Mao: a história desconhecida
44. Uma cilada para Mao
(1961-62; 67-68 anos)
Em 1958, quando Mao lançou o Grande Salto Para a Frente, seu segundo em comando, Liu Shao-chi, o acompanhou, embora discordasse de sua posição. E quando o ministro da Defesa Peng De-huai manifestou-se contra as políticas de Mao em Lushan, em 1959, no momento em que uma epidemia de fome estava em pleno andamento, Liu, que era então presidente do Estado, além de segundo homem mais forte do partido, não o apoiou.
Mas Liu estava profundamente perturbado pela epidemia de fome, que, ele sabia, até o começo de 1961 já havia consumido cerca de 30 milhões de vidas. E ficou particularmente afetado quando visitou sua região natal em Hunan, entre abril e maio daquele ano, e viu com os próprios olhos o sofrimento horrível que ajudara a criar. Decidiu então descobrir uma maneira de deter Mao.
Durante a viagem, Liu visitou sua irmã, que se casara com um membro da família de um “proprietário de terras”, classificado como “inimigo de classe”. Ela escrevera a Liu no início do regime de Mao sobre suas dificuldades durante a reforma agrária e ele respondera dando-lhe todos os conselhos “corretos” e sem consolo. Agora ele levava comida: dois quilos e meio de arroz, um quilo de biscoitos, um quilo de doces, nove ovos salgados e uma jarra de banha. Sua irmã jazia na cama, faminta e extremamente doente. Ela chorou enquanto falava sobre o marido, que morrera não fazia muito tempo em grande agonia, depois de comer um pãozinho feito com cereal não descascado, que a filha deles havia guardado especialmente para ele. Seu estômago enfraquecido não suportara a comida grosseira. Não havia médicos que pudessem chamar, nenhum hospital para procurar socorro.
Esse cunhado havia escrito uma carta a Liu em 1959, depois que ele se tornou presidente, em que contava sobre a fome na aldeia. A carta foi interceptada e ele foi punido: foi amarrado numa árvore e abandonado aos ventos enregelantes até chegar à beira do desmaio.
Aonde quer que fosse, Liu encontrava visões de partir o coração e histórias trágicas. Podia perceber o quanto as pessoas odiavam os comunistas — e ele. Em sua aldeia natal, um menino de doze anos escrevera “Abaixo Liu Shao-chi” do lado de fora da antiga casa de sua família. Esse menino vira, no período de um ano, seis familiares sucumbirem a doenças provocadas pela inanição; o último fora seu irmão mais moço, que morrera em seus braços, enquanto ele procurava alguém para amamentá-lo, pois sua mãe acabara de morrer. Liu disse à polícia para não punir o garoto como “contrarrevolucionário”, uma acusação normal para tal ato.
Ele também impediu as autoridades locais de punir camponeses por “roubar” comida e, de forma surpreendente, admitiu perante os habitantes da aldeia que era o regime que estava roubando deles. “Os membros da comuna pensam desse modo”, disse Liu. “Se você toma de nós, por que não podemos tomar de você? Se você toma muito, por que não podemos tomar um pouco?”
Liu teve outra atitude sem precedentes. Pediu desculpas aos camponeses pela desordem que os comunistas haviam causado. Depois de quase quarenta anos longe, disse, “estou chocado de ver que meus companheiros de aldeia levam uma vida tão dura [...] Sinto-me responsável por causar tanto sofrimento a vocês, e devo pedir desculpas”. Ele começou a soluçar e curvou-se para eles.
A viagem marcou Liu profundamente. Ao retornar a Pequim, disse aos altos dirigentes: “Não podemos continuar assim”.
Em agosto de 1961, quando a colheita de outono se aproximava, Mao reuniu mais uma vez seus administradores sob as nuvens do monte Lushan para determinar os números do confisco de alimentos. Liu pressionou-o para estabelecer limites mais baixos. Os dois tiveram muitas discussões e a tensão entre eles ficou transparente no comportamento de ambos, tal como o filho adolescente de um chefe provincial observou. Ele estava nadando na represa com outros filhos de altas autoridades quando Mao chegou. As crianças, excitadas, subiram na plataforma de madeira onde Mao estava sentado com seus guarda-costas e dançarinas. O garoto contou a Mao que havia engolido um pouco de água enquanto nadava. Ele disse: “Não é nada se engasgar com milhares de goles de água quando se nada, você precisa se engasgar com 10 mil goles antes de dominar a natação”. Engasgar enquanto aprendia a nadar era uma metáfora para “aprender tem seu preço”, frase que Mao usava com frequência para explicar seus repetidos desastres econômicos. Pouco depois, Liu Shao-chi chegou nadando com seus guarda-costas e subiu na plataforma. Ele e Mao não trocaram nem um cumprimento de cabeça. Sentaram-se separados, num espaço de cerca de trinta metros quadrados, fumando, sem falar uma palavra. O garoto se perguntou: “Como é que eles não se cumprimentam?”.
