Mao: a história desconhecida
Parte II
A longa marcha para a
supremacia dentro do partido
5. O sequestro de uma força comunista
e a tomada da terra dos bandidos
(1927-28; 33-34 anos)
Em abril de 1927, quando Chiang Kai-shek rompeu com os comunistas, Stálin já se tornara o líder do Kremlin e ditava pessoalmente a política para a China. Sua reação ao rompimento foi mandar o PCC formar sem demora seu próprio exército e ocupar território, com a meta de longo prazo de conquistar a China pela força das armas.
A opção militarista — o uso da força para levar os comunistas chineses ao poder — era o método preferido de Moscou desde a criação do Comintern, em 1919. Enquanto os nacionalistas estavam no jogo, a estratégia de Moscou fora infiltrar os membros do PCC nas Forças Armadas nacionalistas e subvertê-las. Com o rompimento, Stálin ordenou que os comunistas pegassem aquelas unidades que podiam controlar e “formassem alguns corpos novos”.
Stálin enviou à China Beso Lominadze, seu compatriota georgiano de confiança. Jan Berzin, chefe do GRU , o departamento geral de espionagem, escreveu ao comissário da Guerra, Kliment Vorochílov, que presidia a Comissão da China em Moscou, que agora a maior prioridade na China era criar um exército vermelho. Montou-se na Rússia um enorme sistema secreto de apoio e assessoria militar para os comunistas chineses. O GRU tinha homens em todas as principais cidades chinesas, fornecendo armas, fundos e remédios, além de informações muitas vezes essenciais para a sobrevivência do PCC. Moscou mandou também agentes de alto nível ao país para orientar as operações militares do partido, ao mesmo tempo que expandia em larga escala o treinamento militar para os quadros do PCC na Rússia.
O plano imediato, projetado em Moscou, era que as unidades comunistas saíssem do Exército nacionalista, avançassem para a costa sul a fim de coletar as armas enviadas da Rússia por navio e montassem uma base. Ao mesmo tempo, foram ordenadas revoltas camponesas em Hunan e três províncias vizinhas onde houvera organizações camponesas militantes, com o objetivo de tomar o poder nessas regiões.
Mao concordava com a abordagem militar. Em 7 de agosto de 1927, numa reunião de emergência do partido presidida por Lominadze, disse: “O poder vem do cano da arma” (frase que depois ganhou fama internacional). Mas, dentro desse plano amplo, Mao tinha sua própria agenda — comandar tanto a arma como o partido. Seu plano era montar o próprio exército, cavar seu próprio território e negociar com Moscou e Xangai a partir de uma posição de força. A posse de um feudo próprio lhe asseguraria a sobrevivência física. Mas, claro, continuaria no partido, pois a associação com a Rússia era sua única chance de conseguir ser mais do que um mero bandido.
A essa altura, o professor Chen acabara de ser demitido da chefia do partido por Lominadze e transformado no bode expiatório do rompimento dos nacionalistas. Seu substituto foi um jovem chamado Chu Chiu-pai, cuja principal qualificação era sua proximidade com os russos. Mao foi então promovido do Comitê Central para o Politburo, embora ainda fosse um membro de segundo escalão.
Foi então que ele tomou uma série de medidas que o levariam ao topo da escada comunista, nos próximos quatro anos. No verão de 1927, não tinha a seu serviço homens armados nem detinha comando militar, de modo que decidiu obter uma força militar apossando-se de tropas organizadas por outros comunistas.
Na época, a principal força que os comunistas conseguiram tirar do Exército nacionalista consistia em 20 mil soldados estacionados em Nanchang e ao redor da cidade, capital da província de Jiangxi, cerca de 250 quilômetros a sudeste de Wuhan e trezentos quilômetros a leste de Changsha. Essas tropas não tinham nada a ver com Mao. Em 1 o de agosto, elas se amotinaram, seguindo instruções de Moscou. O principal organizador do motim foi Chou En-lai, o homem do partido designado para dirigir os
militares, com supervisão imediata do assessor russo Kumánin. a Depois, eles se dirigiram diretamente para Swatow (Shantou), na costa, seiscentos quilômetros ao sul, onde os russos deveriam entregar as armas.
Mao decidiu se apropriar de alguns desses homens. No caminho para a costa, eles deveriam passar perto do sul de Hunan. Nos primeiros dias de agosto, ele propôs à liderança do PCC fazer uma revolta de camponeses nessa região, para criar o que ele chamou de uma grande base vermelha, cobrindo “pelo menos cinco condados”. Na verdade, Mao não tinha intenção de tentar começar tal revolta. Ele jamais organizara algo parecido, nem achava que pudesse ser feito (a violência camponesa anterior em Hunan fora levada a cabo sob a proteção do então governo radical). O único objetivo da proposta era preparar o terreno para seu pedido seguinte: que um grande contingente dos amotinados viesse em sua ajuda no caminho para a costa. Sem perceber que essa iniciativa era apenas um estratagema para pescar soldados, Xangai aprovou o plano de Mao.
