Mao: a história desconhecida

Jung Chang e Jon Halliday · Capítulo 31 de 69

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Mao: a história desconhecida

29. Comunistas infiltrados, traições e má liderança condenam Chiang

29. Comunistas infiltrados, traições

 

e má liderança condenam Chiang

 

(1945-49; 51-55 anos)

 

No início de 1947, quando do fracasso dos nacionalistas em invadir a enorme base de Mao junto à fronteira da Rússia, Chiang se deu conta de que estava em dificuldade. E não foi o único a perceber isso. Ele precisava desesperadamente de uma vitória para levantar o moral e lhe veio a ideia de tomar Yenan, a capital dos comunistas. Sua captura teria “a maior significação”, escreveu ele em seu diário, em 1 o de março. Nesse dia, confiou essa tarefa vital a um homem que gozava de sua confiança incondicional, o general Hu Tsung-nan, que era o guardião de seu filho mais jovem (adotado), Weigo, em cujo casamento representara o Generalíssimo.

Nossas investigações nos convenceram de que o general Hu era um “dormente” comunista. Ele começou sua carreira em 1924, na academia militar nacionalista em Whampoa, que Moscou fundou, bancou e para a qual forneceu a equipe, numa época em que Sun Yat-sen tentava usar o patrocínio russo para conquistar a China. Chiang Kai-shek era o comandante da academia, e Chou En-lai, diretor do Departamento Político. Muitos agentes secretos comunistas foram plantados ali e se tornaram oficiais das Forças Armadas nacionalistas.

Em Whampoa, havia fortes suspeitas de que Hu Tsung-nan era um comunista

enrustido, a mas ele tinha amigos bem situados que testemunharam a seu favor. Fez então amizade com o chefe de informações de Chiang, Tai Li, que arranjou seu casamento. Os dois se tornaram tão íntimos que Tai instruiu seus subordinados nas unidades comandadas por Hu a enviar cópias de todos os seus relatórios para o amigo; o resultado disso foi que nenhum deles ousou levantar qualquer suspeita a respeito de Hu.

Em 1947, Chiang designou Hu para tomar Yenan. No dia em que ele recebeu a missão, a mensagem apareceu na mesa de Mao, que ordenou que a cidade fosse evacuada, e milícias armadas levaram a população local para as montanhas. O grosso da administração comunista foi para a base vermelha, a leste do rio Amarelo.

Em 18 e 19 de março, Hu tomou Yenan, fato que os nacionalistas alardearam como uma grande vitória. Mas o que conquistaram foi só uma cidade fantasma. Por ordem de Mao, a população local havia enterrado não somente seus alimentos, mas todos os seus bens, inclusive utensílios de cozinha.

O próprio Mao saíra poucas horas antes, de uma maneira ostensivamente calma e até indiferente, fazendo uma pausa para olhar o pagode que era o símbolo de Yenan, enquanto seu motorista acelerava o motor do jipe (doado pela missão americana que partira), num lembrete de que os nacionalistas estavam por perto. Mao representou essa cena para instilar confiança nas pessoas que estavam a sua volta. Pouco tempo antes, as altas patentes militares de Mao haviam se espantado quando ele mandara embora a maior parte das tropas de Yenan, mantendo apenas 20 mil homens com ele para toda a região — menos de um décimo da força que Hu tinha a sua disposição, que chegava perto de 250 mil soldados.

Mao partiu para o norte ao lado de Chou En-lai, agora seu chefe do estado-maior, e madame Mao. No caminho, ele e Chou conversavam e riam, como se, nas palavras de um guarda-costas, “aquilo fosse um passeio”.

Cerca de trinta quilômetros a nordeste de Yenan, em um lugar chamado Qinghuabian, Mao pediu ao motorista que diminuísse a velocidade em um vale profundo onde as encostas de loess haviam sido transformadas pela chuva em cânions profundos. Seus guarda-costas ficaram intrigados ao vê-lo apontar e acenar com a cabeça ao lado de Chou. Uma semana depois, no dia 25 de março, eles atinariam com a explicação, quando a 31 a Brigada de Hu e 2900 soldados caíram numa emboscada naquele exato lugar.