Os outros colegas de poder de Mao também vinham tentando debater com ele. Depois de visitar uma antiga base comunista em Hebei, Chou En-lai disse a Mao que as pessoas tinham “apenas folhas de árvores, vegetais salgados e ervas silvestres, e absolutamente nada mais. Não sobra de fato nenhum grão”. Mao ficou muito irritado e, certa vez, quando Chou estava descrevendo o que vira, retrucou: “Por que todo esse barulho?”.
Não obstante, em Lushan, sob intensa pressão, ele aceitou um corte nas requisições de alimentos de mais de 34% sobre a quantidade que havia estabelecido no início do ano. Em consequência, em 1961, as mortes causadas pela inanição caíram quase pela metade em relação ao ano anterior — embora ainda chegassem perto dos 12 milhões.
Em parte, Mao fez essa concessão porque muitos projetos industriais grandes estavam sendo fechados devido à falta de insumos essenciais, como aço, carvão e eletricidade. Fechá-los era uma boa ideia, pois haviam causado um desperdício enorme, mas o resultado foi uma convulsão social imensa, pois mais de 26 milhões de pessoas perderam o emprego. A maioria delas fora atraída para as cidades nos três anos anteriores; agora, eram mandadas de volta para suas aldeias, no maior movimento populacional de ida e volta da história da humanidade. “Como são maravilhosos o povo chinês e nossos quadros!”, exclamou Mao. “Vinte milhões de pessoas: nós chamamos e elas vêm; nos demitimos e elas vão.” E continuou: “Que partido pode administrar isso, exceto o Partido Comunista?”. De volta a suas aldeias, essas pessoas perderam o pouco de sustento e bem-estar social que tinham como operários fabris. Além disso, famílias eram rompidas se um cônjuge ganhava um emprego urbano e não desejava ir embora e viver como camponês, encarando a fome. Esses casais viram-se diante da perspectiva de viver permanentemente separados, com apenas doze dias por ano para ficar juntos.
Mas, depois de conceder uma exação menor de alimentos, Mao advertiu sua plateia em Lushan: “Recuamos para o fundo do vale”, ou seja, o confisco só poderia aumentar no futuro. Os administradores receberam a mensagem: no ano seguinte, a arrecadação em espécie teria de subir.
Para aqueles de sua corte que pudessem pensar em medidas drásticas contra ele, Mao mandou um sinal de advertência através de um canal um tanto incomum, o marechal de campo Montgomery, que estava em visita à China. De forma bastante imprevista, disse ao militar reformado inglês: “Estou preparado para a destruição a qualquer momento”. E fez uma lista das cinco possíveis maneiras como poderia ser assassinado: “baleado por inimigos, uma queda de avião, uma colisão de trens, afogamento e morte por germes. Fiz preparativos para todas essas cinco maneiras”. Como era procedimento-padrão que suas conversas com estrangeiros circulassem entre os altos líderes, ele estava dando um recado aos seus colegas: não tentem nada, tomei precauções.
Mao tinha razão em se preocupar. Até mesmo sua guarda pretoriana, as pessoas às quais confiava sua vida, expressava sentimentos amargos contra ele. “Onde está todo o grão que foi colhido?”, disse um soldado. “É ordem do presidente Mao que o povo coma apenas capim?”, perguntou outro. “Ele não pode simplesmente ignorar se as pessoas ficam vivas ou morrem.” E ainda outro: “Agora a gente das aldeias não tem nem a comida que os cães costumavam comer. Antes, os cães tinham farelo e grãos [...] E os membros da comuna estão dizendo: será que o presidente Mao quer nos matar de fome?”. Os guardas foram de imediato expurgados.
* * *
Em setembro de 1961, uma inquietude mais urgente de Mao era a possibilidade de perder poder num congresso do partido. A “maior preocupação” de Mao, escreveu Lin Biao em seu diário, “é se pode obter a maioria em uma votação”. E haveria um congresso exatamente naquele mês. O anterior ocorrera em setembro de 1956 e o estatuto do partido estipulava um congresso a cada cinco anos. Mao tinha de evitar a ameaça de ser deposto.
