Mao: a história desconhecida

Jung Chang e Jon Halliday · Capítulo 21 de 69

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Mao: a história desconhecida

19. Infiltrado comunista deflagra a guerra entre China e Japão

19. Infiltrado comunista deflagra

 

a guerra entre China e Japão

 

(1937-38; 43-44 anos)

 

Em 7 de julho de 1937, uma luta entre tropas chinesas e japonesas irrompeu em um lugar próximo de Pequim chamado ponte Marco Polo. No final do mês, os japoneses já haviam ocupado as duas principais cidades do norte da China: Pequim e Tianjin. Chiang não queria declarar guerra. Não queria uma guerra total — não ainda. E tampouco os japoneses.

Àquela altura, o Japão não pretendia estender a luta para além do norte da China. Contudo, em questão de semanas, a guerra total irrompeu a mil quilômetros ao sul, em Xangai, lugar onde nem Chiang nem os japoneses desejavam ou planejavam travar uma guerra. O Japão tinha apenas 3 mil fuzileiros navais estacionados perto dessa cidade costeira, conforme o acordo de 1932. O plano de Tóquio até a metade de agosto era: “Exército somente para o norte da China”. E acrescentava especificamente: “Não há necessidade de mandar o Exército para Xangai”.

O bem informado correspondente do The New York Times H. Abend escreveu depois:

Foi lugar-comum [...] declarar que os japoneses atacaram Xangai. Nada estava mais longe das intenções deles

ou da verdade. Os japoneses não queriam e não esperavam hostilidades no vale do Yangtze. Eles [...] tinham

uma força tão pequena lá, ainda no dia 13 de agosto [...] que foram quase empurrados para dentro do rio nos

dias 18 e 19.

 

Abend percebeu que havia “planos inteligentes para perturbar o projeto japonês de confinar as hostilidades totalmente ao norte da China”. Ele estava correto ao falar de “planos inteligentes”, mas errou somente numa coisa: os planos não eram de Chiang (como pensou), mas quase com certeza de Stálin.

A rápida ocupação do norte da China pelo Japão em julho representava um perigo muito direto para Stálin. Os enormes exércitos de Tóquio estavam agora em condição de voltar-se para o norte e atacar a Rússia em qualquer lugar de uma fronteira de milhares de quilômetros. No ano anterior, Stálin identificara publicamente o Japão como a principal ameaça. Em meados de 1937, acreditamos, ele ativou um velho agente comunista que estava no coração do Exército nacionalista e detonou uma guerra total em Xangai que atraiu os japoneses para o vasto interior da China — e para longe da Rússia.

O infiltrado “dormente” agora despertado era um general chamado Zhang Zhi-zong (doravante chamado de ZZZ), comandante da guarnição Xangai-Nanquim. Em 1925, ele fora professor em Whampoa, a academia militar fundada e dirigida pelos russos em Cantão. Desde o dia de sua fundação, Moscou fez um esforço decidido para plantar agentes de alto nível nas Forças Armadas nacionalistas. Em suas memórias, ZZZ reconheceu que: “No verão de 1925, eu simpatizava completamente com o Partido Comunista e [...] era chamado de ‘professor vermelho’, ‘comandante de regimento vermelho’ [...] eu queria entrar para o PCC e disse isso ao sr. Chou En-lai”. Chou ordenou-lhe que ficasse com os nacionalistas e colaborasse “escondido” com o PCC. Em meados dos anos 1930, ZZZ manteve contato próximo com a embaixada soviética.

Na época do choque na ponte Marco Polo, ZZZ ocupava o posto central de chefe da guarnição de Xangai-Nanquim. Ele tentou convencer Chiang a lançar um “primeiro ataque” contra o Japão — não no norte da China, onde estava a luta, mas em Xangai, onde a pequena guarnição japonesa não se envolvera em nenhuma ação militar até então. Chiang não respondeu a essa proposta, embora ZZZ a tenha repetido muitas vezes. Xangai era o coração industrial e financeiro da China, uma metrópole internacional, e Chiang não queria transformá-la em campo de batalha. Além disso, estava muito próxima de sua capital, Nanquim. Ele até transferira tropas e artilharia para longe da área de Xangai, para não dar pretexto bélico ao Japão naquela área.

