidades que a modernização havia introduzido na China trouxeram poucas vantagens materiais e boa parte do país ainda era extremamente pobre. Mao ficou com outros sete amigos em três quartos minúsculos. Quatro deles se amontoavam sobre uma kang, uma cama de tijolos aquecida, sob um único acolchoado, tão apertados que quando um deles precisava se virar tinha de avisar os outros. Os oito tinham apenas dois sobretudos e precisavam sair de casa em turnos. Como havia aquecimento na biblioteca, Mao ia até lá ler nos finais de tarde.
Em Pequim, Mao não chegou a lugar nenhum. Durante algum tempo, trabalhou como bibliotecário iniciante, ganhando oito yuans por mês — um salário mínimo. Uma de suas tarefas era registrar os nomes das pessoas que iam à biblioteca ler jornais, muitas das quais ele reconhecia como intelectuais importantes, mas Mao não causava grande impressão e eles não lhe davam atenção. Mao sentia-se desconsiderado e guardou muito rancor. Mais tarde, afirmou que “a maioria deles não me tratava como um ser humano”. Menos de seis meses depois de chegar, foi embora, tão quebrado que precisou pedir dinheiro emprestado para voltar para casa. Retornou a Changsha em abril de 1919, via Xangai, onde se despediu dos amigos, que iam para a França. Depois de ser um espectador da vida política e intelectual das grandes cidades cosmopolitas, agora tinha de se conformar com um emprego de professor de história numa escola primária de sua província natal.
Mao não se apresentava como um professor modelar. Era desleixado e aparentemente nunca trocava de roupa. Seus alunos lembravam dele desgrenhado, com meias furadas e sapatos de algodão feitos em casa, prestes a se desmilinguir. Mas pelo menos observava as regras básicas de decoro. Dois anos depois, quando lecionou em outro estabelecimento, as pessoas reclamaram porque ele não usava nada da cintura para cima. Quando lhe pediram para se vestir de modo mais decente, Mao replicou: “Não seria nada escandaloso ficar totalmente pelado. Considerem-se com sorte por eu não estar completamente nu”.
Mao retornara a Changsha num momento histórico fundamental. Na época, havia na China vários enclaves arrendados por potências do exterior que funcionavam fora da jurisdição do país, com belonaves estrangeiras nas proximidades para proteger seus cidadãos. A opinião pública da China despertou para esse problema e passou a exigir que essas colônias virtuais fossem devolvidas. Mesmo assim, a conferência de paz de Paris de 1919, que estabeleceu o acordo do pós-guerra, e da qual participou uma delegação chinesa, permitiu que o Japão permanecesse no território de Shandong, que os japoneses haviam tomado aos alemães durante a Primeira Guerra Mundial. Essa decisão enfureceu o sentimento nacionalista. Em 4 de maio de 1919, pela primeira vez na história, ocorreu uma grande manifestação de rua em Pequim, denunciando o governo por “traição” e protestando contra a presença japonesa em território chinês. O movimento se espalhou pelo país. Produtos japoneses foram queimados em cidades e vilas e as lojas que os vendiam foram atacadas. Muitos chineses estavam desapontados com o governo republicano, que não conseguira das potências estrangeiras um acordo melhor do que seu predecessor manchu. Cresceu o sentimento de que era preciso alguma coisa mais radical.
Em Changsha — onde agora havia tantos interesses estrangeiros que Japão, Estados Unidos e Grã-Bretanha haviam aberto consulados na cidade —, formou-se uma união de estudantes militantes, que incluía professores. Mao envolveu-se ativamente no papel de editor da revista que eles criaram, a Revista do Rio Xiang. No primeiro número, expôs suas ideias radicais: “Devemos agora duvidar do que não ousávamos duvidar, empregar métodos que não ousávamos empregar”. Era uma operação pobre: Mao escrevia a maioria dos artigos no calor sufocante, enquanto percevejos percorriam as pilhas de clássicos chineses que lhe serviam de travesseiro, e além disso tinha de vender a revista nas esquinas. Publicaram apenas cinco números.
Mao continuou a escrever ocasionalmente em outras publicações. Da sua produção fazem parte dez artigos que tratam da mulher e da família. Era um defensor da independência feminina, da livre escolha no casamento e da igualdade com os homens — opiniões não incomuns entre os radicais. Essa produção parece ter sido inspirada pela morte, em 5 de outubro de 1919, de sua mãe, que ele tanto amava. Ele mandava a ela receitas médicas para seus males, a difteria e um nódulo linfático, e tomara providências para que ela fosse a Changsha ser tratada. Na primavera daquele ano, em Changsha, tiraram a primeira e única fotografia dela, aos 52 anos, com os três filhos, numa imagem de paz interior. Mao mostra uma expressão de determinação tranquila e alheamento. Seus dois irmãos estão com roupas de camponês e parecem acanhados, mas ele revela um ar elegante em sua longa bata, o traje tradicional dos intelectuais e pequenos fidalgos.
