Mao: a história desconhecida

Jung Chang e Jon Halliday · Capítulo 18 de 69

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Mao: a história desconhecida

16. O sequestro de Chiang Kai-shek

 

(1935-36; 41-42 anos)

 

Em outubro de 1935, quando Mao chegou ao noroeste, no final da Longa Marcha, seu objetivo, além da simples sobrevivência, era estabelecer uma comunicação com a fronteira do território controlado pelos russos, a fim de poder receber armas e outros suprimentos que possibilitariam sua expansão. Chiang Kai-shek queria que os comunistas ficassem contidos em seu curral. O homem que designou para cumprir essa tarefa foi o antigo senhor da guerra da Manchúria, Chang Hsueh-liang, o “Jovem Marechal”, que tinha seu QG na cidade de Xian, capital da província de Shaanxi. Mao estava na mesma província, a cerca de trezentos quilômetros para o norte.

Havia dois territórios controlados pelos russos através dos quais seria possível obter armas: Xinjiang, a mais de mil quilômetros para o oeste-noroeste, e a Mongólia Exterior, distante mais de quinhentos quilômetros para o norte. O vasto exército de cerca de 300 mil homens do Jovem Marechal estava estacionado nas províncias que davam acesso a esses dois territórios.

Royal Leonard, o piloto americano do Jovem Marechal, deixou uma descrição dele: “Minha primeira impressão [...] foi que ali estava o presidente de um Rotary Club: rotundo, próspero, com modos naturais e afáveis [...] Ficamos amigos em cinco minutos”. Depois de herdar a Manchúria, quando seu pai e senhor da guerra (o “Velho

Marechal”) foi assassinado, em junho de 1928,a o Jovem Marechal colocou seus domínios sob as ordens do governo central de Chiang e permaneceu seu chefe até a invasão do Japão, em 1931. Ele então recuou para dentro da China com 200 mil soldados e ganhou depois vários postos importantes de Chiang. Mantinha uma relação muito próxima com Chiang e sua esposa. Treze anos mais moço do que o Generalíssimo, gostava de dizer que ele era “como um pai para mim”.

Mas, pelas costas do Generalíssimo, o Jovem Marechal tramava para derrubá-lo. Tendo governado um território maior do que França e Inglaterra juntas, incomodava-o ser subordinado de Chiang. Ele aspirava ao governo de toda a China. Com essa finalidade, já fizera contato com os russos e tentara visitar a União Soviética quando estava na Europa, em 1933, mas os russos tinham sido muito cautelosos e não o aceitaram. Havia apenas quatro anos que Stálin invadira a Manchúria, em 1929, e travara uma curta guerra contra o Jovem Marechal, depois que este tomara uma ferrovia controlada pelos russos. Além disso, o Jovem Marechal expressara admiração pelo fascismo e era amigo de Mussolini e sua família. Em agosto de 1935, uma declaração lançada de Moscou em nome do PCC o chamou de “escória” e “traidor”.

Mas no final daquele ano, depois que ele foi designado para vigiar Mao, Moscou deu meia-volta. O Jovem Marechal se tornara digno de corte. Ele poderia tornar mais fácil a vida do PCC e, o que era mais importante, ajudá-lo a estabelecer a conexão com os suprimentos russos. Algumas semanas depois da chegada de Mao no noroeste, diplomatas russos estavam mergulhados em conversações com o Jovem Marechal.

Ele foi a Xangai e Nanquim, a capital, para se encontrar com os russos em segredo. Para disfarçar, arranjou uma camuflagem de frivolidade. Tinha reputação de playboy e aproveitou-se dessa imagem. Um dia, segundo seu piloto americano, “me fez voar o aeroplano inclinado, com uma asa na rua, e passar pelas janelas do Park Hotel, onde viviam suas amigas. Passamos a três metros da fachada e o barulho do motor fez as vidraças chocalharem como castanholas”. Esse espetáculo foi montado diante do quarto em que uma das garotas do Jovem Marechal estava hospedada. “Talvez isso faça vocês sorrirem”, disse-nos com uma risadinha de satisfação o Jovem Marechal em 1993, quando estava com 91 anos. “Naquela época, Tai Li [o chefe do serviço secreto de Chiang] tentou de tudo para descobrir meu paradeiro e achou que eu estava me regalando com minhas garotas. Mas, na verdade, eu estava fazendo tratos.”