No final de julho, logo depois que os japoneses ocuparam Pequim e Tianjin, ZZZ telegrafou a Chiang de novo, argumentando com veemência a favor de “tomar a iniciativa” de começar uma guerra. Depois que ZZZ disse que só faria isso se os japoneses mostrassem sinais indiscutíveis de atacar Xangai, Chiang deu seu consentimento condicional, enfatizando: “Você deve esperar ordens quando isso acontecer”.

Mas em 9 de agosto, no aeroporto de Xangai, uma unidade do Exército chinês escolhida a dedo por ZZZ matou um tenente e um praça da Marinha japonesa. Um prisioneiro chinês condenado à morte foi então vestido com um uniforme militar e morto no portão do aeroporto, para parecer que os japoneses haviam atirado primeiro. O Japão deu todos os sinais de querer esfriar o incidente, mas mesmo assim ZZZ bombardeou Chiang com pedidos de lançar uma ofensiva, que o Generalíssimo vetou. Na manhã do dia 13, ele disse a ZZZ para não iniciar uma guerra “sob impulso”, mas “estudar e discutir” todos os ângulos novamente e depois apresentar seu plano. ZZZ pressionou no dia seguinte: “Este exército está decidido a começar uma ofensiva contra o inimigo às cinco da tarde de hoje. Eis o plano [...]”. No dia 14, aviões chineses bombardearam a nau capitânea japonesa Izumo, bem como tropas e aviões dos fuzileiros navais em terra, e ZZZ ordenou uma ofensiva geral. Mas Chiang o deteve: “Você não deve atacar nesta tarde. Espere por ordens”.

Como nenhuma ordem chegou, ZZZ contornou Chiang ao mandar no dia seguinte uma nota à imprensa que dizia, falsamente, que belonaves japonesas haviam lançado bombas contra Xangai e que tropas japonesas haviam começado a atacar os chineses. O sentimento antijaponês andava exacerbado e Chiang foi posto contra a parede. No dia seguinte, 16 de agosto, ele deu finalmente a ordem: “Ataque geral para o amanhecer de amanhã”.

Mas, depois de um dia de luta, Chiang ordenou uma parada, no dia 18. ZZZ simplesmente ignorou a ordem e expandiu suas ofensivas. A guerra total se tornou inevitável quando grandes reforços japoneses começaram a chegar em 22 de agosto.

Os japoneses infligiram baixas tremendas. Em Xangai, 73 das 180 divisões da China e mais de 400 mil homens entraram no conflito e foram praticamente destroçados. A luta consumiu quase toda a nascente Força Aérea da China (tão valorizada por Chiang que ele não mandara um único avião para a frente norte) e os principais navios de guerra. Ela enfraqueceu significativamente a força militar que Chiang se esforçara em montar desde o começo dos anos 1930. Os japoneses sofreram muito menos baixas, embora também pesadas: cerca de 40 mil homens.

Depois que Chiang foi forçado a entrar na guerra total, Stálin moveu-se com entusiasmo para apoiar sua capacidade de sustentar uma guerra. Assinou um tratado de não agressão com Nanquim em 21 de agosto e começou a fornecer armas aos chineses. A China não tinha condições de fabricar armas, exceto rifles. Stálin emprestou 250 milhões de dólares a Chiang para a compra de armas da Rússia — cerca de mil aviões,

tanques e artilharia — e enviou um considerável contingente da Força Aérea soviética.a Moscou mandou centenas de assessores militares, chefiados durante um tempo pelo general Vassíli Tchuikov, que falava chinês e depois ficaria famoso em Stalingrado. Nos quatro anos seguintes, a Rússia foi não apenas o maior fornecedor de armas para a China como virtualmente sua única fonte de armas pesadas, artilharia e aviões.