A brigada recebera ordens de Hu para seguir por aquela estrada somente no dia anterior. Mas os comunistas haviam começado a assumir posições muitos dias antes, e Mao colocara toda a sua força de 20 mil homens nessa operação. Antes que os primeiros tiros fossem disparados, a brigada percebeu os inimigos e passou a informação por rádio para Hu, que mandou suas forças continuarem em frente, ameaçando-as com a corte marcial se desobedecessem. Os 2900 homens foram destroçados. Enquanto isso, Hu despachava o grosso de seu exército numa outra direção, para o oeste, impossibilitando que ele fosse em socorro da brigada presa na emboscada.

Três semanas depois, em 14 de abril, Mao conseguiu outra vitória, exatamente da mesma maneira, em um lugar chamado Yangmahe, quando uma das unidades de Hu marchou direto para uma armadilha. Cinco mil homens foram mortos, feridos ou capturados. Tal como na vez anterior, Hu afastara sua força principal para longe e a unidade condenada ficou isolada do resto do seu exército por ravinas intransponíveis.

Em 4 de maio, aconteceu uma terceira barbada, quando os comunistas tomaram o principal depósito avançado de Hu, em Panlong. Uma vez mais, Hu mandara sua força principal numa busca inútil, deixando o depósito com pouca defesa. Tanto seus defensores como a força principal informaram que unidades comunistas “estavam escondidas” perto do depósito, mas Hu disse que elas eram alarme falso. Quando a força principal chegou ao seu alvo, descobriu uma cidade vazia.

O depósito de Panlong rendeu aos comunistas uma grande quantidade de alimentos, roupas, munição e suprimentos médicos, enquanto os nacionalistas ficavam à míngua. Alguns se viram reduzidos a tirar sapatos de cadáveres comunistas em putrefação. “Por mais que a gente os lavasse, não conseguia eliminar o fedor horrível”, relembrou um deles. Muitos ficaram doentes, mas estavam sem medicamentos.

Depois dessas três vitórias em dois meses da tomada de Yenan pelos nacionalistas, os comunistas divulgaram a notícia de que Mao havia permanecido na região. A implicação disso era clara: embora não estivesse na capital, o comandante supremo do PCC conseguira sobreviver e operar na área e tinha os eventos sob seu controle.

Mao permaneceu dentro de um raio de 150 quilômetros do QG de Hu em Yenan durante um ano inteiro, viajando com um grupo de oitocentas pessoas, número que por fim chegou a 1400, inclusive uma companhia de cavalaria. Um considerável corpo de comunicações operava 24 horas por dia, mantendo contato com exércitos comunistas e bases em toda a China e com a Rússia.

Mao andou de lugar em lugar pela primeira vez desde que passara a governar aquela região, havia uma década. Uma liteira estava a sua disposição, mas ele preferia caminhar e cavalgar, ao contrário do que fizera na Longa Marcha, ficando em excelente forma. Seu cozinheiro levava seus alimentos preferidos, como pimentões e linguiças. Ele quase nunca comia com as pessoas do lugar ou em restaurantes, por medo da má higiene, ou de veneno. Dormia tão bem que até dispensou os comprimidos para dormir, e estava de muito bom humor. Fez bastante turismo e posou para uma equipe de cinejornal que veio da Manchúria para filmá-lo. Madame Mao obteve uma câmera e tirou muitas fotografias, dando início a um hobby no qual se tornou bastante competente depois. Os médicos russos vinham com frequência da base comunista ao leste do rio Amarelo para fazer checkups em Mao e informar Stálin sobre seu estado de saúde.

Durante esse ano, a maior parte da região de Yenan permaneceu sob controle dos comunistas; o vasto Exército de Hu foi enviado para uma grande emboscada atrás da outra, sempre seguindo o mesmo padrão: unidades isoladas cercadas e dominadas por forças comunistas concentradas, enquanto as forças principais corriam atrás do próprio rabo em outro lugar. O batalhão de artilharia, soberbamente treinado, caiu inteiro nas mãos dos comunistas e veio a compor uma parte significativa da artilharia de Mao. Outra emboscada espetacular enterrou uma das unidades de primeira ordem de Hu, quando ele ordenou que ela voltasse a Yenan, dizendo que a cidade estava ameaçada. Ela foi cercada num vale estreito das montanhas e estraçalhada pelo bombardeio. Enquanto o Exército de Hu era assim destruído em escala maciça, Mao aparecia como um gênio militar, capaz de tirar vitórias espetaculares da cartola.

