Mao: a história desconhecida

Jung Chang e Jon Halliday · Capítulo 44 de 69

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Mao: a história desconhecida

42. Os rebeldes tibetanos

 

(1950-61; 56-67 anos)

 

Desde o momento em que conquistou a China, Mao estava decidido a tomar o Tibete pela força. No encontro com Stálin, em 22 de janeiro de 1950, perguntou se a Força Aérea soviética poderia transportar suprimentos para tropas chinesas “que se preparam atualmente para atacar o Tibete”. A resposta de Stálin foi: “É bom que esteja preparando um ataque. Os tibetanos precisam ser subjugados”. O líder soviético também aconselhou inundar o Tibete com chineses han: “Uma vez que as pessoas de etnia chinesa não somam mais do que 5% da população de Xinjian, a porcentagem deles deveria ser elevada para 30% [...] Na verdade, todos os territórios fronteiriços deveriam ser povoados por chineses”. Foi exatamente isso que o regime comunista chinês tratou de fazer.

Durante 1950-51, 20 mil soldados comunistas chineses entraram à força no Tibete. Mas Mao percebeu que não teria condições de mandar mais gente para ocupar toda a região. Não havia estradas adequadas para suprir um grande exército e os soldados de Mao não estavam acostumados com a altitude, ao passo que o Exército tibetano era uma força não desprezível. Então Mao optou pelo jogo da negociação, fingindo que tornaria a região praticamente autônoma. Fazendo o papel de moderado benigno, reconheceu o Dalai-Lama, o líder espiritual e governamental, como chefe do Tibete, mandou-lhe presentes como um projetor de cinema de 16 milímetros e disse coisas tranquilizadoras às delegações tibetanas. Enquanto isso, apressava a construção de duas estradas para o Tibete.

Em setembro de 1954, o Dalai-Lama, de dezenove anos de idade, foi a Pequim a fim de comparecer à Assembleia Nacional de fachada, da qual fora designado membro. Mao encontrou-se com ele pelo menos uma dúzia de vezes durante essa estada, que durou meio ano, e decidiu encantá-lo — e desarmá-lo. Ele sabia do interesse do líder tibetano pelas ciências: “Sei que você é um homem de mentalidade reformista, como eu”, disse Mao. “Temos muitas coisas em comum”, citando a reforma educacional. “Esse era o perigo com Mao”, contou-nos o Dalai-Lama, “tudo o que ele dizia era meia verdade! Meia verdade!” Mas, junto com a sedução, Mao também o tratava com condescendência e intimidava, censurando-o por não aceitar que “a religião é veneno”.

Em um esforço para fazer o melhor que podia por seu povo, o Dalai-Lama candidatou-se a entrar no PCC. Sua inscrição foi negada. Ele tentou manter Mao de bom humor e, após retornar a Lhassa, escreveu-lhe no verão de 1955, anexando no envelope uma flor tibetana. Mao respondeu em linguagem quase sentimental:

Querido Dalai-Lama, fiquei muito feliz de receber sua carta [...] Sinto com frequência saudades suas,

saudades dos tempos felizes, quando você estava em Pequim. Quando o verei de novo? [...] Fiquei muito feliz

ao ver a flor tibetana que anexou [...] Também estou mandando uma flor para você [...]

 

No início de 1956, quando as duas estradas para o Tibete ficaram prontas, Mao partiu para a requisição de alimentos, o ataque à religião e o confisco de armas numa região chamada Kham, adjacente ao Tibete e habitada por meio milhão de tibetanos. O povo rebelou-se e, no final de março, já havia reunido uma força armada de mais de 60 mil homens, com mais de 50 mil armas de fogo. A rebelião espalhou-se como rastilho de pólvora em outras regiões em que os tibetanos eram maioria. Mao defrontou-se com grandes guerras que cobriam áreas enormes do interior e recorreu ao uso de artilharia pesada e bombardeios aéreos.

A participação em massa e a combatividade dos rebeldes mostraram a Mao que tipo de resistência ele enfrentaria no próprio Tibete. Em setembro, suspendeu seus planos de “maoizar” o Tibete.

Porém, dois anos depois, com o Grande Salto em andamento, aumentou-se drasticamente a requisição de alimentos em todo o país. Isso encontrou resistência tenaz no Tibete e nas quatro grandes províncias da China ocidental com população tibetana considerável — Gansu, Qinghai, Yunnan e Sichuan. Muitos tibetanos haviam conseguido conservar suas armas de fogo, que para os pastores eram essenciais ao sustento. Também tinham cavalos, que lhes davam mobilidade. Mas, sobretudo, tinham identidade, língua e religião próprias, que possibilitavam a organização em segredo.