Os líderes da “revolta” de Hunan deveriam encontrar-se em 15 de agosto no consulado russo de Changsha para dar início à ação. Mas Mao não apareceu, embora estivesse nos arredores da cidade. Como era o encarregado da missão, a reunião teve de ser adiada para o dia seguinte, e de novo ele não apareceu. Mao só deu as caras no dia 18, quando se instalou no consulado, por razões de segurança. Para seus camaradas irritados e frustrados, deu a desculpa de que andara fazendo “investigações sobre o campesinato”.
Mao escondeu o verdadeiro motivo de sua ausência de quatro dias: ganhar tempo para ver o desempenho dos amotinados, e se ainda passariam no sul de Hunan e estariam à sua disposição. Se assim não fosse, ele não tinha intenção de ir para o sul da província.
Os amotinados haviam tido um mau começo. Três dias depois de partir de Nanchang, um terço deles já desertara; muitos outros morreram ao beber água suja de arrozais, nas temperaturas úmidas de mais de trinta graus. Os sobreviventes já tinham perdido quase a metade da munição. As fileiras minguantes estavam lutando apenas para sobreviver e chegar à costa, e as chances de alguém fazer um desvio para ajudar a insurreição camponesa eram nulas.
Assim, quando chegou finalmente ao consulado russo, Mao pediu aos camaradas que cancelassem os planos para o levante no sul de Hunan, embora se tratasse de uma proposta sua. Insistiu então em que atacassem apenas Changsha, a capital da província, argumentando que deveriam “restringir o plano da revolta”.
O objetivo desse novo plano era exatamente o mesmo do anterior — apropriar-se de alguns dos homens armados. Àquela altura, as únicas forças comunistas próximas estavam nos arredores de Changsha e consistiam em três grupos: militantes camponeses com armas tomadas da polícia, mineiros desempregados e guardas da mina de Anyuan, que fora fechada, e uma unidade de exército que ficara em dificuldades a caminho de unir-se aos amotinados de Nanchang. Juntos, totalizavam alguns milhares. O motivo de Mao defender um ataque a Changsha era que essas forças estariam dispostas para a ação e ele poderia manobrar para se tornar seu chefe.
O estratagema deu certo. A proposta de Mao foi aprovada e ele foi posto no controle ao ser designado chefe de um “comitê do front”. Isso fez dele o representante do partido no local da ação e, assim, o homem com a palavra final, na ausência de uma autoridade maior. Mao não tinha treinamento militar, mas se esforçou para obter o posto encenando um show de entusiasmo pelas ordens de Moscou diante dos dois russos que comandavam a reunião. “A última ordem do Comintern” sobre revoltas foi tão brilhante, disse Mao, “que me fez pular de alegria trezentas vezes”.
A medida seguinte de Mao era evitar que as tropas fossem de fato para Changsha e reuni-las em um lugar onde pudesse sequestrá-las. Esse lugar tinha de ser suficientemente distante de Changsha para que nenhum outro representante do partido ou russo pudesse chegar lá com facilidade. Essas forças não possuíam comunicação por rádio ou telefone.
Em 31 de agosto, Mao saiu do consulado russo dizendo que ia se reunir às tropas, mas, em vez disso, foi para uma vila chamada Wenjiashi, cem quilômetros a leste de Changsha, e ali ficou. Em 11 de setembro, dia marcado para o início da ação, ele não estava com as tropas, mas em Wenjiashi. No dia 14, antes que os soldados chegassem a algum lugar perto de Changsha ou sofressem derrotas sérias, ordenou que abandonassem a marcha e convergissem para onde ele estava. Em consequência, a organização do partido em Changsha teve de abortar todo o plano no dia seguinte. Maier, o secretário do consulado soviético, referiu-se ao recuo como “a mais desprezível traição e covardia”. Moscou chamou o caso de “uma brincadeira de revolta”. Ao que parece, eles não perceberam que Mao havia montado tudo somente para desviar as unidades armadas.
A operação aparece nos livros de história com o nome de “Levante da Colheita de Outono”, retratada como uma revolta camponesa liderada por Mao. É o momento fundador do mito internacional de Mao como líder camponês e uma das grandes fraudes da sua carreira (para encobri-la, ele iria tecer uma elaborada mentira para seu porta-voz americano Edgar Snow). O “levante” não só não foi um empreendimento camponês
autêntico, como Mao não esteve envolvido em nenhuma açãob — e, na verdade, sabotou-as.
Mas ele conseguiu o que queria — o controle sobre uma força armada de cerca de 1500 homens. A aproximadamente 170 quilômetros ao sul de Wenjiashi encontrava-se a cordilheira de Jinggang, região tradicional de bandoleiros. Mao decidira fazer dela sua base de operações. A falta de estradas adequadas significava que muitas das áreas montanhosas da China estavam, em larga medida, fora do alcance das autoridades. Esse lugar em particular tinha mais uma vantagem: ficava na fronteira entre duas províncias e, assim, estava longe do controle de ambas.
Mao tinha uma ligação com um proscrito bem-sucedido na área, Yuan Wencai. Yuan e seu sócio Wang Zuo tinham um exército de quinhentos homens e controlavam boa parte do condado de Ninggang, que tinha uma população de 130 mil habitantes. Eles viviam de coletar aluguéis e impostos da população local.
