Mao: a história desconhecida
31. Estado totalitário, estilo de vida extravagante
31. Estado totalitário,
estilo de vida extravagante
(1949-53; 55-59 anos)
A transição do regime nacionalista para o comunista foi administrada sem grandes rupturas. Em seu avanço, o Exército comunista tomava todas as instituições civis e recrutava homens e mulheres jovens e instruídos das cidades para ocuparem suas funções, além de se valer de quadros experimentados do partido. Essa máquina assumiu imediatamente o controle do país.
Muitos administradores antigos permaneceram em seus cargos, sob a nova direção do PCC, e durante um tempo a economia marchou da mesma forma que antes. Foi dito aos empresários que suas propriedades não seriam tocadas por muito tempo e que eles deveriam manter suas fábricas em funcionamento e suas lojas abertas. Por alguns anos, indústria e comércio não foram estatizados e a coletivização da agricultura só ocorreria em meados da década de 1950.
Nesses poucos anos, com grande parte da economia ainda em mãos privadas, o campo rapidamente se recuperou de mais de uma década de guerra. A agricultura teve um crescimento considerável, já que o novo governo concedeu empréstimos e investiu em sistemas hidráulicos. Nas cidades, foram distribuídos subsídios para mitigar a fome. As taxas de mortalidade caíram.
Alguns setores sofreram mudanças drásticas instantâneas. Na Justiça, os tribunais foram substituídos por comitês do partido. Sobre os meios de comunicação, impôs-se de imediato uma severa censura; a opinião pública foi eliminada. Mao engoliria o resto da sociedade aos poucos.
Ele tinha uma equipe capaz, liderada por Liu Shao-chi, tendo logo abaixo Chou En-lai, o terceiro em comando, como primeiro-ministro. Em junho de 1949, Mao enviou Liu à Rússia para aprender sobre o modelo soviético em detalhes. Liu lá permaneceu durante quase dois meses e encontrou-se com Stálin seis vezes, algo sem precedentes. Teve reuniões com vários ministros e altos administradores soviéticos e visitou uma ampla variedade de instituições. Centenas de assessores soviéticos foram designados para a China e alguns deles seguiram no mesmo trem com Liu. Um Estado stalinista estava em construção mesmo antes de Mao assumir formalmente o poder.
O novo regime encontrou resistência armada no campo e enfrentou-a sem misericórdia. Depois que o Estado estava seguro, Mao começou a aterrorização da população, para obter conformismo e obediência de longa duração. Seus métodos eram singularmente maoístas.
Mao ostentava uma hostilidade visceral à lei e seus súditos estavam totalmente desprovidos de proteção legal. Em 1970, disse a Edgar Snow que era “um homem sem lei ou limite” (que foi mal traduzido como se ele tivesse dito que era “um monge solitário”). Em vez de leis, o regime lançava éditos, resoluções e editoriais de imprensa, acompanhados por “campanhas” dirigidas pelo sistema partidário. Havia uma fachada de justiça, que possibilitava formalmente o “direito de apelação”, mas exercê-lo era tratado como uma ofensa, uma “demanda por mais punição”, nas palavras de um ex-prisioneiro, que poderia resultar na duplicação da sentença, por ousar duvidar da sabedoria do “povo”.
Em outubro de 1950, Mao lançou uma “campanha para esmagar os contrarrevolucionários” em todo o país e devotou muita energia a isso, sua primeira investida violenta desde que assumira o poder, ordenando ao chefe de polícia que mandasse “relatórios diretamente para mim”. O alvo eram os remanescentes do regime nacionalista, rotulados de “inimigos de classe” e divididos em categorias como “bandidos”, que se referia aos envolvidos em resistência armada: somente esses somavam muitos milhões. Outro grupo era composto pelos “espiões”, que não designava pessoas dedicadas de fato à espionagem, mas qualquer um que tivesse trabalhado para o setor de informações dos nacionalistas. Chefes de base nacionalistas também caíram em bloco, embora os nacionalistas mais graduados tenham sido protegidos, como isca para atrair outros de volta do exterior. “Não matamos nenhum desses Chiang Kai-sheks grandes”, disse Mao. “O que matamos são Chiang Kai-sheks pequenos.”