 

* * *

 

Em um momento, Mao escapou por um triz. Aconteceu em junho de 1947, quando estava havia quase dois meses numa aldeia chamada Wangjiawan, morando com uma família camponesa, na primeira vez que conviveu intimamente com as pessoas do lugar. Ali, dava caminhadas e cavalgava por prazer. Quando o tempo esquentou, decidiu que queria um lugar à sombra para ler ao ar livre, então seus guarda-costas derrubaram algumas árvores para fazer colunas, trançaram os galhos e folhas e fizeram um caramanchão, onde ele lia todos os dias, estudando inglês para relaxar.

Em 8 de junho, um dos comandantes de Hu, chamado Liou Kan, apareceu de repente nas proximidades com uma grande força. Ele recebera a dica sobre a presença de Mao de um morador do lugar que fugira da área comunista. Mao ficou furioso, gritou com Chou En-lai e seguiu-se uma discussão acalorada sobre a melhor rota de fuga. O lugar seguro mais próximo era uma base vermelha a leste do rio Amarelo, onde barcos e carros estavam sempre a postos para a travessia. Mas era longe demais e Mao decidiu seguir para oeste, na direção do deserto de Gobi — depois de tomar a precaução de arrebanhar um grande número de moradores da aldeia, que foram evacuados à força na direção oposta, como chamariz.

Mao partiu em meio a uma tempestade de trovoadas e raios, carregado por guarda-costas nas trilhas da montanha escorregadias demais para os cavalos. Foi imposto silêncio aos rádios para minimizar as chances de detecção — com exceção de um aparelho, que trabalhou sem parar, quase certamente para contatar Hu e pedir que ele

chamasse de volta suas tropas. b

Foi exatamente o que aconteceu. Em 11 de junho, Liou Kan estava tão perto dos calcanhares de Mao que os comunistas podiam escutar suas tropas e ver suas tochas. Os guardas de Mao disseram sentir que seus cabelos pareciam “estar arrepiados”. Quando se preparavam para defendê-lo até a morte, Mao emergiu de uma caverna todo sorrisos, prevendo que o inimigo passaria ao lado deles. Naquele instante, diante dos olhos atônitos dos guardas, as tropas nacionalistas passaram correndo, sem molestá-los de forma alguma. Hu mandara Liou Kan largar tudo e correr para seu destino original, Baoan, antiga capital de Mao.

Esse incidente pode ter deflagrado um pedido urgente a Stálin para tirar Mao da China e levá-lo para a Rússia. Um telegrama de Stálin do dia 15 de junho é uma clara resposta a tal solicitação. O dirigente soviético ofereceu um avião para buscá-lo.

Mas, àquela altura, Mao estava em segurança. No dia anterior ao telegrama de Stálin, ele mandara uma mensagem alegre aos colegas da base comunista situada a leste do rio Amarelo: “De 9 a 11 deste mês, as quatro brigadas de Liou Kan realizaram um desfile onde estávamos [...] Afora uma pequena perda para a população, nenhuma baixa. Agora, o Exército de Liou [Kan] está andando para lá e para cá entre Yenan e Baoan”. Mao não aceitou a oferta de Stálin dessa vez. Mesmo assim, mandou construir uma pista de pouso na margem oriental do rio Amarelo, para alguma emergência.

Dentro de pouco tempo, Liou Kan encontrou a morte. Em fevereiro de 1948, recebeu ordens para reforçar a cidade de Yichuan, entre Yenan e o rio Amarelo. Havia três rotas possíveis e a escolhida para ele pelo general Hu passava por um vale estreito e coberto de árvores. Seus batedores encontraram uma forte concentração de tropas comunistas e uma indicação clara de emboscada. Liou passou um radiograma a Hu pedindo permissão para atacar os emboscados e depois mudar de rumo. Hu negou terminantemente a permissão.