O Jovem Marechal deixou claro para os russos que estava pronto para fazer uma aliança com os comunistas chineses e travar “uma luta decisiva contra os japoneses” — isto é, declarar guerra ao Japão, o que Chiang não fizera. Em troca, queria o apoio de Moscou para tomar o lugar de Chiang na chefia do país.

Esse pacote continha elementos extremamente atraentes para Stálin, inclusive aquilo que o chefão do Kremlin mais queria: que a China entrasse em guerra total com o Japão. Desde 1931 os japoneses invadiam a China e lhe arrancavam pequenos pedaços. Depois de anexar a Manchúria, Tóquio montou outro regime títere em parte do norte da China, em novembro de 1935, mas Chiang evitava a guerra aberta. Stálin temia que os japoneses se voltassem para o norte e atacassem a União Soviética.

O objetivo de Stálin era usar a China para afastar Tóquio do território soviético, arrastar os japoneses para o vasto interior chinês e atolá-los por lá. Moscou trabalhou muito para atiçar os chineses contra os japoneses, mas mantendo em segredo seus verdadeiros propósitos. Para tanto, insuflou manifestações estudantis e seus muitos agentes, em particular madame Sun Yat-sen, cunhada de Chiang Kai-shek, formaram grupos de pressão para instar o governo de Nanquim a agir.

Chiang não queria se render ao Japão, mas também não queria declarar guerra. Pensava que a China não tinha chance real de vencer e que atacar Tóquio levaria seu país à destruição. Optou por um estranho limbo — nem se render, nem travar uma guerra total. Conseguiu fazer isso graças ao tamanho da China e ao fato de que os japoneses estavam penetrando em seu território aos poucos. Chiang talvez até nutrisse esperanças de que os japoneses se voltassem contra a Rússia e deixassem o resto do seu país em paz.

A proposta do Jovem Marechal convinha a Stálin, mas o líder soviético não confiava nele. Nem acreditava que o ex-senhor da guerra manchu fosse capaz de manter a China unida para travar tal guerra. Se a China caísse numa luta intestina, isso facilitaria a conquista japonesa e, a fortiori, redobraria a ameaça à União Soviética.

Os russos eram astutos demais para rejeitar de imediato a oferta do Jovem Marechal e trataram de engodá-lo, dizendo que estavam considerando a oferta, para que ele ajudasse os comunistas chineses. Diplomatas russos lhe disseram para estabelecer contato direto com o PCC em segredo. A primeira conversa entre um negociador do partido e o Jovem Marechal ocorreu em 20 de janeiro de 1936.

 

Enquanto os russos estavam apenas logrando o Jovem Marechal, Mao estava feliz em apoiá-lo contra Chiang e queria uma verdadeira aliança. Tratava-se de um cenário ideal para ele. Como o Jovem Marechal seria dependente da União Soviética, o PCC teria um papel central e Mao poderia até se tornar o poder por trás do trono de toda a China. Ele instruiu seu negociador Li Ke-nong a propor uma aliança anti-Chiang ao Jovem Marechal e prometer apoio a ele como chefe de um novo governo nacional. O negociador recebeu instruções para “dar a entender” que a oferta tinha a autorização de Moscou, sugerindo que fundos e armas não seriam problema.

O Jovem Marechal, naturalmente, queria que as promessas de Mao fossem confirmadas pelos próprios russos. E parecia que isso estava no programa quando, pouco depois, lhe apresentaram um esquema para que enviasse um homem de confiança a Moscou. Em janeiro, um certo “pastor Dong” chegou ao QG do Jovem Marechal vindo de Xangai. Dong, que na década de 1920 fora pastor na igreja de são Pedro, em Xangai, era um agente da espionagem comunista. O apóstata disse ao Jovem Marechal que os filhos de Mao estavam secretamente sob seus cuidados e que havia um plano para mandá-los a uma escola especial em Moscou para filhos de líderes comunistas estrangeiros, dirigida pelo Comintern. Ele propôs que o Jovem Marechal designasse um enviado para acompanhá-los.