Já em 1959, havia percebido um profundo descontentamento do alto escalão em relação a ele. “Se vocês não votarem em mim, que assim seja”, dissera à plenária do partido. Desde então, as autoridades haviam sido atingidas pelo impacto da epidemia de fome. Nas reuniões do partido realizadas nas províncias, os quadros derramavam lágrimas ao relatar o que haviam visto nas aldeias. Ademais, as políticas de Mao haviam causado inanição neles e em suas famílias. Suas rações mensais eram de cerca de dez quilos de arroz, algumas onças de óleo de cozinha e uma pequena quantidade de carne. Em Zhongnanhai, funcionários do staff de Liu plantavam trigo e verduras do lado de fora de suas repartições para complementar suas rações inadequadas. A fome fazia com que quase todos os funcionários de Mao almejassem uma mudança de política.
Mao tentou desviar a insatisfação com seu método usual de apontar bodes expiatórios. As pessoas que escolheu foram, em primeiro lugar, quadros das aldeias, que ele acusou de “bater nas pessoas e espancá-las até a morte”, e de “fazer com que as colheitas diminuíssem e as pessoas não tivessem o suficiente para comer”. Depois culpou os russos, e seu terceiro bode expiatório foram “calamidades naturais extraordinariamente grandes”. Na verdade, os registros meteorológicos mostram que, além de não ter havido calamidades naturais durante os anos de fome, o tempo foi melhor do que a média. Mas, mesmo que os quadros não tivessem uma visão geral do país e metade deles acreditasse em Mao, os funcionários famintos sentiam que algo devia estar terrivelmente errado no modo como o partido governava a China se a população inteira, inclusive eles mesmos, estava em tal estado de miséria.
Mao tentou também conquistar a simpatia dos quadros ao anunciar aos membros do partido que ele “compartilharia a boa e a má sorte com a nação”, e deixaria de comer carne. Na verdade, tudo o que ele fez, durante algum tempo, foi comer peixe, que de qualquer forma adorava. E seu regime sem carne não durou muito. Com efeito, foi exatamente no meio da epidemia de fome que ele desenvolveu um pendor pela cozinha europeia, rica em carne. Em 26 de abril de 1961, um conjunto abrangente de menus europeus foi-lhe apresentado, dividido em sete partes: frutos do mar, frango, pato, porco, carneiro, carne bovina e sopas, cada uma delas com vários pratos.
Mao fazia grandes esforços para manter sua vida cotidiana completamente secreta. Sua filha Li Na morava na universidade; assim, durante a semana comia as rações normais e morria de fome. Quando foi passar um fim de semana em casa, surrupiou alguns dos luxos culinários usuais do pai. Mao disse-lhe para nunca mais fazer isso. Nada podia destruir a ilusão de que ele estava apertando o cinto junto com o resto do país. Em consequência, Li Na contraiu edema em 1960 e parou de menstruar. No ano seguinte, abandonou totalmente a universidade e ficou em casa.
Para os membros de seu staff, que podiam ver o que Mao comia e que também estavam semifamintos como suas famílias, Mao alegava que sua comida era uma recompensa “do povo” para ele e que os outros “não tinham direito” a ela. Seu zelador levou alguns restos para casa e foi exilado no Grande Deserto do Norte; nunca mais se soube dele.
A tentativa de Mao de conquistar simpatia não funcionou: a privação era simplesmente grande demais. Uma das coisas que havia desaparecido por completo era sabão, pois o país exportava a gordura necessária para fabricá-lo. Mao queria que o povo aceitasse viver sem sabão, então disse ao partido que ele mesmo estava evitando usá-lo para lavar as mãos. “Claro que ele não usa sabão”, disparou um dirigente, em particular. “Ele não faz nada limpo!” As autoridades mais antigas diziam coisas impensáveis uns para os outros, tais como: “Por que ele simplesmente não cai fora?”. Mao sabia desses comentários ácidos. Uma observação que chegou aos seus ouvidos foi: “Se o que está acontecendo tivesse acontecido no passado, o governante teria sido obrigado a renunciar há muito tempo”.
