Mao: a história desconhecida

Jung Chang e Jon Halliday · Capítulo 28 de 69

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Mao: a história desconhecida

Parte IV

 

A conquista da China

26. “A Guerra do Ópio Revolucionária”

 

(1937-45; 43-51 anos)

 

Yenan, QG de Mao durante a guerra sino-japonesa, foi governada de forma um pouco diferente das bases comunistas anteriores, como Ruijin. Com as mudanças políticas que o PCC adotou para a “frente unida”, a prática de designar “inimigos de classe” para trabalho escravo e expropriação diminuiu drasticamente. Mas a extração máxima continuou, mediante a tributação.

Isso aconteceu apesar de Yenan gozar de dois enormes subsídios externos: financiamento substancial dos nacionalistas (nos primeiros anos) e enorme patrocínio clandestino de Moscou, que Stálin estabeleceu pessoalmente em 300 mil dólares por mês em fevereiro de 1940 (equivalentes talvez a cerca de 60 milhões de dólares por ano nos dias de hoje).

A principal fonte de receita interna era o imposto sobre grãos, que aumentou consideravelmente durante os anos da ocupação comunista. Os números oficiais sobre imposto sobre grãos para os primeiros cinco anos do governo comunista, cujos registros estão disponíveis, foram (em shi, equivalente a cerca de 150 quilos na época):

1937: 13 859

1938: 15 972

1939: 52 250

1940: 97 354

1941: 200 000

 

Os grandes aumentos a partir de 1939 destinavam-se a financiar a expansão agressiva de Mao tanto de território como de força armada. A coerção e a violência eram frequentes; o secretário comunista da região, Xie Jue-zai, anotou em seu diário, em 21 de junho de 1939, que os camponeses estavam sendo “empurrados para a morte” pelos coletores de impostos. (Xie foi um dos poucos a manter um diário, graças a sua alta posição e sua longa amizade com Mao, que datava da juventude.) Em 1940, o imposto sobre grãos dobrou, apesar do severo mau tempo e da epidemia de fome. E dobrou de novo em 1941, embora a colheita tenha sido de 20% a 30% menor do que a do ano anterior.

Os habitantes do lugar não gostavam de Mao, coisa que ele sabia, mas que não afetava sua política. Mais tarde, ele contou a quadros importantes uma história das queixas de um camponês sobre impostos pesados. Depois que um chefe de condado foi morto por um raio, o camponês disse: “O céu não tem olhos! Por que não matou Mao?”. Ele contou essa história para dizer que era sensível ao descontentamento e afirmou que, em consequência, havia reduzido o imposto sobre grãos. Na verdade, o raio e a praga do camponês aconteceram em 3 de junho de 1941, bem antes do anúncio do alto tributo daquele ano, em 15 de outubro. Mao dobrou o imposto depois de ficar sabendo da raiva do camponês. E, em novembro daquele ano, acrescentou um imposto novo, sobre forragem para cavalos.

Em outra ocasião, Mao revelou que alguém que, segundo ele, “estava fingindo loucura” investiu contra ele e tentou agredi-lo — devido aos impostos pesados. Mao não citou outras histórias que corriam, inclusive uma sobre um camponês que cortou fora os olhos de um retrato de Mao. Quando interrogado, disse: “O presidente Mao não tem olhos”, querendo dizer com isso que “não há justiça sob seu comando”. A reação de Mao foi simplesmente maquiar os números. Em 1942 e 1943, os anúncios do governo atenuaram os impostos em pelo menos 20%.

Os comunistas sustentavam que a tributação em Yenan era muito mais baixa do que nas áreas de controle nacionalista. Mas o secretário-chefe Xie anotou em seu diário que o imposto sobre grãos per capita em 1943 foi “alto pelos padrões da Grande Retaguarda [área nacionalista]”. Às vezes, registrou ele, o imposto sobre grãos “é quase igual à colheita de todo o ano”; o Estado tomava a quantidade astronômica de 92%, no caso de uma família que ele citava. Para muitos, “não sobra comida depois de pagar o imposto”. Um grande número de camponeses tentava fugir. De acordo com os registros dos próprios comunistas, em 1943, mais de mil famílias fugiram apenas do condado de Yenan, o que não foi pouca proeza, pois o lugar inteiro era vigiado dia e noite e o condado não estava na fronteira da área comunista, que era mais ou menos do tamanho da França.

