Mao: a história desconhecida

Jung Chang e Jon Halliday · Capítulo 60 de 69

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Mao: a história desconhecida

58. Os últimos dias

 

(1974-76; 80-82 anos)

 

Ódio, frustração e autocomiseração dominaram os últimos dias de Mao. Ele expressava esses sentimentos, proeminentes em seu caráter, de maneira muito peculiar. Gostava muito de um poema do século VI chamado “As árvores fanadas”, uma lamentação e elegia sobre um bosque de árvores sublimes que acabam murchas e sem vida. O poeta Yu Xin atribuía a má fortuna das árvores ao fato de terem sido arrancadas e transplantadas, o que espelhava sua vida de exilado. Mas, em 29 de maio de 1975, Mao disse aos estudiosos que comentavam poemas especialmente para ele que o destino das árvores não tinha “nada a ver com ser transplantado”. Tratava-se do “resultado de as árvores serem castigadas por ondas malévolas e cortadas por mãos humanas”. Mao pensava em si mesmo como alguém que estava sendo (nas palavras de sua esposa) “maltratado” por Deng Xiao-ping e seus aliados. Dias antes, haviam-no forçado a um recuo sem precedentes ao fazê-lo cancelar sua campanha de imprensa contra eles e conceder que havia “cometido um erro”.

Depois que teve de libertar Deng da detenção, em julho de 1976, o que o deixou furioso, pediu que lessem “As árvores fanadas” em voz alta para ele duas vezes. Então, começou a recitá-lo muito devagar, com sua voz estrangulada, transbordante de amargura. Depois disso, nunca mais pediu para ouvir ou ler outro poema.

Deng era apenas um dos muitos adversários antigos do partido que Mao passou a castigar dentro de sua cabeça em seus últimos anos. Outro foi Chou En-lai. Em junho de 1974, ele finalmente se submeteu à operação que Mao vinha bloqueando havia dois anos. Este deu por fim seu consentimento porque sua própria condição física debilitada o deixava também inseguro. Enquanto Chou estava no hospital, desencavou algumas velhas diatribes que escrevera contra ele e outros oponentes, em 1941. Estavam cheias de insultos e Mao nunca julgara prudente publicá-las. Agora, 33 anos depois, passava muito tempo relendo-as e maldizendo Chou em pensamento.

Recordá-las era também uma maneira de desabafar seu ódio por outro adversário, Liu Shao-chi, que havia morrido cinco anos antes, em suas mãos, mas cuja morte ainda não ousara anunciar publicamente. Quando havia escrito os artigos, Liu era seu aliado e ele o havia elogiado neles. Agora, fez questão de riscar todas as referências a Liu.

Havia uma outra pessoa que Mao açoitava em pensamento: Wang Ming, seu principal rival na época em que os artigos foram escritos e que havia falecido na Rússia em 27 de março de 1974, dois meses antes de Mao reler suas velhas invectivas. Ele tentara envenenar Wang Ming nos anos 1940, mas depois tivera de permitir seu exílio na União Soviética, onde Wang constituía uma espécie de bomba-relógio. Khruchióv e o filho de Wang Ming confirmaram que Mao tentou envenená-lo na Rússia. A tentativa fracassou somente porque o vigilante exilado testou a comida em seu cão, que morreu. Em Moscou, Wang Ming produziu materiais contra Mao que foram transmitidos por rádio para a China e, durante a Revolução Cultural, começou a planejar seu retorno para montar uma base em Xinjiang, perto da fronteira russa, e depois tentar um golpe contra ele (proposta que não contou com a simpatia do Kremlin).

A morte de Wang Ming veio depois de décadas de saúde arruinada, consequência das tentativas de assassinato perpetradas por Mao. Estava preso à cama nos últimos anos e demorava três horas para engolir os minúsculos bocados de comida que constituíam suas refeições. Mas sua morte dolorosa não aplacou o ressentimento de Mao, assim como as mortes também torturantes de Liu e Chou lhe deram pouco alívio. Um mês antes de morrer, pediu que lessem de novo para ele as velhas diatribes, para sentir o prazer temporário de castigar seus adversários mais uma vez.