Ao varrer o túmulo de sua falecida esposa Kai-hui, sua filha Chiao-chiao escutou pessoas que maldiziam Mao e contou isso a ele. Quando obteve permissão para visitar sua região natal, em outubro de 1961, o ex-ministro da Defesa expurgado Peng De-huai, que estava em prisão domiciliar desde 1959, teve uma recepção muito calorosa das autoridades locais, bem como dos habitantes em geral, pois haviam escutado que ele fora expurgado por se opor às políticas de Mao. Dois mil “peregrinos”, alguns dos quais caminharam até cem quilômetros com estômagos semivazios, invadiram a antiga casa da família de Peng para agradecer-lhe por ter falado abertamente. Peng falou até perder a voz.
Se o congresso previsto se reunisse e realizasse uma votação, haveria uma forte possibilidade de que Mao fosse derrubado. Seus temores foram expressos depois por um de seus capangas mais próximos (Zhang Chun-qiao, um dos membros da famosa “Gangue dos Quatro”): “Se o velho estatuto do partido tivesse sido obedecido e se houvesse realizado o IX Congresso então [...] Liu Shao-chi teria se tornado presidente”.
Muitas autoridades do governo pediam um congresso para tratar da situação catastrófica. Mao vetou a ideia e inventou o estratagema de fazer uma conferência que não teria poderes de voto, evitando assim a ameaça de ser destituído. A conferência reuniria apenas poucas pessoas da direção de ministérios, províncias, cidades, regiões, condados e das principais indústrias estatais.
Em janeiro de 1962, esses altos funcionários — 7 mil no total — chegaram a Pequim vindos de toda a China para a maior reunião da história do partido, conhecida como a Conferência dos Sete Mil. Ela se tornou um marco, pois depois dessa conferência a epidemia de fome foi estancada. Mas poucos sabem que essa vitória só foi possível porque Liu Shao-chi montou uma cilada para Mao.
Quando convocou a conferência, Mao não tinha intenção de parar com suas políticas letais. Ao contrário, seu objetivo era usar a ocasião para atiçar seus dirigentes, de tal modo que eles voltassem para casa e agissem com mais rigor. Ele havia dito para seu círculo íntimo: “Não é o caso de não termos coisas [alimentos]. É verdade, não há porcos suficientes, mas há bastante de muitos outros alimentos. Mas parece que não conseguimos pôr a mão neles. Precisamos de um aguilhão”.
O método que usou para estabelecer sua linha foi dar aos delegados o texto do discurso que continha as diretrizes antes de pronunciá-lo. O texto atenuava os desastres passados, referidos vaga e brevemente como “erros”, e depois anunciava que “os tempos mais difíceis estão superados”. O mais sinistro era que não somente sustentava que “nossa situação interna é no conjunto boa”, como declarava também que haveria outro Grande Salto nos anos seguintes.
Disseram aos delegados para manifestar suas opiniões e que suas emendas seriam levadas em conta na versão final do discurso. Mas Mao tratou de dificultar a manifestação deles, organizando grupos de discussão, cada um deles presidido por um capanga intimidador. Quem se arriscasse a levantar questões mais agudas era logo silenciado com ameaças pesadas. Como um delegado corajoso escreveu numa carta anônima à liderança, as sessões eram simplesmente “para todos sentarem e matarem o tempo”.
Isso durou duas semanas. Mao mantinha vigilância sobre os delegados e lia presunçosamente boletins de discussão enquanto jazia nos braços de suas namoradas. Seu plano era que Liu Shao-chi lesse o discurso final na única sessão plenária, em 27 de janeiro, e a conferência se encerraria. Seu programa estaria então gravado em pedra e Liu e todos os participantes seriam corresponsáveis.
Mas o plano engenhoso de Mao ruiu. No dia 27, Liu fez algo que o surpreendeu totalmente. Com Mao na presidência da mesa, Liu apresentou um discurso diferente do texto que havia circulado e que ele supostamente deveria ler.
Diante da enorme plateia de 7 mil altos dirigentes do país, Liu desancou as políticas de Mao. “O povo não tem suficiente comida, roupas e outros artigos essenciais; a produção agrícola, longe de crescer em 1959, 1960 e 1961, caiu, não pouco, mas tremendamente [...] não somente não há um Grande Salto Para a Frente, mas uma grande quantidade de atraso.” Liu desconsiderou a explicação oficial para as calamidades, dizendo que não havia “mau tempo grave” nas áreas que havia visitado, nem, sugeriu com veemência, em qualquer lugar. Convocou os delegados a questionar o novo Salto que o líder havia defendido e levantou a possibilidade de desfazer-se das comunas e até do programa de industrialização ao estilo Mao.