 

Os comunistas criaram o mito de que Yenan estava sob rígido bloqueio econômico de Chiang Kai-shek. Na verdade, havia muito comércio com as áreas nacionalistas e a pessoa que Chiang selecionou para colocar na fronteira setentrional de Yenan, o general Teng Pao-shan, era um homem que tinha laços antigos com os comunistas. Sua filha era filiada ao partido e morava em Yenan, que ele, às vezes, visitava; o general também tinha um secretário comunista. Ele deixou os vermelhos tomarem dois pontos cruciais de travessia do rio Amarelo na fronteira, o que lhes proporcionava comunicação ininterrupta com suas outras bases. Além disso, seus homens compravam armas e munição para os comunistas. Chiang tolerava essa situação porque não queria uma guerra civil total, que Mao prometia caso as coisas não fossem do seu jeito.

A região de Yenan possuía recursos consideráveis. O mais importante do ponto de vista do mercado era o sal. Havia sete lagos salgados onde tudo o que precisava ser feito, como um relatório de 1941 observou, era “apenas coletá-lo”. Nos primeiros quatro anos de sua ocupação, os comunistas não produziram sal novo e simplesmente gastaram a reserva feita antes de sua chegada. “O estoque de sal de décadas foi todo vendido”, dizia o relatório de 1941, e o território “está numa fome de sal”. O regime não foi apenas extremamente lento para maximizar esse recurso, ele não tinha planos. Isso refletia o fato de que Mao tratava Yenan, tal como as outras áreas que ocupou, como uma escala de viagem, e infligia uma abordagem econômica semelhante à do corte e queima, sem dar atenção a uma produção de longo prazo.

Em meados de 1941, o regime reconheceu com atraso que o sal era “a segunda maior fonte de receita [interna]”, depois do imposto sobre grãos, e um importante gerador de divisas que logo passou a responder por mais de 90% da receita de exportação. O sal ficava no nordeste da região, mas o mercado para exportação era do outro lado da fronteira meridional. Como não havia ferrovia ou rio navegável, muito menos veículos motorizados, era preciso carregá-lo por setecentos quilômetros de trilhas sinuosas e íngremes. “Transportar sal é a forma mais dura de tributação”, escrevera um governador de Yenan ao imperador, durante a dinastia manchu; “aqueles que são pobres e não têm condições de comprar animais precisam carregá-lo nas costas e ombros, e sua fadiga é indizível”. “Hoje”, anotou o secretário-chefe Xie, “não é muito diferente de antigamente.”

O regime impunha o trabalho de corveia (sem pagamento) a inumeráveis famílias camponesas. Xie e outros moderados escreveram a Mao muitas vezes para criticar esse método escabroso, mas ele lhes respondeu em tom categórico que essa política “não só não merece crítica alguma, como está completamente correta”. Segundo ele, os camponeses deviam ser “forçados” a fazer esse trabalho e, recomendava especificamente, “na estação morta”. O grifo é de Mao, para destacar que não deveriam negligenciar o trabalho agrícola.

 

Os camponeses locais tinham de sustentar uma administração que era enorme e ineficiente. Michael Lindsay, um especialista britânico em rádio que estava em Yenan em 1944-45, ficou tão frustrado com a ineficácia que escreveu um documento chamado “O que há de errado com Yenan?”. O sistema sufocava a iniciativa e deixava as pessoas com medo de propor melhorias, pois qualquer sugestão poderia se tornar uma acusação política letal. “O pessoal técnico todo foge no primeiro momento oportuno.” Uma cópia foi dada a Chou En-lai. Lindsay não soube de mais nada.