Mao previu os problemas que poderia ter ao fazer os comandantes da força que sequestrara seguirem para a região dos bandidos sem ordens explícitas do partido. Por isso, em Wenjiashi, procurou alguns homens que já conhecia e obteve o apoio deles, antes de convocar uma reunião dos comandantes, em 19 de setembro. Fez arranjos para que seus partidários servissem chá e cigarros, de tal modo que pudessem entrar na sala e ficar de olho. A discussão foi feroz — o principal comandante exigia que prosseguissem com o plano de ir para Changsha. Mas Mao era o único líder do partido presente (os outros e os russos estavam a cem quilômetros, em Changsha) e ele venceu. A força partiu para a montanha Jinggang. De início, Mao era tão estranho aos soldados que alguns acharam que ele fosse um morador local e tentaram obrigá-lo a carregar armas.
Mao estava vestido como um professor rural, com uma longa bata azul e um rústico lenço de algodão ao redor do pescoço. Ao longo do caminho, conversou com os soldados, avaliando a condição deles e suas forças — “como se avaliasse o tesouro de uma família”, relembrou um soldado.
Quando Mao contou pela primeira vez às tropas que estavam prestes a se tornar “senhores das montanhas” — bandoleiros —, os soldados ficaram pasmos. Aquele não era o motivo da adesão deles a uma revolução comunista. Mas, falando em nome do partido, ele lhes assegurou que seriam bandidos especiais — parte de uma revolução internacional. O banditismo era também a melhor chance deles, argumentou: “Os senhores da montanha jamais foram aniquilados, muito menos nós”.
Ainda assim, muitos ficaram deprimidos. Estavam exaustos, e casos de malária, pernas supuradas e disenteria eram frequentes. Sempre que paravam, eram engolfados pelo próprio fedor, tão forte que podia ser sentido a dois quilômetros de distância. Os doentes e feridos deitavam na relva e, muitas vezes, não voltavam a levantar. Muitos desertaram. Sabendo que não podia forçar seus homens a ficar, Mao permitiu aos que quisessem que fossem embora, sem as armas. Dois dos altos comandantes optaram por partir e foram para Xangai. Ambos passaram depois para o lado dos nacionalistas. Quando chegou ao território dos bandidos, Mao contava com apenas seiscentos homens, tendo perdido mais da metade de suas forças em duas semanas. Entre os que ficaram, a maioria o fez porque não tinha alternativa. Eles se tornaram o núcleo a partir do qual a força de Mao cresceu — o que mais tarde ele chamaria de “única fagulha que começou um incêndio na pradaria”.
Ao chegar ao território dos bandoleiros, no início de outubro, o primeiro passo de Mao foi visitar Yuan, acompanhado apenas por poucos soldados, para tranquilizar o chefe dos bandidos. Yuan tinha alguns homens armados escondidos nas proximidades, para o caso de Mao trazer tropas. Achando que Mao não representava uma ameaça, Yuan mandou matar um porco para um banquete e eles se sentaram a beber chá e petiscar amendoins e sementes de melão.
Mao conseguiu convencê-lo de que estava apenas fazendo uma pausa no caminho para a costa, onde se reuniria aos amotinados de Nanchang. Fez-se um trato. Mao poderia ficar temporariamente e alimentaria suas tropas fazendo expedições de saque. Mas, de início, ficariam aos cuidados dos bandoleiros.
Em fevereiro de 1928, quatro meses depois, Mao já se tornara senhor de seus anfitriões. A cena final dessa tomada do poder aconteceu depois que seus homens capturaram a capital do condado de Ninggang das mãos do governo, no dia 18 de fevereiro, naquilo que foi, pelos padrões dos bandidos, uma considerável vitória militar. Foi também a primeira batalha em que Mao esteve envolvido no comando — observando com binóculos de um morro do lado oposto.
Três dias depois, ele realizou uma assembleia pública de uma multidão organizada de milhares de pessoas para celebrar a vitória. O clímax foi o assassinato do chefe do condado, que acabara de ser capturado. Uma testemunha ocular descreveu a cena (em termos cautelosos, pois estava contando a história sob o regime comunista): “Uma moldura de madeira em forma de garfo foi enfiada no chão [...] na qual Chang Kai-yang [o chefe do condado] estava amarrado. O lugar todo estava cercado por cordas que iam de um poste de madeira a outro, para pendurar cartazes. As pessoas enfiaram suas lanças (suo-biao) nele e o mataram desse jeito [...] O comissário Mao falou no comício”. Mao já manifestara um carinho especial por essa arma, a suo-biao. Agora, diante de seus olhos, ela tirava a vida do chefe do condado.
As execuções públicas tornaram-se um traço da vida local desde a chegada de Mao e ele demonstrou uma inclinação por mortes lentas. Em um desses comícios, montado para celebrar uma expedição de saque na época do ano-novo chinês de 1928, ele escreveu versos em folhas de papel vermelho, que foram coladas nas colunas de madeira de ambos os lados do palco. Diziam eles:
Vejam-nos matar os maus proprietários hoje.
Não estão com medo?
É faca cortando faca.
Mao falou no comício e depois um proprietário local chamado Kuo Wei-chien foi morto de acordo com as prescrições da poesia.
Ele não inventou a execução pública, mas acrescentou a essa horrível tradição uma dimensão moderna, comícios organizados, e desse modo tornou compulsória a presença de grande parte da população. Ser coagidos a entrar na multidão, incapazes de ir embora, forçados a ver gente ser morta desse modo sangrento e torturante, escutar seus gritos, tudo isso inculcava um medo profundo nos presentes.
