Mao: a história desconhecida
10. De criador de caso a chefe nominal
(1931-34; 37-40 anos)
Quando foi empossado na presidência do Estado comunista, Mao havia, na verdade, perdido o controle absoluto sobre a área e, em especial, sobre o Exército Vermelho. Moscou designara Zhu De para chefiar as Forças Armadas. Além disso, como secretário do partido, Chou En-lai era seu líder. Mao recusava-se a se enquadrar numa liderança coletiva e tentou a intimidação. Seus colegas reagiram e o acusaram de vários pecados, até mesmo de adotar uma “linha kulak”, acusação que o próprio Mao utilizara para mandar para a cova muitos comunistas de Jiangxi. Agora, ele estava contra a parede. Em uma reunião realizada depois da chegada de Chou, tomou a cadeira principal e começou a se comportar como se ainda fosse o chefe. Os outros intervieram e colocaram Chou na direção. Logo Mao pediu “licença para tratamento de saúde”, que lhe foi concedida com prazer, e ele, amuado, deixou Ruijin no final de janeiro de 1932.
Foi para um templo budista confiscado chamado Morro Donghua, numa das muitas rochas gigantescas que se erguiam na planície ao redor de Ruijin. Coberto com metassequoias, ciprestes e pinheiros e pontilhado de pedras negras lisas, o morro abrigava um templo antigo em seu ambiente luxuriante. Ali Mao passava os dias com sua esposa Gui-yuan e um destacamento de guardas. Era um lugar grande e cheio de ecos. O musgo crescia no piso de terra úmida. Fora do quarto de Mao, as folhas caíam ao vento invernal e a chuva penetrava nas rachaduras do pátio de pedra, aumentando o frio. Era uma cena melancólica.
Mao trouxera com ele duas caixas blindadas cheias de documentos, recortes de jornal, anotações e poemas que escrevera ao longo dos anos. Quando fazia sol, os guarda-costas colocavam as caixas no pátio, uma em cima da outra, e Mao sentava-se num banco improvisado para ler e reler os textos e pensar numa maneira de recuperar seu poder perdido.
Ele ainda recebia documentos de alto nível todos os dias, junto com seus adorados jornais, tanto comunistas como nacionalistas. Foi nesses jornais que percebeu uma oportunidade de ouro — que talvez tenha sido criada por ele mesmo. Entre 16 e 21 de fevereiro, os principais jornais nacionalistas publicaram uma “nota de retratação”, assinada com o pseudônimo de então de Chou En-lai, em que ele renunciava ao comunismo e condenava o Partido Comunista, em especial por sua subserviência a Moscou. A seção do PCC em Xangai teve um trabalho considerável para contrabalançar o impacto e esclarecer que a notícia era falsa, fazendo circular panfletos e tentando colocar declarações nos jornais.
Embora não haja dúvidas de que a notícia foi plantada, o nome e a autoridade de Chou foram minados. Mao pôde então explorar essa vulnerabilidade. Sua estratégia não era derrubar Chou, o que não seria realista, mas fazer com que ele o apoiasse na tentativa de afastar Zhu De e retomar o controle do Exército.
No começo de março, Mao foi convidado para uma reunião que discutiria a crise nas cercanias da cidade de Ganzhou, a 125 quilômetros de Ruijin, a qual o Exército Vermelho tentava capturar em vão. No instante em que o convite chegou, Mao partiu de imediato, embora chovesse muito. Gui-yuan tentou fazê-lo esperar até que a chuva parasse, mas ele insistiu em partir logo e ficou encharcado na hora. Cavalgou a noite toda e, ao chegar à reunião, tratou logo de criticar o comando militar. A maioria dos outros líderes não estava com humor para escutar sua arenga e ninguém sugeriu que ele deveria ser reconduzido à chefia do Exército.