Em Qinghai, que é maior do que a França, a rebelião espalhou-se por toda a província. Em 24 de junho, Mao deu ordens imediatas para sufocá-la. Ao mesmo tempo, ordenou que seus chefes de exército estivessem “prontos para enfrentar uma rebelião total no Tibete”. Deixou explícito que queria uma solução violenta e esmagadora. Em 22 de janeiro do ano seguinte, escreveu que “no Tibete, é preciso haver uma guerra geral e decisiva antes que possamos resolver o problema completamente. Os dirigentes tibetanos [...] têm agora uma força armada rebelde de 10 mil homens com moral alto e eles são nossos sérios inimigos. Mas isso é [...] uma coisa boa. Porque torna possível resolver nosso problema por meio da guerra”. Mao estava dizendo: eles me deram um pretexto para começar uma guerra. Um mês depois, escreveu: “Quanto maior o levante, melhor”.

Em 10 de março de 1959 estourou um levante em Lhassa, depois que se espalhou a notícia de que os chineses planejavam sequestrar o Dalai Lama. Milhares desfilaram diante do seu palácio e pelo resto da cidade, gritando “Fora chineses!”. No dia seguinte, Mao telegrafou uma ordem para deixar o Dalai-Lama escapar. Seu cálculo era que a morte do líder tibetano inflamaria a opinião mundial, em particular nos países budistas e na Índia, que Mao estava cortejando. Na noite do dia 17 o Dalai-Lama escapou de Lhassa e partiu para a Índia. Depois que a fuga foi confirmada, Mao disse aos seus homens: “Façam tudo o que puderem para segurar os inimigos em Lhassa [...] para que, quando nossa força principal chegar, possamos cercá-los e aniquilá-los”.

 

A guerra física foi acompanhada pela propaganda. Em 7 de abril, Mao fez inquirições sobre práticas tibetanas. Uma das coisas que estava muito interessado em saber era se a classe dirigente usava a tortura e se os lamas desobedientes eram esfolados vivos e tinham os tendões cortados. No dia 29, por ordem de Mao, começou uma vigorosa campanha pelos meios de comunicação que pintava o Tibete como um lugar terrível, onde torturas horripilantes do tipo que Mao mencionara, além do arrancar de olhos, eram ocorrências cotidianas. Ajudada por velhos preconceitos, essa campanha de propaganda foi eficaz e Mao conseguiu incutir na cabeça das pessoas que o Tibete era uma terra bárbara.

A velha teocracia tibetana tivera um lado muito sombrio, mas, em termos de brutalidade e sofrimento total, o regime de Mao era muito pior. Isso aparece numa carta de 70 mil palavras escrita em 1962 a Chou En-lai pelo segundo maior líder espiritual do Tibete, o Panchen Lama, que descreve o que aconteceu nos anos 1959-61. O que dá a essa carta um peso particular é que seu autor havia inicialmente saudado a entrada das tropas de Mao no Tibete e até aceitara a repressão da rebelião de Lhassa em 1959. Além disso, o próprio Chou reconheceu que a carta era exata.

Mao havia imposto um grau de requisição sobre a economia tibetana muito mais alto do que ela podia suportar. Nos velhos tempos, escreveu o Panchen Lama, “a comida não era assim escassa [...] não havia morte por inanição”. Mas, em 1959 e 1960, “grãos demais foram coletados, até comida e tsampa [farinha de cevada, alimento básico tibetano] nos sacos de oferenda das pessoas foram confiscados”. A requisição foi brutal: “Quase toda a comida de reserva, carne e manteiga foram confiscadas [...] Não havia óleo para acender as lamparinas, nem mesmo lenha para o fogo”. “Para sobreviver, os pastores tiveram de comer muitos de seus animais.” A população foi arrebanhada em cantinas, onde era alimentada com “ervas, cascas de árvores incomíveis, folhas, raízes e sementes de capim”. Alimentos destinados tradicionalmente aos animais tornaram-se “comidas raras, nutritivas e deliciosas”. A saúde do povo declinou de maneira dramática: “Uma infecção mínima como um resfriado provocava [...] mortes em massa. Muita gente [...] também morreu diretamente de inanição. [...] A taxa de mortalidade foi de fato terrível [...] Jamais houvera na história do Tibete tanta dor provocada pela fome”.