Os bandidos tradicionais não estavam à altura de Mao e seu terror orquestrado, que até a eles assustava. Yuan e Zuo se submeteram à sua autoridade; logo depois disso, permitiram que seus homens e eles mesmos formassem regimentos sob seu comando. O banditismo de Mao havia superado o dos próprios bandidos.
Assim que chegara ao território dos bandoleiros, Mao tinha enviado um mensageiro ao quartel-general do partido, em Changsha. Estabeleceu-se o contato dentro de poucos dias, em outubro de 1927, quando Xangai já havia recebido relatórios sobre os eventos em torno do Levante da Colheita de Outono. O que não podia ser escondido era que Mao havia abortado a aventura e depois partira com as tropas sem autorização. Xangai convocou Mao (e outros) para discutir o fiasco. Mao ignorou os chamados e, em 14 de novembro, foi expulso de seus cargos no PCC.
O partido fez um esforço decidido para se livrar dele. Em 31 de dezembro, Xangai disse a Hunan que “o centro” considerou que “o [...] exército liderado pelo camarada Mao Tse-tung [...] cometeu erros políticos extremamente graves. O centro ordena [que vocês] mandem um camarada experiente até lá, com as resoluções [expulsando Mao] [...] para convocar um congresso dos camaradas do exército [...] para reformar a organização do partido lá”. Prevendo claramente problemas com Mao, a mensagem acrescentava: “Designem um camarada trabalhador esperto e corajoso para ser o representante do partido”.
A bandeira do PCC era fundamental para Mao, pois ele possuía pouco magnetismo pessoal. Sua solução para a ordem do partido foi simples: evitar que a notícia de sua expulsão chegasse aos seus homens.
Uma semana depois da emissão da ordem de Xangai, todo o comitê de Hunan foi convenientemente — pode-se dizer suspeitosamente — preso pelos nacionalistas. Os soldados de Mao não ficaram sabendo que o partido o desautorizara. Foi somente em março de 1928 que o primeiro enviado do partido conseguiu aparecer na base de Mao, trazendo a mensagem que o expulsava. Mas Mao foi mais esperto, fazendo com que o enviado entregasse a mensagem apenas para alguns lacaios escolhidos a dedo e depois fingindo se submeter, ao renunciar a seu posto no partido, que passou para um coadjuvante. Ele concedeu a si mesmo um título novo, de comandante de divisão, e continuou a controlar o Exército.
A região dos bandoleiros constituía uma base ideal, bem suprida de alimentos. As montanhas, embora não ultrapassassem 995 metros de altitude, davam excelente segurança, pois eram escarpadas, cercadas por precipícios, com florestas densas de abetos e bambus permanentemente envoltas em névoa e cheias de macacos, porcos selvagens, tigres e todo tipo de serpentes venenosas. Era fácil de defender e de sair numa emergência, pois havia caminhos escondidos que levavam a duas províncias — trilhas estreitas de barro, sob vegetação densa, impossíveis de serem vistas por estranhos. Para os fora da lei, era um refúgio seguro.
Mao e suas tropas viviam da pilhagem de condados vizinhos e, às vezes, mais distantes. Essas incursões eram chamadas, de forma empolada, de da tu-hao (literalmente “esmagar os tiranos donos de terras”). Na verdade, eram ataques clássicos e indiscriminados de bandoleiros. Mao disse aos soldados: “Se as massas não compreendem o que ‘tiranos donos de terras’ significa, vocês podem dizer que significa ‘endinheirados’ ou ‘ricos’”. O termo “rico” era muito relativo e podia significar uma família com duas dezenas de litros de óleo de cozinha, ou algumas galinhas. “Esmagar” cobria uma gama de atividades que ia do simples roubo e resgate ao assassinato.
Essas incursões ganhavam com frequência manchetes na imprensa e aumentaram muito a fama de Mao. Foi então que ele ganhou notoriedade como um importante chefe de bandoleiros.
Mas suas atividades desse gênero granjearam-lhe pouco apoio dos moradores locais. Um soldado vermelho relembrou como era difícil persuadir a população a ajudá-los a identificar os ricos, ou participar de um ataque, ou mesmo compartilhar o butim. Outro descreveu a experiência de uma noite:
Nós geralmente cercávamos a casa do tirano dono de terras, pegando-o primeiro e depois confiscando coisas.
Mas daquela vez, assim que invadimos, soaram gongos de repente [...] e várias centenas de inimigos [aldeões]
surgiram [...] eles tomaram cerca de quarenta de nossos homens, os trancaram no templo do clã [...] os
espancaram e amarraram, e as mulheres os pisotearam. Os barris de grãos foram colocados em cima deles,
com grandes pedras em cima. Eles foram tão torturados.
Embora Mao sustentasse que havia uma razão ideológica — lutar contra as classes exploradoras —, o fato de suas incursões serem praticamente indistintas do comportamento tradicional dos bandidos constituía uma fonte permanente de descontentamento em suas próprias fileiras, em particular entre os comandantes militares. Em dezembro de 1927, o principal comandante, Chen Hao, tentou afastar as tropas durante uma expedição de pilhagem. Mao correu até a cena com um grupo de partidários, prendeu Chen e depois o executou diante de toda a força. Mao quase perdeu seu exército. No espaço de poucos meses, todos os principais oficiais o abandonaram.
