Mao: a história desconhecida
40. O Grande Salto: “Metade da China talvez tenha de morrer”
40. O Grande Salto: “Metade da
China talvez tenha de morrer”
(1958-61; 64-67 anos)
Com seu culto alimentado e irrigado entre a população, seus colegas acovardados e submetidos e as vozes potenciais de dissenso silenciadas por meio da campanha “antidireitista”, Mao tratou de acelerar o Programa de Superpotência, embora continuasse a esconder sua natureza militar. O cronograma original de 1953, que previa completar a “industrialização” em “dez a quinze anos”, foi encurtado para oito, sete ou mesmo cinco — ou possivelmente três — anos. Mao fora informado de que aquisições da Rússia poderiam possibilitar sua entrada no clube das superpotências em cinco anos. Ele imaginava que poderia satisfazer sua ambição em um “big bang”, declarando que “nossa nação é como um átomo”. Chamou o processo de o “Grande Salto Para a Frente”, e o lançou em maio de 1958.
Enquanto dizia à nação, de forma vaga, que o objetivo do Salto era fazer a China “alcançar todos os países capitalistas num tempo bastante curto, e se tornar um dos países mais ricos, avançados e poderosos do mundo”, Mao explicava para plateias pequenas, e de modo estritamente confidencial, o que pretendia fazer quando o Salto estivesse completo. Em 28 de junho, disse a um grupo de elite do Exército: “Agora, o oceano Pacífico não é pacífico. Só poderá sê-lo quando o tomarmos”. Nesse momento, Lin Biao aparteou: “Precisamos construir grandes navios e estar preparados para descer [militarmente] no Japão, nas Filipinas e em San Francisco”. Mao continuou: “Quantos anos para poder construir esses navios? Em 1962, quando tivermos xx-xx toneladas de aço [números omitidos no original]”. Em 19 de agosto, Mao disse a um grupo seleto de chefes provinciais: “No futuro, montaremos o Comitê de Controle da Terra e faremos um plano uniforme para a Terra”. Ele dominava a China e pretendia dominar o mundo.
Para o povo chinês, o Grande Salto foi, com efeito, um enorme pulo — mas na quantidade de alimento arrancado. O confisco não foi calculado com base no que os camponeses poderiam produzir, mas no que era necessário para o programa de Mao. Ele simplesmente afirmou que haveria um aumento enorme na colheita e fez os chefes provinciais proclamarem que suas áreas teriam uma produção astronômica. Quando chegou a época da colheita, os chefes selecionaram lacaios nas bases para declarar que suas regiões haviam, de fato, tido produções fantásticas. A máquina de propaganda de Mao divulgou então essas notícias, com grande estardalhaço. As colheitas estratosféricas e outras alegações foram chamadas de “sputniks”, refletindo a obsessão de Mao com o satélite russo. Em 12 de junho, o Diário do Povo noticiou que em Henan, a principal província-modelo de Mao, uma “cooperativa sputnik” havia produzido 1,8 tonelada de trigo em um mu (1/6 de acre) — mais de dez vezes a norma. As alegações desse tipo não eram, como a história oficial chinesa quer nos fazer crer, resultado de fanfarronice espontânea de quadros locais e camponeses. A imprensa era a voz de Mao, não da opinião pública.
Os “campos sputniks” proliferaram. Em geral, eram criados com o transplante de plantas maduras de vários campos para um único lote artificial. Eram o equivalente maoísta dos campos Potiómkin — com a diferença fundamental de que não eram feitos para enganar o governo, mas produzidos pelo governo para os olhos de subalternos distantes, quadros de base de outras fazendas coletivas. Esses quadros eram muito importantes para Mao, pois eram as pessoas que estavam imediatamente encarregadas de entregar as colheitas ao Estado. Mao queria que eles vissem esses campos sputniks e depois voltassem para fazer reivindicações similares, a fim de que o Estado pudesse dizer: uma vez que vocês produziram mais, podemos tomar mais. Os quadros que se negavam a seguir essa linha eram condenados e substituídos por outros mais dóceis. Notícias sobre colheitas imensas enchiam a imprensa, enquanto Pequim parava em silêncio com a encenação dos transplantes, pois causava grandes perdas.
No final de julho, o Diário do Povo já declarava que “podemos produzir o quanto quisermos de alimentos”, montando o palco para Mao afirmar publicamente, em 4 de agosto: “Devemos pensar no que fazer com todo esse excedente de comida”. Essa alegação de excesso de produção era algo em que o próprio Mao não podia acreditar. Seis meses antes, em 28 de janeiro, ele reconhecera perante o Conselho Supremo que havia escassez de comida: “O que vamos fazer, se não há alimento suficiente para comer?”, havia perguntado. Sua solução era a seguinte: “Não é pior do que comer menos [...] Estilo oriental [...] É bom para a saúde. Os ocidentais têm muita gordura na comida deles; quanto mais se avança para o Ocidente, mais gordura eles comem. Eu digo que os comedores de carne ocidentais são desprezíveis”. “Acho que é bom comer menos. Para que serve comer um monte e ficar com uma barriga grande, como os capitalistas estrangeiros das caricaturas?” Essas observações poderiam se aplicar ao próprio Mao, que tinha uma pança, mas eram irrelevantes para camponeses famintos. Em janeiro, Mao dissera: não há alimento suficiente, mas as pessoas podem comer menos. Seis meses depois, dizia: há alimento demais. Essas observações contraditórias tinham o mesmo propósito: arrancar mais alimentos dos camponeses.
