Mao: a história desconhecida
57. Enfraquecido, Mao garante-se contra riscos
57. Enfraquecido, Mao
garante-se contra riscos
(1973-76; 79-82 anos)
Nos últimos dois anos de sua vida, surgiu uma tremenda “oposição” às suas políticas, na forma de uma aliança centrada em Deng Xiao-ping, o homem que depois desmantelou boa parte do legado maoísta. Mao o havia expurgado em 1966, no início da Revolução Cultural, mas o trouxe de volta ao topo do poder em 1973.
Nascido em Sichuan em 1904 — portanto, onze anos mais moço do que Mao —, Deng foi para a França em 1920 num programa de estudo e trabalho e lá se tornou comunista, sob a liderança de Chou En-lai. Os cinco anos que passou em Paris o deixaram com um gosto por muitas coisas francesas: vinhos, queijos, croissants e cafés — tudo, ao que parece, relacionado com comida. No final da vida, costumava comparar nostalgicamente os cafés franceses com as casas de chá de sua província natal, lembrando-se do pequeno café que frequentara na Place d’Italie, em Paris.
Seus companheiros chineses na França lembravam de Deng, que tinha pouco mais de metro e meio de altura, como uma bola rechonchuda de energia, cheio de piadas. Desde então, décadas de vida no partido o transformaram em um homem muitíssimo reservado e de poucas palavras. Uma vantagem dessa reticência era a brevidade de suas reuniões. A primeira sessão do comitê encarregado do sudoeste da China depois da conquista comunista durou apenas nove minutos, em contraste com aqueles dirigidas pelo prolixo Chou En-lai, que certa vez falou durante nove horas. Deng era decidido, com capacidade de resumir e resolver questões complicadas, o que às vezes fazia enquanto jogava bridge, passatempo que adorava.
Ele havia aderido ao comunismo na França, mas sua formação foi feita na Rússia, onde passou um ano depois de ser expulso pelo governo francês e recebeu treinamento do partido. Quando a Longa Marcha começou, em 1934, ele já era secretário-chefe da liderança do PCC e foi alto comandante do Exército durante a guerra sino-japonesa de 1937-45. Na guerra civil posterior, tornou-se chefe de metade do Exército comunista que venceu a decisiva campanha de Huai-Hai, que firmou a vitória comunista, e depois tomou boa parte da China ao sul do Yangtze. Posteriormente, esteve na direção de várias províncias, inclusive de sua Sichuan natal, antes de Mao o promover ao centro da liderança em Pequim, no início dos anos 1950.
Era profundamente leal a Mao e durante a repressão aos intelectuais, na campanha antidireitista de 1957-58, foi seu principal lugar-tenente. Mas teve um ponto de ruptura, quando apoiou os esforços de Liu Shao-chi para deter a epidemia de fome, no início dos anos 1960. Tentou manter-se à distância de Mao — fato que o líder notou, observando que Deng estava “mantendo uma distância respeitosa de mim como se eu fosse um demônio ou uma divindade”.
Em 1966, quando deflagrou a Revolução Cultural, Mao tentou todos os tipos de incentivo para mantê-lo ao seu lado, mas fracassou. Deng foi então rotulado de “segundo maior defensor do capitalismo”, depois de Liu, e posto em prisão domiciliar em 1967; seus filhos e sua madrasta foram expulsos de sua casa. Ele foi submetido a assembleias de denúncia, embora com muito menos agressão física do que Liu. Mao calibrava meticulosamente a punição de seus adversários. Não odiava Deng do modo como odiava Liu, então disse que Deng “deve ser denunciado [...] mas diferenciado de Liu”. Assim, ele não foi separado de sua esposa, o que lhe deu a companhia que muitas vezes fazia a diferença entre vida e morte.
Mas mesmo o “melhor” tratamento de Mao era infernal. Em maio de 1968, o filho mais velho de Deng e uma filha sua foram levados, de olhos vendados, à Universidade de Pequim e receberam ordens para “desmascarar” o pai. Mais de sessenta pessoas que haviam sido aprisionadas lá haviam se suicidado ou sido torturadas até a morte. Pu-fang, o filho de 24 anos de Deng, jogou-se de uma janela do andar superior e ficou paralisado para sempre do tórax para baixo. Deng e sua esposa só ficaram sabendo disso um ano depois, quando tiveram permissão para ver rapidamente seus outros filhos, pouco antes de serem exilados de Pequim, em outubro de 1969. No exílio, Deng trabalhou no chão da fábrica de uma indústria de tratores, na província de Jiangxi, e viveu sob prisão domiciliar, vigiado por guardas armados.