Para agradar as tropas, ele montou “comitês de soldados” a fim de satisfazer o desejo deles de opinar sobre o produto dos saques. Ao mesmo tempo, formaram-se células secretas do partido, que respondiam apenas a Mao. Até mesmo superiores militares não sabiam quem era membro do partido, o que o equiparava a uma organização secreta. Desse modo, Mao usou o mecanismo de controle do comunismo, bem como seu nome, para manter o controle do Exército.
Mas seu controle estava longe de ser blindado e ele mesmo não era certamente popular. Mao jamais podia relaxar a vigilância quanto à sua segurança pessoal e foi a partir de então que começou a aperfeiçoar as medidas de segurança que se transformaram mais tarde num sistema realmente impressionante, ainda que, em larga medida, invisível. Para começar, tinha cerca de cem guardas, e esse número cresceu. Escolheu várias casas na região dos bandidos e as mantinha totalmente aparelhadas para a segurança. As casas tinham sempre rotas de fuga, como um buraco na parede, geralmente nos fundos, na direção das montanhas. Mais tarde, durante a Longa Marcha, mesmo quando ele estava em movimento, a maioria de suas casas tinha uma característica notável: uma saída especial que dava para uma rota de fuga de emergência.
Mao vivia com estilo. Uma residência, chamada de Pavilhão Octogonal, era de grande distinção arquitetônica. A espaçosa parte principal, que se abria para um grande pátio ao lado de um rio, tinha um teto composto de três camadas de painéis de madeira octogonais formando uma espiral até um pequeno teto de vidro, como um pagode coberto de vidro. Pertencera a um médico local, que foi removido para um canto do pátio, mas continuou a praticar a medicina — o que era muito conveniente para Mao, pois ele nunca estava completamente livre de uma doença ou outra.
Outra casa magnífica que ocupou, na grande cidade de Longshi, também era de um médico. Tinha uma beleza estranha, que revelava a antiga prosperidade da cidade. A enorme residência era metade uma vila europeia de alvenaria, com uma elegante loggia acima de uma fileira de arcos românicos, e metade uma mansão chinesa de tijolos e madeira, com camadas de beirais revirados e delicadas janelas de treliça. As duas partes eram unidas por uma entrada octogonal.
O quartel-general de Mao em Longshi era uma esplêndida mansão de dois andares, em um terreno de 2 mil metros quadrados, outrora a melhor escola para meninos de três condados — até Mao chegar. Todo o andar de cima era aberto em três lados e dava para uma vista de rios e nuvens. Fora projetado para que os alunos gozassem da brisa nos dias quentes de verão. A ocupação desse prédio por Mao estabeleceria um padrão. Aonde quer que ele fosse, escolas, templos de clãs e igrejas católicas (com frequência, as construções mais sólidas na remota China rural) eram confiscados. Eram os únicos prédios suficientemente grandes para reuniões, além de serem os melhores. As aulas, naturalmente, eram suspensas.
Durante toda a sua estada na terra sem lei, que durou quinze meses, Mao se aventurou nas montanhas apenas três vezes, por um período total de menos de um mês. E, quando o fez, não viajou exatamente com dificuldade. Durante a visita a um chefe bandoleiro chamado Zuo, ficou numa magnífica mansão branca, conhecida como a Casa Branca, que fora de um comerciante de madeiras de Cantão. Foi recebido com prodigalidade, com porcos e ovelhas mortos em sua honra.
Os contornos do estilo de vida futuro de Mao no poder já se anunciavam. Contava com um considerável staff pessoal, que incluía um superintendente, um cozinheiro, um ajudante de cozinha com a missão especial de levar-lhe água, um cavalariço que cuidava de um cavalo pequeno para seu senhor, e secretários. Uma “tarefa especial” do menino de recados era mantê-lo abastecido com a marca certa de cigarros de Longshi. Outro ajudante pegava jornais e livros sempre que eles tomavam uma cidade ou saqueavam uma casa rica.
Mao conseguiu também uma esposa — a terceira —, praticamente logo depois que se estabeleceu na terra dos bandidos. Bonita, de olhos grandes, maçãs do rosto pronunciadas, rosto amendoado e corpo esguio, Gui-yuan acabara de fazer dezoito anos quando conheceu Mao. Vinha do rico condado de Yongxin, no sopé da montanha, e seus pais, que possuíam uma casa de chá, tinham lhe dado esse nome (Gui: flor-do-imperador, e yuan: redonda) porque ela nasceu numa noite de outono, quando a Lua cheia brilhava acima de um pé de flor-do-imperador florido. Ela havia frequentado uma escola missionária dirigida por duas senhoras finlandesas, mas não ficara contente de receber uma formação de dama. Seu temperamento inquieto e impetuoso rejeitava a vida claustrofóbica tradicional prescrita para as mulheres e ansiava por um mundo mais amplo, divertimento e alguma ação. Assim, na atmosfera agitada da entrada do exército da Expedição ao Norte em sua cidade, no verão de 1926, ela entrou para o Partido Comunista. Logo estava fazendo discursos em público, saudando os soldados. Com apenas dezesseis anos, foi designada para chefiar o Departamento Feminino do novo governo de todo o condado, e estreou no novo cargo cortando seus longos cabelos, um ato que ainda era revolucionário e surpreendente.