Em setembro, o Diário do Povo noticiou que “o maior sputnik de arroz” havia produzido mais de setenta toneladas em menos de 1/5 de acre, o que era centenas de vezes mais do que a norma. Esse campo sputnik foi forjado por um ambicioso chefe novo de um condado em Guangxi. No final do ano, seu condado relatou uma produção de grãos que era mais de três vezes a quantidade verdadeira. O Estado exigiu então 4,8 vezes mais do que tomara no ano anterior, o que era impossível de cumprir.
Os quadros de base recorriam frequentemente à força bruta. E, se fossem julgados ineficazes, policiais armados eram enviados. Em 19 de agosto de 1958, Mao instruiu seus chefes provinciais: “Quando vocês ordenarem que entreguem coisas e elas não forem entregues, reforcem suas ordens com a força”. Sob tal pressão, a violência estatal grassou em todo o campo chinês.
Para produzir uma “justificação”, Mao acusou várias vezes os quadros camponeses das aldeias de esconder grãos. Em 27 de fevereiro de 1959, disse ao alto escalão: “Todas as equipes de produção escondem alimentos para dividir entre eles. Escondem até em porões profundos e secretos e colocam guardas e sentinelas”. No dia seguinte, afirmou de novo que os camponeses estavam “comendo folhas de cenoura durante o dia, e arroz à noite”. Com isso, queria dizer que fingiam não ter a comida adequada, mas, na verdade, tinham alimento bom que consumiam em segredo. Mao revelou seu desprezo pelo campesinato para seu círculo íntimo: “Os camponeses estão escondendo comida [...] e são muito ruins. Não há espírito comunista neles! Camponeses são, afinal, camponeses. Essa é a única maneira como eles conseguem se comportar”.
Mao sabia muito bem que os camponeses não tinham alimentos para esconder. Ele contava com um sistema eficiente de informação e sabia de tudo o que acontecia diariamente no país. Em um lote de relatórios de abril de 1959, ele anotou que havia grave crise de fome na metade do país: “um grande problema: quinze províncias — 25,17 milhões de pessoas sem alimento”; sua reação foi pedir para que as províncias “tratassem do assunto”, mas não disse como. Um relatório da província de Yunnan que chegou à sua mesa, datado de 18 de novembro de 1958, descrevia uma onda de mortes por edema — inchaço causado por severa desnutrição. De novo, sua reação foi passar o problema adiante: “Esse erro é principalmente culpa dos quadros do condado”. Mao sabia que em muitos lugares as pessoas estavam reduzidas a comer misturas de terra. Em alguns casos, aldeias inteiras morreram quando os intestinos das pessoas ficaram bloqueados.
Esse aperto nacional possibilitou que Mao exportasse 4,74 milhões de toneladas de grãos, no valor de 935 milhões de dólares, em 1959. As exportações de outros alimentos também dispararam, em particular de carne de porco.
A alegação de que a China “tem alimentos demais” foi passada para Khruchióv. Quando ele foi a Pequim, no verão de 1958, Mao pressionou-o para que ajudasse a China a construir submarinos nucleares, que seriam extremamente caros. Khruchióv perguntou como ela iria pagar. A resposta de Mao foi que o país tinha suprimentos infindáveis de alimentos.
A comida também foi usada como matéria-prima no programa nuclear, que exigia combustível de alta qualidade. Os grãos foram transformados no álcool mais puro. Em 8 de setembro, depois de afirmar que havia alimentos para poupar, Mao disse ao Conselho Supremo que “precisamos encontrar escoadouros para os cereais nas indústrias, por exemplo, para produzir álcool etílico para combustível”. Assim, os cereais foram usados para testes de mísseis, cada um dos quais consumia 10 milhões de quilos de grãos, o suficiente para exaurir radicalmente o consumo de comida de 1 a 2 milhões de pessoas durante um ano inteiro.
Os camponeses tinham agora de trabalhar com muito mais esforço e durante mais horas do que antes. Como queria aumentar a produção sem gastar nada, Mao agarrou-se a métodos que dependiam de mão de obra, não de investimento. Por esse motivo, ordenou enormes esforços para construir sistemas de irrigação: diques, represas, canais. Nos quatro anos seguintes a 1958, cerca de 100 milhões de camponeses foram coagidos a trabalhar nesses projetos, removendo uma quantidade de terra e pedra equivalente a escavar 950 canais de Suez, usando principalmente martelos, pás e enxadas e, às vezes, até portas e estrados de camas de suas casas para improvisar carretas. Os camponeses convocados para esses projetos tinham amiúde de trazer não somente sua comida, mas também as ferramentas e, em muitos casos, materiais para construir seus abrigos.
Na ausência de medidas de segurança e cuidados médicos, os acidentes eram frequentes, assim como as mortes, circunstâncias de que Mao estava bem consciente. Suas conversas com os chefes provinciais sobre essas obras estão cheias de menções ao número de mortos. Em abril de 1958, observou que, como Henan (seu modelo) havia prometido remover 30 bilhões de metros cúbicos no inverno seguinte, “acho que 30 mil pessoas morrerão”. Anhui, outra das províncias favoritas de Mao, “disse 20 bilhões de metros cúbicos e penso que 20 mil pessoas morrerão”. Quando altos funcionários da província de Gansu apelaram contra “a destruição de vidas humanas” nesses projetos, Mao fez com que fossem condenados e punidos como uma “camarilha direitista antipartido”.