Mas, agora que estava de volta, Mao permaneceu por ali e começou a pôr seu plano em ação. Os comunistas logo tiveram de suspender o assédio a Ganzhou e a maioria concordou que deveriam abrir caminho para o oeste, para fazer conexão com outro bolsão vermelho, situado na fronteira entre Jiangxi e Hunan. Mao, no entanto, insistiu em que deveriam seguir na direção oposta. Ele fez pé firme e coube a Chou En-lai, na qualidade de chefe do partido, tomar a decisão. Chou optou por adotar os dois planos, mas mandar apenas um terço do Exército na direção preferida pela maioria e despachar a maior parte das forças na direção que Mao queria, sob seu comando. Desse modo, Chou permitiu que Mao recuperasse o controle de dois terços do Exército, contra a vontade da maioria dos líderes.
A explicação mais provável para essa decisão extraordinária é que Chou achou que era melhor, provavelmente vital, aplacar Mao. Ele sabia que este havia ameaçado acusar Peng De-huai e Zhu De (além de Xiang Ying, o outro líder do PCC que se opusera a ele) de serem ABs. Mao nem piscara para massacrar dezenas de milhares de comunistas leais que se haviam atravessado em seu caminho. Na verdade, era bem capaz de ser o responsável pela falsa notícia de retratação. Demonstrara uma queda para a manipulação da imprensa ao criar, por exemplo, o rumor sobre a própria morte. E por que a falsa retratação viera justamente no momento em que Chou acabara de superar Mao e se tornara o líder do Estado comunista? Chou não podia se dar ao luxo de tê-lo como inimigo.
O medo que Chou sentia dele data dessa época e jamais o abandonaria. Mao iria repetidamente ameaçar Chou com a retratação plantada, até a morte deste, mais de quatro décadas depois.
Mao dissera a Chou e à liderança militar que queria ir para o nordeste. Depois que partiu, mudou subitamente de rota e conduziu suas forças para a costa sudeste, só informando Chou depois que havia avançado muito, o que impossibilitava uma ordem em contrário. Mais tarde os colegas de Mao condenaram a excursão como uma interrupção que havia “atrasado nossos planos”.
Ao fazer esse desvio, Mao contou com a colaboração de seu velho cúmplice Lin Biao, o homem que se unira a ele anteriormente para sabotar Zhu De. Lin era o comandante central da força designada para Mao. Em 20 de abril, essa força tomou a próspera cidade de Zhangzhou, muito perto da costa, que tinha uma defesa débil e foi alvo de Mao por razões pessoais.
Uma delas era ganhar prestígio no mundo mais amplo, pois Zhangzhou tinha muitas conexões internacionais. Tendo muito em mente a cobertura jornalística, Mao entrou na cidade montado em um cavalo branco, vestido com uma elegância que não lhe era característica, com terno e capacete à Sun Yat-sen. O exército marchava em quatro colunas, ao som de clarins. Mao enviou aos colegas recortes de jornal que colecionava sobre si mesmo, relatando sua façanhas em termos como: “Exército Vermelho em Zhangzhou; toda a costa treme; mais de 100 mil fogem”; “28 canhoneiras estrangeiras se reúnem em Amoy”. Mao sabia que quanto mais alto seu prestígio, mais penhorada ficava Moscou. Com efeito, perto do final daquele anos, quando seus exasperados colegas tentaram tirá-lo do poder, Moscou os deteve, citando exatamente esse motivo. Arthur Ewert, o alemão que representava os russos em Xangai, tranquilizou-os dizendo que havia enfatizado imediatamente a Ruijin que “Mao Tse-tung já é um líder de alto prestígio [...] E assim [...] protestamos contra a remoção de Mao”.
Mas o principal motivo de Mao para ir a Zhangzhou era acumular uma fortuna privada. Um grande número de caixotes marcados com a frase “Entregar a Mao Tse-tung pessoalmente” em caracteres enormes foi enviado para Jiangxi. Eles encheram um caminhão inteiro e, quando acabou a estrada, foram levados por carregadores. Dizia-se que continham livros que Mao havia comprado ou pilhado, e alguns realmente correspondiam a essa descrição. Mas muitos continham ouro, prata e joias. Eles foram levados secretamente para o alto de uma montanha por carregadores e guardados dentro de uma caverna por guardas de confiança, supervisionados por Tse-min, o irmão de Mao. A entrada foi selada e somente esses poucos homens sabiam dos despojos. A liderança do PCC foi mantida na ignorância. Mao adquirira para si mesmo um seguro, para o caso de cair em desgraça com o partido e com Moscou.