Um ano mais tarde, após o rompimento de Chiang Kai-shek, comunistas e ativistas estavam em fuga, inclusive os pais dela e uma irmã mais moça, que também entrara para o partido. Seu irmão mais velho, também comunista, foi jogado na prisão com muitos outros, mas o proscrito Yuan era seu amigo e ajudou-o a fugir da cadeia. Gui-yuan e o irmão escaparam com os fora da lei e ela ficou muito amiga da mulher de Yuan. Zuo, o outro bandoleiro, que tinha três mulheres, deu-lhe uma pistola Mauser.
Quando Mao chegou, Yuan designou-a para ser sua intérprete, pois Mao não falava o dialeto local, e nunca o aprendeu. Tal como em suas peregrinações posteriores, ele tinha de se comunicar com os habitantes locais por intermédio de um intérprete.
Mao logo começou a cortejá-la e, no início de 1928, eles se “casaram” — sem nenhuma cerimônia oficial, mas com um banquete suntuoso preparado pela sra. Yuan. Isso aconteceu pouco mais de quatro meses após Mao ter deixado Kai-hui, a mãe de seus três filhos, em agosto. Ele escrevera para ela apenas uma vez, mencionando que estava com um problema no pé. A partir de seu novo casamento, abandonou a família.
Ao contrário de Kai-hui, que estava loucamente apaixonada por ele, Gui-yuan casou-se com relutância. Sendo uma linda mulher no meio de uma multidão de homens, tinha muitos pretendentes e o considerava, aos 34 anos, “velho demais” e “indigno” dela, como disse a uma amiga íntima. O irmão mais moço de Mao, Tse-tan, bonito e jovial, também estava de olho nela. “Meu irmão tem uma esposa”, disse ele. “Estaria melhor comigo.” Ela escolheu o Mao mais velho porque sentiu a “necessidade de proteção política naquele ambiente”, como confessou mais tarde.
Em um mundo de poucas mulheres e muitos homens sexualmente frustrados, a relação dos dois provocou fofocas. Mao foi cauteloso: ele e Gui-yuan evitavam aparecer juntos em público. Quando o casal passava pelo prédio que abrigava soldados feridos, ele pedia que Gui-yuan andasse afastada dele.
No final de um ano de casamento, Gui-yuan resolveu deixar Mao. Ela confidenciou a uma amiga que não tivera sorte ao casar com ele e achava que havia “feito um grande sacrifício” ao fazê-lo. Quando Mao decidiu partir da região dos bandoleiros, em janeiro de 1929, ela tentou desesperadamente ficar para trás. Gui-yuan talvez estivesse pensando em mais do que deixar Mao. Fora engolfada por um redemoinho ainda adolescente e agora seu desejo de ir embora era tão forte que estava disposta a correr o risco de ser capturada pelos nacionalistas. Porém, Mao mandou que a trouxessem “a qualquer custo”. Ela chorou durante todo o caminho, ficando para trás várias vezes, mas sempre foi apanhada pelos guardas de Mao.
A situação de Mao em relação ao partido começou a mudar em abril de 1928, quando milhares de homens, os amotinados sobreviventes de Nanchang, as tropas que ele tentara conquistar desde o início, buscaram refúgio em sua base. Era uma força derrotada cujas fileiras muito depauperadas haviam sido esmagadas na costa sul no mês de outubro anterior, quando os russos deixaram de entregar as armas prometidas. Os remanescentes haviam sido reunidos por Zhu De, um oficial de 41 anos que fora soldado profissional, com a patente de brigadeiro, e que figurava como veterano entre os comunistas, cuja maioria tinha entre vinte e trinta anos. Ele estivera na Alemanha e entrara para o partido antes de ir para a Rússia, onde teve treinamento militar especial. Era um homem alegre e se dava bem com os soldados, misturava-se facilmente com seus comandados, comia e marchava ao lado deles, carregava mochila e armas como todos, usava sandálias de palha e levava um chapéu de bambu nas costas. Era visto constantemente na frente de luta.
Mao sempre cobiçara os amotinados de Nanchang e, ao chegar a Jinggang, mandara uma mensagem a Zhu instando-o a se unir a ele, mas o oficial não aceitara. Xangai tinha dado ordens para iniciar levantes no sudeste de Hunan por volta do ano-novo de 1928 e Zhu, como membro obediente do partido, seguira as instruções. As revoltas fracassaram totalmente, graças à completa absurdidade e brutalidade das táticas de Moscou. De acordo com um relatório da época, a orientação era “matar todos os inimigos de classe e queimar e destruir suas casas”. O slogan era “Queimar, queimar, queimar! Matar, matar, matar!”. Quem não estivesse disposto a matar e incendiar era chamado de “lacaio da aristocracia [que] merece ser morto”.