Ao final de sua vida, quase todos os seus antigos colegas íntimos estavam mortos, a maioria graças a ele. Contudo, de algum modo suas mortes não o haviam deixado satisfeito. As de Liu e Peng De-huai, suas duas principais vítimas na Revolução Cultural, tinham de ser mantidas em segredo por medo da simpatia pública. A morte de Chou fora divulgada, mas o resultado disso abalaria seu regime. Wang Ming morrera na Rússia, fora do seu alcance. Zhu De, ele não conseguira expurgar. Lin Biao, seu principal colaborador na montagem do Grande Expurgo, conseguira fugir do país, embora seu avião tivesse caído; além disso, Lin deixara um legado que assombrava Mao: uma conspiração para assassiná-lo. Deng estava vivo, e mais do que simplesmente vivo: Mao tivera de ceder e permitir que ele vivesse no conforto de seu lar, junto com a família. Em seu leito de morte, a sede de vingança de Mao não estava saciada.

 

A insatisfação consumia Mao. Não conseguira o status de superpotência, apesar de décadas de anseio. Embora tivesse a bomba atômica, não podia usá-la, quando mais não fosse porque o sistema de lançamento mal conseguia transpor as fronteiras da China. As bases industriais do país andavam trôpegas, entregando pilhas de equipamentos defeituosos, inclusive esquadrilhas de aviões que não conseguiam voar, embora a construção de uma indústria aeronáutica estivesse desde o início de seu governo no topo das prioridades e a Guerra da Coreia tivesse sido travada, em parte, para obtê-la. A Marinha não estava em muito melhor estado. As últimas palavras de Mao para seu comandante, um ano antes de sua morte, foram: “Nossa Marinha é só isto!”, esticando o dedo mínimo, com ar de profundo desconsolo. Naquele mês de outubro, ele observou com pesar para Kissinger que não pertencia à primeira divisão. “Há somente duas superpotências no mundo [...] Somos atrasados [...].” Contando nos dedos, disse: “Estamos em último lugar. Estados Unidos, União Soviética, Europa, Japão, China — veja!”. Algumas semanas depois, quando o presidente americano Gerald Ford foi à China, Mao lhe disse: “Só podemos disparar [...] canhões vazios” e “praguejar”.

Mao fez uma última tentativa de se promover como líder mundial em 1974, ao tentar capitalizar em cima de algo que não exigia poderio militar e que era um quesito no qual ele podia alegar que liderava o mundo: pobreza. Proclamou uma nova maneira de definir os “três mundos”, e anunciou que “Terceiro Mundo” significava países que eram pobres, com exclusão da União Soviética, e insinuou que poderia ser considerado o líder desse Terceiro Mundo. Mas embora fosse visto, de modo muito geral, como um líder do Terceiro Mundo, ninguém recebia ordens dele e ele não oferecia uma liderança tangível. Ademais, como um diplomata americano intransigente disse, “isso faria realmente alguma diferença?”.

Até mesmo suas criaturas se recusavam a reconhecer sua autoridade. Mao desempenhara um papel vital na instalação do regime do Khmer Vermelho no Camboja em 1975. Pol Pot, seu líder, que liquidou com um quarto da população cambojana em poucos anos, era alma gêmea de Mao. Logo após ter tomado o poder, Mao o cumprimentou pessoalmente por seu Estado campo-de-trabalho-escravo: “Você obteve uma vitória esplêndida. Um único golpe e não há mais classes”. O que Mao queria dizer era que todos haviam sido transformados em escravos. E despachou o príncipe Sihanouk, que vivia em luxuoso exílio na China, de volta para o Camboja, onde foi posto em prisão domiciliar e seu nome foi explorado por Pol Pot. Mas, embora fosse patrocinador e mentor de Pol Pot, Mao não recebeu gratidão. Um colega de Pol Pot chamado Keo Meas, que se referira a Mao em termos elogiosos, foi torturado até a morte. Escritas no dossiê do homem morto estavam estas palavras: “Este desprezível Mao que teve a morte horrível que merecia era um inútil. Você não deveria pensar, seu canalha obsoleto, que o partido campucheano foi influenciado por Mao”.

