Mao: a história desconhecida

Jung Chang e Jon Halliday · Capítulo 17 de 69

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Mao: a história desconhecida

Parte III

 

A montagem de sua base de poder

15. A conveniente morte

 

do anfitrião de Mao

 

(1935-36; 41-42 anos)

 

Na década seguinte, o lar de Mao foi o platô da Terra Amarela, no noroeste da China, perto do rio Amarelo, o segundo maior do país e berço da civilização chinesa. A base tinha uma população de quase 1 milhão de habitantes, que ocupava bem mais de 30 mil quilômetros quadrados, principalmente no norte de Shaanxi, mas que atravessava a fronteira de Gansu, a oeste. Longe do centro do país, naquele momento era o único território vermelho seguro em toda a China.

A paisagem era dominada por vastas extensões de loess, terra amarela com aparência de árida e deserta, interrompidas apenas por longas gargantas, muitas vezes com centenas de metros de profundidade, que cortavam dramaticamente o substrato mole formado pela passagem do tempo por partículas minúsculas de pó trazidas pelo vento do deserto de Gobi. A maior parte das moradias era escavada nas encostas amarelas. Era possível olhar à distância e não ver uma única alma. Wuqi, a primeira vila que Mao viu ao chegar, tinha apenas uns trinta moradores. Essa área era excepcional em termos de ser relativamente despovoada e contava com algo desconhecido em outros lugares da China: terra arável de sobra. Chiang Kai-shek escolhera um lugar para manter o Exército Vermelho vivo, mas pequeno.

O fundador da base era um comunista local chamado Liu Chih-tan, que tinha um exército de 5 mil homens — mais do que Mao. Para os simpatizantes vermelhos da região, Chih-tan era um herói. Para o bispo católico espanhol da área, cuja catedral nova em folha e outras propriedades lhe foram tomadas em julho de 1935, Chih-tan era “atrevido e um conspirador em tudo que era subversivo”.

Quando se aproximava da base, Mao observou oportunamente que a liderança de Chih-tan “não parece ser correta”, querendo dizer que ele era politicamente frouxo. E parece que Mao deu ordens secretas ao birô do partido cuja jurisdição cobria a área de Chih-tan (o Birô do Norte) para realizar um expurgo lá. Em meados de setembro, enviados do PCC caíram sobre a base, aonde, no dia 15, chegou uma unidade do Exército Vermelho de 3400 homens que viera de outro lugar da China. Juntos, eles iniciaram um expurgo selvagem. Embora as forças de Chih-tan fossem mais poderosas, ele não ofereceu resistência à tomada do poder e ao expurgo. Quando foi chamado do front e descobriu no caminho que seria preso, entregou-se.

Os enviados do partido condenaram Chih-tan por ser “consistentemente direitista” (jargão para moderado) e o acusaram de ser um agente de Chiang que havia “criado uma base do Exército Vermelho com o objetivo de destruir o Exército Vermelho”. Sua disposição de se submeter à autoridade do partido, longe de ser apreciada como um ato de lealdade, foi usada contra ele, e acusaram-no de ser “astuto, a fim de enganar o partido e fazê-lo confiar nele”. Aplicaram-se torturas hediondas. Um colega de Chih-tan teve a mão direita perfurada até o osso por um arame em brasa. Muitos foram enterrados vivos. Um sobrevivente escreveu em 1992: “Fomos presos com correntes de ferro nas pernas [...] Soubemos que a cova para nos enterrar vivos já estava sendo cavada”. Estima-se que entre duzentas e trezentas pessoas foram mortas.

Foi nesse momento que Mao chegou, a tempo de desempenhar o papel de árbitro benigno. Mandou suspender as prisões e execuções e libertou Chih-tan e seus camaradas no final de novembro. O expurgo contra eles foi considerado um “grave erro”. Dois bodes expiatórios foram repreendidos.

Desse modo, Mao conseguiu ao mesmo tempo sabotar a liderança comunista local e se apresentar como o homem que os salvou. Isso o colocou numa posição favorável para tomar-lhes a base. Graças ao expurgo, Chih-tan e seus camaradas já estavam suficientemente intimidados quando Mao apareceu (Chih-tan mal conseguia caminhar depois dos grilhões pesados) e ele pôde excluí-los das posições de comando civil e militar sem encontrar maior resistência. Chih-tan, o fundador da base, ganhou um posto menor de comandante de um destacamento intitulado “28 o Exército”, que, na verdade, não passava de um bando de recrutas novos, aos quais Mao impingiu um homem de confiança como comissário e, portanto, como chefe de Chih-tan. Este não contestou; endossou a autoridade de Mao publicamente e pediu a seus camaradas que haviam sido perseguidos que pusessem os interesses da revolução acima de seus sofrimentos pessoais.

Mao não queria ser visto como aquele que expurgara Chih-tan, pois pretendia explorar o nome dele para emprestar legitimidade e prestígio ao seu próprio domínio. Mas também não pretendia conservá-lo — porque ele era um líder local. Mao iria se envolver na extorsão da população no que se referia a alimentos, dinheiro, soldados e trabalhadores, como o PCC fizera em outras bases antes, e, como acontecera em praticamente todas as outras bases vermelhas, ele sabia que essa política encontraria resistência dos líderes locais, que poderiam comandar um levante popular contra o partido. Para cuidar de Chih-tan, Mao utilizou um método diferente daquele usado contra outras ameaças potenciais.