Seguindo essa política, os homens de Zhu arrasaram duas cidades inteiras, Chenzhou e
Leiyang.c O resultado foi o fomento de uma revolta verdadeira — contra os comunistas. Um dia, em um comício realizado para forçar os camponeses a queimar e matar mais, estes se revoltaram e mataram os comunistas presentes. Em aldeia após aldeia e cidade após cidade em que os homens de Zhu estiveram presentes, surgiram rebeliões contra os vermelhos. Os camponeses massacraram membros da base do partido, rasgaram os lenços vermelhos que lhes haviam mandado usar e passaram a usar lenços brancos, para demonstrar sua adesão aos nacionalistas.
Quando as tropas nacionalistas começaram a pressionar, Zhu teve de fugir e milhares de civis o seguiram: as famílias dos ativistas que haviam queimado e matado, que não tinham para onde ir. Era essa a intenção de Moscou: os camponeses deviam ser coagidos a fazer coisas que não deixavam aberto o caminho de volta para a vida normal. O partido decretara que a fim de “forçá-los a entrar para a revolução, só há uma maneira: usar o terror vermelho para incitá-los a fazer coisas que os deixem sem chance de realizar acordos depois com a aristocracia e a burguesia”. Um homem de Leiyang relembrou: “Eu havia suprimido [isto é, matado] contrarrevolucionários, então não podia viver em paz agora. Tive de ir até o fim [...] Então queimei minha própria casa com minhas próprias mãos [...] e parti [com Zhu]”.
Depois que essas pessoas partiram, o ciclo de vingança e represália provocou mais baixas — entre elas, uma jovem mulher que fora adotada pela mãe de Mao, chamada Irmã Crisântemo. Ela seguira o exemplo de Mao, entrara para o partido, se casara com um comunista e tinha um filho pequeno. Embora seja provável que ela e o marido não apoiassem a matança realizada pelos comunistas, ele foi executado depois que o exército de Zhu partiu de Leiyang e sua cabeça foi exibida em uma gaiola de madeira nos muros da cidade. Irmã Crisântemo foi aprisionada. Ela queria abjurar, mas seus captores não lhe deram permissão para isso. Ela escreveu a um parente contando que lhe fizeram “sofrer todas as dores que jamais imaginara que existissem” e ansiava pela morte: “Desejo morrer e não ser mais torturada [...] Seria um grande alívio deixar este mundo. Mas meu pobre [bebê], é tão doloroso pensar nele. Eu tinha tantos planos para sua criação. Nunca sonhei que tudo isso iria acontecer [...] Meu bebê não deve me culpar”. Mais tarde, Irmã Crisântemo foi executada.
Zhu chegou como um homem derrotado, enquanto Mao podia se apresentar como a pessoa que havia, na verdade, salvado o que era o maior destacamento de tropas comunistas ainda em funcionamento num momento em que outras bases vermelhas estavam ruindo. Todas as revoltas que os russos haviam ordenado nos últimos meses tinham fracassado. A base vermelha mais famosa, Hailufeng, na costa meridional, caiu no final de fevereiro de 1928. Durante os dois meses de sua existência, a área, chamada de “Pequena Moscou” — havia até uma “Praça Vermelha”, com um portão copiado do Kremlin — se tornou um território de carnificina, sob a liderança de Peng Pai, um
homem com sede de sangue. d Mais de 10 mil pessoas foram massacradas: “Aldeias reacionárias foram totalmente arrasadas”.
Essas áreas fracassadas levaram a cabo matanças e incêndios numa escala muito maior do que os de Mao. Ele não era um fanático e impedia seus homens de queimar igrejas católicas (que costumavam ser as melhores construções da zona rural) e casas boas, dizendo-lhes para conservá-las para uso próprio. Matar servia a seus propósitos, mas isso não deveria pôr em risco seus interesses políticos mais amplos.
Quando Zhu De fugiu na direção de Mao, Moscou já começara a deter “pogroms e matanças sem sentido e desordenadas”, que chamou, com a inclinação dos comunistas
para o jargão, de “ativismo cego” e “matança-e-queimadismo”.e Xangai ordenou que a matança fosse mais seletiva. Era exatamente o que Mao vinha fazendo. Ele apareceu como sagaz e prudente, e isso o levou de volta ao jogo — e às boas graças do partido. E de Stálin também. Até a desobediência de Mao ao partido apresentava agora um outro lado, na medida em que Stálin precisava muito de um vencedor: ele era agora alguém com iniciativa, não um mero subordinado cego. A capacidade de Moscou de atuar na China, já debilitada pela mudança política de Chiang Kai-shek na primavera de 1927, ficara ainda mais prejudicada depois que diplomatas russos foram apanhados em flagrante numa tentativa de golpe em Cantão (conhecida como “a Comuna de Cantão”), em dezembro de 1927. Algumas legações, inclusive a de Changsha, foram fechadas e Moscou perdeu a cobertura diplomática para muitos de seus agentes.
Assim que Zhu De chegou, Mao tratou de recuperar seu mandato do partido e escreveu para Xangai em 2 de maio, pedindo a criação de um comitê especial, chefiado por ele mesmo. Sem esperar pela resposta, anunciou, em um comício para celebrar a união Mao-Zhu, que ele era o comissário do partido — e Zhu, o comandante — do que viria a ficar conhecido como o “Exército Vermelho Zhu-Mao”. Realizou então um “congresso do partido” com delegados nomeados por ele mesmo e montou o comitê especial, com ele na chefia.
