Mao: a história desconhecida

Jung Chang e Jon Halliday · Capítulo 16 de 69

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Mao: a história desconhecida

14. A Longa Marcha III: o monopólio da conexão com Moscou

14. A Longa Marcha III: o monopólio

 

da conexão com Moscou

 

(1935; 41 anos)

 

Quando os dois exércitos comunistas se uniram, em junho de 1935, a força de Mao — conhecida como Exército Vermelho Central, pois estava sob o comando direto do partido — estava em ruínas. Havia começado a Longa Marcha com 80 mil homens. Agora, restavam cerca de 10 mil, um oitavo da força original. Os remanescentes estavam à beira do colapso. A força havia perdido todo o armamento pesado, e seus rifles tinham apenas uma média de quase cinco balas cada um. Como Zhu De lamentou para Chang Kuo-tao, que era seu velho amigo, aquele exército “foi um gigante antes, mas agora é só um esqueleto. Não pode mais lutar”.

Em contraste, o exército de Kuo-tao, que era de 20 mil no início de sua marcha, havia quadruplicado para 80 mil homens. Estavam bem alimentados, bem equipados com metralhadoras e morteiros e ampla munição, além de soberbamente treinados.

Foi, então, de uma posição de considerável força que Kuo-tao se encontrou com seus colegas. Nas palavras de Otto Braun, ele era um “homem alto, imponente, de cerca de quarenta anos, que nos recebeu como um anfitrião receberia seus convidados. Comportava-se com grande autoconfiança, perfeitamente consciente de sua superioridade militar e poder administrativo [...] Seus quadros [...] controlavam a maior parte dos magros recursos da região, que eram essenciais para cuidar das dezenas de milhares de soldados do Exército Vermelho [...] Ele era em tudo tão ambicioso quanto Mao”.

Chegara o momento em que Kuo-tao deveria receber um cargo e ele tinha fortes argumentos para ser designado chefe do partido ou do Exército. Mao não queria que ele obtivesse nenhum dos dois postos. Era a hora de pôr as cartas na mesa. Mao parecia estar em desvantagem total, mas emergiu do confronto como vencedor, graças às três figuras políticas que estavam com ele e compunham o cerne da liderança partidária, o secretariado: Lo Fu, Chou En-lai e Po Ku.

No que dizia respeito a Lo Fu, ele não tinha esperança de manter sua posição de líder sem Mao. Ademais, quando este decidira arrastar o Exército para um desvio, Lo dera seu consentimento, em vez de pôr em risco seu posto recém-conquistado. Chou En-lai conspirara com Mao todo o tempo. Quem, à primeira vista, parecia ter menos a perder por mudar de lado era Po Ku, que havia sido apeado do poder por Mao e Lo Fu. Mas ele também estava muito comprometido na destruição do Exército, pois não o defendera como deveria e era agora um homem devastado.

Assim, embora houvesse uma chance de se mancomunar com Kuo-tao e livrar-se de Mao, os homens do poder decidiram não o fazer por interesses pessoais. Se culpassem Mao por tudo que acontecera de errado, surgiria a pergunta: onde estavam vocês? Isso implicaria a existência de uma alternativa melhor que eles não haviam percebido e os tornaria incapazes para a liderança. Por autoproteção, sustentaram uma explicação simples: que o Exército Central fora desbaratado por forças nacionalistas mais poderosas. Para promover a imagem de sua própria resistência, tentaram denegrir o exército de Kuo-tao, que fora muito bem-sucedido, apesar das lutas pesadas que encarara. Como não podiam criticar seu desempenho militar, apelaram para a tática da difamação política, dizendo que ele sofria de “atraso político”, queria ser “senhor da guerra” e tinha “um estilo bandido”.

Essas acusações enfureceram o exército de Kuo-tao. Os dois lados entraram numa disputa de jogar lama sobre o adversário, a qual os homens de Kuo-tao ganharam de barbada. O estado lastimável do Exército Vermelho Central estava à vista de todos e o escárnio de que era alvo atingia toda a liderança.