 

Assim que se estabeleceu, levou adiante seu projeto de abrir uma passagem até uma fronteira controlada pelos russos, onde pudesse pegar novos suprimentos e, em especial, armas. Seu plano compreendia atravessar o rio Amarelo na direção leste e entrar na província muito mais rica de Shanxi, para obter novos braços e provisões e até, quem sabe, montar uma base, antes de se dirigir para o norte, rumo à Mongólia Exterior, controlada pelos russos.

A expedição começou em fevereiro de 1936. a Ela acumulou alguns recrutas e despojos, mas foi rapidamente empurrada de volta para o lado ocidental do rio Amarelo pelas tropas de Chiang, sem se aproximar da fronteira da Mongólia. Durante essa breve operação de guerra, Chih-tan foi morto, aos 33 anos. De acordo com os livros de história, ele morreu em combate, mas os indícios esmagadores apontam para assassinato.

Chih-tan foi alvejado em 14 de abril de 1936, em um lugar chamado Sanjiao, local de balsas junto ao rio Amarelo. O relato oficial afirmou que ele foi atingido no coração por tiros de uma metralhadora que pertencera a uma unidade avançada do Exército Vermelho. Chih-tan não estava na unidade de assalto, nem foi apanhado em fogo cruzado. Ele estava a cerca de duzentos metros de distância, numa pequena colina de onde observava por telescópio. A metralhadora que supostamente o matou estava atirando numa direção muito diferente e, se formos acreditar na história oficial, ela girou de repente e soltou uma única rajada que assombrosamente acertou Chih-tan no coração — a duzentos metros de distância. Parece que essa metralhadora tinha a precisão de um atirador munido com fuzil de mira telescópica.

Havia apenas duas pessoas com Chih-tan quando ele foi atingido. Uma delas era o homem da segurança política de sua unidade, que se chamava Pei, um astro da KGB chinesa. Na Longa Marcha, ele recebera a missão crucial de vigiar os carregadores dos fundos do banco do regime. O outro homem presente era um guarda-costas. Depois que Chih-tan foi alvejado, Pei mandou o guarda-costas “buscar um médico”, de acordo com seu próprio relato, e foi a única testemunha que viu quando Chih-tan “parou completamente de respirar”. Parece haver poucas dúvidas de que ele foi morto por Pei.

A sequência de eventos em torno da sua morte sugere fortemente que ela foi coreografada por Mao. Uma semana antes, Mao telegrafou a Chih-tan informando que a unidade do 28 o Exército “a partir de agora está sob o comando direto deste QG”. Não havia nenhuma razão aparente para tal ordem — exceto, é óbvio, que desse modo qualquer coisa que acontecesse a Chih-tan não seria mais relatada através da cadeia normal de comando, mas iria direto para Mao. Dois dias depois disso, Mao designou Chih-tan para o Conselho Militar, do qual fora anteriormente excluído. Isso equivalia a elevá-lo a uma posição militar importante. Se morresse nesse momento, teria o status de um herói e seus homens seriam mantidos satisfeitos. Por fim, no dia 13, o próprio Mao ordenou a Chih-tan que se dirigisse para Sanjiao, onde foi morto no dia seguinte.

Quando Chih-tan foi enterrado, sua viúva foi mantida longe. “Você não está bem”, disse Chou En-lai, “e vê-lo vai deixá-la ainda mais triste.” Tratava-se de uma ordem. Sete anos se passariam até que ela tivesse permissão para exumá-lo, quando então o corpo já estava decomposto. O caixão foi aberto, a pedido dela, e Chih-tan ganhou um sepultamento público, em um santuário especial. Mao escreveu uma dedicatória, dizendo que a morte de Chih-tan fora “uma surpresa”. Isso ocorreu numa época em que Mao precisava particularmente garantir que não houvesse problemas na base e ele usou o falecido Chih-tan para ganhar autoridade.

Chih-tan foi o único alto líder da base comunista a morrer no front. Além disso, seus dois principais comandantes caíram mortos algumas semanas depois — Yang Qi em março e Yang Sen no começo de maio. Poucos meses depois da chegada de Mao, os três maiores comandantes de Shaanxi tinham sido mortos — um destino que não se abateu sobre nenhum dos comandantes de qualquer outra unidade do Exército Vermelho.

Com as mortes de Chih-tan e de seus dois colegas, eliminou-se qualquer perigo potencial de rebelião contra o comando de Mao na base. A partir de então, embora ocorressem revoltas de pequena escala entre os habitantes locais, não houve levante suficientemente grande para ameaçar o regime de Mao.

 

a Tal como acontecera na Longa Marcha, os comunistas fingiram que o objetivo era lutar contra os japoneses e chamaram a expedição de “Vanguarda Antijaponesa”, com slogans do tipo “Ir para o leste combater o Japão”. Mas isso era pura propaganda. A força de Mao nem tentou chegar perto dos japoneses.