Mao emitiu ordem após ordem para censurar os quadros provinciais por serem brandos demais e exigiu mais “prisões em massa, mortes em massa”. Em 23 de janeiro de 1951, por exemplo, criticou uma província por “ser demasiado leniente e não matar [o suficiente]”; quando ela aumentou a taxa de execuções, ele disse que essa “melhoria” o deixava “muito satisfeito”.
Essa campanha nacional foi acompanhada pela reforma agrária nas novas regiões ocupadas pelos comunistas, onde viviam cerca de dois terços da população do país. Em torno de 3 milhões de pessoas pereceram vítimas de execuções, violência da multidão ou
suicídio.a Mao queria que as matanças fossem feitas com o máximo impacto e isso significava execuções públicas. Em 30 de março de 1951, instruiu: “Muitos lugares [...] não ousam matar contrarrevolucionários em escala grandiosa com grande publicidade. Essa situação deve ser mudada”. Somente em Pequim, realizaram-se cerca de 30 mil comícios de sentença e execução, aos quais compareceram quase 3,4 milhões de pessoas. Uma jovem meio chinesa da Inglaterra testemunhou uma assembleia dessas no centro de Pequim, quando em torno de duzentas pessoas foram exibidas e depois fuziladas na cabeça, de tal forma que seus miolos espirrassem sobre os espectadores. Até aqueles que conseguiam escapar dos comícios nem sempre conseguiam evitar ver coisas horríveis, como caminhões carregados de cadáveres pingando sangue pelas ruas.
Mao queria que a maioria da população — adultos e crianças — testemunhasse a violência e as mortes. Seu objetivo era atemorizar e brutalizar toda a população, em um grau que ia muito mais longe do que Stálin ou Hitler, que mantiveram a maior parte de seus crimes fora da vista.
Mais gente teria sido morta se não fosse pelo valor de seu trabalho escravo. Mao disse isso em uma ordem: algumas pessoas haviam “cometido crimes que merecem ser punidos com a morte”, mas não deviam ser mortas, em parte porque “perderíamos uma grande força de trabalho”. Assim, milhões foram poupados para serem enviados aos campos de trabalhos forçados. Com a assessoria de especialistas russos em deportação e administração de campos, Mao semeou um vasto arquipélago de campos, cujo termo oficial era lao-gai: “reforma pelo trabalho”. Ser enviado para lao-gai significava ser condenado ao trabalho opressivo nos terrenos mais hostis e nas minas mais contaminadoras, e ser hostilizado e ameaçado incessantemente. Escondidos nesses campos, os mais fracos fisicamente e os espiritualmente mais fortes eram obrigados a trabalhar até a morte. Muitos internos eram executados, enquanto outros se suicidavam de qualquer jeito, como mergulhar numa ceifadeira. No total, durante o regime de Mao, o número dos que foram executados e tiveram morte prematura em prisões e campos de
trabalho forçado pode ter chegado a 27 milhões. b
Além da execução e do encarceramento em prisões e campos, havia uma terceira forma de punição, tipicamente maoísta, que foi imposta a muitas dezenas de milhões de pessoas durante o reinado de Mao. Era chamada de ser posto “sob vigilância”, enquanto a vítima permanecia na sociedade. Isso significava “cumprir sentença do lado de fora”, ser mantido numa espécie de liberdade condicional permanente, ser considerado um dos suspeitos usuais a ser detido e atormentado novamente em qualquer novo ataque da repressão. Significava que toda a família da pessoa viveria como pária. A alta visibilidade do estigma servia de advertência para que o público em geral jamais contestasse o
regime.c
O terror funcionou. Um relatório enviado a Mao em 9 de fevereiro de 1951, apenas alguns meses depois do início da campanha, dizia que depois da primeira rodada de matança “a disseminação de rumores acabou e a ordem social foi estabilizada”. O que o Estado chamava de “rumores” era, com frequência, a única maneira que o povo tinha de expressar seus verdadeiros sentimentos. Em um determinado caso, um alerta aparentemente bizarro disseminou-se, não de aldeia para aldeia, mas de província para província: “O presidente Mao manda gente às aldeias para cortar as bolas [dos homens] a fim de dá-las à União Soviética para fabricar bombas atômicas” (em chinês, “bolas” e “bombas” têm a mesma pronúncia: dan). Em alguns lugares, quando chegava o que parecia ser um coletor de impostos, espalhava-se a notícia: “Os cortadores de bolas estão aqui!”, e a aldeia inteira procurava se esconder. Essa história reflete o fato de que Mao já estava impondo tributos extorsivos em alimentos aos camponeses, alguns dos quais presumiam claramente que os alimentos estavam sendo enviados para a Rússia.