Moscou ficou feliz com o curso dos eventos, como o ministro do Exterior soviético Maksim Litvínov admitiu para o vice-premiê francês Léon Blum. De acordo com este, Litvínov lhe disse que “ele e a União Soviética estavam perfeitamente encantados com o fato de o Japão ter atacado a China [acrescentando] que a União Soviética esperava que a guerra entre os dois países continuasse por mais tempo possível”. Ambos os russos que tratavam com ZZZ, o adido militar Lepin e o embaixador Bogomólov, foram imediatamente chamados de volta e executados.

ZZZ foi logo forçado a se demitir do posto, em setembro, por um irado, frustrado e, sem dúvida, suspeitoso Chiang. Mas o Generalíssimo o manteve no cargo. Quando os nacionalistas fugiram para Taiwan em 1949, ZZZ permaneceu com os comunistas, assim como o agente duplo Shao Li-tzu.

A irrupção da guerra total entre Japão e China trouxe benefícios imediatos a Mao. Chiang Kai-shek finalmente cedeu à principal reivindicação dos comunistas, que até então se recusara a examinar: que o Exército Vermelho pudesse manter sua autonomia. Desse modo, Mao manteve o controle de suas forças, ainda que supostamente fizessem parte das Forças Armadas do governo central. Embora Chiang fosse o comandante supremo do Exército chinês, não podia dar ordens ao Exército Vermelho e teve de expressar seus comandos em forma de “pedidos”. Além disso, o PCC estava agora de fato legitimado. Prisioneiros comunistas foram libertados e o PCC pôde abrir escritórios em cidades importantes e publicar seus jornais nas áreas nacionalistas.

Não obstante, isso era apenas o começo dos ganhos que Mao teve com a guerra sino-japonesa, que durou oito anos e custou cerca de 20 milhões de vidas chinesas. Ela enfraqueceu muito o Estado de Chiang e permitiu que Mao emergisse na posse de um exército gigantesco de 1,3 milhão de soldados. No começo da guerra, a proporção entre o exército de Chiang e o de Mao era de sessenta para um; no final, era de três para um.

 

Com a detonação da guerra total entre China e Japão, Stálin ordenou que o Exército Vermelho chinês se envolvesse ativamente, dizendo em termos claros que o PCC deveria cooperar com os nacionalistas e não fazer nada que desse o menor pretexto a Chiang para não combater o Japão.

Nessa época, o Exército Vermelho chinês tinha cerca de 60 mil soldados regulares. Desses, 46 mil estavam na região noroeste, com capital em Yenan. Eles receberam novo nome, “o 8 o Exército de Marcha” (8EM), comandado por Zhu De, com Peng De-huai como subcomandante. Dez mil estavam no vale oriental do Yangtze, no coração da China. Eram guerrilheiros que haviam ficado para trás na Longa Marcha e que agora se tornavam o Novo 4 o Exército (N4E). Xiang Ying, o chefe desse grupo (e velho inimigo de Mao, que argumentara vigorosamente contra a presença deste na Longa Marcha), tornou-se o comandante do N4E.

No final de agosto, as três divisões que compunham o 8EM começaram a cruzar o rio Amarelo na direção da frente de batalha, que ficava a várias centenas de quilômetros para leste, na província de Shanxi. Os comandantes do Exército Vermelho e seus soldados estavam muito entusiasmados para lutar contra os japoneses. A maioria dos líderes do PCC também.

Mas não Mao. Ele não considerava a guerra sino-japonesa um conflito em que todos os chineses lutariam juntos contra o Japão. Não se via de forma alguma no mesmo lado de Chiang. Anos mais tarde, diria ao seu círculo íntimo que considerara a guerra uma questão de três lados. “Chiang, o Japão e nós — Três Reinos”, disse ele, evocando o período da história chinesa conhecido como o dos Três Reinos Combatentes. Para ele, a guerra era uma oportunidade de ver Chiang destruído pelos japoneses. Em anos posteriores, mais de uma vez agradeceu a eles por “darem uma grande ajuda”. Depois da guerra, quando alguns visitantes japoneses lhe pediram desculpas por seu país ter invadido a China, ele respondeu: “Eu antes agradeceria aos senhores da guerra japoneses”. Se eles não tivessem ocupado boa parte da China, “nós ainda estaríamos nas montanhas hoje”. Falava a sério.