Em maio de 1932, enquanto Mao estava em Zhangzhou, Chiang Kai-shek preparava outra “expedição de aniquilação”, a quarta, pondo em campo meio milhão de soldados. O estabelecimento do Estado vermelho o convencera de que os comunistas não se uniriam a ele contra o Japão. Em 28 de janeiro daquele ano, o Japão atacara Xangai, a principal cidade comercial e industrial da China, distante mil quilômetros da Manchúria. Dessa vez as tropas chinesas resistiram, com tremendas baixas. Como os objetivos militares do Japão na área de Xangai eram então limitados, a Liga das Nações conseguiu intermediar um cessar-fogo. Durante toda a crise, que durou até o final de
abril, os comunistas trabalharam intensamente para expandir seu território.a Depois que a crise amainou, Chiang ressuscitou sua política de “Estabilidade Interna Primeiro” e se preparou para atacar de novo as bases vermelhas.
Quando recebeu essa informação, a liderança do PCC telegrafou a Mao para que trouxesse o exército de volta à base sem demora. Mao respondeu que não acreditava que Chiang iria “lançar uma ofensiva como a da terceira expedição, do ano passado”, e disse ao partido que sua “avaliação e estratégia militar estão totalmente erradas”. Recusou-se a deixar Zhangzhou durante quase um mês, até que as intenções de Chiang se tornaram públicas — e ficou provado que Mao estava errado.
Em 29 de maio, ele teve de retornar para o Jiangxi Vermelho. Graças a Mao, que os conduzira para um beco sem saída isolado, as dezenas de milhares de soldados tiveram de marchar trezentos quilômetros de volta, sob calor escaldante, e um grande número ficou doente e morreu. No caminho, tiveram de enfrentar um outro inimigo — os cantoneses, que haviam anteriormente evitado combater os comunistas. Os cantoneses haviam adotado uma posição de independência em relação a Chiang; na verdade, estavam armando um golpe contra ele. Mas a investida de Mao em Zhangzhou os alarmara, pois a cidade estava a apenas oitenta quilômetros da província deles e a proximidade do perigo os incitou à ação. Perto de uma cidade chamada Embocadura da Água, o Exército Vermelho teve de travar uma de suas batalhas realmente duras, sofrendo um número incomum de baixas. Os soldados comunistas que mais chamaram a atenção foram alguns rebelados recentes do Exército nacionalista, que entraram na luta
nus da cintura para cima, empunhando facas gigantescas.b
Apesar de causar todas essas perdas e dificuldades desnecessárias ao Exército Vermelho, Mao não somente não foi repreendido, como continuou na ofensiva, exigindo que lhe dessem o mais alto posto no Exército, o de comissário político chefe. Isso só pode ter sido estimulado pela atitude incrivelmente indulgente de Moscou em relação a ele. Enquanto perdia tempo em Zhangzhou, a liderança do partido, inclusive Chou, havia mandado um telegrama coletivo a Moscou chamando os atos de Mao de “cem por cento de oportunismo de direita” e “absolutamente contrários às instruções da I. C. [Comintern]”. Mas a resposta de Moscou foi de que eles deveriam manter Mao a todo custo na direção, bem como seu prestígio e status. Estava claro que Moscou o considerava indispensável e o Kremlin demonstrava consistentemente uma consideração por ele que não dedicava a nenhum outro líder. Se houvesse um confronto irreversível, o mais provável era que Moscou ficasse do lado de Mao.
Em 25 de julho, Chou recomendou atender às exigências de Mao, “a fim de facilitar o comando de batalha no front”. Seus colegas queriam dar o posto a Chou, mas ele declarou: “Se vocês insistirem em que Chou deve ser o comissário político chefe, isso [...] deixará o presidente do governo [Mao] sem nada para fazer [...] Isso é extremamente constrangedor”. Em 8 de agosto, Mao foi designado comissário político chefe do Exército.