Mao queria resultados instantâneos, então promoveu um slogan típico: “Levantamento, Projeto e Execução Simultâneos”, conhecidos como os “Três Simultâneos”. Desse modo, o levantamento geológico era escasso, ou inexistente, e um quarto “Simultâneo” logo se fazia necessário: Revisão.
Um projeto bem conhecido foi um canal de 1400 quilômetros de extensão através do platô da Terra Amarela, região assolada por secas, no noroeste da China. A obra teve de atravessar oitocentas montanhas e vales e os 170 mil trabalhadores tiveram de escavar cavernas para dormir e procurar ervas para comer. Depois de meses de andamento do projeto, túneis que eles já haviam começado a cavar, com as mãos, foram abandonados em favor de aquedutos. Depois de mais alguns meses, esse método também foi abandonado e alguns dos túneis foram reiniciados. O projeto continuou assim por três anos, durante os quais pelo menos 2 mil operários morreram, e depois foi abandonado. O relato oficial admitiu que nenhum lote de terra fora beneficiado.
A maioria dos projetos revelou-se um desperdício assombroso. Muitos tiveram de ser abandonados pela metade: dos mais de quinhentos açudes grandes (com capacidade para 100 milhões de metros cúbicos ou mais), duzentos já haviam sido abandonados no final de 1959. Muitos outros ruíram enquanto Mao ainda estava vivo. O pior desastre de represa da história aconteceu em 1975, em Henan, a província modelar de Mao, quando muitos açudes construídos na época do Salto desabaram durante uma tempestade, e estima-se que afogaram entre 230 e 240 mil pessoas (número oficial de mortos: 85 600). Outros projetos malucos da era de Mao continuaram matando gente muito tempo depois de sua morte e, em 1999, não menos de 33 mil deles foram considerados riscos para a vida humana. As represas também tiraram milhões de seus lares e, mais de duas décadas depois, ainda havia 10,2 milhões de “pessoas deslocadas por represas”.
Mao impôs muitos outros projetos mal planejados aos camponeses, como forçá-los a cavar o solo manualmente até uma profundidade de meio metro. “Usem a tática da onda humana e revirem todos os campos”, ordenou. A semeadura muito próxima foi outro erro. Ela precisava de fertilizantes, mas Mao recusava-se a fazer os investimentos necessários e, no final de 1958, chegou a ordenar: “Reduzam as importações de fertilizantes químicos”. Em outra ocasião, disse: “Transformar a China em um país de porcos [...] para que haja muito esterco [...] e mais do que suficiente carne, que pode ser exportada em troca de ferro e aço”. Mas não disse de onde viria a comida para os porcos. Na verdade, sob a direção de Mao, o número de porcos do país caiu 48% entre 1957 e 1961.
Ao longo dos séculos, os camponeses chineses haviam aplicado sua engenhosidade para encontrar todas as substâncias possíveis que pudessem ser usadas como fertilizante. Nas áreas urbanas, cada lugar onde se despejavam dejetos humanos era alocado para uma determinada aldeia e os camponeses vinham antes do amanhecer para recolhê-los com seus barris oblongos sobre carroças. Os dejetos humanos eram tão preciosos que irrompiam brigas frequentes entre pessoas de aldeias diferentes devido a invasões de território com suas conchas de cabos longos. Desesperadas para encontrar novas fontes de fertilizantes, as pessoas começaram a misturar esterco animal e humano com os tetos de sapê e paredes de barro das casas velhas, nas quais a fumaça e a gordura haviam penetrado. Milhões de casas de camponeses foram derrubadas para alimentar fossos de esterco, conhecidos como “lagos de merda e mares de mijo”.
Um dia, Mao teve a brilhante ideia de que uma boa maneira de manter os alimentos seguros era se livrar dos pardais, pois eles comiam grãos. Então designou esses passarinhos como uma das “Quatro Pragas” que deveriam ser eliminadas, junto com ratos, mosquitos e moscas, e mobilizou toda a população para sacudir paus e vassouras e fazer uma algazarra gigantesca, a fim de assustar os pardais e impedi-los de pousar, de tal modo que eles cairiam de fadiga, seriam capturados e mortos pelas multidões. Havia muito a dizer sobre a erradicação das outras três, que eram pragas genuínas, embora um efeito colateral tenha sido o desaparecimento da pouca privacidade que as pessoas tinham para desempenhar suas funções corporais, porque ávidos caçadores de moscas invadiam os lavatórios públicos aos magotes. Mas o argumento a favor da eliminação dos pardais não era tão incontroverso, pois esses pássaros, além de comer grãos, eliminavam muitas pragas — e não é preciso dizer que muitas outras aves morreram na farra da matança. Pragas que eram mantidas sob controle pelos pardais e outros pássaros floresceram, com resultados catastróficos. Os argumentos dos cientistas de que o equilíbrio ecológico seria afetado foram ignorados.