Na relação com a mãe, enquanto ela parece ter demonstrado amor e tolerância incondicionais, Mao a tratava com uma mistura de afetividade e egoísmo. No final da vida, ele contou a um de seus colaboradores mais íntimos uma história reveladora: “Quando minha mãe estava morrendo, eu lhe disse que não conseguia suportar vê-la em agonia. Eu queria guardar uma imagem linda dela, então lhe pedi para me afastar por um tempo. Minha mãe era uma pessoa muito compreensiva e concordou. Portanto a imagem que guardo dela em minha mente sempre foi e ainda é a de uma pessoa linda e saudável”. No leito de morte da mãe, Mao deu prioridade a si próprio e não a ela, e ele nem hesitou em dizer isso.
Menos surpreendente é o fato de Mao ter tratado com frieza o pai agonizante. Yi-chang morreu de tifo em 23 de janeiro de 1920, e antes de sua morte quis muito ver o filho mais velho, mas Mao se manteve longe, e não parece ter ficado triste.
Em um artigo escrito em 21 de novembro de 1919, pouco depois da morte da mãe, e intitulado “Sobre a independência das mulheres”, Mao sustentava que as “mulheres podem fazer tanto trabalho físico quanto os homens. Só não podem fazer isso durante o parto”. Assim, sua resposta à “independência das mulheres” era que elas “deveriam se preparar suficientemente [...] antes de casar, de tal modo que possam se sustentar sozinhas” e até que “as mulheres deveriam estocar o que precisam para o período do parto”. Evidentemente, como homem, Mao não queria ter de cuidar das mulheres. Não queria nenhuma responsabilidade em relação a elas. Ademais, sua insistência de que as mulheres podiam fazer o mesmo tipo de trabalho braçal dos homens, que ia contra a realidade óbvia, mostrava que ele sentia pouca ternura por elas. Quando chegou ao poder, o centro de seu pensamento sobre as mulheres era pô-las para trabalhar pesado. Em 1951, escreveu sua primeira mensagem para o Dia das Mulheres, que dizia: “Uni-vos para tomar parte na produção”.
No final de 1919, os estudantes e professores radicais de Hunan começaram um movimento para derrubar o governante provincial, Chang Ching-yao. Mao acompanhou uma delegação ao governo central, em Pequim, escrevendo petições e panfletos em cima do altar do templo tibetano onde estava hospedado. Embora a delegação não tenha alcançado seu objetivo, Mao conseguiu, como importante radical de Hunan, se encontrar com personalidades famosas, entre elas Hu Shih, uma brilhante figura liberal, e Li Ta-chao, um proeminente marxista.
Mas foi na volta, via Xangai, que ele teve o encontro que mudaria sua vida. Em junho de 1920, visitou o professor Chen Tu-hsiu, na época o maior intelectual marxista da China, envolvido no processo de formação do Partido Comunista Chinês (PCC). Mao escrevera um longo artigo chamando-o de “uma estrela brilhante no mundo do pensamento”. Aos quarenta anos, Chen era o líder inconteste dos marxistas chineses, um verdadeiro crente, carismático, com um temperamento volátil.
A ideia de fundar um partido comunista não provinha do professor, nem de qualquer outro chinês. Ela se originara em Moscou. Em 1919, o novo governo soviético criara a Internacional Comunista, o Comintern, para fomentar a revolução e influenciar politicamente o mundo todo a favor dos interesses de Moscou. Em agosto, os soviéticos lançaram um grande programa secreto de ação e subversão para a China, dando início a um compromisso de dinheiro, homens e armas que duraria três décadas e que culminaria com a tomada do poder pelos comunistas comandados por Mao em 1949 — o mais duradouro triunfo da política externa da União Soviética.
Em janeiro de 1920, os bolcheviques tomaram a Sibéria Central e estabeleceram uma ligação por terra com a China. Em abril, o Comintern mandou à China o representante Grigori Voitinski. Em maio, estabeleceu um centro em Xangai com o objetivo, como outro agente relatou a Moscou, de “construir um partido chinês”. Voitinski propôs então ao professor Chen que fosse fundado um partido comunista. Em junho, Voitinski já relatara que Chen deveria ser o secretário do partido (isto é, o chefe) e estava contatando “revolucionários em várias cidades”.
Foi exatamente nessa época que Mao bateu à porta de Chen, e se deparou por acaso com o surgimento do PCC. Mao não foi convidado a ser um dos fundadores. Ao que parece, também não lhe falaram sobre a iminente fundação. Os oito membros fundadores eram todos eminentes marxistas e Mao ainda nem dissera que acreditava no
marxismo. O partido foi fundado em agosto, depois que Mao partiu de Xangai. *
Mas, embora não tenha sido um dos fundadores, Mao estava no círculo imediatamente seguinte. O professor Chen atribuiu-lhe a missão de abrir uma livraria em Changsha para vender a literatura do partido. O professor estava a caminho de transformar seu influente mensário, Nova Juventude, na voz do partido. A edição de julho trazia artigos elogiosos sobre Lênin e o governo soviético. A partir daquele outono, a revista foi subsidiada pelo Comintern.