Mao havia recuperado o controle do Exército, mas as diferenças com seus colegas só se aprofundaram. No verão de 1932, Chiang concentrou seus ataques em dois territórios vermelhos ao norte de Jiangxi; por instrução de Moscou, o partido ordenou que todos os seus exércitos coordenassem seus movimentos para ajudar essas áreas. A missão de Mao seria conduzir suas forças para mais perto das duas bases sob ataque e atrair as forças do inimigo atacando cidades. Ele fez isso durante algum tempo, mas depois, quando a situação ficou mais difícil, simplesmente se recusou a continuar lutando. Apesar dos telegramas urgentes pedindo ajuda, ele basicamente ficou parado durante um mês, enquanto Chiang expulsava os comunistas dessas duas bases.
O alvo seguinte de Chiang era Jiangxi. Moscou decidira que a melhor estratégia nessa província era enfrentar o ataque dos nacionalistas, mas uma vez mais Mao discordou, insistindo em que seria muito melhor dispersar as tropas comunistas e esperar para ver. Ele não acreditava que o Exército Vermelho, muito menor, pudesse derrotar Chiang e provavelmente punha suas esperanças numa salvação dos comunistas chineses pelos russos. Na época, Moscou e Nanquim estavam negociando a restauração das relações diplomáticas, que Stálin havia rompido em 1929, depois da tentativa chinesa de assumir o controle da Ferrovia Oriental da China na Manchúria. Mao parece ter calculado que Chiang teria de permitir a sobrevivência dos comunistas chineses num gesto de reconciliação com Moscou.
Os colegas de Mao consideraram sua tática passiva de adiamento “extremamente perigosa”. Ele não arredou pé. “Às vezes, as discussões se tornam intermináveis, intermináveis”, como disse Chou, “é impossível saber o que fazer.”
Foi preciso fazer uma reunião de emergência no início de outubro, que se transformou num confronto direto com Mao. Os oito altos dirigentes da base vermelha se encontraram na cidade de Ningdu, sob o comando de Chou. A raiva deflagrada contra Mao pode ser percebida pelo jargão que os participantes usaram para descrever a cena na qual, como disseram eles, “travaram uma luta de duas linhas [“duas linhas” significando como se contra um inimigo] sem precedentes e romperam com o padrão anterior de ceder e aplacar” Mao, o que era uma referência ao tratamento com luvas de pelica que lhe dispensava Chou.
Mao foi denunciado por “desrespeito pela liderança do partido e por não ter o conceito da organização” — em outras palavras, insubordinação. O tom teria sido mais duro, não fosse a atuação de Chou, que, como relataram alguns de seus colegas, “não criticou abertamente os erros de Mao, mas tentou, em certos aspectos, atenuar e explicar” seus atos. Os altos quadros que ainda estavam em Xangai, como Po Ku, ficaram tão furiosos com Mao que telefonaram para seus colegas em Ningdu sem consultar os representantes de Moscou (o que era muito incomum e significativo do quanto estavam irados), chamando suas ações de “intoleráveis” e dizendo que ele deveria ser removido do Exército. Houve mesmo uma sugestão de que ele deveria ser expulso do partido.
Sem dar tempo para que Moscou interviesse, os líderes em Ningdu demitiram Mao de seu posto militar, mas, em deferência às ordens de Moscou para não prejudicar a imagem pública dele, disseram às tropas que ele estava “retornando temporariamente ao governo central para dirigir tudo”. A Moscou, disseram que Mao voltara para a retaguarda “devido a doença”.