Não demorou para que um pedido do governo chinês marcado “Ultrassecreto” chegasse à embaixada soviética em Pequim. Em nome do internacionalismo socialista, pedia que enviassem 200 mil pardais do leste da União Soviética assim que possível. Mao teve de admitir que seu movimento antipardal foi contraprodutivo e ele sumiu aos
poucos.a
A campanha das “Quatro Pragas” foi uma espécie de substituto maoísta do tipo “faça você mesmo” de um serviço de higiene, pois era de trabalho intensivo e livre de investimento. Mao também quis se livrar dos cães, que consumiam comida, mas desistiu quando lhe disseram que os camponeses precisavam deles para guardar suas casas enquanto estavam fora, no trabalho.
Outro fiasco que gastou energia dos camponeses e provocou desastre foi a ordem de Mao de que todo o país tinha de “fazer aço”. O Programa de Superpotência precisava de muito aço, metal que era a medida de Mao para o status de superpotência. Em 1957, quando se jactou para os líderes comunistas em Moscou que a China iria “alcançar a Grã-Bretanha em quinze anos” (que depois encurtou para três) e quando disse aos chineses que tinha plena confiança de que o país poderia “alcançar os Estados Unidos” em dez anos, o que tinha em mente era a produção de aço. Ele estabeleceu a meta para 1958 de 10,7 milhões de toneladas. Como isso aconteceu é uma história que ilustra sua visão grosseira da economia. Sentado ao lado de sua piscina em Zhongnanhai, em 19 de junho, disse ao ministro da metalurgia: “No ano passado, a produção de aço foi de 5,3 milhões de toneladas. Você pode dobrá-la neste ano?”. O servil ministro disse: “Tudo bem”. E assim foi.
Usinas de aço e indústrias relacionadas, como minas de carvão, receberam ordens para se empenhar ao máximo a fim de acelerar a produção. As regras e o bom senso foram deixados de lado. Em poucos meses, os equipamentos foram usados em excesso até quebrar e mais de 30 mil trabalhadores morreram em acidentes graves. Os especialistas que criticaram a operação foram perseguidos. Mao estabeleceu o tom de descrédito da racionalidade ao dizer que “o conhecimento dos professores burgueses deve ser tratado como peido de cachorro, sem nenhum valor, que merece apenas desprezo, escárnio, desdém”.
Mesmo empenhando-se ao máximo, as usinas existentes não podiam satisfazer a meta de Mao. Sua reação foi mandar a população em geral construir “fornalhas de quintal”. Pelo menos 90 milhões de pessoas foram “forçadas”, como disse Mao com franqueza, a construir tais fornos, que Khruchióv, com justeza, apelidou de “fornalhas samovares” e que não produziam aço, mas ferro-gusa, quando muito.
Para alimentar esses fornos, a população foi coagida a doar praticamente todas as peças de metal que possuía, mesmo aquelas que eram usadas em objetos produtivos e até essenciais. Ferramentas agrícolas, até carros-pipa, foram levados e derretidos, assim como utensílios de cozinha, maçanetas de ferro e grampos de cabelo femininos. O slogan do regime era: “Entregar uma picareta é destruir um imperialista e esconder um prego é esconder um contrarrevolucionário”.
Em toda a China, mais casas de camponeses foram derrubadas e seus ocupantes transformados em sem-teto, para que a madeira e a palha pudessem ser queimadas como combustível. A maioria das montanhas e encostas de morros acessíveis ficou nua de árvores. O desmatamento resultante ainda causava inundações décadas depois.
As fornalhas exigiam atenção constante, consumindo uma enorme quantidade de tempo de trabalho. Dezenas de milhões de camponeses, mais uma grande proporção de animais de tração, foram tirados da agricultura, deixando-a nas mãos de mulheres e crianças em muitos lugares. No final do ano, cerca de 10 bilhões de dias de trabalho haviam sido perdidos pela agricultura, em torno de um terço do tempo que teria sido usado normalmente para a produção de grãos. Embora a produção da safra de 1958 tenha sido levemente maior que a do ano anterior, não houve aumento na quantidade colhida.
À medida que se aproximava o prazo para alcançar sua meta de produção anual de aço, cada vez que Mao via seus administradores, contava nos dedos os dias que faltavam e os advertia: “Precisamos conseguir!”. Em 31 de dezembro, as 10,7 milhões de toneladas foram atingidas, mas, como ele reconheceu para o alto escalão, “apenas 40% é aço bom”; e mais de 3 milhões de toneladas eram totalmente inúteis. O aço “bom” fora produzido por usinas adequadas; o inútil vinha das fornalhas de quintal e quase todas foram logo abandonadas. A aventura toda, um gigantesco desperdício de recursos e mão de obra, desencadeou outras perdas: em determinado lugar, os chefões locais sequestraram carregamentos de ligas metálicas russas de alta qualidade e as derreteram para que pudessem alegar uma produção abundante, chamada de “Sputnik de Ferro e Aço”. “Não sou bom para construir, mas superbom para destruir”: nunca a autoavaliação de Mao foi tão correta.