Outros já haviam levantado a voz contra a burocracia inflada. Em novembro de 1941, um membro não comunista do simulacro de parlamento da região havia proposto cortes no Exército e na administração, citando um provérbio tradicional segundo o qual um bom governo deveria ter “menos e melhores tropas, administração menor e mais simples”. Com objetivos propagandísticos, Mao fez uma exibição pública de adoção do provérbio. Mas não estava interessado em reduzir o número de quadros ou soldados. Queria mais deles, e não menos, a fim de conquistar a China.

Faz parte do mito fundador da China comunista que, em Yenan, tanto o Exército como a administração foram reduzidos e que isso aliviou o peso sobre a população. Na verdade, o que o regime fez foi eliminar os politicamente não confiáveis (chamados de “retrógrados”) e os velhos e doentes, e redirecioná-los para o trabalho manual. As regras para realocá-los diziam que eles “devem ser colocados em torno do centro da região para evitar que os nacionalistas os atraiam”. Em outras palavras, para evitar que fugissem. Mas, mesmo com essas reduções, um documento secreto de março de 1943 dizia que havia, na verdade, “um aumento geral” no número de funcionários da administração da região, sobretudo nos escalões mais baixos, com o objetivo de intensificar o controle nas bases. Enquanto isso, Mao usava a pressão para fundir departamentos e efetuar um rearranjo no topo a fim de apertar seu controle.

 

A invasão alemã da Rússia em junho de 1941 fez Mao olhar em volta na busca de uma fonte alternativa de recursos, caso Moscou não conseguisse manter o subsídio. A resposta foi o ópio. Em poucas semanas, Yenan comprou grandes quantidades de sementes de papoula. Em 1942, começou um amplo negócio de plantação e venda de ópio.

Para um pequeno círculo, Mao apelidou sua operação de “Guerra do Ópio Revolucionária”. Em Yenan, o ópio era conhecido pelo eufemismo de “te-huo”, “produto especial”. Quando perguntamos a Shi Zhe sobre o cultivo de ópio, ele respondeu “aconteceu de fato”, e acrescentou: “Se essa coisa se tornar conhecida, vai ser muito ruim para os comunistas”. Ele também nos contou que produtos convencionais, principalmente sorgo, foram plantados ao redor das papoulas para escondê-las. Em agosto de 1942, enquanto jogavam mah-jong, um contato russo perguntou a Mao como comunistas podiam “se envolver abertamente na produção de ópio”. Ele ficou em silêncio. Um de seus asseclas, Teng Fa, deu a resposta: o ópio “traz de volta uma caravana carregada de dinheiro [...] e com ele vamos derrotar os [nacionalistas]!”. Naquele ano, um estudo cuidadosamente pesquisado estimou a área do cultivo de ópio em cerca de 12 mil hectares das melhores terras da região.

Os principais condados produtores de ópio estavam ao norte, perto da fronteira com o território do general nacionalista e amigo Teng Pao-shan, que era conhecido como o Rei do Ópio. Mao recebeu uma colaboração valiosa do general e retribuiu facilitando o tráfico de ópio do próprio Teng. Quando Chiang Kai-shek pensou em transferi-lo, Mao entrou em ação para evitar isso: “Peça a Chiang para parar de imediato”, ordenou a Chou em Chongqing, dizendo que estava “decidido a destruir” a unidade que deveria substituir Teng. Chiang cancelou a transferência. Em 1945, Mao mostrou o quanto apreciava Teng ao mencioná-lo duas vezes em seu discurso no VII Congresso, inclusive junto com Marx. Vladímirov chegou a perguntar: “Que tipo de homem é este Teng Pao-shan que Mao citou [...] ao lado de Marx?”. Não obstante, Mao jamais confiou em seu benfeitor. Depois da tomada do poder pelos comunistas em 1949, Teng permaneceu no continente e foi recompensado com altos postos nominais. Mas, quando ele quis viajar ao exterior, seu pedido foi negado.