Sua esposa chorou durante dias quando soube o que acontecera com Pu-fang. Mais tarde, ela contou à madrasta de Deng que quase perdeu a vontade de viver. Deng foi proibido de ver seu filho paralítico e foi profundamente afetado pelo que acontecera com sua família. Certa vez, depois que o filho mais moço, que aparecera faminto e vestido com trapos, teve de partir para outro local de exílio, Deng desmaiou no chão da fábrica. Em junho de 1971, quando Pu-fang chegou, Deng ficou visivelmente abalado. Seu filho havia sido um jovem alegre e esperançoso. Deng cuidou dele com devoção, ajudando-o a se virar a cada duas horas, para evitar escaras, o que não era fácil (Pu-fang era grande), e limpava seu corpo várias vezes por dia, pois o clima em Jiangxi era quente e úmido.
Os anos da Revolução Cultural, diria Deng depois, foram os mais dolorosos de sua vida. A pressão penetrou em seu sono. Uma noite, acordou todo o prédio com os gritos de seu pesadelo. Mas aqueles anos também o ajudaram a repensar o sistema que o PCC havia imposto à China. Em consequência, deu as costas à essência do maoísmo e do stalinismo e, depois da morte de Mao, mudou o curso do país. No exílio, Deng manteve a boca fechada, tentou manter-se saudável e esperou por uma chance para retornar ao centro político.
Após dois anos, em setembro de 1971, surgiu um raio de esperança. Pu-fang era um mago da eletrônica e havia montado um rádio capaz de captar emissões em ondas curtas. Fez isso com a aquiescência dos pais, embora escutar rádios estrangeiras fosse crime passível de prisão (ademais, punição que seu pai ajudara a impor). Foi a partir dessas emissões estrangeiras que eles presumiram que Lin Biao estava morto.
O regime controlou minuciosamente o modo como divulgou aos poucos as informações sobre a morte de Lin. Deng soube da notícia oficial dois meses depois, quando foi lido um documento aos operários de sua fábrica de tratores. O documento mencionava que Lin Biao cometera “crimes de perseguição a camaradas veteranos”. O funcionário que presidia a reunião disse: “O presidente Mao jamais teria levado antigos quadros à morte” (ou seja, como Lin havia feito), e virou-se para Deng: “O velho Deng está sentado aqui, ele pode dar testemunho disso. Velho Deng, você diria isso?”. Deng recusou teimosamente o convite para propagar a inocência de Mao e permaneceu em silêncio, sem mudar em nada sua expressão.
Naquele dia, quando chegou em casa, Deng permitiu-se mostrar excitação e condenou Lin explicitamente, o que era de fato notável, pois ele jamais falava sobre política com a família. Dois dias depois, escreveu a Mao pela primeira vez desde sua queda cinco anos antes, pedindo um emprego. Ele pressentiu que, sem seu maior sustentáculo, Mao talvez tivesse de cancelar a Revolução Cultural.
Não obteve resposta. Para Mao, trazer de volta o homem que ele havia condenado publicamente como “o segundo maior defensor do capitalismo” seria uma admissão de fracasso. Mesmo quando o câncer de Chou En-lai foi diagnosticado, em maio de 1972, e Mao não tinha ninguém, exceto Deng, com calibre para dirigir seu vasto reino, ele não mandou buscá-lo.
Em vez disso, promoveu Wang Hong-wen, o ex-líder rebelde de Xangai, um dos produtos da Revolução Cultural. Wang era um homem de 37 anos, de boa aparência, mas sem feições marcantes, que fora segurança numa indústria têxtil antes do Grande Expurgo. Era inteligente e, tal como muitos líderes dos Rebeldes, tinha um certo talento para inspirar fidelidade de gangue. Mao trouxe-o para Pequim e começou a treiná-lo; um ano depois, em agosto de 1973, fez dele o terceiro em comando no partido, abaixo de Chou.
Mas o protegido não estava à altura de Chou, em especial quando se tratava de lidar com estrangeiros. O embaixador australiano Stephen FitzGerald, que o encontrou com Mao em novembro de 1973, notou que ele era extremamente nervoso e não falou uma palavra durante toda a reunião, exceto no fim. O primeiro-ministro australiano Whitlam havia mencionado a “Revolta de Nanchang” de 1927 e observado que o homem mais jovem não poderia ter nascido naquela época. Ao final do encontro, o protegido falou com voz esganiçada e nervosa: “Primeiro-ministro, o senhor disse que na época da Revolta de Nanchang eu não era nascido. Mas venho fazendo revolução há muito tempo”. Foi sua única contribuição.
Mao percebeu que teria de ter um sobressalente à mão. Assim, quando o câncer de Chou piorou, ele mandou buscar Deng em fevereiro de 1973 e fez dele vice-premiê, sobretudo para entreter estadistas estrangeiros em visita à China. Embora não tivesse o verniz de Chou e cuspisse constantemente durante as reuniões, o que perturbava muitos de seus interlocutores, Deng tinha estatura.