Liu deixou bem claro que as políticas passadas haviam sido desastrosas e precisavam ser descartadas. Rejeitou abertamente a fórmula-padrão de Mao de que “erros são apenas um dedo, enquanto os sucessos são nove dedos”. Isso, disse sem rodeios, não era verdade. Quando Mao aparteou e insistiu que era verdade em muitos lugares, Liu o contradisse.
O discurso de Liu provocou uma reação torrencial da plateia, que mal podia esperar para erguer a voz. As discussões daquele dia assumiram um tom e um clima totalmente diverso. Ao saber que o presidente lhes dava suporte, os delegados falaram o que pensavam, condenaram as velhas políticas com veemência e insistiram em que não deveriam de forma alguma se repetir.
Mao não esperava que o sempre ultraprudente Liu lhe passasse a perna. No íntimo, estava explodindo de raiva, mas decidiu que era melhor conter-se, pois era evidente que Liu tinha o apoio dos 7 mil participantes e ele não podia se dar ao luxo de bater de frente com aquele enorme grupo de autoridades que incluía quase todos os que dirigiam o país. Então teve de fingir que não havia diferença entre eles. Sua primeira medida foi prorrogar a conferência, numa suposta reação simpática de sua parte aos sentimentos dos delegados, dizendo-lhes que fazia isso para que eles pudessem “tirar a cólera de seus peitos” (chu-qi). Em particular, estava furibundo e chamou aquilo de “soltar seus peidos” (fang-pi).
Mao tratou de controlar os danos, para matar qualquer ideia de que ele fosse responsável pela epidemia de fome. Designou alguns chefões provinciais e planejadores da agricultura para fazer discursos em que se responsabilizavam pelos desastres e, assim, o isentavam de culpa. Mas sua manobra mais importante foi chamar seu assecla, o ministro da Defesa Lin Biao, a primeira pessoa a falar depois da prorrogação da conferência, em 29 de janeiro. O marechal estava em conluio com Mao desde 1929 e era alguém com quem este podia contar, mesmo na defesa das causas mais terríveis.
Aos 7 mil delegados, Lin Biao apresentou o tipo de clichê impiedoso que Mao adorava ouvir: os desastres eram “custos” inevitáveis; as ideias do presidente Mao estavam “sempre corretas”; “em tempos de dificuldades, [...] devemos todos seguir ainda mais o presidente Mao”. Quando terminou, Mao foi o primeiro a bater palmas e elogiou Lin profusamente para a plateia. Somente então se sentiu seguro o suficiente para dar a entender seu ódio ao que Liu fizera, usando uma expressão sinistra que equivalia a dizer “pego você mais tarde”. Lin Biao salvara a pele de Mao.
Ao ver Lin Biao aparecer, Liu Shao-chi esmoreceu. Sua viúva contou-nos que ele murmurou: “Lin Biao vem e fala desse jeito. Problemas”. A solidariedade total a Mao do chefe do Exército, expressa no tipo de linguagem peremptória que deixava claro que não poderia haver debate racional, lançou imediatamente uma sombra assustadora sobre os participantes. Nos dias seguintes, eles baixaram o tom da linguagem e da forma como expressavam sua ira, embora continuassem a criticar as desastrosas políticas econômicas. Como resultado, as políticas de Mao não passaram pelo escrutínio nem foram condenadas com o vigor que Liu havia esperado. E ninguém ousou criticar diretamente Mao, muito menos citando seu nome.
Não obstante, Mao pôde sentir a força do sentimento dos 7 mil e viu-se compelido a fazer “autocrítica” diante deles, em 30 de janeiro — a primeira vez que fazia isso desde a subida ao poder em 1949. Embora, como era de seu feitio, tenha feito parecer que os desastres eram de responsabilidade de outras pessoas e que estava aceitando a culpa de modo um tanto altruísta, usando fórmulas cautelosas como “Sou responsável [...] porque sou o presidente”, ele teve de admitir que havia muita coisa que era preciso reprovar. Depois dessa autocrítica, Mao teve de engolir uma mudança de política. Foi forçado a abandonar a escala letal dos confiscos de alimentos planejada para 1962 e depois. Em consequência, dezenas de milhões de pessoas foram poupadas da morte por inanição.