Em um ano, o ópio resolveu os problemas de Mao. Em 9 de fevereiro de 1943, ele contou a Chou que Yenan “tinha superado suas dificuldades financeiras e havia acumulado uma reserva [...] no valor de 250 milhões de fabi”. Fabi era a moeda usada nas áreas nacionalistas, que Mao vinha acumulando, junto com ouro e prata, “para quando entrarmos nas áreas nacionalistas”, isto é, depois que começasse a guerra total contra Chiang. Essa quantia era seis vezes o valor do orçamento oficial da região de Yenan para 1942 e representava poupança pura. Em 1943, os russos estimaram as vendas de ópio de Mao em 44 760 quilos, que valiam astronômicos 2,4 bilhões de fabi (cerca de 60 milhões de dólares ao câmbio da época, ou aproximadamente 800 milhões de dólares atuais).

No início de 1944, os comunistas estavam “muito ricos”, segundo o secretário-chefe Xie. A enorme reserva em fabi “se deve, sem dúvida, ao produto especial”, escreveu Xie em seu diário. A vida dos membros do partido em Yenan também melhorou muito, em especial para os funcionários mais graduados. Os quadros que chegavam de outras bases admiravam-se com a qualidade da comida. Um deles descreveu uma refeição “com várias dezenas de pratos” e disse que “todas as mesas deixaram sobras em muitos pratos”.

Mao engordou. Quando, depois de algum tempo sem vê-lo, o Rei do Ópio o reencontrou em 1943, suas primeiras palavras foram: “O presidente Mao ficou mais gordo!”. Disse isso como forma de cumprimento.

 

Para os camponeses, o principal benefício que o ópio trouxe foi diminuir as imposições sobre eles. Até então, estavam sujeitos a confiscos sobre suas magras posses familiares e ferramentas agrícolas vitais. Depois que enriqueceu com o ópio, Mao ordenou medidas para melhorar as relações com os habitantes locais. O Exército começou a devolver artigos que havia tomado e até a ajudar os camponeses a trabalhar a terra. O próprio Mao admitiu mais tarde que, até a primavera de 1944, a atitude dos moradores da região em relação ao partido fora a de “manter uma distância admirada e temerosa, como se ele fosse divindade e demônio”, isto é, de ficar bem longe dos comunistas. E isso sete anos depois que haviam ocupado Yenan. Durante todo esse tempo, os comunistas tiveram pouco contato com as pessoas do lugar, exceto quando o trabalho deles exigia isso, ou em visitas simbólicas de ano-novo às aldeias para cumprimentos rituais. Os casamentos entre os dois grupos e os relacionamentos sociais eram raros.

No entanto, a riqueza do ópio não melhorou o padrão de vida local, que continuou bem abaixo daquele das forças de ocupação comunistas. A ração de carne anual do comunista de mais baixo escalão era quase cinco vezes (doze quilos) a média local (dois quilos e meio). O regime conservava seus cofres cheios, e não perdia oportunidade para explorar a população. Em junho de 1943, sob o pretexto de que Chiang estava prestes a atacar Yenan (o que ele não fez), os civis tiveram de “doar voluntariamente” lenha, verduras, porcos e ovelhas, e o pouco ouro que porventura tivessem, que correspondia muitas vezes às economias de toda uma vida.

Uma menção das enormes reservas do PCC na página do diário de Xie de 12 de outubro de 1944 está entre duas descrições horrendas da vida dos camponeses: a taxa de mortalidade não só estava aumentando, como superava em muito a taxa de natalidade; em um distrito, era de quase cinco para um. Os motivos disso, observou Xie, eram “roupas, comida e acomodações inadequadas”, água contaminada e “falta de médicos”. O regime introduzira uma importante causa de mortalidade ao banir as armas de fogo. Os lobos perambulavam pelos jardins das casas e leopardos vagavam livremente nos

morros. a Por isso, as pessoas tinham de levar seus preciosos animais domésticos para dentro de suas moradias, ou se arriscar a perdê-los. A resultante falta de higiene provocava muitas doenças. O acesso à carne de caça também foi prejudicado pela proibição das armas de fogo.