Durante a conferência, Mao telegrafou duas vezes a Xangai, o que era claramente uma tentativa de apelar para a ajuda de Moscou. Mas Ewert, o homem de Moscou em Xangai, que também havia perdido a paciência com Mao, optou por enviar um relatório para Moscou por mensageiro, não por telegrama, de tal modo que a notícia da demissão de Mao só chegou na capital soviética depois que a reunião acabara. Ewert teve de explicar a Moscou seu fracasso em salvar Mao. A “decisão [...] de remover e criticar” Mao fora tomada “sem acordo prévio conosco”. Ewert dizia que discordava dela: “Uma decisão como essa [não deveria] ser tomada sem exaurir todas as outras possibilidades”. Embora não houvesse “nenhuma dúvida de que [...] Mao Tse-tung está errado [...] a persuasão amistosa deveria ser usada com ele”.
Moscou mandou ordens ao PCC: “Com relação a suas diferenças com o camarada Mao Tse-tung, repetimos: tentem ganhá-lo para a linha da luta ativa de uma maneira camarada. Somos contra retirar Mao Tse-tung do Exército no momento atual se ele se submeter à disciplina”. Em 2 de novembro, pediram a opinião de Stálin “com urgência”. Os colegas de Mao tiveram então de explicar por que o haviam tirado do Exército. Moscou censurou os críticos de Mao e elogiou a atitude tolerante de Chou.
O apoio russo chegou tarde para Mao, que havia partido de Ningdu em 12 de outubro, enquanto Chou assumia seu posto de comissário do Exército. Mao jamais perdoou seus oponentes em Ningdu e eles tiveram de pagar depois, alguns muito caro. O principal alvo de seu ressentimento foi Chou, ainda que ele tivesse tentado salvá-lo, porque ficara com seu posto. Mais tarde, Chou fez mais de cem autocríticas e a pior autoflagelação era reservada a Ningdu. Quarenta anos depois, na primavera de 1972, quando era primeiro-ministro, logo depois de receber o diagnóstico de câncer na bexiga e em meio a negociações extremamente exaustivas com os Estados Unidos, Japão e muitos outros países (nas quais causou grande impressão em seus interlocutores estrangeiros), Chou foi obrigado a pedir seguidas desculpas servis a grupos de altas autoridades. Um tópico recorrente era Ningdu.
Confiante de que era importante para Moscou, Mao recusou-se terminantemente a voltar para suas funções em Ruijin e foi “convalescer” em Tingzhou, onde o antigo hospital missionário do Evangelho oferecia o melhor tratamento médico na área vermelha (antes de Mao mudá-lo para Ruijin). Ali ficou numa vila suntuosa de dois andares que pertencera a um cristão rico e fora confiscada pela elite comunista. Situada no meio da vegetação de uma colina e cercada em ambos os níveis por espaçosas varandas esculpidas em madeira escura, a mansão proporcionava sombra e ar fresco contra o calor meridional, bem como o perfume e a beleza de laranjeiras e bananeiras do jardim subtropical.
Dessa residência elegante, Mao dirigiu um QG concorrente. Convocou vários seguidores e lhes disse para não manter posição e lutar quando fossem atacados pelos nacionalistas, mas evacuar as linhas de frente. A atitude que estimulou seu círculo a adotar em relação às ordens do partido foi: “Executem-nas se lhes convierem, caso contrário as ignorem”.
Em janeiro de 1933, Po Ku, o jovem que vinha dirigindo o escritório do partido em
Xangai (e que acabara de instar seus colegas a demitir Mao), chegou à base de Ruijin.c Po Ku era catorze anos mais moço do que Mao e estava no PCC havia somente sete anos. Era extremamente brilhante e impressionou muito Edgar Snow com seu raciocínio “muito rápido e tão sutil quanto o de Chou En-lai, e talvez mais flexível”. Falava bem russo e inglês e conhecia as manhas de Moscou, onde estudara durante três anos e meio (1926-30). Sobretudo, tinha alta capacidade de decisão, uma qualidade muito apreciada por seus camaradas, cuja maioria se exasperava com Chou, considerado condescendente demais com Mao. Embora Po Ku fosse muito mais jovem e menos experiente, a maioria do partido votou nele para tomar o lugar de Chou, que ficou com o comando das forças militares. Chou deixou que isso acontecesse porque não tinha sede de poder pessoal, nem ansiava por ser o líder. Na verdade, provavelmente viu com bons olhos o fato de ter alguém acima dele.