Wang Ying-tsun, um dos comandantes de divisão de Liou Kan, escreveu depois: “Após essa ordem, que ignorava completamente a situação real e nossos interesses, oficiais e soldados perderam o ânimo [...] todos marcharam em silêncio, de cabeça baixa [...]”. Eles caminharam direto para o cerco e foram praticamente aniquilados. Seis generais foram mortos e Liou Kan suicidou-se. O comandante de divisão conseguiu escapar e mais tarde se encontrou com Hu. Segundo ele, o general “expressou hipocritamente seu pesar e perguntou por que havíamos avançado se não tínhamos tropas suficientes. Pensei: foi ordem sua e meus homens foram encurralados e mortos”. O comandante de divisão testemunhou: “Depois que o 29 o Exército de Liou Kan foi destroçado, não é preciso dizer que as tropas de Hu Tsung-nan perderam o moral. Ademais, o estado mental de toda a área de Chiang foi tremendamente abalado”. Essa derrota selou o destino dos nacionalistas no teatro de operações de Yenan e frustrou todo o objetivo de Chiang de capturar a cidade, que seria o de reforçar o moral e a confiança no país em geral.

Chiang sabia que Hu estragava tudo em que tocava. Em 2 de março de 1948, o Generalíssimo escreveu em seu diário: “Essa catástrofe custou mais de um terço da principal força [comandada por Hu]”, e que Hu estava “seguindo o mesmo caminho fatal sem parar”. No entanto, quando ele dissimuladamente apresentou sua demissão, Chiang a recusou, com um único lamento: “A perda de nossas tropas em Yichuan não é apenas o maior revés da campanha do Exército nacionalista contra os bandidos, mas também um sacrifício sem sentido. Bons generais mortos, todo um exército massacrado. A dor e a angústia estão me consumindo”. Uma investigação pouco rigorosa pôs a culpa do desastre em Liou Kan, que estava morto. O sistema nacionalista seguiu sua tradição de fechar fileiras, em especial depois que os outros viram que Hu estava tão seguro nas graças de Chiang.

O fato de o Generalíssimo ter permitido que Hu escapasse impune de todo um ano de derrotas incríveis, todas conforme o mesmo padrão, diz muito sobre sua liderança e sua capacidade de julgamento. Ele confiava em pessoas de quem gostava e as apoiava independentemente do que acontecesse, muitas vezes de forma sentimental. Era também teimoso e permanecia fiel aos próprios erros. Chegou a permitir que Hu tirasse tropas de outros teatros vitais. O principal assessor militar americano, general de divisão David Barr, observou que Hu “persuadiu” Chiang “a reforçar sua guarnição de Xian a tal ponto que isso se mostrou depois desastroso para os nacionalistas no centro-leste da China”; as perdas fundamentais que ali ocorreram foram “resultado direto dessa mudança de tropas para o oeste”, onde, observou Barr, elas foram inúteis ou destruídas.

Em 23 de março de 1948, Mao deixou finalmente a região de Yenan e, atravessando o rio Amarelo, seguiu para leste, na direção da base comunista, de forma aberta, com uma multidão organizada de camponeses se despedindo na margem do rio. E ele apertou a mão de quadros locais antes de subir no barco. Essa abertura incomum tinha por objetivo mostrar que não estava saindo furtivamente. E o fato de que os comunistas estavam se dando bem foi reforçado um mês depois, quando Hu abandonou totalmente Yenan. Nos últimos doze meses, havia perdido 100 mil soldados. A recuperação de Yenan poderia ser explorada pela propaganda comunista, mas Mao adotou uma posição extremamente discreta. Shi Zhe esperava que ele explorasse ao máximo a situação: “Então esperei ao seu lado [...] Mas nada aconteceu”. Mao não queria atrair mais atenção para Hu, para evitar que ele fosse demitido.