Essa campanha reprimiu duramente qualquer expressão de discordância, mas ainda havia algumas rachaduras no sistema naqueles primeiros anos. Às vezes, as vítimas conseguiam se esconder. Um pequeno proprietário de terras da província de Anhui conseguiu manter-se em fuga junto com seu filho durante 636 dias, sem jamais ser denunciado, até mesmo por pessoas enviadas para pegá-lo. Quando os fugitivos voltaram finalmente para sua aldeia, “a esmagadora maioria das pessoas, particularmente as mulheres [...] derramaram lágrimas de pena”, relembrou o filho. Como a campanha já havia acabado, eles sobreviveram.
Mas o controle tornou-se cada vez mais difuso, e com ele, a perda de liberdade em todas as frentes: de expressão, de movimento, de trabalho, de informação. Um sistema nacional de zeladorias, chamado Comitês de Manutenção da Ordem, foi criado em cada fábrica, aldeia e rua, composto por membros do público, com frequência os intrometidos mais abelhudos e hiperativos, que se tornavam cúmplices da repressão do regime. Esses comitês ficavam de olho em todo mundo, não apenas nos suspeitos políticos e pequenos criminosos. Sobretudo, o regime prendeu cada chinês em um emprego e um endereço fixo e, em geral, imutável, por meio de um sistema de registro (hu-kou) iniciado em julho de 1951, que logo se tornou férreo.
O governo usava também a campanha de “repressão aos contrarrevolucionários” para atacar todo tipo de crime não político, como banditismo comum, gangsterismo, homicídio, roubo, jogo, tráfico de drogas e prostituição (as prostitutas “liberadas” foram organizadas para fazer trabalho manual). Graças à organização fenomenal e à impiedade, essas ações foram muitíssimo bem-sucedidas. No final de 1952, o tráfico de drogas praticamente desaparecera, assim como os bordéis.
Mao disse várias vezes que suas matanças “eram extremamente necessárias”. “Somente depois que essa coisa é feita de forma correta, nosso poder pode estar seguro”, declarou.
Enquanto numerosos chineses eram executados, apenas dois estrangeiros, que se saiba, sofreram esse destino: o italiano Antonio Riva e o japonês Ryuichi Yamaguchi. A acusação não foi pequena: planejar matar Mao com um morteiro quando ele estivesse na praça Tiananmen, em 1 o de outubro de 1950, Dia Nacional. Os dois homens foram presos dias antes, junto com vários outros estrangeiros. Dez meses depois, em 17 de agosto de 1951, foram conduzidos em jipes abertos pelo centro de Pequim e fuzilados em público perto da ponte do Céu. A notícia ganhou manchete no Diário do Povo do dia seguinte: “O caso dos espiões dos Estados Unidos que tramavam uma rebelião armada”. A matéria alegava que o assassinato fora ordenado pelo coronel David Barrett, ex-adido militar assistente americano.
Para qualquer um, ainda mais um estrangeiro, uma ordem para assassinar Mao numa ocasião de segurança máxima como o Dia Nacional, em meio a centenas de milhares de chineses organizados e extremamente vigilantes, para não mencionar cerca de 10 mil policiais e outros tantos soldados, era absurda. Na verdade, Barrett, o suposto cabeça do complô, havia deixado a China meses antes. Duas décadas depois, Chou En-lai pediu-lhe vagamente desculpas por terem-no implicado e o convidou a voltar à China. Era um reconhecimento indireto da falsidade da acusação.