No final desse ano, a saúde de Chou se deteriorou drasticamente. Mao tomou a momentosa decisão de pôr Deng à frente do Exército (para isso, ele foi readmitido no Politburo). Era a única pessoa que podia garantir estabilidade nas Forças Armadas, onde o protegido de Mao tinha influência zero. O marechal Yeh, que fora nomeado chefe do Exército depois da morte de Lin Biao, carecia do necessário peso.
Dar tanto poder a Deng era uma aposta arriscada, mas revelou-se correta. Ele jamais fez alguma coisa contra a pessoa de Mao enquanto o presidente esteve vivo, e até depois da sua morte insistiu em que Mao não deveria ser denunciado pessoalmente, embora tenha revogado boa parte de seu legado principal.
Assim que assumiu o poder, Deng começou a executar seu próprio programa. No centro disso estava reverter a Revolução Cultural. Tentou reabilitar e reempregar mais quadros expurgados em massa, ressuscitar um pouco da cultura e elevar os padrões de vida, preocupação que havia sido acusada de “revisionista”. Mao considerava a Revolução Cultural sua maior realização desde que tomara o poder em 1949 e manteve quatro rottweilers remanescentes daquele período para contrabalançar Deng: madame Mao, Zhang (o Cobra), o chefe dos meios de comunicação Yao e o protegido Wang — grupo que Mao apelidou de “Gangue dos Quatro” (Kang Sheng estava fora de ação, com câncer terminal, e morreria em 1975). Essa era a gangue do próprio Mao, que representava sua verdadeira política.
Por sua vez, Deng formou sua contra-aliança com o chefe do Exército, marechal Yeh, e com o premiê Chou En-lai logo depois que retornou a Pequim, na primavera de 1973. Desse trio, Deng e Yeh haviam sido vítimas do expurgo, enquanto Chou havia colaborado com Mao. Até havia mudado o nome de sua casa para “Pátio Atraído pelo Sol” (isto é, por Mao). Bastava uma palavra de Mao para Chou mandar qualquer um para a morte. Sua única filha adotiva, Sun Wei-shi, estivera na prisão porque era uma excelente intérprete do russo e conhecera muitos líderes soviéticos, inclusive Stálin; por isso, Mao suspeitava dela, como de muitos outros que tinham tais conexões. Madame Mao também a odiava porque era muito bonita e porque Mao tivera uma queda por ela. Chou, que todo mundo pensava estar apaixonado por ela, não ergueu um dedo para salvá-la. Ela morreu na prisão e ele manteve uma distância ignóbil até na morte.
Deng não gostava muito de Chou e depois da morte de Mao disse publicamente que ele havia “feito muitas coisas contra a própria vontade” durante a Revolução Cultural, mas afirmou também que “o povo o perdoava”. Porém, Deng decidiu deixar de lado os sentimentos pessoais e fazer uma aliança com Chou. Em 9 de abril, pouco depois de sua volta a Pequim, foi visitá-lo — era o primeiro encontro entre eles após quase sete anos. De início, ficaram sentados um diante do outro em silêncio. Por fim, Chou falou e a primeira coisa que disse foi: “Zhang Chun-qiao traiu o partido, mas o presidente nos proíbe de investigá-lo”. Zhang, o Cobra, era uma grande estrela da Revolução Cultural. Ao dizer isso, Chou não estava apenas condenando o Cobra, mas se queixando de Mao. Não se tratava de uma indiscrição do superprudente Chou; era sua maneira de dizer que estava do lado de Deng, contra a Revolução Cultural. Isso, mais o fato de que era um doente terminal graças a Mao, derreteu o gelo entre ambos. A partir de então, os dois se tornaram aliados.
Foi um marco decisivo. Os dois companheiros mais importantes de Mao formavam uma espécie de liga, que incorporou também o marechal Yeh. A velha capacidade de Mao de impedir que seus colegas formassem alianças estava rompida. E, com isso, seu apavorante domínio sobre eles.
Mao perdeu força porque sua saúde se deteriorou depressa depois dos oitenta anos. Foi quando teve de abandonar o vício de uma vida inteira de fumar. No início de 1974, estava quase cego. Isso, tal como suas outras enfermidades, foi mantido em rigoroso sigilo. A perda da visão o deixou extremamente ansioso em relação à segurança e seus auxiliares receberam instruções especiais para “caminhar fazendo barulho para que ele soubesse que alguém estava vindo e não ficasse assustado”.