Hu continuou a causar catástrofes ainda mais espetaculares para Chiang, perdendo muitas centenas de milhares de soldados e um terço de todas as armas americanas que os nacionalistas possuíam. Quando Chiang fugiu para Taiwan, ele seguiu junto. Lá, foi imediatamente afastado, sob a acusação de ter “causado o maior dano a nosso Exército e nosso país”. Mas seu afastamento não vingou, graças à proteção do Generalíssimo. Chiang chegou a colocá-lo na chefia de operações de infiltração na China continental: todas malograram. Hu morreu em Taiwan, em 1962. Chiang pode ter tido dúvidas em seus últimos anos de vida. Hau Po-tsun, chefe de sua guarda (e depois primeiro-ministro de Taiwan), contou-nos que Chiang demonstrava aversão à menção da academia de Whampoa, que geralmente se supõe ter sido sua base. Muitos comunistas infiltrados haviam saído de lá.

 

Agentes comunistas continuaram a desempenhar um papel fundamental nas derrotas que Chiang sofreu nas três campanhas militares de 1948-49 que decidiram a guerra civil. A primeira aconteceu na Manchúria, onde o Generalíssimo escolheu para seu comandante supremo um general chamado Wei Li-huang. Nesse caso, não só haviam dito a ele que Wei era um agente comunista, como ele realmente suspeitava disso. Mesmo assim, o colocou no comando dos 550 mil melhores soldados nesse teatro de operações crítico, em janeiro de 1948.

Wei pedira para entrar no PCC em 1938. Mao passou a notícia a Moscou em 1940, dizendo aos russos que o PCC instruíra Wei a ficar secretamente com os nacionalistas. É provável que Wei tenha se decidido pela traição por ressentir-se de que Chiang não o promovia ao alto posto de que se julgava merecedor. Wei dissera então a companheiros: “Vou passar para os comunistas [...] Yenan é legal comigo [...] Vamos trabalhar com os comunistas para derrubá-lo [Chiang]”.

Na época, um desertor comunista contara a Chiang sobre as ligações secretas de Wei e, por isso, ele deixara-o novamente para trás nas promoções do Exército depois de 1945, ainda que Wei tivesse lutado bem na Birmânia contra os japoneses e conquistado o título de “Wei Cem Vitórias”. O general tinha ficado ainda mais ressentido e seguira para um exílio autoimposto no exterior.

O motivo de Chiang trazê-lo de volta em 1948 e lhe dar uma missão tão crucial foi que o Generalíssimo estava tentando freneticamente agradar aos americanos, que tinham em alta conta o desempenho de Wei na Birmânia e o consideravam um importante “liberal”. William Stokes, então vice-cônsul dos Estados Unidos em Shenyang, nos contou que Chiang designou Wei “numa tentativa inútil de ganhar mais equipamentos e financiamentos americanos, porque Wei era reconhecido pelos americanos como um líder militar comprovado”.

No momento em que recebeu o chamado de Chiang, Wei avisou a embaixada russa em Paris e, a partir de então, combinou todos os seus movimentos com o PCC. Em primeiro lugar, retirou suas tropas para algumas cidades grandes, permitindo assim que os comunistas assumissem o controle de 90% da Manchúria sem um combate e que depois cercassem essas cidades.

Mao queria que as tropas nacionalistas sob o comando de Wei ficassem na Manchúria, para que pudesse destruí-las. Assim, este ignorou repetidas ordens de Chiang para remover as tropas para Jinzhou, o entroncamento ferroviário mais meridional da Manchúria, numa preparação para se retirar completamente da região (medida que o general americano Barr também recomendara). Em vez de tirar Wei do comando, Chiang discutiu durante meses com ele — até que os comunistas tomaram Jinzhou, em 15 de outubro, prendendo a maior parte das centenas de milhares de soldados nacionalistas na Manchúria. As tropas de Mao isolaram rapidamente as forças de Wei nas cidades ainda mantidas pelos nacionalistas e as atacaram uma de cada vez. Com a queda de Shenyang em 2 de novembro, a Manchúria inteira ficou nas mãos de Mao.