Ligar o complô a Barrett ajudou a açular o sentimento antiamericano, que não era tão ardoroso quanto o regime desejava. A falsa acusação foi também usada para atingir outro alvo importante de Mao — a Igreja católica romana, cujo principal representante estrangeiro, um monsenhor italiano, foi um dos presos. Na época, a China tinha cerca de 3,3 milhões de católicos. Mao estava muito interessado no Vaticano, especialmente em sua capacidade de obter fidelidade para além de fronteiras nacionais, e seus visitantes italianos viam-se amiúde metralhados com perguntas sobre a autoridade do papa. A tenacidade e a eficácia dos católicos perturbavam o regime, que utilizou o falso caso de assassinato para acelerar a ocupação das instituições católicas, inclusive escolas, hospitais e orfanatos. Uma campanha estridente acusou padres e freiras católicos de atos hediondos que iam de puro homicídio a canibalismo e experiências médicas com bebês. Centenas de chineses católicos foram executados e muitos padres estrangeiros sofreram agressões físicas.
Em geral, as organizações religiosas e semirreligiosas foram acusadas de reacionárias e fechadas, ou colocadas sob controle rígido. Quase todo o clero estrangeiro foi expulso do país, junto com a maioria dos homens de negócios de fora, e por volta de 1953 praticamente não havia mais estrangeiros não comunistas na China. Não é preciso dizer que a imprensa e o rádio estrangeiros não comunistas foram banidos.
A “campanha para reprimir os contrarrevolucionários” durou mais de um ano, embora a repressão de rotina tenha continuado depois disso. Mao voltou então sua atenção para o controle rígido dos cofres estatais, para que os fundos que o Estado extraía do povo não caíssem em mãos privadas. No final de 1951, começou uma campanha conhecida como “os Três Antis”, tendo por alvo a malversação, o desperdício e o “burocratismo” (o que significava indolência e não a burocracia em si mesma). O principal objetivo era atemorizar aqueles que tinham acesso ao dinheiro do governo, para que não o embolsassem. Os supostos autores de desfalques eram chamados “tigres”. “Tigres grandes”, que envolviam casos acima de 10 mil yuans, estavam sujeitos à pena de morte.
Como a corrupção fora epidêmica no regime nacionalista, a campanha tinha um apelo genuíno. Muitos acharam que os comunistas estavam tentando acabar com a corrupção. O que as pessoas não percebiam era que, embora fosse verdade que, depois dessa campanha, poucos dos que tinham acesso aos cofres públicos ousariam meter a mão neles, os fundos assim acumulados pelo Estado não seriam usados no interesse do povo.
Mao era cioso em relação ao que agora se tornara, de fato, seu dinheiro. Ele bombardeava ministros do governo e líderes das províncias e do Exército com telegramas em que os instava a capturar “tigres grandes” e estabelecia cotas: “Devemos provavelmente executar de 10 mil a várias dezenas de milhares de malversadores em todo o país para poder resolver nosso problema”. Estimulou uma competição entre as províncias, instigando-as a estabelecer metas maiores, e ameaçava: “Quem desobedecer, ou é burocratista ou é ele mesmo malversador”.
O método para descobrir os supostos infratores era, como Mao recomendava, “confissão e informação”. Com essas técnicas, cerca de 3,83 milhões de funcionários civis foram interrogados e investigados (e mais no Exército). Embora não tenha sido estimulada nessa época, a tortura como espetáculo público foi usada em alguns lugares e Mao mantinha-se informado a respeito. Os russos que trabalhavam na ferrovia da Manchúria disseram ter ouvido gritos (“como se fossem de calabouços japoneses”) de escritórios próximos. Na verdade, eram de colegas chineses que passavam por uma “verificação”, isto é, tinham seus testículos esmagados com alicates de bambu.
No fim, descobriu-se que relativamente poucos funcionários haviam desviado quantias grandes o suficiente para serem classificados de “tigres grandes”. Mas Mao conseguira seu objetivo, que era instilar medo. A partir de então, poucos ousaram surrupiar dinheiro público.