Mao não tinha estratégia para expulsar os japoneses da China sem Chiang. Nem podia sonhar que o PCC pudesse enfrentar o exército de ocupação japonês depois que Chiang fosse derrotado. Todas as suas esperanças dependiam de Stálin. Mao deixara seus cálculos claros numa entrevista a Edgar Snow em 1936, ao dizer que a Rússia soviética

não pode ignorar os eventos no Extremo Oriente. Ela não pode permanecer passiva. Irá ela observar

complacentemente o Japão conquistar toda a China e fazer dela uma base estratégica para atacar a União

Soviética? Ou ajudará o povo chinês [...]? Achamos que a Rússia escolherá a segunda alternativa.

 

Portanto, o plano básico de Mao para a guerra sino-japonesa era preservar suas forças e expandir a esfera dos comunistas chineses, enquanto esperava pela ação de Stálin. Assim, quando os japoneses penetraram mais fundo no interior do norte da China, bem como na área de Xangai, Mao conseguiu a aprovação de Chiang para que o Exército Vermelho não entrasse em qualquer batalha e ficasse apenas como força auxiliar das tropas do governo. Ele não queria de forma alguma que o Exército Vermelho combatesse os invasores. Ordenou aos comandantes comunistas que esperassem que as tropas japonesas derrotassem os nacionalistas e depois, enquanto os japoneses avançavam, tomassem os territórios atrás das linhas deles. Os japoneses não poderiam guarnecer as vastas áreas da China que conquistassem — que acabaram sendo muito maiores do que o próprio Japão. Podiam apenas controlar as ferrovias e as grandes cidades, deixando as menores e o campo para quem quisesse ocupar. Mao ordenou também que seus homens capturassem os soldados nacionalistas derrotados, a fim de expandir as fileiras dos comunistas. Seu plano era seguir nas águas dos japoneses para expandir o território vermelho.

Ele bombardeou seus comandantes militares com telegramas do tipo: “Concentrem-se em criar áreas de base [...] Não em travar batalhas”. E quando os japoneses estavam varrendo a província de Shanxi, ele ordenou: “Montem nosso território em toda a província de Shanxi”. Anos mais tarde, disse que sua atitude fora: “Quanto mais terras o Japão tomar, melhor”.

A posição de Mao encontrou resistência em seus próprios comandantes, que estavam ansiosos para lutar contra os japoneses. Em 25 de setembro, o Exército Vermelho teve seu primeiro embate com o inimigo, quando uma unidade comandada por Lin Biao emboscou a retaguarda de um comboio de transporte japonês na passagem de Pingxingguan, no nordeste de Shanxi, perto da Grande Muralha. Embora tenha sido um choque menor — e contra uma unidade que não era de combate e que, segundo Lin, estava, em sua maioria, dormindo —, foi a primeira vez que os comunistas mataram japoneses (fora da Manchúria). Se as coisas tivessem corrido como Mao queria, essa luta não teria acontecido. De acordo com um relatório que Lin Biao escreveu em 1941 na Rússia (onde estava em tratamento para ferimentos a bala), Mao recusara-se várias vezes a autorizar a ação: “Quando começaram as batalhas entre o Exército japonês e o Exército nacionalista, eu pedi mais de uma vez ao CC [Comitê Central, ou seja, Mao] uma decisão para organizar um ataque poderoso contra os japoneses. Jamais recebi uma resposta e acabei travando uma batalha perto de Pingxingguan por minha própria iniciativa”.

Mao ficou furioso com isso. Esse confronto, disse ele, estava “ajudando Chiang Kai-shek” e não fizera nada em prol de sua meta — que era estabelecer território vermelho. Mas, por motivos propagandísticos, Mao inflou para além de qualquer proporção o acontecido em Pingxingguan, num esforço para demonstrar que o PCC estava mais dedicado a combater os japoneses do que os nacionalistas. Uma razão para os comunistas continuarem citando esse evento era que, literalmente, se tratava da única

batalha que haviam tido contra os japoneses em vários anos, b um confronto que matara uns duzentos japoneses, no máximo.