“Como podem um centro como esse e Mao Tse-tung nos comandar?”, era o sentimento amplamente expresso. Esse ressentimento dirigia-se contra todo o centro, não apenas a ele, e foi um fator decisivo para unir os três líderes — Lo Fu, Chou En-lai e Po Ku — com Mao, o que lhes deu maioria no secretariado de quatro para um contra Kuo-tao.

O trio achava que era caso de “nadar ou afundar” junto com Mao, pois seus próprios oficiais e soldados começaram também a manifestar descontentamento. Houve uma enchente de reclamações de “incompetência” militar e indiferença para com o bem-estar dos soldados rasos. “Eles não sabiam para onde corriam [...] tão sem objetivo”, os oficiais contaram a Kuo-tao, e “deveriam ter deixado o exército descansar e se recuperar.” Os soldados, por sua vez, manifestavam sentimentos amargos em relação ao modo como os líderes haviam abandonado os feridos e transformado soldados comuns em “carregadores de cadeirinha” para os VIPs e suas esposas.

Essa acusação — que Mao e os outros líderes haviam ficado “sentados em cadeirinhas” durante toda a marcha — foi a mais grave de todas. Um participante da Longa Marcha nos contou como os soldados comuns ficaram com raiva: os líderes “falavam de igualdade, mas andavam de liteiras, como os donos da terra. A gente falava aos cochichos”. Aos soldados, disseram que “os líderes têm uma vida muito dura. Embora não caminhem, nem levem cargas, seus cérebros e tudo sofrem muito mais do que nós, que só caminhamos e comemos, e não temos as preocupações deles”. Não surpreende que esse sofisma de baixo nível não convencesse os soldados.

Não ter de caminhar fazia a diferença entre a vida e a morte. Nenhum dos feridos ou enfraquecidos de hierarquia suficiente para se qualificar para a Companhia dos Quadros Convalescentes morreu durante a marcha. O mesmo se pode dizer dos líderes que eram carregados, mesmo daqueles que foram gravemente feridos. Enquanto toda a elite sobreviveu, a pura exaustão matou muitos de seus mais jovens carregadores, enfermeiros e guarda-costas, muitas vezes adolescentes e alguns com doze ou treze anos. Uma estatística revela a hierarquia e o privilégio sob o domínio de Mao: o Exército Vermelho Central tinha agora quase mais oficiais do que soldados.

 

Com a conivência de seus três aliados, Mao ofereceu a Kuo-tao o posto decorativo de vice-presidente do Conselho Militar, que era agora um órgão vazio, sem nenhuma função. Kuo-tao e seus subordinados exigiram o comando do Exército. Mao respondeu com um silêncio de pedra. Durante o impasse, as tropas começaram a ficar sem comida. Os dois exércitos, que totalizavam cerca de 90 mil homens, estavam numa região do planalto tibetano que mal conseguia sustentar seus próprios habitantes, mas cuja economia estava completamente fora de ordem com a chegada daquela imensa força. “Fomos reduzidos a lutar por comida com a população local”, lembrou um oficial do Exército Vermelho. Os marchadores cortaram campos de cevada, privando os moradores de seu sustento para o ano seguinte. Mao, como era do seu feitio, tratou esse saque — que provavelmente fez a diferença entre vida e morte para milhares de pessoas — como uma piada: “Esta é nossa única dívida externa”, disse ao porta-voz americano Edgar Snow, de uma maneira que este descreveu como “jocosa”.

Não espanta que os tibetanos odiassem os comunistas. Excelentes atiradores, começaram uma guerra de guerrilha a partir das florestas. Diários da Longa Marcha registraram: “Havia muitos cadáveres ao longo do caminho, a maioria de extraviados mortos pelos bárbaros”, “Encontramos três extraviados (mortos pela cavalaria bárbara)”.

Por fim, Mao teve de ceder a Kuo-tao o posto mais alto do Exército. Em 18 de julho, Kuo-tao foi designado comissário-chefe do Exército Vermelho “com comando direto de todos os exércitos”. Mas Mao manteve o controle da liderança do partido.