A mortalidade era maior entre os imigrantes, que compunham uma parte considerável da população. Eles iam para a área de Yenan porque lá havia terra fértil de sobra. Mao estimulava sua vinda, mas fazia pouco por eles quando chegavam. Levados para terrenos montanhosos e deixados por sua própria conta, morriam como moscas; em uma área, morreram 31% em dois anos. Mao sabia que a taxa de mortalidade infantil era de 60% (e quase todos que sobreviviam cresciam analfabetos). Não obstante, como relembrou um alto membro da administração, “o enorme número de pessoas e animais domésticos mortos jamais ganhou a devida atenção”. Em abril de 1944, ao ser pressionado a fazer alguma coisa, Mao disse: vamos discutir isso no inverno. A saúde pública tornou-se de fato o foco da discussão em novembro daquele ano, pela primeira vez desde que os comunistas haviam chegado na área, havia quase uma década; mas não houve menção de gastar dinheiro com ela.

 

Para as pessoas do lugar, o ópio trouxe também uma inflação astronômica, muito pior do que nas áreas nacionalistas. “Causamos grande inflação”, escreveu Xie em seu diário, no dia 6 de março de 1944, “não porque somos pobres, mas porque estamos ricos”.

Mao desempenhou um papel fundamental nisso. Em junho de 1941, havia pessoalmente ordenado a impressão irrestrita da moeda comunista local, o bianbi. O plano original tinha um teto. Depois que viu o orçamento, Mao escreveu: “Não se fixem na ideia de que o bianbi deve ser mantido dentro de 10 milhões de yuans [...] não amarrem nossas mãos”. Ele instou a gastar “generosamente” na administração e no Exército, mostrando descaso total pela economia local: “Se no futuro [o sistema] entrar em colapso, que assim seja”. Em 1944, o preço do sal era 2131 vezes o de 1937, o do óleo de cozinha, 2250 vezes, o do algodão, 6750 vezes, o do tecido, 11 250 vezes, e os fósforos custavam 25 mil vezes mais, de acordo com o secretário-chefe Xie.

Essa hiperinflação não prejudicava os que mamavam no Estado. O embaixador russo Pániushkin, que tinha provavelmente um retrato da situação melhor do que a maioria, disse que ela atingia os “labutadores”, isto é, os camponeses, que precisavam de dinheiro para comprar artigos básicos como tecido, sal, fósforos, utensílios e ferramentas agrícolas — e serviços médicos, que nunca foram gratuitos para os que não eram funcionários do Estado, se os conseguissem. Um funcionário de um hospital de uma área comunista revelou: “Somente quando queremos trigo aceitamos o lao-pai-shing [homem da rua]”.

Uma prática em que o dinheiro se fazia necessário, e pela qual é possível calcular o impacto da inflação, era a compra de esposa. Em 1939, uma noiva custava 64 yuans. Em 1942, os preços eram: menina de sete anos, setecentos; adolescente, 1300; viúva, 3 mil. Em 1944, o preço de uma viúva já chegava a 1,5 milhão.

A agiotagem floresceu, com as taxas médias de juros chegando de 30% a 50% mensais, de acordo com Xie, que também registrou a taxa astronômica de 15% a 20% de um dia de mercado para o seguinte — que era cinco dias. Essas taxas eram tão ruins quanto as piores praticadas antes dos comunistas. Para levantar dinheiro, muitos camponeses vendiam a safra antecipadamente, o que, às vezes, significava aceitar apenas 5% do preço na época da colheita.

“Reduzir os juros dos empréstimos” era uma das duas principais promessas econômicas dos comunistas na época; a outra era baixar o arrendamento da terra. Mas, enquanto havia regulamentações específicas sobre este último (o que, na verdade, significava pouco, pois os camponeses tinham de entregar a colheita para o Estado, em vez de para os senhores da terra), o regime não estabeleceu teto sobre os juros. Tudo o que disse foi: “Isso deve ser deixado para que as próprias pessoas decidam [...] e o governo não deve fixar uma taxa de juros demasiado baixa, caso os empréstimos sequem”. Como o regime praticamente não cedia empréstimos, precisava encontrar outra maneira de flutuar o crédito. Algumas áreas comunistas estabeleceram tetos baixos para as taxas de juros, mas na região de Yenan o regime soltou as forças mais rapaces do setor privado sobre seus súditos mais indefesos.