Mao tivera três filhos com sua segunda esposa Kai-hui, executada pelos nacionalistas em 1930. Após a morte da mãe, os meninos foram levados para Xangai, ficando aos cuidados dos comunistas na clandestinidade. Eles passaram tempos difíceis. O mais novo, An-long, morreu aos quatro anos, logo depois da chegada em Xangai. Os outros dois, An-ying e An-ching, tiveram de levar uma vida clandestina, sem poder frequentar escola ou fazer amigos fora da família de Dong, onde a tensão era constante. Dong os deixara com a ex-mulher, cuja vida foi posta em perigo e convulsão com a chegada deles, e que não lhes tinha nenhuma afeição. Às vezes, eles fugiam e viviam como meninos de rua. Anos mais tarde, ao ver um filme sobre um órfão em Xangai, An-ying ficou muito emocionado e contou à esposa que ele e seu irmão haviam levado uma vida parecida, dormindo no chão e catando comida e baganas de cigarro no lixo. Durante todos esses anos, Mao jamais lhes mandou uma palavra.

Moscou decidiu levar os filhos de Mao para a Rússia, onde poderiam ser cuidados e frequentar a escola. E, como no caso do filho de Chiang Kai-shek, o objetivo era também mantê-los como reféns. Stálin envolveu-se pessoalmente nessa decisão. Mao não apresentou objeções.

A oferta de Moscou ao Jovem Marechal para que mandasse um enviado como acompanhante dos meninos matava assim dois coelhos com uma só cajadada. Desse modo, o Jovem Marechal garantiria a segurança dos meninos durante a viagem e cuidaria de toda a logística, bem como arcaria com a considerável conta do séquito, que incluía uma babá. E, o mais importante: ele veria o convite como um sinal de que Moscou estava seriamente interessada em um acordo, que não poderia ser feito sob a vigilância de Chiang na China.

O Jovem Marechal ficou encantado e logo providenciou todos os arranjos. Seu representante e os meninos partiram de navio da China para Marselha no dia 26 de junho. Moscou informara que poderiam pegar vistos para a Rússia em Paris.

 

Naquele mês de junho, duas províncias do sul da China, Guangdong e Guangxi, fizeram uma aliança e se rebelaram contra o governo de Chiang Kai-shek. Mao tentou persuadir o Jovem Marechal a aproveitar a oportunidade e fazer o mesmo, em aliança com os comunistas. Ele disse ao Politburo que seu objetivo seria criar uma entidade “como a Mongólia Exterior” — isto é, um satélite da Rússia.

Mas o Jovem Marechal não se interessou. Ele queria o domínio de toda a China, não de uma parte apenas. E Moscou foi completamente hostil ao plano. Na ocasião, final de junho, depois de vinte meses, restabeleceram-se as comunicações por rádio do PCC com Moscou. No primeiro radiograma ao Comintern, Mao pediu endosso a um Estado separado no noroeste. O plano foi enviado a Stálin, que não ficou satisfeito. Ele queria uma China unida que levasse o Japão a uma guerra total, não uma China desmembrada.

Poucos dias depois do telegrama de Mao, a rebelião de Guangdong e Guangxi ruiu, e um dos principais motivos de sua queda foi que a opinião pública era veementemente contra qualquer movimento separatista. Stálin teve confirmada sua opinião de que Chiang era a única pessoa capaz de manter a China unida. Em 15 de agosto, Moscou mandou ao PCC uma ordem marcante para que parassem de tratar Chiang como inimigo e o considerassem um aliado. “É incorreto tratar Chiang Kai-shek do mesmo modo que os japoneses [...] Vocês devem trabalhar pela cessação das hostilidades entre o Exército Vermelho e o Exército de Chiang Kai-shek, e a favor de um acordo [...] para lutar juntos contra os japoneses”; “tudo deve estar subordinado à causa antijaponesa”. Stálin queria agora que o PCC apoiasse Chiang como chefe de uma China unida, ao menos naquele momento.