 

No início de agosto de 1935, estabeleceu-se um acordo sobre um plano detalhado de ida para o norte — a fim de, como disse Mao, estar “perto da União Soviética, onde poderemos receber ajuda [...] aviões e artilharia”. O plano previa ir primeiro a Gansu e depois mandar uma unidade para Xinjiang, que era um satélite soviético, “e construir aeroportos e arsenais”. Foi durante essa operação que Mao maquinou liquidar com as chances de Kuo-tao fazer contato com os russos antes que ele próprio o fizesse.

O plano acordado implicava dividir o Exército: a força principal, sob o comando de Kuo-tao e Zhu De, tomaria a cidade de Aba e depois seguiria para o norte, enquanto uma força menor, conhecida como Coluna da Direita, tomaria uma rota diferente mais para o leste, via Banyou. Por escolha de Mao, ele e o centro seguiram na Coluna da Direita, que continha o grosso de suas antigas tropas, sob o comando de Lin Biao e Peng De-huai, embora agora esses dois respondessem a dois dos comandantes de Kuo-tao. Em 15 de agosto, nove dias depois que Kuo-tao e sua força haviam partido, Mao telegrafou a ele em nome do Politburo determinando uma mudança total de rota: “a força principal deve ir via Banyou”, isto é, seguir a mesma rota da Coluna da Direita. Desse modo, Mao rasgava o plano acordado e exigia que Kuo-tao e seus muitos milhares de soldados invertessem o caminho e voltassem para ele.

Kuo-tao respondeu em 19 de agosto que estava muito perto de Aba, onde havia muita comida, e que ele planejava tomar a cidade dentro de dois dias. Defendeu com veemência a manutenção da rota de Aba, argumentando que havia “três ou quatro estradas paralelas para o norte, com muita gente e alimentos”, enquanto “a estrada para Banyou é totalmente desconhecida”.

Mao usou seu controle da liderança política para pressionar Kuo-tao. No dia seguinte, mandou a ele uma resolução em nome do Politburo dizendo que suas forças tinham se distanciado demais para oeste. A rota que Kuo-tao havia tomado por decisão unânime foi subitamente descrita como “extremamente desvantajosa” e o próprio Kuo-tao foi acusado de ser “oportunista”, por “escolher a estrada com menos obstáculos”. O uso de um rótulo como “oportunista” era uma maneira de ameaçá-lo com uma condenação por motivos políticos.

Em tudo isso, o objetivo de Mao era manter-se sempre à frente de Kuo-tao. Isso significaria também que este e seu exército seriam arrastados a condições calamitosas. Àquela altura, Mao descobrira que, enquanto a rota de Kuo-tao era tranquila, a sua, via Banyou (que ele mesmo escolhera), era, na verdade, medonha. Passava por um terreno mortífero, um enorme pântano que exigiria pelo menos uma semana para ser atravessado, e envolvia perigos como: ausência de habitantes e, portanto, de alimentos e abrigo; um clima atroz, com fortes neblinas, tempestades e granizo; poucas árvores, o que significava dificuldade para acender fogo; e uma lama traiçoeira, parecida com areia movediça e muitas vezes venenosa, que podia engolir uma pessoa que desse um passo em falso. Tudo isso numa altitude de mais de 3 mil metros e temperaturas noturnas abaixo de zero, mesmo no verão de agosto.

Em vez de tentar conservar a força do Exército Vermelho, Mao insistiu em que Kuo-tao encarasse as mesmas condições maléficas — depois dele. Após disparar seu ultimato ameaçador, entrou no pântano carregado em sua liteira; antes de partir, havia sacrificado uma enorme pilha de livros, inclusive o seu preferido, a coleção completa de Vinte e quatro histórias. No final do primeiro dia, os registros da Longa Marcha mostram que as tropas haviam caminhado penosamente “sem uma única pessoa à vista, atravessado cinco rios, três dos quais não tinham pontes”, e estavam “ensopadas até os ossos [...] sentaram-se amontoadas sob a chuva para passar a noite”. Braun deixou uma descrição vívida do que a maioria suportou:

Uma enganadora cobertura verde escondia um pântano maligno que sugava quem rompesse a fina crosta ou

se afastasse da estreita trilha [...] Colocamos à nossa frente gado ou cavalos nativos que encontravam

instintivamente o caminho menos perigoso. Nuvens cinzentas pairavam quase sempre sobre o terreno. Uma

chuva fria caía várias vezes por dia e à noite se transformava em neve úmida ou gelo. Não havia uma moradia,

árvore ou arbusto até onde se podia ver. Dormíamos agachados nas pequenas colinas que se elevavam do

pântano. Cobertores finos, grandes chapéus de palha, sombrinhas de papel oleado ou, em alguns casos, capas

roubadas eram nossa única proteção. Alguns não acordavam de manhã, vítimas do frio e da exaustão. E isso

era em meados de agosto! [...] Surtos de disenteria sangrenta e tifo [...] venciam novamente.

 

Outro participante da Longa Marcha lembrou: “Certa vez, vi vários homens sob um cobertor e achei que estavam extraviados. Então tentei despertá-los”. Eles estavam mortos. Havia pouco para comer: “Quando um cavalo morreu, nós o comemos: os soldados da frente comeram a carne, os de trás roeram os ossos. Quando tudo acabou, comemos as raízes da relva e mascamos cintos de couro”.

A esposa de Lo Fu viu

os cadáveres de amigos o tempo todo [...] No sexto dia, peguei disenteria. Não podia me preocupar com o

embaraço e simplesmente me agachava e cagava o tempo todo. Depois amarrava minha calça e corria para

acompanhar a marcha. Passei dois dias assim e cerrei os dentes para aguentar. Durante sete dias e sete noites,

foi um mundo sem seres humanos. No oitavo dia, quando saí do pântano e vi aldeias, gente, gado e fumaça

saindo das chaminés, quando vi nabos nos campos, minha felicidade foi além das palavras [...] Aqueles sete

dias e sete noites foram os piores da Longa Marcha. Quando cheguei a Banyou, senti que havia retornado do

mundo dos mortos ao mundo dos seres humanos.

 

Uma noite em Banyou, numa cabana de vime recoberto com esterco de iaque, podendo secar as roupas junto a uma fogueira também acesa com esterco, foi o luxo para aqueles que sobreviveram. Só na unidade de Lin Biao, quatrocentos haviam morrido — cerca de 15% de sua força.

Era por essa provação que Mao estava exigindo que passassem as dezenas de milhares de soldados de Kuo-tao, em vez de marchar por estradas adequadas da rota inicialmente decidida. Invocando o nome do Politburo, Mao continuou pressionando para que Kuo-tao se movimentasse “rapidamente para Banyou”. Em um telegrama escrito depois que saiu do pântano e sabendo muito bem do que falava, ele mentiu deslavadamente: “De Maoergai [de onde partira] a Banyou é uma distância curta e cheia de abrigo”. E aconselhou: “Sugiro [...] que traga todos os feridos e doentes que possam caminhar, mais o material e equipamento”. À primeira vista, parecia dizer a Kuo-tao: não abandone seus feridos. Mas sua verdadeira intenção era causar o máximo de sofrimento.

Se Kuo-tao se recusasse a obedecer, Mao poderia obter sua condenação formal e perda do comando. Com relutância, Kuo-tao concordou em ir na direção dele. Dois dias de experiência no terreno pantanoso o deixaram ainda menos entusiasmado com o que tinha pela frente. Em 2 de setembro, sua força chegou a um rio em cheia. Ele telegrafou a Mao: “Fizemos o reconhecimento de trinta li [quinze quilômetros] acima e abaixo do rio e não encontramos nenhum lugar em que possamos vadeá-lo. Difícil encontrar material para construir ponte. Temos comida só para quatro dias”.