Por seu desempenho na região, Chiang colocou Wei em prisão domiciliar e houve pedidos para que fosse submetido à corte marcial. Mas o Generalíssimo, que raramente executava, ou mesmo mantinha preso, qualquer de seus altos comandantes ou oponentes, deixou Wei ir embora e ele foi para Hong Kong, sem ser molestado. Um ano depois, dois dias após a proclamação da República Popular da China, Wei telegrafou a Mao, sacudindo a cauda: “Sábia orientação [...] magnífico triunfo [...] grande líder [...] júbilo, alegria e apoio entusiástico [...] Estou saltando 3 mil metros, como um pássaro”. Mas ele se recusou cinicamente a ir viver sob o regime de Mao e tentou fazer contato com a CIA em 1951, para apoiá-lo a liderar uma terceira força. Finalmente, mudou-se para a China continental em 1955.

Mao falou sobre Wei a seu sobrinho, em termos devastadores: “Wei Li-huang só voltou depois que seus negócios faliram em Hong Kong. Um homem como Wei Li-huang é desprezível”. E ele fez questão de deixar seu desprezo manifesto. Os velhos contatos comunistas de Wei receberam ordens para recusar seus convites para jantar e a desconsideração continuou até sua morte em 1960, em Pequim. Sua ajuda fundamental a Mao ainda hoje é abafada, pois o gênio militar deste pareceria muito menos brilhante se se soubesse que o mais alto comandante inimigo entregou grande parte de sua força — e muitos dos melhores soldados de Chiang — numa bandeja.

 

Durante toda a campanha da Manchúria, Mao nunca esteve lá. Encontrava-se em seu novo QG, em Xibaipo, 240 quilômetros a sudoeste de Pequim. Em novembro de 1948, depois que a Manchúria caiu em suas mãos, ordenou que o exército que estava lá, sob o comando de Lin Biao, fosse para o sul. Essa força tinha agora 1,3 milhão de soldados e sua nova missão era enfrentar o Exército nacionalista no norte da China, com 600 mil homens e comandado por Fu Tso-yi, um general famoso que travara a primeira batalha vitoriosa da China contra títeres do Japão, em 1936. O encontro entre Lin e Fu, conhecido como a campanha Pequim-Tianjin, foi a segunda das três campanhas fundamentais que decidiram a guerra civil.

Ao contrário de Wei, Fu não era um comunista disfarçado. Mas estava cercado por pessoas que o eram, a começar por sua filha, que recebeu do partido a missão de ficar ao lado do pai nesse período e informar todos os seus movimentos. Chiang tinha alguma ideia dessa situação, mas não tomou nenhuma medida para remediá-la.

Em novembro, mesmo antes de Lin partir da Manchúria para o sul, Fu já decidira render-se, sem contar a Chiang. Ele perdera a fé no regime do Generalíssimo e decidira tentar salvar a área que estava sob seu comando de uma devastação inútil — a começar por Pequim, a capital cultural da nação, onde estava seu QG. Ele não o fez por nutrir alguma ilusão quanto ao regime comunista, o qual, conforme disse em público na época, traria “crueldade [...] terror e tirania”, e a decisão de render-se causou-lhe grande angústia. Ele passou a se descontrolar, foi visto estapeando a própria face e pensou em suicídio.

Chiang sabia o que estava acontecendo com Fu. Em 12 de dezembro, escreveu em seu diário que ele estava “profundamente deprimido [...] e parece estar ficando louco”. Mas mesmo assim recusou-se a tirá-lo do comando, e quando Fu ofereceu sua renúncia, Chiang a rejeitou com um piegas “10 mil nãos”.

Mao mantinha-se informado sobre a condição mental de Fu graças à filha dele e decidiu que poderia extrair mais da situação do que uma simples rendição. Poderia estabelecer sua imagem pública de gênio militar que havia derrotado Fu, o famoso herói de guerra. Assim, quando o general nacionalista procurou negociar a rendição, Mao segurou seus enviados durante dois meses, sem aceitar a rendição, mas também sem negá-la, enquanto mantinha ataques ao exército de Fu. Àquela altura, este estava bastante incapacitado para o comando. Um oficial relembrou como durante uma batalha fundamental, quando lhe pediram instruções, “Fu estremeceu, vacilou e depois disse com apatia: ‘Toquem de ouvido’. Naquele momento, pensei que estávamos liquidados”. Como era de se prever, o exército de Mao tomou cidade após cidade, inclusive Tianjin, a terceira maior da China, que caiu em 15 de janeiro de 1949. Somente depois de criar para si mesmo uma imagem militar de matador de gigantes foi que Mao aceitou a oferta de Fu da rendição de Pequim. Mao pôde assim dizer que Fu optara pela paz só depois de ser totalmente derrotado no campo de batalha — pelo próprio Mao. A verdade é que toda a campanha, que custou dezenas de milhares de vidas, não precisava ser travada. Abatido, Fu colaborou com Mao até sua morte na China continental, em 1974.