Mao desperdiçou boa parte da tecnologia e do equipamento comprados da Rússia, junto com as habilidades dos especialistas que os acompanharam. As máquinas ficavam amiúde ociosas, pois faltava a infraestrutura industrial gigantesca exigida por elas. O equipamento que estava funcionando era exigido em excesso, trabalhando às vezes 24 horas por dia, enquanto a manutenção era negligenciada ou considerada irrelevante. Mao estimulava a desobediência aos regulamentos e dizia aos chineses que trabalhavam com os assessores russos que não deviam ser “escravos” da expertise soviética. Os apelos ao bom senso dos russos não davam em nada. Até o principal assessor Arkhípov, que era muito pró-chinês, foi repelido com desprezo. Ele nos contou que, em 1958, “pedi a Chou e Chen Yun para tentar persuadir Mao a manter suas ideias para si mesmo, mas ele não dava ouvidos [...] Eles me disseram: desculpe, Mao não concordou com o lado soviético”. Em junho de 1959, o vice-premiê soviético Aleksandr Zassiádko, especialista em metalurgia e silos de mísseis, visitou a China e depois relatou a Khruchióv que “eles deixaram a coisa toda ir para o vinagre”.
No final de 1958, os grandes projetos industriais centrados em armas que estavam em construção haviam alcançado a quantidade assombrosa de 1639 — mas somente 28 haviam sido completados e produziam alguma coisa. Muitos jamais foram terminados, devido à falta de materiais básicos como aço, cimento, carvão e eletricidade. O próprio regime os chamou de “projetos velhos”. Mao foi o único governante da História a produzir um cilindro de ferrugem no começo da industrialização, em vez de no final dela.
Tudo isso foi destrutivo para os sonhos dele. A velocidade vertiginosa que impôs sabotou a qualidade e criou um problema de longo prazo que iria afligir a produção de armas durante todo o seu reinado. A China acabou com aviões incapazes de voar, tanques que não andavam em linha reta (em certa ocasião, um deles deu uma guinada e atacou os VIPs que observavam) e navios que eram um perigo para a tripulação quase tão grande quanto para os inimigos da China. Quando Mao decidiu dar um helicóptero a Ho Chi Minh, os fabricantes ficaram tão receosos de que ele pudesse cair que o detiveram na fronteira.
O Salto de quatro anos foi um desperdício monumental de recursos naturais e esforço humano, único em sua escala na história mundial. Uma grande diferença entre outros regimes ineficientes e destrutivos e o de Mao é que a maioria dos regimes predadores roubou suas populações depois de trabalho relativamente pouco intenso e de forma menos sistemática, ao passo que Mao espremeu primeiro todos até o osso, depois tomou tudo — e depois desperdiçou tudo.
Mao exigia um grau febril de trabalho, usando sem parar campanhas de “emulação” para fazer as pessoas competirem umas com as outras. Homens, mulheres e crianças subnutridos e exaustos eram levados a cavar em dobro, tendo muitas vezes de correr carregando cargas extremamente pesadas, e em qualquer tempo, do sol abrasador ao frio enregelante. Tinham de trotar quilômetros por trilhas montanhosas carregando água para os campos, da alvorada ao anoitecer. Tinham de ficar acordados a noite inteira para manter em funcionamento as inúteis “fornalhas de quintal”. Mao chamava essa maneira de trabalhar de “espírito comunista”. Em uma de suas muitas cenas teatrais, em 6 de novembro de 1958, ele afirmou que os camponeses se recusavam a fazer pausas (“mesmo que você queira que eles descansem, eles não querem”) e depois fez o papel de magnânimo e codificou seu dia ótimo: “Mudança a partir de 1 o de janeiro do próximo ano: garantir oito horas de sono, quatro horas para comida e descansos, duas horas de estudo [isto é, doutrinação] [...] 8-4-2-10”, em que “10” se referia às horas de trabalho. No mesmo tom generoso, ele concedeu alguns dias de folga: dois por mês e cinco para as mulheres (mais do que os três em que ele havia originalmente pensado).
Na verdade, essas minúsculas concessões foram, em parte, consequência de notícias de epidemias, que Mao levou a sério, quando mais não fosse porque afetavam a força de trabalho. Um relato que o espantou envolvia uma epidemia de tifo perto de Pequim. Ele conclamou a “reduzir muito as doenças”, para que as pessoas “possam continuar a trabalhar todos os dias”.
No verão de 1958, Mao empurrou toda a população rural para dentro de unidades novas e maiores chamadas “Comunas Populares”. O objetivo era tornar mais eficiente o trabalho forçado. Ele mesmo disse que, ao concentrar os camponeses em um número menor de unidades — pouco mais de 26 mil em todo o país —, era “mais fácil controlar”. A primeira comuna, a Chayashan Sputnik, foi montada em Henan, a província-modelo. Seu estatuto, que Mao editou e classificou como “um grande tesouro”, estabelecia que todos os aspectos da vida de seus membros deveriam ser controlados pela comuna. Todas as 9369 famílias tinham de “entregar totalmente seus lotes privados [...] suas casas, animais e árvores”. Deveriam dormir em dormitórios, “de acordo com os princípios de beneficiar a produção e o controle”; e o estatuto estipulava que suas casas deveriam ser “desmanteladas [...] se a comuna precisar de tijolos, telhas ou madeira”. A vida de todos os camponeses deveria girar em torno do “trabalho”. Todos os membros deveriam ser tratados como se estivessem no Exército, com um sistema de três níveis de arregimentação: comuna, brigada e equipe de produção (em geral, uma aldeia). Os camponeses tinham direito a quantidades insignificantes de dinheiro. As comunas eram, de fato, campos para trabalhadores escravos.
Mao chegou mesmo a brincar com a ideia de eliminar os nomes das pessoas e substituí-los por números. Em Henan e outras áreas modelares, as pessoas trabalhavam nos campos com um número costurado nas costas. O objetivo de Mao era desumanizar os 550 milhões de camponeses da China e transformá-los no equivalente humano de animais de carga.