Estava também deprimido porque não conseguia ler. Havia mandado imprimir algumas obras proibidas de literatura clássica. Duas gráficas, uma em Pequim e outra em Xangai, foram montadas especialmente para isso; cada edição tinha cinco exemplares, todas para Mao, mais algumas que eram trancadas a cadeado; até as pessoas envolvidas na anotação dos textos para ele foram proibidas de ficar com um exemplar. À medida que sua visão piorava, os caracteres ficavam maiores, chegando até a altura de doze milímetros. Quando percebeu que não conseguia mais ler, mesmo com uma lente de aumento, desesperou-se e chorou. A partir de então, teve de pedir que lessem para ele e, às vezes, que assinassem documentos por ele.
Devido ao seu estado, Mao não queria comparecer a reuniões e parecer vulnerável, então deixou a capital em 17 de julho de 1974 e foi para o sul. Logo lhe disseram que estava com cataratas e que poderiam ser removidas depois que amadurecessem. A notícia foi um grande alívio, embora significasse que passaria um ano quase sem poder enxergar. Entrementes, ficou longe de Pequim por nove meses, naquela que viria a ser sua última viagem.
Uma outra descoberta foi feita na mesma época: ele sofria de uma doença neuronal motora rara e incurável, chamada esclerose lateral amiotrófica, também conhecida como doença de Lou Gehrig. Essa moléstia paralisa gradualmente os músculos dos braços, pernas, garganta e língua, e dificulta a fala, impede a deglutição correta e, por fim, causa a morte por falência respiratória. O prognóstico dava-lhe cerca de dois anos de vida.
Os médicos não contaram para Mao. Falaram apenas para o camareiro e chefe da guarda pretoriana Wang Dong-xing, que contou apenas para Chou En-lai. Foi então que Chou se tornou muito mais ousado.
Seus aliados, Deng e o marechal Yeh, foram postos a par do estado de saúde de Mao. Eles decidiram não contar para a Gangue dos Quatro, nem mesmo para a mulher de Mao, por motivos mais que pertinentes: dois anos antes, depois que Mao havia desmaiado, ela acusara os membros da equipe médica de serem “espiões” e “contrarrevolucionários”. Quando Chou discutira a doença de Mao com ela, Jiang Qing o acusara de tentar forçar Mao a entregar o poder. Mas a decisão de excluí-la foi determinada por algo mais do que o simples fato de que ela causava problemas. Seus motivos eram políticos.
O próprio Mao não foi informado. Se ele soubesse que estava com os dias contados, seria impossível saber o que poderia fazer. Assim, asseguraram-lhe que estava com boa saúde e ainda tinha muito tempo de vida. Para garantir que não ficasse sabendo de nada, nenhuma informação foi passada ao seu staff regular. Um médico que deixou escapar a frase “temo que a doença do presidente seja difícil de tratar” foi imediatamente afastado. Os sintomas de Mao eram tratados como inofensivos. Isso não o satisfazia, mas não havia nada que pudesse fazer.
Com o conhecimento do tempo de vida de Mao e com Chou em declínio inexorável, a aliança Deng-Chou-Yeh tratou de pressionar Mao para institucionalizar Deng no papel de substituto e sucessor de Chou e trazer de volta para altos cargos um grande número de velhos quadros do partido que haviam sido expulsos no Grande Expurgo. Em dezembro de 1974, Chou deixou seu leito de hospital e foi a Changsha a fim de levar a Mao uma lista de novas nomeações. Este sabia das atividades da aliança por informações passadas pela Gangue dos Quatro, que mantinham vigilância sobre Pequim em seu nome. Madame Mao escrevera para dizer que estava “chocada e estupefata” com o que estava acontecendo. Mas Mao não estava em condições de vetar a lista de Chou-Deng. Não podia entregar o país à Gangue dos Quatro, nem podia tentar se livrar da aliança, se quisesse morrer em sua cama. A Gangue dos Quatro não tinha poder no Exército e Mao não tinha ninguém nas Forças Armadas que conseguisse enfrentar a aliança em seu nome. E estava debilitado demais fisicamente para criar uma força nova que pudesse vencê-la.
A doença de Lou Gehrig estava corroendo seu corpo. No início de sua viagem para o sul, no verão de 1974, ainda dava caminhadas no jardim, mas depois de alguns meses só conseguia arrastar uma perna atrás da outra por distâncias curtas. Em 5 de dezembro, descobriu que tinha de dizer adeus à natação, sua paixão de sempre. Tinha dado alguns mergulhos na piscina interna de Changsha, mas naquele dia quase se afogou: foi a última vez que nadou. O guarda-costas de 27 anos escutou-o soltar um longo suspiro de melancolia e resignação, algo que jamais ouvira e não podia imaginar que sairia de Mao.