Quanto ao segundo alvo, o desperdício, a campanha causou mais perdas do que as evitou. Ao deter administradores e técnicos hábeis em reuniões infrutíferas durante meses a fio, ela privou a economia de recursos humanos extremamente necessários. Em 14 de fevereiro de 1952, Tianjin relatou que o comércio no atacado se reduzira à metade, os bancos haviam parado de fazer empréstimos e as empresas privadas não ousavam comprar mercadorias. A produção industrial estava em queda, a receita tributária, em colapso, e a economia caminhava para a recessão. Na Manchúria, a produção caiu pela metade. Na verdade, o sistema de repressão era em si mesmo uma fonte importante de desperdício. Um padre belga calculou que foi interrogado, sem resultado algum, por mais de 3 mil horas ao longo de três anos, o que envolvia pelo menos três ou quatro pessoas em tempo integral (pelo menos 10 mil horas-homem), bem como uma enorme quantidade de papel, que era escasso.
Em janeiro de 1952, pouco depois do início da campanha dos Três Antis, Mao ordenou que fosse feita outra campanha ligada a ela, chamada de “os Cinco Antis”. Os crimes eram: suborno, evasão de impostos, roubo de propriedade estatal, trapaça e roubo de informação econômica. Seu alvo eram os homens de negócios cujas propriedades não haviam sido confiscadas, para forçá-los a cuspir dinheiro, bem como afastá-los pelo medo de atos como suborno e evasão tributária. Uma pessoa do alto escalão calcula o número de suicídios causados por essas duas campanhas entre 200 mil e 300 mil, pelo menos. Em Xangai, houve tanta gente saltando dos arranha-céus que ganharam o apelido de “paraquedas”. Uma testemunha ocular perguntou-se por que as pessoas saltavam na rua, em vez de no rio. O motivo, ele descobriu, era que elas queriam salvaguardar suas famílias: “Se você saltasse no rio Huangpu e fosse levado pelas águas, os comunistas não teriam um cadáver e o acusariam de ter escapado para Hong Kong e sua família sofreria. Então, a melhor maneira era saltar na rua”.
Em maio de 1953, quando terminou a campanha, Mao já alcançara seu objetivo de fazer com que as pessoas tivessem medo de tocar no dinheiro público. O funcionalismo comunista tornou-se de fato relativamente incorrupto no sentido convencional, tal como não aceitar suborno, mas ganhou um padrão privilegiado de vida, que obedecia a uma minuciosa hierarquia.
Pessoalmente, Mao não se apropriava dos cofres públicos da maneira convencional, como ditadores menores que mantinham contas em bancos suíços. Mas agia assim apenas porque não precisava se precaver contra a perda do poder. Ele assegurara-se plenamente de que tal dia jamais viria. Em vez de desviar fundos estatais, tratava-os como se fossem seus e os usava como bem entendia, sem levar em conta as necessidades da população e perseguindo quem defendesse prioridades diferentes das suas para os gastos públicos. No que tange ao estilo de vida pessoal, o de Mao era digno de rei, levado a cabo com tremendo custo para o país. Esse comportamento corrupto veio à tona assim que ele conquistou a China.
Mao vivia atrás de uma muralha impenetrável de sigilo, de tal modo que muito poucas pessoas sabiam alguma coisa de sua vida e seu mundo, inclusive onde morava, ou onde estava (ele fazia muito poucas aparições públicas). Mesmo de muito perto, não dava uma impressão óbvia de vida luxuosa. Não tinha gosto pela opulência e evitava o tipo de objeto usualmente associado ao luxo, como torneiras de ouro, antiguidades, pinturas, guarda-roupas imensos, mobília elegante. Mas essas privações não significavam restrição alguma aos seus desejos. Na verdade, ele se entregava a todos os caprichos em sua vida diária.