Um dia depois, ele decidiu não avançar mais. “Reconhecemos setenta li [35 quilômetros] rio acima e ainda não podemos vadear ou construir ponte”, relatou a Mao. “Há comida apenas para três dias para todas as unidades [...] O pântano parece sem fim. Impossível avançar e parece estar esperando por nossa morte. Não conseguimos encontrar guia. Absoluto mistério. Decidi começar retorno a Aba amanhã de manhã.” Ele mal escondia sua fúria contra Mao: “Toda a estratégia está afetada. Última vez [...] as tropas ficaram sem comida e sofreram grande dano. Desta vez, você nos força a ir para Banyou e nos mete nisto”. Kuo-tao voltou.

A essa altura, Kuo-tao e o principal corpo do Exército haviam sido atrasados por um mês, graças a Mao. Além disso, naquela região montanhosa começava a baixar um tempo gélido e mortífero. Kuo-tao tomou a decisão que Mao estava justamente querendo: suspender a jornada para o norte e estacionar até a primavera do ano seguinte. “A oportunidade de ir para o norte foi perdida”, ele disse a Mao. Dois terços de suas tropas haviam contraído infecção nos pés e mal podiam caminhar. Se iniciassem a longa marcha para o norte, quase todos os feridos e doentes teriam de ser abandonados.

É claro que Mao sabia de tudo isso; com efeito, toda a sua manobra tinha por meta reduzir o exército de Kuo-tao àquele estado. Agora, ele alcançara seu objetivo final: ter certeza de que chegaria aos russos primeiro, pois Kuo-tao estava fora da corrida, preso no sul até o ano seguinte.

 

Depois que Kuo-tao deu a ordem de não ir para o norte, Mao viu-se diante de um problema sério. Kuo-tao dera a ordem na qualidade de comandante militar supremo. Mao podia emitir ordens em nome do partido, mas não tinha certeza alguma de que poderia levar com ele alguma parte do Exército, até mesmo suas tropas, se tivessem a chance de optar. O momento da crise chegou em 8 de setembro, quando Kuo-tao ordenou que seus dois comandantes que estavam com Mao levassem a Coluna da Direita para o sul, onde ele estava.

Consciente de que não tinha prestígio entre os soldados, Mao evitou o confronto direto. Não ousou desafiar abertamente a ordem de Kuo-tao, mesmo em nome do partido. Em vez disso, sequestrou suas próprias tropas, sob falso pretexto. Na noite de 9 para 10 de setembro, ele e Lo Fu contaram a uns poucos selecionados uma rematada mentira: que Kuo-tao mandara seus homens ferirem os líderes do partido; então, disse Mao, eles deveriam reunir secretamente seus subordinados e levantar acampamento

naquela noite. a A mulher de Lo Fu lembrou que foi acordada no meio da noite e lhe disseram: “‘Levantem! Levantem! Vamos partir logo!’ Nós perguntamos: ‘O que aconteceu? Para onde vamos?’ [e nos disseram]: ‘Sem perguntas, mexam-se e vamos! [...] Sem barulho, sem tochas [...] sigam-me!’. Corremos por cerca de dez li [cinco quilômetros] e não fizemos nenhuma pausa para recuperar o fôlego até atravessarmos uma passagem da montanha”.

Enquanto sequestrava suas próprias tropas, Mao fez um de seus homens tirar do QG o 2 o Birô, que cuidava das comunicações de rádios, e roubar os mapas detalhados.

Nessa ocasião, Mao teve a ajuda de um novo aliado fundamental: Peng De-huai. Havia apenas três meses, Peng o desafiara pela liderança militar e fora amistoso com Kuo-tao, que tentara adulá-lo. Mas agora Peng estava do seu lado. O motivo não era apenas que Mao controlava a liderança do partido, mas também o fato de que ele estava à frente na disputa pela conexão russa.

Ao acordar na manhã de 10 de setembro, os comandantes de Kuo-tao que estavam com a Coluna da Direita descobriram que Mao e companhia haviam ido embora, assim como os mapas. Além disso, disseram-lhes que a retaguarda do grupo de Mao estava com as armas engatilhadas e abriria fogo sobre quem os perseguisse. Os oficiais estacionados ao longo da rota tomada pelos fugitivos telefonaram para saber se deveriam usar de força para deter Mao e seu bando, pois era óbvio que estavam partindo sub-repticiamente. Os comandantes de Kuo-tao decidiram que “Exército Vermelho não deve atirar em Exército Vermelho”, e assim Mao pôde ir em frente.