À medida que a coordenação muscular se deteriorava, sua fala se tornou progressivamente ininteligível, e a comida que ingeria ia para os pulmões, causando sufocação e infecções. Ele precisava deitar de lado para ser alimentado. A vida de Mao ficou excruciantemente desconfortável.
Nessas condições, teve de endossar a lista de Chou, em especial a promoção de Deng a vice-primeiro-ministro e substituto de Chou. Mas ele promoveu um dos membros da Gangue dos Quatro, o Cobra, colocando-o logo abaixo de Deng nas Forças Armadas e no governo. Insistiu também para que os meios de comunicação continuassem nas mãos da gangue, para que somente a mensagem dela chegasse ao país em geral.
A estratégia da aliança era desalojar o Cobra e madame Mao, explorando seus passados longe de imaculados. Em 26 de dezembro, quando Mao completou 81 anos, Chou lhe disse que aqueles dois haviam tido conexões com a espionagem nacionalista nos anos 1930. A resposta de Mao foi que ele sempre soubera do passado deles e que não dava a mínima para isso.
Dizer na cara de Mao que sua esposa e um de seus maiores acólitos eram suspeitos de serem agentes do inimigo foi uma atitude espantosa da parte de Chou. Mao podia perceber que a batalha estava travada entre ele e a Gangue dos Quatro contra a aliança Deng-Chou-Yeh e os velhos quadros que estavam voltando ao poder em massa.
Mao tentou recuperar algum terreno fazendo com que a Gangue dos Quatro começasse uma campanha pela imprensa em março de 1975 para manchar a autoridade dos quadros reinstalados no poder. Em abril, depois que Mao retornou a Pequim, Deng o repreendeu e lhe pediu para acabar com a campanha. Mao foi forçado a ceder e culpou a Gangue dos Quatro. Em 3 de maio, diante do Politburo, Mao mandou parar a campanha e disse que havia “cometido um erro”. Tratava-se de um recuo sem precedentes, provocado pelo fato de que estava claramente vulnerável. Como todos os presentes à reunião puderam notar, ele estava extremamente frágil, completamente cego, e mal se conseguia entender seu discurso. Foi sua última aparição numa reunião do Politburo.
Nessa ocasião, pela primeira vez desde que conquistara o poder, Mao quase pediu misericórdia a seus colegas, suplicando-lhes que não pensassem num golpe. Repetidamente implorou-lhes: “Não pratiquem o revisionismo; não dividam; não conspirem”. A primeira frase significava: mantenham a Revolução Cultural. O resto queria dizer: não conspirem contra mim. Nesse período, repetiu várias vezes uma narrativa histórica para Deng e seus aliados, cuja mensagem implícita, mas inequívoca, era: se vocês estão pensando em um golpe, façam isso com minha mulher e a gangue, depois que eu morrer.
Mao teve de implorar dessa maneira porque havia praticamente perdido o controle do Exército. A aliança reabilitara muitos generais que haviam sido vítimas de Mao e os colocara em altos postos. Se houvesse um confronto decisivo, Mao não teria gente sua no alto-comando das Forças Armadas. Havia tentado enfiar dois membros da Gangue dos Quatro em postos de comando, mas eles foram barrados.
Em junho de 1975, o Exército fez um gesto de forte desafio a Mao. A ocasião foi o sexto aniversário da morte do marechal Ho Lung, o homem a quem o ministro de Defesa da União Soviética dissera para “livrar-se de Mao” uma década antes. Em consequência das suspeitas de Mao, o marechal Ho havia morrido no cárcere em circunstâncias horrorosas, em 1969. O Exército decidiu realizar uma homenagem póstuma a ele, o que era um sinal da mudança dos tempos e, ao mesmo tempo, uma enorme afronta a Mao. Ele não pôde evitar a cerimônia, mas ordenou que fosse extremamente discreta, sem discursos e nem mesmo coroas. Com o apoio do alto-comando, a família de Ho escreveu a Mao ameaçando boicotar a homenagem se essas restrições não fossem levantadas, e ao mesmo tempo fez questão de frisar que Ho tinha muitos camaradas leais vivos. Mao teve de ceder. O máximo que poderia conseguir era evitar que a notícia da cerimônia saísse na imprensa.
O culto fúnebre foi dominado por emoções pungentes e a atmosfera foi realçada pelo exagerado pesar efusivo exibido por Chou En-lai, que se levantou do que era claramente seu leito de morte para comparecer e fazer o panegírico do morto. Ele entrou no salão gritando o nome da viúva do marechal, soluçou enquanto a abraçava e lhe pediu “muitas desculpas” por “não ter sido capaz de proteger” seu marido.