O Exército Vermelho teve outros pequenos sucessos, como ator menor em colaboração com tropas nacionalistas. Mas, durante todo o tempo, Mao o instava a parar de combater os japoneses e se concentrar em tomar territórios. Em meados de novembro, formou-se a primeira base comunista nova na retaguarda japonesa, perto de Pequim, chamada Jinchaji, com uma população de cerca de 12 milhões de habitantes, muitas vezes maior do que a da base de Yenan. Esse e outros imensos territórios comunistas “criaram as condições para nossa vitória” na conquista da China, disse Mao a um visitante japonês, anos mais tarde.

 

Stálin, porém, queria que os comunistas chineses lutassem contra o Japão e, para ter garantia disso, mandou seu mais fiel acólito chinês a Yenan, num avião especial, em novembro de 1937. Tratava-se de Wang Ming, que havia anos era representante do PCC no Comintern. Pouco antes de sua partida, Stálin o chamou e definiu a linha de conduta: “A principal coisa agora é a guerra [isto é, combater o Japão] [...] quando isso acabar, encararemos a questão de como lutar uns contra os outros [isto é, os comunistas contra Chiang]”.

A maioria dos líderes do PCC concordava com a linha de Stálin. Quando o Politburo se reuniu em dezembro, Wang Ming se tornou o principal defensor da política de “combater os japoneses primeiro”. O Politburo decidiu que o Exército Vermelho deveria receber ordens do QG militar nacional, do qual Chiang era chefe e o PCC, membro. Mao era contra, mas, diante de uma ordem clara de Stálin, teve de aceitar.

Os colegas de Mao mostraram sua discordância tomando uma decisão que o tiraria de sua posição de líder. Moscou dissera ao PCC para fazer um congresso, que estava atrasado havia muito tempo (o último acontecera em 1928). A pessoa que o Politburo escolheu para fazer o relatório político no congresso, que pelo rígido protocolo comunista cabia ao líder do partido, não foi Mao, mas Wang Ming. Era a liderança do PCC dizendo que queria Wang Ming como futuro chefe.

Embora Mao fosse o líder de facto do partido e reconhecido como tal por Moscou, sua posição não estava formalizada, algo muito estranho para o mundo obcecado por rituais dos comunistas. O chefe do partido ainda era nominalmente Lo Fu. E Mao também não provocava o tipo de admiração inquestionável de que Stálin era alvo.

Mao também perdera o controle do grupo de comando central, o secretariado. Pela primeira vez desde o rompimento com os nacionalistas em 1927, todos os seus nove membros se reuniram em um lugar, e cinco deles não apoiavam Mao. O líder da maioria oposicionista era Wang Ming. Xiang Yiang, comandante do N4E, havia muito tempo criticava abertamente Mao. Chang Kuo-tao, o homem que Mao tanto sabotara na Longa Marcha, odiava-o. Chou En-lai e Po Ku apoiavam Wang Ming; Chou era a favor

de lutar ativamente contra o Japão. Mao ficou em minoria. c

Wang Ming tinha a autoridade de Moscou e as credenciais de ter sido o representante do partido lá, de ter se encontrado com Stálin e de ser íntimo dos líderes comunistas internacionais. Fluente em russo e conhecedor dos meandros do Kremlin, era também ambicioso e implacável. Durante o grande expurgo na Rússia, mandara muitos comunistas chineses para a prisão ou a morte. Embora tivesse cara de bebê, fosse baixo e gorducho, esse homem de 33 anos superconfiante representava uma forte ameaça a Mao.

Mais tarde, Mao se referiria amiúde com grande rancor àquele dezembro de 1937 em que Wang Ming triunfou. Isso contrasta totalmente com o fato de ele jamais ter mencionado em sua longa vida outro evento que aconteceu exatamente na mesma época — um enorme massacre em Nanquim, no qual estima-se que 300 mil civis e prisioneiros de guerra chineses foram mortos pelos japoneses. Mao nunca comentou, então ou depois, esse massacre, a maior tragédia humana da guerra sino-japonesa para seus compatriotas.