Mao gostava de vilas, ou casas de campo. Durante os 27 anos em que esteve no poder, mais de cinquenta propriedades foram criadas para ele, não menos do que cinco em Pequim. Em muitas delas, jamais pôs os pés. Essas mansões situavam-se em terrenos enormes, a maioria em locais lindos. Assim, em muitos lugares de grande beleza, uma montanha inteira (como as colinas da Fonte de Jade, nos arredores de Pequim) ou longos trechos de lagos (como no famoso lago Ocidental, em Hangzhou) foram isolados para seu uso exclusivo. Com frequência, havia velhas casas de campo nesses lugares, muitas de arquitetura esplendorosa. Elas foram derrubadas para dar lugar a edificações novas, projetadas e construídas sob a supervisão de suas forças de segurança, tendo por prioridade a segurança e o conforto à la Mao. Essas edificações eram à prova de balas e bombas; algumas tinham profundos abrigos nucleares. A maioria tinha o mesmo estilo: um clone de armazém, com alas idênticas, uma para Mao e outra para sua esposa, com uma enorme sala de estar no meio. Eram todas térreas, pois Mao temia ficar preso no andar de cima.
O pavimento único tinha um pé-direito muito alto, às vezes tão alto quanto um prédio de três andares, para atender ao seu gosto pelo grandioso. Uma dessas casas, construída em meados da década de 1960 nos arredores de Nanchang, tinha cerca de quinze metros de altura, com um único andar, como se fosse um monstruoso hangar cinzento. Depois da morte de Mao, muitas delas foram transformadas em pensões: seus corredores eram tão imensos que, mesmo depois de criar uma fileira de quartos de bom tamanho dentro deles, ainda sobrou espaço para um corredor de largura normal.
A construção de suas primeiras casas de campo havia começado em 1949, no momento em que entrou em Pequim. A essas seguiram-se outras, durante a campanha dos Três Antis. Uma delas, terminada em 1954, ficava em Beidaihe, na costa leste. Tratava-se de um antigo balneário da virada do século com mais de seiscentas casas, muitas delas grandes e elegantes, mas nenhuma obedecia às especificações de segurança de Mao. Assim, uma enorme edificação ao estilo dele foi enfiada num enclave com uma vista espetacular para a praia, protegida por morros de vegetação luxuriante, onde foram cavados bunkers e túneis. O acesso a toda a praia foi proibido, exceto para umas poucas pessoas autorizadas.
Em 1952, o chefe da segurança de Mao mandou avisar Hunan que deviam construir uma vila em Changsha, capital da província, para um possível regresso dele ao lar. Os líderes de Hunan não tinham certeza de que se tratava realmente de um desejo de Mao. Como isso aconteceu no auge da campanha dos Três Antis, parecia espalhafatoso demais para ser verdade. Então desocuparam as próprias casas e as reformaram para Mao. Mas ele não apareceu. Então se deram conta de que ele queria mesmo uma nova propriedade e os trabalhos de construção começaram. Só depois que a casa estava pronta foi que Mao dignou-se a aparecer para uma visita. Mais tarde, construiu-se uma segunda mansão nas proximidades. Outras casas foram edificadas em sua aldeia natal de Shaoshan. A outras províncias, que desejavam naturalmente a visita de Mao, foi dito: “Mas vocês não têm um lugar para o presidente ficar”; então elas construíram as necessárias mansões.
As casas eram constantemente reformadas para melhorar a segurança e o conforto. Na sua velhice, acrescentaram um corredor externo fechado para que ele pudesse dar caminhadas sem correr o risco de pegar um resfriado. Para minimizar o risco de assassinato, as janelas externas desses corredores eram alternadas com as dos aposentos de Mao, de tal forma que de ambas as direções via-se apenas uma parede. Outros refinamentos de segurança nas mansões mais tardias eram portões de aço nas duas extremidades do pórtico, que foi incorporado à casa, para que o carro de Mao pudesse efetivamente entrar na sala de estar.
Às vezes, até o trem de Mao entrava na casa, ou mais exatamente no jardim da frente, por um ramal especial criado para ele. Em muitos lugares, um túnel subterrâneo exclusivo ia da mansão até o aeroporto militar local. Mao dormia amiúde em seu trem estacionado em aeroportos militares, pronto para uma rápida retirada por trem ou avião, em caso de emergência. Durante todo o seu reinado, viveu em seu próprio país como se estivesse numa zona de guerra.