No palco do mundo, Mao teve de se contentar com um vago halo. Quando Julie, a filha de Nixon, apareceu usando um distintivo de Mao, “ele reagiu com felicidade infantil e impulsivamente pegou minha mão”, escreveu ela. Para sustentar sua imagem, continuou a “receber” estadistas estrangeiros até três meses antes de morrer. Mas estragou muitas vezes os efeitos dessas visitas. Os líderes da Tailândia o encontraram “roncando” ao entrar na sala. O premiê de Cingapura Lee Kuan Yew, seu penúltimo visitante estrangeiro, descreveu um Mao quase inarticulado que grunhia, com a cabeça caída no encosto da poltrona. De fato, como suas últimas fotos confirmam, ele parecia qualquer coisa menos um líder mundial. Babando saliva, rosto lívido e boca mole, projetava uma imagem de senilidade e desgraça. Quando viu sua má aparência nas fotos tiradas com o primeiro-ministro paquistanês Bhutto, no final de maio de 1976, parou completamente de receber estrangeiros.

 

Apesar de profundamente descontente por ter fracassado na realização de sua ambição mundial, Mao não mostrava ter nenhum sentimento em relação às gigantescas perdas humanas e materiais que essa busca destrutiva havia custado ao seu povo. Bem mais de 70 milhões de pessoas haviam perecido — em tempos de paz — em consequência de seu desgoverno, mas ele sentia pena somente de si mesmo. Chorava quando falava de qualquer coisa que tivesse alguma conexão com sua glória passada e seu fracasso atual, até mesmo assistindo aos filmes de propaganda de seu regime. Seus auxiliares viam com frequência lágrimas que escorriam por seu rosto, “como uma fonte”, nas palavras de um deles. A autopiedade, sentimento ao qual sempre fora propenso, era a emoção dominante do totalmente impiedoso Mao em seus últimos dias.

Ele ficou muito ligado a alguns poemas clássicos que transmitem um clima de grandes homens derrubados, reis caídos e perspectivas brilhantes de heróis em ruínas. Sentia empatia pelos heróis e reis que não se realizavam.

Esse estado mental levou-o a um sentimento extraordinário de fraternidade para com aqueles que considerava “reis caídos” de todo o mundo. No topo da lista estava o ex-presidente americano Richard Nixon, que renunciara ao cargo em agosto de 1974, na esteira do escândalo de Watergate. Mao deu-se várias vezes ao trabalho de proclamar seu afeto por ele. Algumas semanas depois da saída de Nixon da Casa Branca, pediu a Imelda Marcos, das Filipinas, que transmitisse seus cumprimentos e um convite a Nixon para revisitar a China. Julie Nixon e seu marido David Eisenhower tiveram uma recepção espantosa em dezembro do ano seguinte. Mao disse a ela: “Escreva ao seu pai, diga-lhe que tenho saudade dele”. Quando ela voltou aos Estados Unidos, o enviado de Pequim lhe disse que Mao “a considera parte de sua família” — uma observação absolutamente extraordinária.

Em fevereiro de 1976, Mao mandou um Boeing 707 a Los Angeles para buscar Nixon, junto com o chefe de protocolo do Ministério do Exterior, outro gesto sem precedentes. O fato de o avião correr o risco de ser apreendido como garantia contra os bens americanos expropriados na China era irrelevante para ele. Ao encontrar Nixon de novo, Mao saudou-o com taças de chá e quando o ex-presidente foi embora ele esforçou-se para acompanhá-lo até a porta, sem ajuda, com ar melancólico. O convite para Nixon ir à China foi, na verdade, uma despedida privada. Ele selecionou pessoalmente um entretenimento noturno para o ex-presidente, que incluía poemas clássicos musicados que transmitiam o sentimento do fim trágico de grandes homens. O programa não significava nada para Nixon, que demonstrou estar cansado e entediado. Mas Mao estava expressando os seus próprios sentimentos, para ele mesmo, ainda que não estivesse presente na performance.