Depois que Nanquim caiu, em 13 de dezembro, Chiang Kai-shek estabeleceu sua capital temporária mais para o interior, em Wuhan, junto ao Yangtze. Em 18 de dezembro, Wang Ming foi até lá, acompanhado por Chou e Po Ku. Eles estabeleceram uma boa relação de trabalho com Chiang. Os comandantes do Exército Vermelho iriam até lá também, para firmar conexões com os nacionalistas. Mao ficou marginalizado em Yenan. Ele se referiu com ressentimento a sua posição periférica como “cuidar da casa”, embora essa queixa mascarasse uma realidade crítica: ele usou esse tempo e o fato de que os outros estavam profundamente envolvidos na guerra para transformar Yenan em seu feudo.

A partir de Yenan, Mao travou uma luta incansável para evitar que o Exército Vermelho implementasse os planos feitos pelo QG nacional chefiado por Chiang. Quando Zhu De telegrafou, em 19 de fevereiro de 1938, para dizer que o QG do 8EM estava se mudando para leste, de acordo com o plano geral, Mao tentou fazer o Exército voltar, dizendo que os japoneses estavam prestes a atacar Yenan. Na verdade, o Japão jamais tentou atacar Yenan, afora alguns bombardeios ocasionais.

Zhu não concordou em voltar, dizendo ser provável que Mao estivesse caindo em um ardil cujo propósito era justamente afastar o 8EM do front. Mao persistiu, inundando Zhu com telegramas em que ordenava que ele e Peng voltassem a Yenan: “Em particular, vocês dois devem retornar”. Zhu e Peng responderam com um “não” definitivo em 7 de março e continuaram para o leste com suas tropas.

Para impedir Mao de emitir ordens que contradissessem a estratégia acordada, o Politburo reuniu-se de novo no final de fevereiro. Wang Ming pedira a reunião com esse objetivo — e para resolver outro assunto urgente. Em janeiro, sob a égide de Mao e sem o consentimento de Chiang Kai-shek, o novo território vermelho de Jinchaji fora proclamado publicamente uma base comunista. Isso desencadeou uma onda de anticomunismo no país, com muitos se perguntando: “Para que estamos combatendo os japoneses? Depois que o Japão for derrotado, tudo o que teremos será uma tomada do poder pelos comunistas!”. Wang Ming e seu grupo em Wuhan estavam muito descontentes com esse ato de Mao.

Uma vez mais, a maioria do Politburo ficou ao lado de Wang Ming (e confirmou que ele faria o relatório político no congresso seguinte do partido). O resumo da reunião, escrito por Wang Ming, dizia que o Exército Vermelho devia se submeter ao “comandante supremo”, isto é, Chiang Kai-shek, com “comando completamente unificado [...] disciplina unificada, planos de guerra unificados e operações unificadas”. Qualquer nova base comunista “deve obter o consentimento e a autorização prévia do governo nacionalista”. Wang Ming disse também, de forma ameaçadora para Mao, que “hoje, somente os fascistas japoneses [...] e seus lacaios [...] e os trotskistas estão tentando derrubar os nacionalistas”.

Eram as palavras de ordem de Moscou e a acusação era potencialmente mortal. Então, Mao fingiu que aceitava a política do “lutar contra o Japão primeiro”. Disse aos comandantes comunistas que podiam aceitar ordens do QG nacional e prometeu não “interferir” no futuro.

Mao estava tão nervoso que tomara medidas para evitar que Moscou soubesse de sua verdadeira posição. Na reunião do Politburo do fim de dezembro de 1937, mandou confiscar as anotações de todos os participantes sob o pretexto de “preservação”, para que ninguém pudesse citá-lo, caso decidissem denunciá-lo. Quando um novo enviado foi mandado a Moscou, maquinou para que um aliado seu, Ren Bi-shi, fosse o indicado. Ren disse aos russos que a política de Mao não era diferente da de Moscou.