Enquanto escrevia a carta, o Panchen Lama visitou as regiões tibetanas. Ele descobriu que em Qinghai as pessoas não tinham nem tigelas de comer. “Na sociedade antiga, até os mendigos possuíam tigelas”, observou. No regime de Chiang Kai-shek e do senhor da guerra muçulmano Ma Pu-fang, os tibetanos de Qinghai “nunca foram pobres a ponto de não poder ter tigelas!”. Mais tarde, houve até gente que tentou invadir campos de trabalho forçado em busca de comida.

Um grande número de tibetanos foi submetido a reuniões de denúncia, inclusive o pai e a família do Panchen Lama, que escreveu: “As pessoas eram espancadas até sangrar pelos olhos, ouvidos, boca, nariz, elas desmaiavam, com os braços ou as pernas quebrados [...] outras morriam ali mesmo”. Pela primeira vez no Tibete, o suicídio tornou-se prática comum.

Com tantos tibetanos participando de rebeliões contra o regime de Mao, as tropas chinesas passaram a tratar a maioria deles como inimigos e detinham os homens adultos em muitos lugares, deixando apenas “mulheres, velhos, crianças e pouquíssimos homens jovens e de meia-idade”. Após a morte de Mao, o Panchen Lama revelou o que não ousara pôr em sua carta original: que cerca de 15% a 20% de todos os tibetanos — talvez a metade dos homens adultos — foram jogados na prisão, onde obrigaram-nos basicamente a trabalhar até a morte. Eram tratados como sub-humanos. O lama Palden Gyatso, um corajoso prisioneiro por longo tempo, contou-nos que ele e outros presos eram açoitados com chicotes de arame enquanto puxavam arados pesados.

O esmagamento das rebeliões produziu comportamentos atrozes de parte dos soldados chineses. Em um lugar, escreveu o Panchen Lama (após a morte de Mao), “cadáveres eram arrastados montanha abaixo e enterrados numa grande cova, e os parentes eram chamados e recebiam a ordem: ‘Nós aniquilamos os bandidos rebeldes e hoje é um dia de festa. Vocês todos dançarão sobre a cova deles’.”.

As atrocidades acompanharam a aniquilação cultural. Nesse período houve uma campanha chamada oficialmente de “Grande Destruição”, na qual todo o modo de vida tibetano sofreu violento ataque físico por ser “atrasado, sujo e inútil”. Mao estava disposto a destruir a religião, essência da vida da maioria dos tibetanos. Quando se encontrou com o Dalai-Lama, em 1954-55, disse-lhe que havia monges demais no Tibete e isso era ruim para a reprodução da força de trabalho. Agora, lamas e monjas foram forçados a romper seus votos de celibato e se casar. “Escrituras sagradas foram usadas como esterco e imagens do Buda e sutras foram deliberadamente usados para fazer sapatos”, escreveu o Panchen Lama. A destruição foi de um tipo que “até lunáticos dificilmente realizariam”. A maioria dos mosteiros foi destruída e “os locais ficaram com a aparência de ter sido bombardeados numa guerra”. De acordo com o Panchen Lama, o número de mosteiros no Tibete caiu de mais de 2500, antes de 1959, para “pouco mais de setenta” em 1961, e a quantidade de monges e monjas, de mais de 110 mil para 7 mil (cerca de 10 mil fugiram para o exterior).

Uma ordem particularmente dolorosa para os tibetanos foi a proibição das cerimônias budistas para os mortos. “Quando uma pessoa morre”, escreveu o Panchen Lama,

se não houver cerimônia para expiar seus pecados a fim de que sua alma seja libertada do purgatório, é tratar

os mortos com a máxima [...] crueldade [...] As pessoas diziam: “Morremos tarde demais [...] Agora quando

morremos, seremos como um cão sendo jogado porta afora!”.

 

Durante as viagens que fez no início da década de 1960, o Panchen Lama viu tibetanos correndo grande risco para encontrá-lo; eles gritavam e choravam: “Não nos deixe morrer de fome! Não deixe o budismo ser exterminado! Não deixe o povo da Terra das Neves ser extinto!”. Mao ficou “bastante descontente” com a carta do Panchen Lama e lhe infligiu muito sofrimento, inclusive dez anos na prisão.

Para o Tibete, como para toda a China, o regime de Mao trouxe uma miséria sem precedentes.