Como convinha à cultura de campo de trabalho forçado, os internos tinham de comer em cantinas. Os camponeses não foram somente proibidos de comer em casa como tiveram seus fogões e panelas destruídos. O controle total sobre a alimentação deu ao Estado uma arma aterrorizante e negar comida tornou-se uma forma comum de punição “leve”, que os funcionários subalternos podiam usar contra quem quisessem.
Como as cantinas ficavam, às vezes, a horas de caminhada de onde as pessoas moravam ou trabalhavam, muitos tendiam a mudar-se para próximo delas. Ali, homens, mulheres, crianças e velhos viviam como animais, apinhados em qualquer espaço disponível, sem privacidade ou vida familiar. Isso também aumentou enormemente a incidência de doenças. Enquanto isso, suas casas, muitas feitas de barro e bambu, caíam em ruínas, sem falar daquelas derrubadas para produzir fertilizante, ou para alimentar as fornalhas do quintal. Na primavera de 1961, quando Liu Shao-chi inspecionou uma região próxima de sua aldeia natal, das 1415 habitações anteriores, restavam apenas 621 cabanas decrépitas.
A alegação feita por Mao de que havia “comida demais” contribuiu de outra forma para aumentar a miséria dos camponeses. Quando as cantinas foram montadas, muitos quadros permitiam que os camponeses famintos se fartassem. Essa farra durou apenas alguns meses, mas apressou o início da fome — e das mortes em massa — em muitas áreas antes do final de 1958. Três anos depois, Mao concordou, com relutância, em abandonar as cantinas. No entanto, seu fechamento, embora muito popular, foi quase tão doloroso quando sua abertura, pois muitos camponeses que se haviam instalado perto delas não tinham mais para onde ir. Mesmo onde suas habitações haviam sobrevivido, não havia mais fogões e panelas.
A subnutrição e o excesso de trabalho logo reduziram dezenas de milhões de camponeses a um estado de fraqueza que os impossibilitava de trabalhar. Quando descobriu que um condado estava distribuindo alimentos aos que estavam doentes demais para trabalhar, a reação de Mao foi: “Isso não vai dar certo. Deem-lhes essa quantidade e eles não trabalham. É melhor cortar pela metade a ração básica, assim, se ficarem com fome, terão de dar duro”.
As pessoas que dirigiam os camponeses eram os quadros das comunas, que pertenciam ao partido e se transformaram em feitores. Sabedores de que as falhas na execução de suas tarefas poderiam fazer suas famílias entrar para as fileiras dos famintos, muitos adotavam a atitude assim expressa por um deles: as pessoas eram “escravos que precisam ser espancados, maltratados ou ter a comida suspensa para obrigá-los a trabalhar”.
Esses quadros faziam também o papel de carcereiros, mantendo os camponeses encerrados em suas aldeias. Em 19 de agosto de 1958, Mao apertou ainda mais o cerco àqueles que se mudavam sem autorização, o que ele chamou de “gente perambulando sem controle”. A possibilidade tradicional de escapar da fome fugindo para um lugar onde houvesse comida, que havia muito tempo era ilegal, foi então bloqueada. Um camponês descreveu a situação como pior do que na época da ocupação japonesa: “Mesmo quando os japoneses vieram, podíamos fugir. Neste ano [1960] [...] estamos simplesmente confinados para morrer em casa. Minha família tinha seis membros e quatro morreram”.
A outra tarefa dos quadros era impedir que os camponeses “roubassem” a própria colheita. Punições horríveis eram comuns: algumas pessoas eram enterradas vivas, outras estranguladas com cordas, de outras ainda cortavam-lhes o nariz. Em uma aldeia, quatro crianças apavoradas foram salvas de serem enterradas vivas por terem tomado um pouco de comida somente quando a terra já estava na cintura delas, depois de apelos desesperados de seus pais. Em outra aldeia, cortaram quatro dedos de uma criança por tentar roubar um pouco de comida; em outra ainda, enfiaram arames nas orelhas de duas crianças que tentaram roubar comida e as penduraram pelo arame numa parede. Brutalidades desse tipo aparecem em quase todos os relatos desse período, em todo o país.
Em 1958, como parte do Salto, Mao tentou também transformar as cidades em campos de trabalho escravo, organizando comunas urbanas. Seu plano era abolir os salários e pôr toda a sociedade em um sistema de casernas sem dinheiro. Isso não funcionou, pois esse sistema não era adequado às cidades modernas, onde a vida tinha dimensões mais complexas.
Mas o fracasso não significou que Mao não tenha destroçado as cidades. Sua orientação para elas era: “Produção primeiro. A vida vem em segundo lugar”. Sua cidade ideal era um centro puramente industrial. Diante do portão de Tiananmen e olhando para os palácios, templos e pagodes esplendorosos que naquela época compunham a silhueta de Pequim, ele disse ao prefeito: “No futuro, quero olhar em volta e ver chaminés por toda parte!”.