Enquanto ele e seus homens seguiam seu caminho, uma equipe de propaganda do exército de Kuo-tao apareceu e começou a acenar e gritar: “Não sigam Nariz Grande! Por favor, voltem!”. “Nariz Grande” significava estrangeiro — no caso, Otto Braun. Ao alemão também haviam contado a mentira de que Kuo-tao dera uma ordem para “quebrar a resistência do Comitê Central, pela força, se necessário”. A gritaria revelou pela primeira vez aos soldados rasos que havia uma divisão no exército e causou grande confusão e ansiedade. Imediatamente o departamento político de Mao enviou pessoal para instar os soldados a prosseguir, caso algum aproveitasse a oportunidade para ficar com Kuo-tao.

Naquele momento, Mao tinha menos de 8 mil soldados, homens desesperadamente desnorteados, que não haviam escolhido ficar do lado dele. Então, num gesto muito incomum para ele, Mao apareceu diante de suas tropas. Não se dirigiu a elas, mas ficou em silêncio ao lado da estrada, observou-os passar, contando suas forças e tentando avaliar seu espírito. Fez questão de que Peng ficasse ao seu lado, para emprestar-lhe autoridade. Para a maioria, até mesmo para oficiais mais antigos, essa foi a única vez que estiveram tão perto de Mao, que preferia exercer o poder nas sombras.

O passo seguinte foi assegurar-se de que Chiang Kai-shek não criasse problemas para seu contingente. Àquela altura, não poderia haver dúvidas de que Chiang estava abrindo passagem, mas que só permitiria que um exército enfraquecido chegasse ao seu destino. Durante a Longa Marcha, enquanto a força de Mao encontrara pouca resistência, Kuo-tao tivera de lutar durante todo o trajeto — e o motivo era que sua força era muito grande e poderosa.

Desse modo, significava uma vantagem para Mao que Chiang soubesse que só uma pequena seção encaminhava-se agora para o norte e que a liderança do PCC estava com ela. Com certeza, dentro de poucas horas após a separação de Mao, os nacionalistas souberam de ambos os fatos e exatamente quais tropas haviam seguido com Mao e quão debilitadas estavam. Em 11 de setembro, um dia depois da fuga, Chiang contou ao governador da área que havia “recebido informação de que Mao, Peng, Lin e seus bandidos estão fugindo para o norte, e estão totalmente famintos e esgotados”.

Kuo-tao ao que tudo indica não tinha dúvidas de que a informação fora deliberadamente vazada por Mao, pois o telegrama que lhe mandou na manhã seguinte dizia: “Na manhã seguinte à partida de vocês [o inimigo] sabia logo que a unidade de Peng De-huai havia fugido para o norte. Por favor, cuidado com os reacionários [...] que vazam segredos. Por mais diferenças que tenhamos, não devemos revelar movimentos militares ao nosso inimigo”.

Esse vazamento garantiu a Mao uma fuga tranquila até seu destino — o platô da Terra Amarela. Lá, no norte de Shaanxi, aguardava-lhe a única base segura em toda a China, cortesia de Chiang Kai-shek. Mao e os principais líderes sabiam dessa base antes da Longa Marcha e Moscou lhes ordenara expandi-la já em 3 de maio de 1934, muito antes do início da marcha.

 

Mao aproveitou a mãozinha de Chiang e nos mil quilômetros seguintes quase não encontrou obstáculos militares. “Exceto por franco-atiradores nativos”, registrou

Braun, “nesse trecho não havia inimigos.”b As forças de Chiang acompanharam seus movimentos à distância, mas apenas para evitar que Mao voltasse para o centro da China.