Moscou ordenou bruscamente que o PCC entrasse em negociações sérias com Chiang para fazer uma aliança. Mao teve de ceder e as conversas sobre uma “frente unida” começaram em setembro entre o PCC e os representantes de Chiang. O Generalíssimo iniciara a aproximação. Na época do final da Longa Marcha, ele fizera acenos a Moscou, mas os russos disseram que ele teria de falar “diretamente com [o Partido Comunista] Chinês”, como uma forma de promover esse partido.

Tanto Moscou como Mao mantiveram o Jovem Marechal na ignorância dessa mudança de política e continuaram a enganá-lo na questão que mais lhe interessava: tomar o lugar de Chiang. No final de julho, quando ele disse ao embaixador soviético Bogomólov que “esperava” que seu “bloco com o [PCC], dirigido contra Chiang Kai-shek e os japoneses, fosse apoiado pela União Soviética”, o embaixador não falou nada que sugerisse que Moscou era totalmente contra essa ideia. De sua parte, Mao estimulou o Jovem Marechal a continuar pensando que Moscou poderia apoiá-lo.

 

Embora houvesse decidido apoiar Chiang na chefia da China, Stálin não desistiu de forma alguma de seus esforços clandestinos para fortalecer o Exército Vermelho chinês. No início de setembro de 1936, endossou um plano para enviar um grande carregamento de armas ao PCC via Mongólia Exterior. A lista dos desejos de Mao incluía “ajuda mensal de 3 milhões de dólares”, além de “aviões, artilharia pesada, granadas, rifles de infantaria, metralhadoras antiaéreas, barcaças”, junto com pessoal soviético para dirigir os aviões e operar a artilharia. Em 18 de outubro, ele ouviu do Comintern que “o material não é tanto quanto você pediu em seu telegrama do dia 2 [de outubro] [...] e não há aviões nem artilharia pesada”. Ainda assim, a “companhia estrangeira” que cuidava do carregamento, testa de ferro do GRU , iria “fornecer 150 veículos e providenciar motoristas e gasolina; eles podem fazer duas viagens de volta [...] com cerca de 550 a 600 toneladas” em cada viagem. O número de rifles era quase o mesmo que os russos mandaram para a Espanha, onde a guerra civil acabara de estourar.

Em outubro, o Exército Vermelho chinês começou sua operação para abrir caminho até um ponto de entrega no deserto próximo da fronteira da Mongólia Exterior. A essa altura, Mao tinha 20 mil soldados na base e as outras divisões do Exército Vermelho estavam em vias de convergir para lá em resposta a sua convocação. Entre elas estavam as tropas lideradas pelo rival agora desqualificado Chang Kuo-tao, que passara o inverno na fronteira do Tibete, à mercê dos bombardeios nacionalistas. Milhares morreram congelados e muitos outros sofreram nifablepsia, cegueira temporária causada pelo reflexo do sol na neve. No ano anterior, Kuo-tao perdera metade de seus 80 mil soldados que comandava quando encontrara Mao, em junho de 1935.

Embora ainda tivesse o dobro de soldados, Kuo-tao era agora um parceiro menor. Percebendo que estava acabado, ficou “muito emocionado”, segundo seus colegas. “Ele até derramou lágrimas. Ele disse: ‘Estou acabado. Quando chegarmos ao norte de Shaanxi, irei para a prisão’.” Embora não tenha sido exatamente preso, Mao viria a destruir ainda mais seu exército — e depois o expurgaria. Mas, naquele momento, Mao precisava da grande e eficiente força de Kuo-tao para lutar até a fronteira da Mongólia Exterior.

O outro braço do Exército Vermelho que atendeu à convocação de Mao era comandado por Ho Lung, um ex-bandido durão. Ele fora empurrado de sua base na

fronteira entre Hunan e Hubeib para o norte de Shaanxi por Chiang Kai-shek. Os três braços do Exército Vermelho se uniram em 9 de outubro de 1936, fazendo de Mao o chefe de quase 80 mil homens, vinte vezes mais do que dispunha um ano antes.