Pior do que isso: Mao queria destruir as cidades existentes em escala maciça e construir centros industriais sobre as ruínas. Em 1958, foi feito um levantamento dos monumentos históricos de Pequim. A lista continha 8 mil — e o regime decidiu conservar 78. Todos que souberam do plano, do prefeito para baixo, manifestaram-se contra esse grau de destruição. Por fim, a ordem não foi executada de forma tão drástica — durante algum tempo. Mas, por insistência de Mao, as muralhas e portões seculares de Pequim foram, em grande parte, derrubados e o entulho serviu para aterrar um lindo lago que havia na cidade. “Estou encantado que os muros em Nanquim, Jinan e outras cidades [também] foram derrubados”, disse ele. Mao gostava de zombar dos intelectuais que derramavam lágrimas de angústia diante dessa destruição insensata e os fez trabalhar nas equipes de demolição. Muitos dos sinais visíveis da civilização chinesa desapareceram para sempre da face da Terra.
Mao manifestou várias vezes sua aversão pela arquitetura chinesa, ao mesmo tempo que elogiava as construções europeias e japonesas, que via como representativas das realizações de Estados militaristas. “Não suporto as casas de Pequim e Kaifeng [velha capital]. Prefiro muito mais as de Qingdao e Changchun”, observou ele ao seu círculo íntimo em janeiro de 1958. Qingdao era uma antiga colônia alemã e Changchun fora construída pelos japoneses para ser a capital do Estado títere de Manchukuo. Mao chamava repetidamente essas duas cidades de “as melhores”.
Ele permitiu que algumas coisas com caráter chinês fossem construídas. Nos primeiros anos de seu regime, algumas edificações em estilo chinês antigo foram erguidas, mas logo depois denunciadas por seu design tradicional. Em 1959, quando se construíram novos edifícios para marcar o décimo aniversário do regime, eles tinham estilo soviético. Na verdade, foram as únicas construções da era maoísta com alguma preocupação estética. O resto eram fábricas e blocos de concreto cinza utilitários.
O mais conhecido dos novos edifícios era o Grande Salão do Povo, no centro de Pequim. Era onde Mao pretendia realizar grandes reuniões de prestígio e ele ordenou especificamente que o auditório fosse projetado para 10 mil pessoas. O Grande Salão, com 171 800 metros quadrados de área, foi erguido em um lado da praça Tiananmen, diante do antigo palácio imperial, a Cidade Proibida. Decidido a superar outros governantes totalitários em gigantismo, Mao deu ordens para que Tiananmen se tornasse “a maior praça do mundo, capaz de abrigar um comício de 1 milhão de pessoas”. O que era um quadrado de onze hectares, com características próprias, teve o tamanho quadruplicado, destruindo vários trechos da cidade antiga. O resultado foi um espaço de concreto desprovido de calor humano, o coração desumanizado do regime de Mao.
As pessoas passavam fome nas cidades também, embora o número de mortes fosse muito menor do que no campo. Não obstante, a maioria dos habitantes urbanos mal conseguia sobreviver com as rações que obtinha. “A vida parecia avançar em câmera lenta”, observou uma testemunha polonesa em Pequim. “Condutores de riquixá mal conseguem pedalar [...] dezenas de milhares de ciclistas comatosos [...] o abatimento está estampado nos olhos dos transeuntes.” A ração de carne urbana declinou anualmente de 5,1 quilos por pessoa em 1957 para pouco mais de 1,5 quilo em 1960. As pessoas eram instruídas a comer “substitutos de comida”. Um deles era uma substância parecida com ova de peixe chamada clorela, que crescia na urina e continha um pouco de proteína. Depois que Chou En-lai provou e aprovou essa coisa nojenta, ela logo passou a prover uma alta proporção da proteína da população urbana.
Essa epidemia de fome, que era nacional, começou em 1958 e durou até 1961, com o auge em 1960. Nesse ano, as estatísticas do próprio regime registraram que a ingestão diária de calorias caíra para 1534,8. De acordo com Han Suyin, um grande defensor do regime, as donas de casa urbanas estavam consumindo um máximo de 1200 calorias por dia em 1960. Em Auschwitz, os trabalhadores escravos recebiam entre 1300 e 1700 calorias por dia. Eles trabalhavam onze horas diárias e a maioria que não conseguia comida extra morria em poucos meses.
Durante a fome, alguns apelaram para o canibalismo. Um estudo pós-Mao (logo proibido) do condado de Fengyang, na província de Anhui, registrou 63 casos de canibalismo só na primavera de 1960, inclusive o de um casal que estrangulou e comeu o filho de oito anos. E o caso de Fengyang não era provavelmente o pior. Em um condado de Gansu em que um terço da população morreu, o canibalismo era corrente. Um quadro de aldeia que perdeu esposa, irmã e filhos contou depois a jornalistas: “Muita gente na aldeia comeu carne humana [...] Veem aquelas pessoas acocoradas tomando sol do lado de fora do escritório da comuna? Algumas delas comeram carne humana [...] As pessoas simplesmente ficavam loucas de fome”.
Enquanto tudo isso acontecia, havia abundância de alimentos nos celeiros do Estado, que eram guardados pelo Exército. Uma parte disso simplesmente apodreceu. Um estudante polonês viu frutas “apodrecendo às toneladas” no sudeste da China no verão-outono de 1959. Mas a ordem de cima era: “Não abrir absolutamente a porta do celeiro, mesmo que as pessoas estejam morrendo de inanição” (e-si bu-kai-cang).