Em março de 1944, o regime deteve a impressão de dinheiro e começou a recolher bianbi. Em parte, isso foi provocado pela chegada iminente dos primeiros estrangeiros não russos em cinco anos — uma missão americana e alguns jornalistas. A hiperinflação não parecia boa. Mas a deflação também não foi uma bonança para os devedores, como observou Xie em 22 de abril: “Independentemente de a moeda subir ou descer, aqueles que sofrem são sempre os pobres [...] a dívida que tinham quando os preços eram altos agora tem de ser paga vendendo mais de suas posses. Ouvi dizer que muitos estão vendendo seus animais de tração”.

O cultivo do ópio parou nessa ocasião. Além de Mao não querer que os americanos o vissem, havia superprodução. Na verdade, o excedente se tornara uma dor de cabeça. Alguns linhas-duras defenderam descarregá-lo na população de Yenan, o que Mao vetou. Um campesinato viciado em drogas não teria serventia para ele. Mas alguns camponeses se haviam inevitavelmente viciado ao cultivar a droga. O regime ordenou que a população local largasse o hábito, com prazos duros, prometendo “ajudar os viciados com remédios” e dizendo que “os pobres” não precisavam pagar pelo tratamento, deixando claro que quem tivesse alguma condição deveria fazê-lo.

Diante de seus colegas inquietos com o cultivo de ópio, Mao reconheceu que se tratava de um dos “dois erros” do partido, mas justificou ambos no mesmo instante. Um erro, disse ele em 15 de janeiro de 1945, “foi que durante a Longa Marcha tomamos as coisas das pessoas”, mas acrescentou imediatamente: “não teríamos sobrevivido se não tivéssemos feito isso”; o outro erro, disse ele, “foi cultivar uma certa coisa [mou-wu, isto é, ópio], mas sem esse cultivo não teríamos vencido nossa crise”.

 

Yenan permaneceu extremamente pobre mesmo anos depois de Mao assumir o controle da China. Um visitante da Hungria comunista, país que não era de forma alguma rico, comentou sobre “aldeias indescritivelmente esquálidas e miseráveis” perto de Yenan, em 1954. Na verdade, todas as bases comunistas continuaram entre as áreas mais pobres da China, e o motivo era precisamente que haviam sido bases comunistas. Em 1962, travou-se esta conversa entre Mao e um entusiasta sueco:

J. Myrdal: Acabei de voltar de uma viagem à área de Yenan.

Mao: Essa é uma parte muito pobre, atrasada, subdesenvolvida [...] do país. Myrdal: Vivi numa aldeia [...] queria estudar a mudança no campo [...] Mao: Então acho que foi uma ideia muito ruim ir para Yenan [...] Yenan é só pobre e atrasada. Não foi

uma boa ideia ir para uma aldeia de lá.

Myrdal: Mas ela tem uma grande tradição — a revolução e a guerra —, quer dizer, afinal Yenan é o

começo...

Mao [interrompendo]: Tradições... [rindo]. Tradições... [rindo].

 

a O controle das armas era inequívoco. Um médico austríaco sequestrado pelos comunistas no final dos anos 1940 observou que, se alguém escutasse lobos, sabia que estava na área comunista. Ninguém que entrevistamos lembrava de ouvir um tiro em Yenan durante toda a guerra. Uma noite, quando um operador de rádio russo que morava nos arredores de Yenan atirou num lobo que havia matado um de seus cães de guarda, os guardas de Mao apareceram imediatamente para reclamar que o som dos tiros havia “perturbado muito” seu chefe. Em outra ocasião, o contato russo Vladímirov atirou num cão raivoso (a raiva era comum) que estava atacando seu cachorro. Um grupo de guardas apareceu instantaneamente e disse que Mao “estava muito agitado” e que os tiros “haviam interrompido seu trabalho”.