Tratava-se de uma força formidável, mas, para chegar às armas russas, os comunistas tinham de passar por um poderoso exército nacionalista, e Chiang estava decidido a impedi-los. Em 22 de outubro, ele voou até Xian para assumir pessoalmente o comando, e isso pôs o Jovem Marechal numa enrascada. Ele alertara os comunistas sobre os planos de Chiang, bem como lhes dera dinheiro e roupas de inverno, mas esse era seu limite: não podia desafiar abertamente as ordens de Chiang. Assim, seus homens acabaram combatendo os comunistas. Em uma semana, o avanço de Mao para buscar as armas russas foi frustrado. Um contingente de 21 800 soldados que cruzara o rio Amarelo ficou preso no outro lado. O corpo principal do Exército Vermelho recuou para seu curral no norte de Shaanxi e ficou confinado de novo.

Mao pediu dinheiro com urgência a Moscou. “Sejam rápidos”, telegrafou. O

Comintern mandou imediatamente 550 mil dólares, c mas não podia resolver os problemas de longo prazo. Como alimento, havia apenas feijão-preto de qualidade inferior. A moradia na região era constituída principalmente de yao-dong, alojamentos cavados nos morros, como grandes cavernas, e muitos dos soldados não tinham nem isso. Começou a nevar e as tropas estavam com roupas surradas e sandálias de palha. No front, Peng De-huai, o comandante em chefe, estava morando num abrigo de pastor, um buraco no chão com um metro de profundidade e dois de largura, na beira do deserto, açoitado por furiosas tempestades de areia. Até Mao estava sofrendo desconforto, pois o centro do partido fora forçado a ir para a pequena vila de Baoan, onde ele e a esposa, nos últimos meses da gravidez, ficaram numa caverna úmida, em que pingava água do teto. Certa vez, quando um guarda-costas tentou abrir a porta, foi picado por um escorpião. Abundavam ratos transmissores de peste, com a metade do tamanho de um gato e tão ousados que sentavam no peito das pessoas enquanto elas dormiam e, ao sacudir suas caudas sobre o rosto delas, acordavam-nas com um susto.

No final de outubro de 1936, os comunistas estavam desesperados. O Jovem Marechal vislumbrou uma oportunidade para resgatá-los e contar pontos com Moscou. Seu plano era simples, e extremo: sequestrar Chiang, que estava para entrar em seu território. Embora não tivesse recebido de Moscou a missão explícita que esperava (seu enviado estava sendo engambelado quanto ao visto russo), ele calculou que salvar o Exército Vermelho chinês e ter Chiang em sua custódia mudaria toda a equação para Stálin. Era uma aposta, mas o Jovem Marechal era um jogador: “Minha filosofia é apostar”, disse certa vez para seu círculo mais íntimo. “Posso perder uma ou duas vezes, mas, enquanto o jogo durar, chegará o momento em que recuperarei todas as minhas fichas.” Ter Chiang em seu território era uma chance única.

O Jovem Marechal discutiu seu plano com o contato secreto de Mao, Yeh Jian-ying, e lhe disse que pretendia realizar um “coup d’état”, usando esse termo (que em chinês é transliterado como ku-die-da). Em 29 de outubro, Yeh telegrafou a Mao em linguagem velada, dizendo que “há uma proposta de fazer ficar Chiang”. Em 5 de novembro, Yeh partiu para onde Mao estava, levando o plano de golpe.