A tarefa de Mao era distribuir Nova Juventude e demais publicações comunistas (bem como vender outros livros e revistas). Embora não fosse um comunista comprometido, era um radical. E também amava os livros e gostou do trabalho. Logo depois de ter voltado a Changsha, um anúncio sobre a livraria continha uma declaração bizarra escrita por ele mesmo: “Não há cultura nova em todo o mundo. Somente uma pequena flor de nova cultura foi descoberta na Rússia, nas praias do oceano Ártico”. A livraria encomendou imediatamente 165 exemplares da edição de julho de Nova Juventude, de longe sua maior encomenda. Outro pedido grande foi o de 130 exemplares de Mundo do Trabalho, uma nova publicação do partido dirigida a trabalhadores. A maioria das outras revistas que a livraria encomendou era radical e pró-União Soviética.
Mao não punha em risco o pescoço ao empreender atividades pró-comunistas, porque não eram crime. Na verdade, a Rússia comunista estava na moda. Em Changsha fundou-se uma Sociedade de Estudos da Rússia, liderada por ninguém menos que o chefe do condado. A popularidade da Rússia se devia, em grande parte, a uma fraude perpetrada pelo novo governo bolchevique — a afirmação de que iria renunciar aos velhos privilégios e território czaristas na China, quando, na verdade, os manteve. O território controlado pela Rússia cobria mais de 100 mil hectares e constituía a maior concessão estrangeira no país.
Mao estava encarregado da livraria, mas arranjou um amigo para dirigi-la. Um traço importante emergiu nessa época: ele tinha um dom para delegar tarefas e descobrir pessoas certas para realizá-las. Mao deu a si mesmo o título de “homem especial de ligação”, solicitando doações dos ricos e tratando com editores, bibliotecas, universidades e intelectuais importantes de todo o país. O professor Chen e vários luminares foram listados como fiadores da livraria, o que deu grande impulso ao status de Mao e o ajudou a conquistar o posto de diretor da escola primária ligada à sua antiga escola normal.
Não há provas de que tenha entrado formalmente para o partido nesse momento, embora em novembro, graças à livraria, fosse computado como “um dos nossos”. Quando Moscou decidiu montar uma organização em Hunan chamada Liga da Juventude Socialista, para criar um fundo de membros potenciais do partido, Mao foi contatado para fazer o serviço. No mês seguinte, numa carta a amigos que estavam na França, ele declarou que “concordava profundamente” com a ideia de “usar o modelo russo para reformar a China e o mundo”. Essa foi sua primeira manifestação de crença comunista.
Prestes a completar 27 anos, Mao se tornara comunista — não depois de uma jornada idealista ou levado por uma crença apaixonada, mas por estar no lugar certo, na hora certa, e por ter recebido uma tarefa que lhe era muitíssimo conveniente. Ele fora efetivamente incorporado a uma organização em expansão.
Seu melhor amigo na época, Siao-yu, acreditava que o custo do caminho russo era alto demais e, da França, escreveu a Mao dizendo o que ele e outros pensavam:
Não achamos que alguns seres humanos devem ser sacrificados pelo bem-estar da maioria. Somos a favor de
uma revolução moderada, por meio da educação, e que busque o bem-estar de todos [...] Consideramos que
revoluções do estilo russo — marxistas — são eticamente erradas.
Mao resumiu o pensamento dos amigos como sendo o de “usar meios pacíficos para buscar a felicidade de todos”. E argumentou contra, não por motivos idealistas, mas invocando o puro realismo: “tenho dois comentários [...]: está tudo muito bem em teoria; mas não pode ser feito na prática”. “Os ideais são importantes”, disse Mao, “mas a realidade é ainda mais importante.”
Mao não era um crente fervoroso. Essa ausência de compromisso sincero resultaria numa relação incomum e muito pouco convencional dele com o partido durante toda a vida, mesmo quando se tornou o chefe.
* Esta é uma questão delicada para Mao e seus sucessores, e por isso a história oficial data a fundação do PCC de 1921, quando foi possível confirmar a participação de Mao, pela primeira vez, em um conclave do partido, o I Congresso. Isso é devidamente comemorado por um museu em Xangai que cultiva o mito de que Mao foi membro fundador do PCC. Entretanto, o fato de o partido ter sido fundado em 1920, e não em 1921, é confirmado tanto pela revista oficial do Comintern como por um dos emissários de Moscou que organizaram o I Congresso.