Chou fora o encarregado da investigação sobre Ho durante a Revolução Cultural, que resultara na morte do marechal e na prisão de muitos de seus subordinados, alguns torturados até a morte. Havia um forte sentimento contra Chou, do qual tinha consciência, e seu pedido de desculpas à viúva era, em parte, uma tentativa de se eximir e pôr a culpa em Mao. Isso, e o fato de ter aparecido quando ele mesmo estava morrendo, fez com que se dissipasse a raiva que as pessoas sentiam dele e a redirecionassem para Mao.
Mao, que estava acostumado a passar a responsabilidade adiante, não gostou de ser o alvo desse tipo de atitude e contra-atacou Chou, assim que recuperou a visão. Em 23 de julho, retiraram a catarata de seu olho esquerdo. Para acompanhar a operação de sete minutos, ele escolheu uma peça de música ruidosa, para lhe dar um apoio. Ficou encantado com a facilidade da cirurgia e pediu que a fizessem em seu olho direito no ano seguinte. Entrementes, consentiu que lhe confeccionassem óculos especiais. Eram dois pares, um apenas com a haste esquerda, outro somente com a haste direita, que eram trocados por uma assistente quando ele se virava na cama, de tal forma que o lado de seu rosto jamais descansava sobre a haste.
A possibilidade de enxergar de novo deu a Mao um sentimento renovado de confiança. Dentro de duas semanas, ele começava uma nova campanha pela imprensa contra Chou. Anunciou que um dos romances clássicos mais famosos da China, A margem da água, era, na verdade, todo sobre “capitulacionistas” que mereciam ser condenados. “Capitulacionistas” era uma alusão à falsa “nota de retratação” que trazia o nome de Chou. Este ficou tão preocupado que Mao pudesse denegrir seu nome, particularmente depois de sua morte, que no último minuto antes de uma grande operação de seu câncer, quando já havia recebido a medicação pré-operatória e estava prestes a ser levado para a sala de cirurgia, insistiu em dedicar uma hora à revisão de sua autodefesa em relação àquela nota. Só subiu na maca depois de ter assinado o documento, com mão trêmula, e o deixar nas mãos da esposa. Deng criticou Mao pela campanha na vez seguinte que o encontrou e, de novo, Mao teve de recuar. Tentou pôr a culpa em sua mulher, usando sua linguagem característica para se referir a ela: “Merda! Latindo para a árvore errada!”. A campanha sumiu aos poucos.
Enquanto isso, Deng tentava desfazer as práticas da Revolução Cultural e melhorar o padrão de vida do povo. Nesse aspecto, no 25 o ano do reinado de Mao, a maioria da população vivia em terrível pobreza e miséria. Nas áreas urbanas, que eram privilegiadas, ainda estava em vigor um severo racionamento de gêneros alimentícios, roupas e quase todos os artigos essenciais da vida cotidiana. Três gerações de famílias viviam amontoadas em um quarto pequeno, pois a população urbana aumentara em 100 milhões durante o regime de Mao e, no entanto, poucas moradias tinham sido construídas e não havia conservação. As prioridades de Mao — e a qualidade de vida — podem ser avaliadas a partir do fato de que o investimento total em manutenção urbana (incluindo água, eletricidade, transporte, esgoto etc.) no período de onze anos de 1965-75 foi menos de 4% do investido em indústrias bélicas. A saúde e a educação recebiam bem menos da metade da porcentagem já minúscula de investimento que ganhavam no início do regime de Mao. No campo, a maioria das pessoas ainda vivia à beira da inanição. Em certos lugares, a falta de roupas fazia com que mulheres adultas andassem nuas. Em Yenan, antiga capital de Mao, as pessoas estavam mais pobres do que quando os comunistas chegaram pela primeira vez, décadas antes. A cidade fervilhava de mendigos famintos, que eram amarrados e enfiados no cárcere quando visitantes estrangeiros vinham admirar a antiga base de Mao, e depois deportados de volta para suas aldeias.
Sem dúvida, Mao sabia o quanto as coisas iam mal. Mantinha-se muito bem informado lendo (ou fazendo alguém ler para ele) relatórios diários de uma rede de canais de informação que havia instalado. Em setembro de 1975, disse a Le Duan, líder do Partido Comunista do Vietnã, que acabara de sair de trinta anos de guerra incessante, inclusive com bombardeios devastadores dos americanos: “Agora, a nação mais pobre do mundo não é a sua, mas a nossa”. Não obstante, orientou a imprensa a atacar os esforços de Deng para elevar o padrão de vida com slogans absurdos do tipo: “As ervas daninhas do socialismo são melhores do que as colheitas do capitalismo”.
Deng também tentou levantar a proibição praticamente geral dos livros, artes e entretenimento que durava quase uma década. De imediato, tentou liberar alguns filmes de ficção para dar à população alguma diversão. Embora todos os filmes estivessem dentro dos limites do realismo socialista, madame Mao, agindo em nome do marido, tentou retirá-los de exibição, acusando-os de “crimes” como usar atrizes bonitas.