Po estava enfurecido com o comportamento de Mao e decidiu agir de imediato, pois Ruijin estava diante de uma iminente investida violenta de Chiang. Além disso, Po vinha recebendo muitas outras queixas em relação a Mao. Peng De-huai o chamara de “um mau-caráter” que “havia insultado” Zhu De. Ele “gosta de provocar altercações”, disse Peng. “Os métodos de Mao são muito brutais. Se você não se submete, ele não deixará de encontrar maneiras de submetê-lo. Ele não sabe como unir os quadros.”
Porém, Po estava com as mãos atadas. Quando deixara Xangai, o agente de Moscou Ewert lhe dissera com todas as letras que tinha de trabalhar com Mao. Mas essa imposição não abrangia os seguidores de Mao e foi aí que Po agiu. A partir de fevereiro de 1933, uma série de acólitos de Mao — todos de baixo escalão, inclusive seu irmão Tse-tan — foram criticados na imprensa, embora só os poucos do topo soubessem que Mao era o verdadeiro alvo, e sua reputação junto à base foi cuidadosamente preservada. Além disso, Po não usava os métodos assassinos dele. Embora a linguagem fosse estridente (“deixar em cacos”, “lutar cruelmente”), os seguidores de Mao eram tratados como camaradas que haviam errado, não como “inimigos”, e alguns puderam manter postos importantes.
Po Ku conseguiu desmantelar a cadeia de comando separada de Mao e unir o partido para lutar contra Chiang, com grande sucesso. Pela primeira vez, o Exército Vermelho derrotou as tropas do Generalíssimo em batalhas que envolveram dezenas de milhares de soldados. A última expedição de aniquilamento de Chiang fracassou em março de 1933.
Durante essa quarta campanha, Chiang teve de lutar contra os comunistas tendo por pano de fundo o aprofundamento de uma crise nacional. Em fevereiro de 1933, os japoneses vindos da Manchúria haviam atravessado a Grande Muralha e penetrado no norte da própria China, ameaçando Pequim. Naquele mesmo mês, eles estabeleceram
no nordeste um Estado títere chamado Manchukuo. d
Ruijin também venceu essa quarta campanha graças à grande ajuda da União Soviética, que acabara de reatar relações diplomáticas com Chiang, em dezembro de 1932. A volta dos laços formais possibilitou que a Rússia introduzisse mais oficiais de informações na China, sob o disfarce de diplomatas ou jornalistas, para ajudar os comunistas chineses. O adido militar russo, general de divisão do GRU Eduard Lepin, desempenhou um papel central, pois se encontrava regularmente com Chiang e altos oficiais nacionalistas e podia passar informações atualizadas de alto nível ao Exército Vermelho chinês, atuando também como ligação entre este e o grupo de assessoria militar do PCC em Moscou. Os assessores militares secretos de Moscou na China também ajudaram muito na guerra. Mais tarde, quando Mao se encontrou com um deles, o comunista alemão Otto Braun (o único que entrou em Ruijin), ele o elogiou. Depois de saudá-lo com “formalidade rígida”, registrou Braun, “Mao reconhece[u] a bem-sucedida contraofensiva [...] no inverno de 1932-33. Ele disse que o ímpeto para ela veio de mim”.
A principal figura militar do lado dos comunistas chineses durante a quarta campanha foi Chou En-lai, e o fato de os vermelhos obterem vitórias sem precedentes sob sua liderança aumentou muito o status e a confiança de Chou. Mao sabia que Moscou reconhecia os vencedores, e o triunfo militar de Chou podia fazer pender para seu lado o favor dos russos — sobretudo porque Mao se opusera à estratégia de guerra de Moscou. Então, em fevereiro de 1933, Mao voltou de sua “convalescença” para Ruijin e passou a ser cooperativo. Moscou continuou a lhe dedicar cuidado e atenção únicos, advertindo várias vezes seus colegas de que deveriam “incorporar Mao ao trabalho a todo custo [...] Com relação a Mao Tse-tung, vocês devem tentar ao máximo adotar uma atitude de tolerância e conciliação”.