A ideia de sequestrar Chiang foi do Jovem Marechal, mas certamente estimulada por Mao por meio de seu enviado Yeh. O agente da inteligência soviética Aleksandr Titov registra que “a questão de prender Chiang Kai-shek foi discutida por [...] Yeh Jian-ying e Chang Hsueh-liang em novembro de 1936”. E Mao escondeu deliberadamente o plano de Moscou, sabendo que Stálin seria totalmente contra. Mao estava agora agindo diretamente contra os interesses de Stálin. Chiang era mais importante do que nunca para os russos. Em 25 de novembro, a Alemanha e o Japão haviam assinado um tratado conhecido como o Pacto Anti-Comintern, pondo a União Soviética diante de seu pior pesadelo: inimigos beligerantes nos dois flancos em aliança, com forças apoiadas pelos japoneses avançando para oeste ao longo do flanco meridional da Mongólia, na direção da Ásia Central soviética. No mesmo dia em que o pacto foi anunciado, Stálin ordenou com urgência que o chefe do Comintern Gueorgi Dimítrov convencesse com mais força o PCC de que tinha de abandonar sua posição anti-Chiang e apoiar um governo unido: “Precisamos [...] de um governo de defesa nacional” na China, disse Stálin a Dimítrov. “Elabore um plano [...].”

Mao corria um risco considerável de enfurecer Stálin ao pôr Chiang em perigo. Ele tentou tomar as devidas precauções, mantendo distância do sequestro. Antes de se arriscar, o Jovem Marechal telegrafou a Yeh pedindo que voltasse: “Coisa vital a discutir. Por favor, venha imediatamente”. Mao segurou Yeh, ao mesmo tempo que mentia ao Jovem Marechal, informando que Yeh estava a caminho. Depois incitou-o com uma mensagem em que dizia não haver perspectiva de os comunistas chegarem a um compromisso com Chiang e que estavam decididos a continuar sua guerra contra o Generalíssimo. Mao deu ao Jovem Marechal a impressão de que ele era seu único parceiro possível, deixando implícito que Moscou aceitaria isso.

 

Quando chegou a Xian, em 4 de dezembro, Chiang não tomou nenhuma medida excepcional para sua segurança pessoal. Seus aposentos estavam guardados por várias dezenas de guardas de seu próprio staff, mas o portão e o perímetro externo da residência eram patrulhados pelos homens do Jovem Marechal. Este chegou a conseguir que os sequestradores fizessem o reconhecimento da residência de Chiang, numa fonte quente nas cercanias da cidade, e de seu quarto.

No alvorecer de 12 de dezembro, Chiang foi sequestrado. Ele acabara seus exercícios físicos matinais, parte de sua rígida rotina, e estava se vestindo quando ouviu tiros. O alojamento foi atacado por cerca de quatrocentos homens do Jovem Marechal. Os guardas de Chiang resistiram e muitos foram mortos, inclusive o chefe da segurança. Chiang conseguiu fugir para os morros dos fundos, onde foi encontrado horas depois escondido numa fenda, de camisola, descalço e coberto de pó, e com um ferimento nas costas.

Pouco antes, o Jovem Marechal informara Mao de que estava prestes a agir. Quando Mao recebeu o telegrama de seu secretário, abriu um sorriso: “Volte para a cama. Haverá boas notícias pela manhã!”.

 

a Esse assassinato costuma ser atribuído aos japoneses, mas fontes da inteligência russa afirmaram recentemente que ele foi organizado, por ordem de Stálin, pelo homem que depois seria responsável pela morte de Trótski, Naum Eitingon, e montado para parecer obra dos japoneses.

b Essa base também passou por expurgos sangrentos, comandados pelos comunistas entre 1932 e 1934. O próprio Ho Lung disse mais tarde: “Só nesse expurgo, mais de 10 mil foram mortos. Agora [1961] existem apenas algumas camaradas mulheres vivas e isso porque os homens foram mortos primeiro [...] e então o inimigo chegou antes que [os expurgadores] pegassem as mulheres [...] Ainda hoje, naquela área, [...] eles desenterram ossos de uma grande cova após outra”. Os sobreviventes relembraram que muitos haviam sido “postos em sacos de juta e jogados no lago Hong com grandes pedras amarradas neles. Os pescadores não ousavam pescar no lago porque apareciam muitos cadáveres e a cor do lago mudou”.

c Esses fundos, bem como outras transferências posteriores, foram mandados por meio de madame Sun Yat-sen, dos Estados Unidos.