De sua parte, Mao tinha muita diversão à disposição. Uma delas era assistir a suas óperas de Pequim prediletas no conforto de casa. Para tanto, estrelas da ópera foram chamadas de volta dos campos de trabalho para serem filmadas no agora vazio estúdio da tevê de Pequim por equipes que também haviam sido convocadas do exílio. Após anos em regiões remotas, estavam enferrujadas e, de início, ficaram isoladas durante meses para recuperar a arte perdida, sem fazer perguntas. Como ninguém explicou por que deveriam representar aquelas “ervas venenosas” ainda proibidas — e, portanto, extremamente perigosas —, a maioria passou esse tempo em estado de grande apreensão. Os filmes foram então transmitidos para Mao de uma unidade móvel de televisão estacionada perto de sua casa. Ele também assistia a filmes do período pré-comunista, de Hong Kong e do Ocidente.
Mas Mao recusava-se a deixar a população saborear alguma gota do que ele usufruía. Deng brigava amiúde com a mulher de Mao, às vezes gritando e batendo na mesa, um tratamento que ela não estava acostumada a receber, exceto do marido. Deng também denunciou Jiang Qing na presença de Mao e estimulou pessoas como diretores de cinema a escrever cartas a ele queixando-se dela. Mao queria deter as iniciativas de Deng, fazendo com que ele pusesse no papel uma promessa de se manter fiel às práticas da Revolução Cultural. Em novembro de 1975, exigiu que Deng redigisse uma resolução do partido que gravaria em pedra a Revolução Cultural.
Deng não só se recusou como o fez sem rodeios diante de cerca de 130 quadros elevados do partido, desafiando Mao em termos muito claros. Mao teve de desistir da resolução. Para ele, foi a gota d’água. Estava decidido a descartar-se de Deng.
Chou e Yeh vinham instando Deng a não entrar em conflito com Mao: bastava concordar da boca para fora e esperar que ele morresse. Mas Deng não queria esperar. Ele calculava que poderia forçar Mao a engolir o que estava fazendo, desde que não o atingisse pessoalmente.
O enfraquecimento de Mao era rápido. A paralisia muscular havia invadido órgãos vitais, inclusive a garganta, afetando severamente sua capacidade de comer. Mas, sob aquela casca que caía aos pedaços, ele preservava sua fenomenal determinação de não ser batido.
* * *
O momento de Mao chegou em 8 de janeiro de 1976, quando, aos 78 anos, morreu Chou En-lai, o principal aliado de Deng. Mao agiu de imediato. Demitiu Deng, colocou-o sob prisão domiciliar e o denunciou publicamente pelo nome. Ao mesmo tempo, suspendeu o marechal Yeh, alegando que ele estava doente. Para o lugar de Chou, nomeou um até então desconhecido discípulo de nível intermediário chamado Hua Guo-feng. Um igualmente desconhecido general de baixo escalão chamado Chen Xi-lian foi designado para comandar o Exército. Mao escolheu esses nomes relativamente neutros, em vez de membros da Gangue dos Quatro, a fim de minimizar as reações adversas do partido e do Exército, que, em sua maioria, detestavam a gangue.
Porém, a morte de Chou detonou uma coisa que até então não havia existido na China de Mao: a opinião pública. No ano anterior, sob a direção de Deng, as informações sobre quem defendia o que no governo se tornaram disponíveis pela primeira vez por meio de redes de quadros comunistas readmitidos e seus filhos, e haviam circulado pelo país. O público passou a ter uma ideia de que Chou fora perseguido (embora sem saber nada sobre seu papel sujo na Revolução Cultural). A notícia da sua morte deflagrou uma manifestação sem precedentes de pesar público, em especial porque os meios de comunicação lhe deram pouca importância. No dia em que seu corpo foi levado do hospital para o crematório, mais de 1 milhão de pessoas encheram as ruas de Pequim. Foi a primeira vez durante o regime de Mao que algo remotamente parecido com essa quantidade de gente se reuniu sem ser organizada. No dia da cerimônia em memória de Chou, até a extremamente prudente enfermeira-secretária de Mao sugeriu que talvez ele devesse comparecer, ideia que Mao rejeitou. As pessoas consideraram sua ausência uma afronta a Chou e alguns dias depois, quando soltaram fogos de artifício na residência de Zhongnanhai, em comemoração do ano-novo chinês, pessoas de seu staff murmuraram que ele estava celebrando a morte de Chou.