Ele viajava principalmente em três tipos de transporte: trem, avião e navio (quando era o caso). Mesmo quando usava apenas um deles, os outros dois seguiam juntos sempre que possível, por precaução. Quando viajava de avião, todos os outros aviões da China ficavam pousados. E quando seu trem especial avançava, sempre partindo sem aviso prévio, o sistema ferroviário do país virava um caos, pois os outros trens não podiam ficar perto do dele. Essas interrupções não eram infrequentes, pois Mao estava em constante movimento por trem. As tripulações ficavam de permanente sobreaviso e, às vezes, não tinham permissão para ir para casa durante semanas, ou até meses.
Uma extravagância especial eram as piscinas, pois Mao adorava nadar. Naquela época, elas eram raras em um país tão pobre como a China. (Em Chengdu, capital da província de Sichuan, quando construíram uma piscina para Mao, os servidores não sabiam quanto cloro deveriam pôr na água. Em consequência, os poucos que tiveram o privilégio de nadar nela ficaram com os olhos vermelhos. Mao suspeitou de envenenamento.) A primeira piscina construída para ele foi nas colinas da Fonte de Jade, bem no meio da campanha dos Três Antis. Pelas contas do próprio Mao, ela custou 50 mil yuans, quantia cinco vezes maior do que aquela que poderia condenar um “tigre grande” à morte. Em Zhongnanhai, sua residência oficial em Pequim, bem escondida atrás de um grande cartaz que dizia “Servir o Povo”, construiu-se pouco depois da campanha uma piscina interna para ele, embora já houvesse uma piscina externa exclusiva, que até a sua chegada ao poder estivera aberta ao público.
Manter essas piscinas aquecidas durante meses a fio, para o caso de Mao inventar de dar um mergulho, custava uma fortuna. A água era aquecida por vapor quente que corria por um tubo e queimava grande quantidade de combustível escasso.
Mao não economizava nos aspectos da vida de que gostava. Era um gourmet e mandava buscar suas comidas favoritas em todo o país (ele e os altos líderes raramente iam a restaurantes, cujo número encolheu com o regime comunista). Um peixe especial de Wuhan que ele apreciava tinha de ser transportado vivo por mil quilômetros dentro de um saco de plástico cheio de água e mantido oxigenado. Quanto ao arroz, ele exigia que a membrana entre a palha e o grão fosse mantida, o que significava descascá-lo manualmente e com grande cuidado. Uma vez, reclamou que não estava sentindo o gosto da membrana e disse a sua governanta que havia adquirido beribéri em consequência disso. A governanta correu até a fazenda especial na Fonte de Jade e mandou descascar um pouco de arroz exatamente como Mao queria.
Essa fazenda foi montada especialmente para plantar arroz para ele, pois supunha-se que a água de lá era a melhor. Nos velhos tempos, a fonte havia fornecido água às cortes imperiais. Agora, alimentava a plantação de arroz de Mao. As verduras de que ele gostava, assim como os frangos e o leite, eram produzidos em outra fazenda especial chamada Jushan. Seu chá tinha a fama de ser o melhor da China — Poço do Dragão — e as melhores folhas eram escolhidas para ele, no momento ideal. Toda a comida de Mao passava por um meticuloso exame médico e a cozinha era supervisionada por sua governanta, que também provava a comida. Frituras tinham de ser servidas de imediato; mas, como a cozinha ficava longe, para que os cheiros não impregnassem o caminho de Mao os criados levavam os pratos correndo até sua mesa.
Mao não gostava de entrar em banheiras ou chuveiros e não tomou banho durante um quarto de século. Em vez disso, seus criados o esfregavam todos os dias com uma toalha quente. Ele gostava de massagens diárias. Jamais foi a um hospital. As instalações hospitalares, junto com os melhores especialistas, iam até ele. Se não estava com vontade de vê-los, tinham de ficar por perto, às vezes durante semanas.
Mao jamais gostou de roupas elegantes. O que amava era o conforto. Usou os mesmos sapatos durante anos porque, como dizia, sapatos velhos eram mais confortáveis; e fazia com que os guarda-costas “gastassem” os sapatos novos para ele. Seu roupão de banho, sua toalha de rosto e suas colchas eram muito remendados, mas não com remendos comuns: eram levados especialmente a Xangai e consertados pelos melhores artesãos, custando muitíssimo mais do que artigos novos. Longe de serem indicações de ascetismo, eram singularidades do hedonista superpoderoso.