Nos últimos dias de janeiro de 1938, um emissário do estado-maior soviético, V. V. Andriánov, visitou secretamente Yenan; foi o russo de mais alto posto a visitar a China. Ele trouxe a enorme quantia de 3 milhões de dólares (equivalentes a cerca de 50 milhões hoje) com o objetivo específico de aumentar o Exército Vermelho para combater os japoneses. Stálin dissera que queria que o Exército Vermelho chinês tivesse “não três, mas trinta divisões”. Moscou estava disposta a financiar essa imensa expansão, a fim de

combater o Japão. d

Andriánov perguntou a Mao quais eram seus planos para a guerra. Mao fez-lhe um relato detalhado, mas falso; disse que pretendia concentrar grandes contingentes para atacar os japoneses por meio da “guerra móvel” e sustentou que os nacionalistas estavam tratando com desdém seus esforços para cooperar com eles. Chegou mesmo a tentar demonstrar seu entusiasmo sugerindo que os japoneses — que retratou como ineficazes e sofrendo de moral baixo — eram um inimigo mais fácil de combater do que os nacionalistas.

Aquele era um momento muitíssimo precário para Mao. Ele não poderia ter deixado de registrar que Moscou havia claramente diminuído o elogio público a ele no ano anterior e criticado o PCC num texto fundamental sobre o aniversário da revolução bolchevique. Sua cumplicidade no sequestro de Chiang faria com que Stálin desconfiasse dele. Com efeito, o líder soviético vinha alimentando suspeitas de que Mao poderia ser um “agente japonês”. Funcionários do Comintern que tiveram relações com Mao foram presos e interrogados sob tortura. Ossip Piatnitski, chefe da inteligência do

Comintern, foi um deles, e e, em abril de 1938, ele denunciou Mao como um conspirador num suposto “grupo de Bukhárin”, o ex-dirigente do Comintern acusado de espionar para o Japão.

O dossiê sobre Mao incluía uma denúncia de ser “o líder do trotskismo nas profundezas mais íntimas do PCC” — uma acusação duplamente ameaçadora, pois os trotskistas chineses eram tidos como espiões japoneses. Boris Miélnikov, importante ex-agente de Moscou na China, foi acusado de ter recrutado Mao e depois ter passado para o lado dos japoneses, junto com outros altos líderes do PCC. Stálin mandou chamar Miélnikov ao Kremlin para um interrogatório cara a cara e sua execução foi retardada durante oito meses, enquanto ele era torturado para dar informações sobre o PCC. Foi durante esse período que muitos ex-agentes soviéticos na China foram executados sob a acusação de serem espiões japoneses. O destino de Mao estava na balança.

 

a De dezembro de 1937 ao final de 1939, mais de 2 mil pilotos russos fizeram missões de combate, destruindo cerca de mil aviões japoneses e até bombardeando Taiwan, que estava ocupada pelo Japão.

b Confirmado pelo próprio Lin Biao em seu relatório aos russos de fevereiro de 1941. O PCC “até hoje explora essa batalha por motivos de agitação [propaganda]. Em todos os nossos documentos, essa é a única batalha importante citada”.

c Os outros três membros do secretariado eram Lo Fu, Chen Yun e Kang Sheng.

d Quando ainda estava em Moscou, Wang Ming informou ao Comintern que Mao “me telegrafou várias vezes dizendo que eles precisam muito de dinheiro [e] pediu que continuem a mandar dinheiro todos os meses”.

e Piatnitski foi preso em 7 de julho de 1937, dia em que ocorreu o incidente da ponte Marco Polo, levando o Japão a atacar o norte da China e ameaçar a Rússia. Seu primeiro interrogatório registrado data de 11 de novembro de 1937, mesmo dia em que Stálin se encontrou com Wang Ming, antes que este partisse para Yenan a fim de pressionar o PCC e Mao a lutar contra o Japão. Eram indicações claras de que a prisão de Piatnitski tinha a ver com a guerra contra o Japão, o PCC — e Mao.