Assim que a conferência terminou, em 7 de fevereiro, Mao chispou para Xangai a fim de ficar entre seus asseclas, sob o comando do chefão local Ke Qing-shi. Ele teve de ficar no fundo da cena enquanto seus outros companheiros, principalmente Chou En-lai, Chen Yun e o astro em ascensão Deng Xiao-ping, faziam grandes mudanças em suas políticas. Diminuiu muito a requisição de alimentos. Projetos caros e irrealistas, como submarinos nucleares, foram suspensos, embora o programa nuclear básico não fosse afetado. Cortaram-se enormemente os gastos com indústrias de armamentos, enquanto indústrias de bens de consumo receberam financiamentos sem precedentes. Num golpe contra a promoção do maoísmo, fizeram-se cortes drásticos também na ajuda externa — para praticamente zero naquele ano. As extravagâncias de Mao eram muitíssimo impopulares entre as autoridades que as conheciam. A pessoa que dirigia a ajuda militar escreveu mais tarde: “Cada vez que eu via os rostos sorridentes dos estrangeiros depois de assinar mais um acordo de ajuda, meu coração enchia-se de culpa em relação ao meu povo”.
Os investimentos em agricultura aumentaram fortemente. Em muitos lugares, os camponeses tiveram permissão para arrendar terras da comuna e puderam, de fato, voltar a ser agricultores individuais. Isso aliviou a fome e motivou a produtividade. Foi na defesa dessa prática que Deng Xiao-ping citou um velho provérbio, que se tornou sua mais famosa observação: “Não importa se o gato é amarelo ou preto, desde que pegue ratos”. Nas cidades, as horas de trabalho foram reduzidas para que a população desnutrida pudesse recuperar alguma energia, e isso também abriu espaço para um pouco mais de tempo privado e vida familiar. Em menos de um ano, a vida das pessoas melhorou perceptivelmente. De modo geral, acabaram as mortes causadas pela fome.
O regime chegou mesmo a permitir que várias pessoas deixassem o país. Normalmente, os que tentavam fugir para o exterior eram mandados para campos de trabalho forçado, mas naquela ocasião as autoridades abriram a porta para Hong Kong durante alguns dias, para deixar cerca de 50 mil pessoas saírem. Os guardas de fronteira até ajudaram a erguer crianças por sobre o arame farpado.
O ano de 1962 seria um dos períodos mais liberais desde o início do reinado de Mao. Naquela primavera, Liu e seus colegas reabilitaram em bloco os que haviam sido condenados após o expurgo de Peng De-huai em 1959, num total espantoso de 10 milhões de pessoas. Alguns “direitistas” (vitimados em 1957-58) também foram reabilitados. Nas artes e na literatura, explodiram novas criações. Foram necessárias dezenas de milhões de mortes para haver esse grau de alívio aos sobreviventes. Foi também em 1962 que o Panchen Lama teve condições de escrever a Chou En-lai para relatar a brutalidade que os tibetanos haviam sofrido. Houve algum relaxamento no Tibete, alguns mosteiros foram restaurados, e as práticas religiosas, toleradas.
Ser forçado a mudar as diretrizes políticas por seu próprio partido — sem o suporte de Moscou — foi a maior derrota sofrida por Mao desde a tomada do poder. Primeiro, fora vencido pela esperteza do supercauteloso Liu. Depois, fora efetivamente reprovado por quase todo o estrato que dirigia o país. A partir de então, nutriu um ódio vulcânico por Liu e os dirigentes que haviam comparecido à conferência — bem como pelo partido, que aquelas pessoas obviamente representavam. Ele estava a fim de vingança. O presidente da China e a espinha dorsal de seu partido eram o alvo. Foi por isso que, alguns anos depois, lançou seu Grande Expurgo, a Revolução Cultural, na qual Liu e a maioria dos 7 mil dirigentes, além de muitos outros, foram submetidos ao inferno. Como explicitou madame Mao, ele havia “engolido aquela afronta na Conferência dos Sete Mil e só pôde se vingar dela na Revolução Cultural”. É óbvio que Mao não estava em busca apenas de vingança, por mais selvagem e devastadora que tenha sido. Estava claro para ele que aquele conjunto de dirigentes não estava preparado para governar o país da forma como ele queria. Ele os expurgaria e instalaria no poder novos executores.
Muitos deixaram a conferência com um sentimento de agouro em relação a Liu. Ele mesmo sabia que se tratava do maior ponto de inflexão de sua vida, mas havia decidido que sua prioridade era impedir mais dezenas de milhões de mortes. Durante esse período, o normalmente reservado Liu manifestou-se de modo vibrante sobre o fardo do povo chinês, que havia sofrido tão terrivelmente nas mãos do regime do qual era um dos dirigentes máximos.
Ao longo dos anos seguintes, Liu e seus colegas de pensamento trabalharam para pôr a economia de volta nos trilhos, enquanto Mao planejava sua vingança.