Talvez não fosse exorbitante para um líder gozar de mansões e outros luxos, mas Mao se gratificava enquanto executava outros por se apropriarem de uma fração do que ele estava torrando. E fazia isso enquanto pregava e impunha abstinência e era retratado como um “servidor do povo”. Seu duplo padrão moral tinha um cinismo abrangente que o coloca numa categoria particular.
Em nenhuma outra área da vida esse duplo padrão causou mais desgraça do que na esfera da sexualidade. Mao exigia que o povo chinês suportasse restrições ultrapuritanas. Os casais postados em diferentes partes do país ganhavam apenas doze dias por ano para estarem juntos: dezenas de milhões de pessoas eram assim condenadas a uma abstinência sexual quase o ano todo. As tentativas privadas de aliviar a frustração sexual podiam levar à humilhação pública. Um chinês patriota que retornou à “terra natal” foi obrigado a colocar um cartaz acima da sua cama no dormitório, em que fazia a autocrítica de sua masturbação.
Enquanto isso, Mao se entregava a todos os caprichos sexuais, em segredo muito bem guardado. Em 9 de julho de 1953, o Exército recebeu ordens de selecionar mulheres jovens de seus grupos de entretenimento para formar uma trupe especial na guarda pretoriana. Todos os envolvidos no episódio sabiam que sua principal função seria fornecer parceiras de cama para Mao. O chefe do Exército Peng De-huai chamou isso de “selecionar concubinas imperiais” — uma queixa que lhe custaria caro no futuro. Mas sua objeção não causou nenhum efeito em Mao e outros grupos de entretenimento do Exército foram transformados em agências de proxenetismo. Além de cantoras e dançarinas, enfermeiras e criadas eram escolhidas a dedo para as mansões de Mao, a fim de propiciar um fundo comum de mulheres dentre as quais ele pudesse escolher a que quisesse para fazer sexo.
Algumas dessas mulheres recebiam subsídios de Mao, assim como algumas pessoas de seu staff e parentes. As quantias envolvidas eram pequenas, mas ele fazia questão de autorizar pessoalmente cada transação. Mao tinha muita consciência do valor do dinheiro e durante anos conferiu as contas de sua casa minuciosamente.
O dinheiro distribuído por Mao vinha de uma conta pessoal secreta, a Conta Especial. Era onde guardava os royalties de seus escritos, pois, além de todos os outros privilégios, ele monopolizava o mercado de livros, forçando toda a população a comprar suas obras, além de evitar que a imensa maioria dos escritores fosse publicada. No auge, essa conta abrigava bem mais de 2 milhões de yuans, quantia astronômica. Para ter uma ideia do que isso significava, o staff de Mao ganhava, em média, cerca de quatrocentos yuans por ano. A renda em dinheiro de um camponês, em um ano dos melhores, podia ser de uns poucos yuans. Até os chineses mais privilegiados raramente tinham economias de mais de algumas centenas de yuans.
Mao foi o único milionário criado na China de Mao.
a Mao afirmou que o total de execuções foi de 700 mil, mas esse número não incluía aqueles que foram espancados ou torturados até a morte na reforma agrária pós-1949, que somariam pelo menos outro tanto. Depois, houve os suicídios, que, com base em várias inquirições locais, foram em quantidade semelhante à dos mortos.
b O número de pessoas presas em qualquer ano do governo de Mao foi calculado em cerca de 10 milhões. É razoável estimar que uma média de 10% delas foram executadas ou morreram de outras causas.
c Um diplomata soviético que esteve durante dez anos na China, primeiro nacionalista e depois comunista, e testemunhou de perto as campanhas de Mao, observou mais tarde, numa fonte confidencial, que por mais cruel que os nacionalistas pudessem ser, não eram nada perto do que acontecia sob o regime comunista. Ele estimou que mais chineses morreram nessas primeiras campanhas do que na guerra civil.