Perto de 38 milhões de pessoas morreram de fome e excesso de trabalho no Grande
Salto Para a Frente, na epidemia de fome que durou quatro anos. b O número foi confirmado pelo próprio Liu Shao-chi. Mesmo antes do fim da fome, ele contou ao embaixador soviético Stepan Tchervonenko que 30 milhões de pessoas já haviam morrido.
Foi a maior epidemia de fome do século XX — e de toda a história registrada da humanidade. Mao matou conscientemente de inanição e excesso de trabalho esses milhões de pessoas. Durante os dois anos críticos de 1958-59, as exportações de grãos sozinhas, quase 7 milhões de toneladas, teriam proporcionado o equivalente a mais de 840 calorias por dia para 38 milhões de pessoas — a diferença entre vida e morte. E isso falando-se apenas de grãos, sem incluir carne, óleo de cozinha, ovos e outros alimentos que foram exportados em grandes quantidades. Se essa comida não tivesse sido exportada (e fosse distribuída conforme critérios humanos), é muito provável que nenhum chinês tivesse morrido de fome.
Na verdade, Mao havia levado em conta uma quantidade muito maior de mortes. Embora um massacre não fosse o objetivo do Grande Salto, ele estava mais do que pronto para uma miríade de mortes e sugerira ao alto escalão que eles não deveriam ficar chocados com isso. No congresso de maio de 1958 que deflagrou o Salto, ele disse à plateia que, ao contrário de temer, eles deveriam saudar a morte das pessoas em consequência da política do partido. “Não seria desastroso se Confúcio ainda estivesse vivo hoje?”, argumentou. O filósofo taoísta Chuang Tzu “estava certo ao espreguiçar-se e cantar quando sua esposa morreu. Deveria haver comícios de comemoração quando as pessoas morrem”. A morte, disse Mao, “deve ser motivo de júbilo [...] Acreditamos na dialética, então não podemos deixar de ser a favor da morte”.
Essa filosofia superficial e, contudo, brutal foi repassada para os funcionários subalternos. No condado de Fengyang, quando mostraram a um deles os cadáveres das pessoas que haviam morrido de inanição e excesso de trabalho, ele repetiu quase palavra por palavra o que Mao dissera: “Se as pessoas não morrerem, a terra não poderá sustentá-las! As pessoas vivem e morrem. Quem não morre?”. Usar luto foi proibido; até mesmo derramar lágrimas — pois Mao dissera que a morte deveria ser celebrada.
Mao via vantagens práticas nas mortes em massa. “As mortes trazem benefícios”, disse ao alto escalão em 9 de dezembro de 1958. “Elas podem fertilizar o solo.” Desse modo, os camponeses receberam ordens para plantar sobre túmulos, o que causou intensa angústia.
Podemos dizer agora com segurança de quantas pessoas Mao estava pronto para se desfazer. Em 1957, quando se encontrava em Moscou, ele disse: “Estamos preparados para sacrificar 300 milhões de chineses pela vitória da revolução mundial”. Isso equivalia a cerca de metade da população da China de então. Em 17 de maio de 1958, ele disse ao congresso do partido: “Não se preocupem tanto com uma guerra mundial. No máximo, morrem pessoas [...] Metade da população aniquilada — isso aconteceu algumas vezes na história chinesa [...] É melhor que sobre metade da população, melhor ainda, um terço”.
Mao não estava pensando somente numa situação de guerra. Em 21 de novembro de 1958, ao conversar com seu círculo íntimo sobre os projetos de trabalho intensivo como sistemas hidráulicos e fabricação de “aço”, ele supôs tacitamente e de modo quase casual um contexto em que os camponeses teriam pouco para comer e trabalhariam até a exaustão, e disse: “Trabalhando assim, com todos esses projetos, metade da China talvez tenha de morrer. Se não a metade, um terço, ou um décimo — 50 milhões morrem”. Consciente de que essas observações poderiam chocar, tentou diminuir sua responsabilidade. “Cinquenta milhões de mortos”, continuou ele, “eu poderia ser despedido e poderia até perder minha cabeça [...] mas, se vocês insistirem, eu terei de deixar vocês fazerem isso, e vocês não poderão me culpar quando as pessoas morrerem.”
a Kim Il Sung, da Coreia do Norte, revelou-se menos estúpido do que Mao nessa questão. O líder chinês pressionou-o para imitar a campanha contra os pardais. Para satisfazer Mao, Kim redigiu um “Plano Trienal para Punir Pardais”, mas depois não fez nada enquanto aguardava os resultados da campanha chinesa.
b Esse número baseia-se no seguinte cálculo. Os demógrafos chineses concluíram que as taxas de mortalidade de 1958 a 1961 foram de 1,20%, 1,45%, 4,34% e 2,83% respectivamente. A taxa média de mortalidade nos três anos imediatamente anteriores e posteriores à fome foi de 1,03%; em 1957, 1,08%; em 1962, 1%; e em 1963, 1%. As taxas de mortalidade acima dessa média só podem ter sido causadas pela inanição e pelo trabalho em excesso durante a epidemia de fome. O número “extra” de mortes chega a 37,67 milhões, baseados nos dados populacionais de 646,53, 659,94, 666,71 e 651,71 milhões para 1957, 1958, 1959 e 1960. As estatísticas oficiais publicadas em 1983 são consideradas parcialmente equivocadas porque os policiais locais subestimaram o número de mortes nos anos de 1959-61, depois que alguns foram expurgados por “relatar mortes em excesso”.