Mao continuou a participar de altas reuniões e presidir aquelas que cabiam ao seu posto. Tinha todas as informações e manteve seus privilégios de elite. Mas sabia que Moscou tinha reservas em relação a ele — quando mais não fosse, pela maneira como seus acólitos eram denunciados nos jornais comunistas. Podia ver também a força do vento que soprava contra ele no grau alarmante de seu isolamento. Dificilmente alguém o visitava. Seus seguidores o evitavam. Às vezes, relembrou sua esposa, ele não trocava uma palavra com alguém de fora da família durante dias. Décadas depois, ele diria que era como se tivesse sido “mergulhado num barril de urina e empurrado para cima e para baixo várias vezes, então eu realmente fedia”.
Uma outra indicação de que ele caíra no conceito de Moscou aconteceu no começo de 1934, quando perdeu seu posto de “premiê” — ao mesmo tempo que mantinha o mais grandioso de “presidente”. A principal missão do premiê era dirigir a administração, algo difícil de fazer Mao cumprir, e o partido queria alguém no cargo que desempenhasse realmente a tarefa. Um quadro ambicioso de 34 anos chamado Lo Fu, que fora treinado na Rússia, tomou seu lugar. Mao foi compensado com a designação para membro pleno do Politburo pela primeira vez, desde 1923, mas não entrou para o âmago do PCC, seu secretariado. Seu nome não estava na lista aprovada por Moscou. Mao boicotou a plenária do partido que implementou essas decisões, pretextando estar doente. Outra “doença diplomática”, observou Po Ku, mas ele não o importunou.
Mao ainda mantinha o prestígio e máxima exposição nas publicações do PCC e de Moscou. Para a população da área vermelha — e para o mundo exterior, inclusive para os nacionalistas —, Mao ainda era “o presidente”. Mas, reservadamente, Po Ku o comparava ao presidente nominal da Rússia. “O velho Mao vai ser apenas um Kalínin agora”, disse a um amigo. “Ha, ha!”
a Em 15 de abril, os comunistas emitiram uma “declaração de guerra ao Japão”. Era pura propaganda, e demorou mais de cinco anos para que o Exército Vermelho desse um tiro contra os japoneses (exceto na Manchúria, onde a organização partidária estava sob o controle de Moscou, não de Ruijin), o que faz com que essa seja uma das mais longas “guerras falsas” da História. Na verdade, a proclamação do PCC era mais uma declaração de guerra a Chiang Kai-shek do que ao Japão, pois afirmava que “para combater os imperialistas japoneses, é, antes de tudo, necessário derrubar o regime dos nacionalistas”. Em comunicações secretas internas do PCC não havia uma única referência ao Japão como o inimigo.
b Os amotinados pertenciam a uma unidade de 17 mil homens cujo comandante os trouxera de Ningdu para o lado comunista em dezembro de 1931. Essa foi a única rebelião a favor dos comunistas desde a de Nanchang, em 1927 — e durante muitos anos no futuro. Esses rebeldes aumentaram em um terço as fileiras do Exército Vermelho no teatro de Fujian-Jiangxi, que ficou com mais de 50 mil homens. Seu comandante, Ji Zhen-tong, logo percebeu no que ele e seus soldados haviam se metido e pediu “para ir para a União Soviética a fim de estudar” — o único pretexto que poderia dar para escapar. Foi logo preso e, mais tarde, executado.
c O partido não tinha mais condições de atuar clandestino em nenhuma cidade das áreas nacionalistas, graças ao policiamento eficaz e às defecções em massa. Nos livros de história, esse fracasso é atribuído, injustamente, a Li Li-san, o bode expiatório para tudo.
d Além do Japão, os únicos Estados que o reconheceram foram El Salvador, o Vaticano e a União Soviética, onde a bandeira de Manchukuo tremulou nos consulados de Chita e Vladivostok. Isso fazia parte da tentativa de Stálin de aplacar Tóquio, para evitar que os japoneses atacassem a União Soviética.