Esse trecho final foi um passeio em comparação com o que haviam enfrentado antes. Em vez de neve e granizo e tiros de tibetanos escondidos no bosque, no sul de Gansu os comunistas viram espigas amarelas sob um sol glorioso, ovelhas nos pastos e agricultores cuidando dos campos. Os habitantes locais eram amistosos e Mao fez um esforço para mantê-los assim. Não queria outra recepção como a que tivera dos tibetanos e impôs “disciplina rigorosa” — 60% da população local eram muçulmanos e o Exército Vermelho foi proibido de matar e comer porcos, além de receber ordens para não roubar nenhum muçulmano, mesmo os ricos.

Os moradores locais abriram suas casas para o Exército Vermelho, onde os homens tomaram um banho quente pela primeira vez em meses, fizeram a barba e cortaram o cabelo, além de comer fartas refeições muçulmanas, com panquecas e macarrão, carneiro e frango, alho e pimenta. Braun registrou que a hospitalidade “espantou-me muito”.

Mas essa atmosfera amistosa se tornou a causa de uma grande dor de cabeça para Mao, pois as deserções dispararam. Um relatório nacionalista mostrava que em um único condado, o de Minxian, mais de mil soldados do Exército Vermelho se entregaram. Em 2 de outubro, Mao mandou as forças de segurança “recolher” aqueles que ficavam para trás. “Recolher” significava amiúde executar. Um oficial graduado (depois chefe do estado-maior na China comunista) relembrou: “Durante a marcha para o norte de Shaanxi, houve muitos retardatários. A organização de segurança política do Exército [...] adotou meios cruéis de punição novamente”. Ele estava assustado: “Segui as tropas com cuidado, preocupado todo o tempo que poderia ficar para trás e ser tratado como um extraviado”. “Tratar de” era semelhante ao “cuidar de” da máfia, um eufemismo para matar. Um dia, “à beira do colapso”, ele pensou que não conseguiria: “Meu coração só descansou quando cheguei ao quartel às onze da noite”.

Quando Mao chegou finalmente à zona vermelha do norte de Shaanxi que seria sua base, seu exército estava com bem menos de 4 mil homens. No último — e mais fácil — mês da jornada, ele perdeu mais da metade dos soldados remanescentes, entre desertores, retardatários e mortos por doença ou pelas mãos dos homens de sua segurança. Sua força estava praticamente do mesmo tamanho de quando partira da terra dos bandidos, em janeiro de 1929, sete anos antes. E as tropas estavam na pior forma possível. Um oficial relembrou:

Estávamos famintos e exaustos. Nossas roupas, em particular, estavam em frangalhos. Não tínhamos sapatos

nem meias e muita gente enrolava os pés com tiras de cobertor [...] Wuqi [onde chegaram] já era um lugar

muito pobre, mas mesmo os [...] camaradas locais me perguntavam: como vocês ficaram neste estado

lamentável? Vocês realmente parecem apenas um bando de mendigos.

 

Mas Mao não se sentia de forma alguma derrotado quando pôs os pés em território vermelho, em 18 de outubro de 1935. “O momento mais negro” de sua vida — como ele descreveu a ameaça de Kuo-tao — havia acabado e ele era o vencedor. O Exército Vermelho podia estar nas últimas depois de uma caminhada de uns 10 mil quilômetros que durara um ano inteiro, do qual quatro meses foram extras, graças a ele, mas o partido estava agora, para todas as intenções e propósitos, em suas mãos.

 

Seu enviado Chen Yun chegara a Moscou e entregara sua mensagem ao Comintern em 15 de outubro. Uma vez que era o claro vencedor no campo, Moscou aceitou pela primeira vez que ele fosse o cacique do PCC. Em novembro, os russos publicaram uma versão cuidadosamente editada do relatório de Chen Yun em que proclamavam Mao como o líder “político experimentado e testado” do partido chinês. Duas semanas depois, o Pravda publicou um artigo de fundo intitulado “O líder do povo chinês, Mao Tse-tung”, que o retratava em linguagem floreada e lacrimosa como um quase inválido tchekhoviano lutando heroicamente contra a doença e a privação.