 

Mais ou menos na mesma época da falsa campanha Pequim-Tianjin, uma terceira, enorme e mais genuína, era travada no coração da China, ao norte de Nanquim, a capital de Chiang. Conhecida como a campanha de Huai-Hai, ela envolveu muito mais que 1 milhão de homens e durou de novembro de 1948 a janeiro de 1949. O principal comandante nacionalista não era um agente comunista nem estava mentalmente destroçado. Mas logo abaixo dele havia “dormentes” vermelhos situados de modo estratégico, inclusive dois generais que eram membros secretos do partido havia dez e vinte anos respectivamente, que abriram a porta para esse campo de batalha dentro de 48 horas depois do início da campanha.

Os principais sabotadores eram dois outros indivíduos situados dentro do QG do próprio Chiang, chamados Liu Fei e Kuo Ju-kui, envolvidos intimamente no traçado dos planos de batalha para a campanha. Eles colocavam os nacionalistas sempre na defensiva ao fazer deliberadamente deslocamentos de tropa equivocados e recomendações errôneas, ao mesmo tempo que passavam os planos para os comunistas.

Chiang dependia bastante de Kuo, com quem falava ao telefone quase todos os dias e a cujos conselhos ruinosos dava atenção. Na verdade, os comandantes de campo suspeitaram dele naquela época e ele chegou a ser denunciado como espião por ninguém menos que Weigo, o filho adotivo de Chiang. Mas o Generalíssimo não fez nada até que fosse tarde demais e, mesmo então, apenas transferiu Kuo para Sichuan — por recomendação do outro agente infiltrado, Liu Fei. Em Sichuan, Kuo se renderia depois e entregaria um exército inteiro.

Em meados de janeiro de 1949, Mao já triunfara nas três campanhas. O país ao norte do Yangtze, onde 80% das tropas de Chiang haviam estado estacionadas, era dos comunistas. Ele agora queria infiltrar agentes nas áreas ao sul do rio, que esperariam por seu exército e então se renderiam no momento oportuno. Mandachuvas nacionalistas desertaram aos magotes. Em 7 de janeiro, Mao informou a Stálin que “muitos homens proeminentes” de Chiang, inclusive o ministro da Defesa Pai, estavam buscando acordos: “Pai Chung-hsi disse ao nosso pessoal: qualquer ordem que vier do PCC, eu a cumprirei imediatamente”. (Pai na verdade não acompanhou Mao.) Mao disse aos suplicantes que ficassem com Chiang e, em alguns casos, que até apresentassem resistência e esperassem pelo momento certo. Embora o Yangtze constituísse uma barreira extraordinária e Chiang tivesse uma Marinha considerável, esses velhos e novos traidores asseguraram a abertura do caminho para a capital Nanquim, para o centro financeiro, Xangai — e para o resto do país. Em 9-10 de janeiro, Mao informou a Stálin que seu governo poderia “ser criado no verão”, ou “antes”.

A vitória de Mao na guerra civil contou com uma enorme ajuda do mau julgamento de Chiang a respeito das pessoas — embora também não fosse fácil detectar e eliminar os comunistas infiltrados. Por sua vez, a política de Mao era não correr o menor risco. As campanhas de terror em Yenan e nas outras áreas comunistas haviam revelado e cortado praticamente todas as conexões que os indivíduos comunistas tinham com os nacionalistas, e essa destruição total da privacidade significava que não havia maneira de eles contatarem os nacionalistas, mesmo que quisessem.