Havia um outro motivo para que Mao requeresse um mandato urgente do partido. O contingente que Zhu comandava tinha 4 mil homens e era muito maior que o seu, que contava com pouco mais de mil; além disso, metade dos homens de Zhu eram soldados de fato, com experiência de batalha. Assim, Mao precisava de um mandato do partido para garantir sua autoridade. Para estabelecer algo como uma credencial marcial na presença do exército de Zhu, ele usou uma pistola quando os encontrou, uma das poucas vezes em que foi visto armado. Ele logo devolveu a arma para um guarda-costas. Mao acreditava nas armas, mas não era um homem de campo de batalha.
Enquanto esperava pelo endosso de Xangai, começou a se comportar como um bom filiado, aceitando as ordens e os inspetores do partido e preenchendo longos relatórios. Até então, não se preocupara em descobrir quantos filiados o partido tinha em seu território e dera respostas vagas — e exageradas — a um inspetor: esse condado tem “mais de cem”, aquele, “mais de mil”. Agora, começavam a funcionar comitês do PCC.
Ele também começou a fazer redistribuição de terras, ponto central do programa comunista. Não se preocupara com isso antes, por ser irrelevante para sua forma de governar, que era simplesmente por pilhagem.
Nesse meio-tempo, a carta em que Mao pedia um cargo no partido, levada, como toda correspondência, por um mensageiro especial, foi enviada de Xangai para Moscou. Ela foi recebida por Stálin no dia 26 de junho de 1928, bem no meio do VI Congresso do PCC, reunido em segredo nas cercanias de Moscou. Que essa tenha sido a única vez em que um partido estrangeiro realizou um congresso na Rússia revela a importância excepcional que Stálin atribuía à China, bem como o fato de que os russos fizeram os arranjos e pagaram para que mais de cem delegados viessem clandestinamente da China.
A linha de Stálin foi apresentada pelo chefe do Comintern Nikolai Bukhárin, em um discurso de adormecer traseiros que durou nove horas. Mao não estava entre os presentes. Ele já adotara a regra de ouro dos tiranos, à qual seria fiel pelo resto de sua vida: jamais sair de sua toca, exceto quando absolutamente necessário.
Moscou tinha reservas em relação a Mao. Chou En-lai, a figura-chave do congresso, disse em seu relatório militar que as tropas de Mao tinham “um caráter em parte bandido”, significando que ele nem sempre mantinha a linha. Não obstante, ele estava nas graças de Moscou e foi citado no congresso como um líder fundamental da luta. O fato é que ele era o homem mais eficaz na aplicação da política do Kremlin, que, conforme Stálin reiterara em pessoa aos líderes do PCC em 9 de junho, era a de criar um exército vermelho. Enquanto estiveram na Rússia, todos os delegados ao congresso receberam treinamento armado e fizeram-se planos militares detalhados. Stálin, o velho ladrão de bancos, envolveu-se pessoalmente no financiamento via uma enorme operação de falsificação.
Mao era adequado ao projeto de Stálin. Tinha um exército — e uma base — e era um membro antigo do partido. Ademais, tratava-se agora do mais conhecido, ainda que pela má reputação, entre todos os comunistas chineses. Ele era, como Stálin diria mais tarde dos iugoslavos, insubordinado, mas um vencedor. E, por mais desobediente que pudesse ser, Mao precisava claramente do partido e de Moscou, e isso o deixava essencialmente sujeito a controle.
Os pedidos de Mao foram plenamente atendidos. Em novembro, disseram-lhe que estava encarregado do Exército Vermelho Zhu-Mao e do território ao redor da terra sem lei. Foi um momento fundamental de sua ascensão. Ele havia encarado e vencido o partido — e até mesmo Moscou.
a Reza o mito que o motim foi uma operação puramente chinesa, sob o nome enganador de “Levante de Nanchang”, e 1o de agosto foi depois designado o dia da fundação do exército comunista chinês. Mas, como disse claramente Stálin, a operação foi “de iniciativa do Comintern, e somente de sua iniciativa”. Essas palavras foram apagadas da versão publicada do discurso de Stálin. O homem encarregado de entregar armas aos amotinados foi Anastas Mikoian.
b Um dos subordinados mais próximos de Mao confirmou que quando este apareceu “o Levante da Colheita de Outono já havia fracassado”.
c Um dos russos que estavam em Xangai contou a Moscou que “tudo foi entregue ao fogo e à espada e pessoas foram fuziladas a torto e a direito”.
d Ele elogiava Lênin, não despropositadamente, com estas palavras: “Sua lei não tem detalhes. Ela simplesmente mata toda a oposição. Seus operários e camponeses podem simplesmente acabar com todos os tiranos donos de terras, com os maus aristocratas, proprietários, capitalistas, sem necessidade de responder a ninguém”. O regime exortava as pessoas a “estripar e decapitar [...] matar no mesmo instante, sem hesitação. Não ter absolutamente nenhum fiapo de sentimento”, “matar, matar livremente. Matar é o trabalho mais importante em uma revolta”. As crianças eram elogiadas por “matar automaticamente os reacionários”.
e No original, blind-action-ism e killing-and-burning-ism. (N. T.)