Protestos populares irromperam em toda a China, usando a brecha aberta pela morte de Chou, para expressar o ódio pelas políticas de Mao. No início de abril, o vulcão entrou em erupção durante o Festival da Varrição do Túmulo, quando os chineses prestam tradicionalmente homenagem aos seus mortos. Multidões espontâneas encheram a praça de Tiananmen para lembrar Chou com coroas e poemas, e para denunciar a Revolução Cultural. E, o mais espantoso, no coração da capital a multidão destruiu veículos da polícia que davam ordens para que esvaziassem a praça e pôs fogo no quartel-general da milícia, que fora organizada pela Gangue dos Quatro e tentava dispersar os manifestantes com violência. Esse desafio ao regime de Mao aconteceu a um passo de sua casa.
O regime reprimiu os protestos com muito derramamento de sangue. Madame Mao saudou isso como uma vitória e Mao escreveu: “Grande fomentador do moral. Bom. Bom. Bom”. Medidas violentas foram tomadas em todo o país, mas Mao não conseguiu desencadear um grande terror como antes.
Embora Deng não tivesse nada a ver com a organização das manifestações, um único detalhe deixava clara sua popularidade: o arranjo de pequenas garrafas penduradas nos pinheiros em torno da praça Tiananmen. O prenome de Deng, Xiao-ping, tem a mesma pronúncia de “pequenas garrafas”. Mao sentiu-se extremamente ameaçado por esse sinal. Que o público se unisse aos seus oponentes dentro do partido era um ato sem precedentes. Mandou que Deng fosse levado da prisão domiciliar para a detenção em outro lugar de Pequim.
Mas, em vez de punir Deng com os mesmos métodos cruéis que aplicara em outros adversários, Mao o deixou incólume. Fez isso não porque gostasse dele: simplesmente não podia assumir o risco de criar uma situação em que os muitos partidários de Deng no Exército pudessem se sentir forçados a agir. Embora o marechal Yeh tivesse sido suspenso, esse aliado de Deng continuava a exercer o controle virtual das Forças Armadas. Em sua casa, no exclusivo recinto militar nas Colinas Ocidentais, ele recebeu uma torrente de generais e altos oficiais e lhes disse que não estava doente, como alegava Mao. Entre os amigos, Yeh referia-se agora a Mao não como “o presidente”, que era norma de respeito de rigueur, mas como na-mo-wen, a transliteração para o chinês do inglês “number one”, o que era irreverente. Os comandantes do Exército discutiam semiabertamente o que fazer. Um deles, apelidado de “General Barbudo”, instou Yeh a agir de imediato e “simplesmente agarrar” a Gangue dos Quatro. Sem falar alto, com medo de grampos, Yeh ergueu o polegar, sacudiu-o algumas vezes e depois o baixou, o que significava: esperem a morte de Mao. O General Barbudo conversou então com Wang Dong-xing, o chefe da guarda pretoriana, que fora seu subordinado, para dizer que Deng deveria ser bem protegido.
Mao sabia o que estava acontecendo nas Colinas Ocidentais, mas seus novos paus-mandados no Exército não estavam em condições de atacar os veteranos e ele mesmo estava doente demais para agir. Tinha de aturar aquilo. Foi nesse estado de frustração mental que sofreu um forte ataque do coração no início de junho de 1976, que o deixou às portas da morte.
O Politburo e os principais médicos de Mao foram informados. Outra pessoa informada no mesmo instante, por um médico amigo, foi a esposa de Deng, que estava no Hospital 301, especial para os altos líderes, mesmo aqueles em desgraça. O vazamento dessa informação altamente secreta para seus inimigos políticos era um sinal do afrouxamento do controle exercido por Mao. Quando Deng soube da notícia, escreveu para Mao em 10 de junho, pedindo permissão para ir para casa; na verdade, exigia ser libertado.
Mao teve de dizer “sim”, o que fez depois que seu estado de saúde se estabilizou, no final do mês; mas a libertação de Deng foi postergada por alguns dias devido a outro evento que deixou Mao inseguro. Em 6 de julho, o marechal Zhu De, o mais antigo líder do Exército e que gozava de considerável respeito, morreu aos noventa anos. Mao temia que sua morte pudesse provocar protestos de massa semelhantes aos que ocorreram após a morte de Chou — e que Deng pudesse se envolver nisso. Zhu fora seu primeiro oponente, no final dos anos 1920. Mao o fizera sofrer na Revolução Cultural, mas não o expurgara. Mas, como não houve agitação depois de sua morte, Deng teve permissão para ir para casa em 19 de julho — levado de carro por ruas desertas no meio da noite.
A detenção de Deng havia durado apenas três meses. Embora ainda estivesse em prisão domiciliar, encontrava-se entre familiares. Mao não conseguira destruí-lo e Deng estava pronto para um novo round.