E Mao nunca afrouxava. Cada vez que conquistava mais território e gente, tomava medidas inflexíveis para impor o controle, exigindo que cada novo membro do partido declarasse por escrito todas as suas relações familiares e sociais — e isso era apenas o início. Ele jamais deixava de procurar e tampar qualquer furo possível. Pouquíssimos agentes, nacionalistas ou estrangeiros, sobreviveram à sua observação e certamente nenhum chegou a alguma posição de importância.

 

Os fortes sentimentos de Chiang para com sua esposa contribuíram muito para que ele perdesse a China. Seu primeiro-ministro após a guerra sino-japonesa foi T. V. Soong, que era irmão de madame Chiang. Os Soong e os Kung, família do marido da irmã mais velha de madame Chiang, locupletaram-se com as políticas de T. V. Após a rendição japonesa, ele estabeleceu uma taxa de câmbio absurda de um para duzentos para a moeda do governo títere fora da Manchúria. Isso fez com que a riqueza da família engordasse, mas empobreceu toda a população das áreas do país que haviam sido ocupadas pelos japoneses, o que incluía cidades como Xangai e Nanquim, com o grosso da classe média chinesa. Em seu governo, os funcionários da retomada se entregaram à extorsão disseminada, abalando os ricos ao chamá-los de “colaboradores”. O próprio Chiang reconheceu que seus funcionários “se abandonavam à extravagância extrema, entregando-se à devassidão e jogando sem freios [...] Eles fanfarreiam, pavoneiam-se e extorquem e não se detêm diante de nada”. “A calamidade da vitória” — foi como o influente diário Ta Kung Pao descreveu a retomada.

Na época da rendição japonesa, Chiang parecia ser um vencedor coberto de glória, mas em pouco tempo mergulhou no declínio. Hiperinflação, crises de abastecimento, entesouramento e pânico das compras se tornaram endêmicos nas cidades. Sob o comando de T. V. Soong, o governo conseguiu dissipar não somente as próprias reservas, como também as reservas em ouro e moeda estrangeira que herdou do governo títere.

Os Soong e os Kung tinham acesso às reservas em moeda estrangeira a taxas preferenciais, o que lhes permitia vender mercadorias americanas na China com enorme lucro, provocando o maior déficit comercial da história do país em 1946. Esse dumping causou a falência de fatias da indústria e do comércio e T. V. foi forçado a renunciar do cargo de primeiro-ministro em 1 o de março de 1947, depois de ser ferozmente atacado na Assembleia Nacional e na imprensa. Chiang ordenou uma investigação, que concluiu que empresas de Soong e Kung haviam convertido ilegalmente mais de 380 milhões de dólares.

Mas tudo o que o Generalíssimo fez foi demitir T. V., o que chocou e afastou muitos seguidores devotados e incorruptos. A desmoralização acelerou-se no meio da população, enquanto muitos denunciavam o regime como “um bando de ladrões” e “sanguessugas”. A omissão de Chiang, em especial o fato de não enfrentar o mau procedimento da família de sua esposa, fez com que ele também perdesse apoio nos Estados Unidos.

O relatório da investigação sobre os parentes de Chiang foi mantido em segredo. Então, o Diário Central, jornal dos próprios nacionalistas, conseguiu uma cópia e a publicou em 29 de julho, causando sensação. Dois dias depois, após telefonemas irados de madame Chiang para o marido, o jornal foi obrigado a publicar uma nota alegando que errara a colocação do ponto decimal e baixando a quantia tomada pelas famílias, de mais de 300 milhões, para 3 milhões de dólares.

Chiang deixava que seus sentimentos pessoais ditassem suas ações políticas e militares. Ele perdeu a China para um homem que não tinha nenhum de seus pontos fracos.

 

a Em parte, isso se devia a sua amizade íntima com um homem chamado Hu Kung-mien, tido comumente na época como agente secreto comunista, fato que Pequim já reconheceu. Durante a guerra contra o Japão, quando estava estacionado ao sul de Yenan, Hu Tsung-nan fez desse homem seu representante junto a Mao.

b Os rádios de Mao mantinham comunicação regular com agentes comunistas no exército de Hu, “então a ação deles estava totalmente sob controle”, contou-nos um dos seus operadores de rádio, acrescentando que “a identidade de alguns dos agentes infiltrados não foi revelada até hoje” (1999).