Em meados de novembro, chegou um mensageiro de Moscou ao norte de Shaanxi, a primeira ligação direta em bem mais de um ano. Ele atravessara o deserto de Gobi disfarçado de negociante, usando um casaco de couro de ovelha. Em sua cabeça levava códigos para retomar o contato por rádio com Moscou e carregava consigo um operador de rádio. Em questão de meses, o contato estava restabelecido e a pessoa que o controlava do lado chinês era Mao.

O mensageiro trazia a palavra de Stálin de que os comunistas chineses deveriam “se aproximar da União Soviética” seguindo para a fronteira da Mongólia Exterior, um satélite soviético. O movimento “para associar-se à União Soviética” podia começar agora.

 

Chiang Kai-shek teve menos sucesso em sua agenda particular. Em 18 de outubro, dia em que a Longa Marcha terminou para Mao, Chiang se encontrou com o embaixador soviético Bogomólov pela primeira vez desde que a marcha começara. Chiang propôs um “tratado militar secreto” com a Rússia. Isso só poderia ter por alvo o Japão, que intensificara seus esforços para separar cinco províncias do norte da China oferecendo-lhes uma fictícia “independência”. A reação russa foi que Chiang deveria primeiro “regularizar relações com o PCC”. Chen Li-fu, íntimo do Generalíssimo e fundador do FBI chinês, começou de imediato conversações secretas com Bogomólov e o adido militar soviético Lepin sobre os detalhes de um acordo com o PCC, referindo-se mesmo à “cooperação” com os comunistas.

Durante essas conversações, Chen Li-fu pediu a Bogomólov a libertação de Ching-kuo, o filho de Chiang. Chen nos contou: “Eu disse a ele: nossos dois países estão assinando um tratado agora e estamos em muito bons termos. Por que vocês ainda retêm o filho de nosso líder? Por que não podem soltá-lo?”. (Numa expressão de sua lealdade, Chen acrescentou que estava agindo sem contar a Chiang — “Ele não ia querer que eu fizesse esse pedido”. Essa observação indica que as poucas pessoas que sabiam da troca comunistas-por-filho fizeram um acordo para que a negociação jamais fosse atribuída a Chiang ou viesse a vazar.)

Mas Stálin ainda se recusou a libertar seu refém. Ching-kuo estava separado de seus pais havia exatamente dez anos. Em março daquele ano, em sua fábrica de máquinas pesadas nos Urais, o amor suavizara a triste vida do jovem quando ele se casara com uma técnica russa chamada Faina Vakhreva. Em dezembro, eles teriam o primeiro filho, nascido no mesmo cativeiro que o próprio Ching-kuo suportaria por muito mais luas, enquanto a fortuna sorria cada vez mais para Mao.

 

a Na época, a mentira foi contada em termos muito vagos para pouquíssimas pessoas. Mais tarde, Mao a transformou numa história animada sobre como Kuo-tao mandara um telegrama para seus homens ordenando que “liquidassem” a ele e o centro. E isso se tornou a versão oficial. Mas Mao só fez essa acusação dezoito meses depois, em 30 de março de 1937, quando estava tentando expurgar Kuo-tao. Até então, embora houvesse uma resolução do partido que denunciava Kuo-tao por “dividir o Exército Vermelho”, ela não incluía essa acusação. Nem ela foi mencionada em quaisquer dos muitos telegramas subsequentes enviados por Mao e seus exércitos a Kuo-tao. Até o telegrama de Mao para Moscou que denunciava Kuo-tao, logo depois que as conexões por rádio foram restabelecidas, em junho de 1936, não continha uma palavra sobre isso; nem o relatório que o PCC mandou a Moscou sobre expulsar Kuo-tao do partido, em abril de 1938. Tudo isso prova que não houve ordem de Kuo-tao para atacar Mao.

b Houve uma pequena escaramuça num passo chamado Lazikou, em 17 de setembro. Embora tenha envolvido apenas um punhado de homens, foi depois inflada e transformada numa grande batalha — e numa grande vitória. O motivo dessa invencionice era que Mao, para validar sua separação de Kuo-tao, tinha de mostrar pelo menos um feito de armas naquele período. Na verdade, simplesmente deixaram Mao passar por Lazikou.