Outro alvo ainda mais improvável da afinidade sentimental de Mao foi Chiang Kai-shek, o homem que ele havia deposto — e massacrado milhões de chineses para manter deposto. Chiang morreu em Taiwan em 5 de abril de 1975, aos 89 anos, e deixou um testamento em que decretava que seu caixão não seria enterrado em Taiwan, mas mantido num santuário até o dia em que pudesse voltar à China continental, depois do colapso do comunismo. Na época do funeral de Chiang, Mao pranteou o Generalíssimo durante um dia inteiro, em particular. Naquele dia, não comeu nem falou. Escutou sem parar uma fita de oito minutos de música comovente, para criar uma atmosfera de funeral, enquanto marcava o compasso em sua cama, com uma expressão solene no rosto. A música havia sido feita especialmente para um poema do século XII, no qual o autor dizia adeus a um amigo que se parecia muito com Chiang: um alto mandarim patriota, cuja carreira se interrompia tragicamente e que era exilado para um lugar remoto da China. O autor dizia ao amigo:

Você e eu somos homens da história

Não homenzinhos tagarelando sobre coisas menores!

 

Era exatamente como Mao se sentia em relação a Chiang.

Dias depois, ele reescreveu os dois últimos versos do poema, que ficaram assim:

Vá, deixe-se ir, meu honrado amigo,

Não olhe para trás.

 

Essa mudança transformava o poema numa inequívoca despedida. Mao estava escrevendo sua oferenda a um gigante frustrado como ele. Ele foi musicado e estava entre os poemas cantados para Nixon quando Mao o trouxe para lhe dar seu adeus pessoal.

 

Para o círculo íntimo, Mao mostrou simpatia incomum por outros governantes depostos. Quando o imperador da Etiópia Hailé Selassié, com quem se encontrara apenas uma vez, e muito rapidamente, morreu na prisão, em 1975, depois de ser destronado por um golpe militar, ele mergulhou na melancolia. “O imperador estava indo bem”, repetia. “Por que teve de chegar a isso? Por que teve de acabar assim?”

Essa nova simpatia para com governantes depostos era uma extensão de seu velho medo de ser também derrubado. Na fase final de sua vida, estava mais obcecado do que nunca com um golpe. Foi para evitar essa possibilidade que insinuou a Deng Xiao-ping e seus aliados em 1975 que poderiam esmagar madame Mao e sua gangue depois de sua morte.

Foi, em parte, por esse mesmo motivo — medo de um golpe — que Mao não designou um sucessor. Ele nunca outorgou esse título a Hua Guo-feng, o chefe de sua última roda seleta, como fizera antes com Lin Biao. Temia que um herdeiro oficial poderia ter pressa em sucedê-lo e tentasse se precipitar. Assim, embora Hua mostrasse clara lealdade (na primeira vez em que Mao foi alimentado pelo nariz, Hua assumiu o papel de cobaia antes exercido por Chou e testou o tubo nele mesmo), e embora Mao confiasse obviamente em Hua o suficiente para colocá-lo na direção, ele não quis confirmar que ele assumiria o poder depois de sua morte.

Mao não dava a mínima para o que aconteceria depois de morto. Na verdade, pouco confiava que suas “realizações” ficariam no poder. Na única ocasião em que falou alguma coisa sobre o futuro para seu círculo íntimo, quando sabia que estava morrendo, disse que haveria “convulsão”, com efeito, “chuvas de sangue e ventos com cheiro de sangue”. E depois acrescentou: “O que vai acontecer com vocês, só os céus sabem”.

Desse modo, Mao não deixou um testamento, embora esperasse a morte havia pelo menos um ano e tivesse muito tempo para prepará-lo.

 

Mao passou as últimas semanas de vida num prédio indefinível que fora construído especialmente para ele em Zhongnanhai, com todas as especificações usuais de segurança, à prova de terremoto. Como de costume, tinha apenas um codinome, “202”. Ele foi levado para lá no final de julho de 1976, depois que Pequim foi abalada por um tremendo terremoto que atingiu 7,8 pontos na escala Richter e que destruiu Tangshan, uma cidade industrial 160 quilômetros a leste da capital, onde matou algo entre 240 mil (cifra oficial) e 600 mil pessoas (estimativa não oficial). Em Pequim e em muitas outras cidades, dezenas de milhões de pessoas tiveram de dormir na rua. No melhor estilo maoísta, o regime recusou a ajuda externa, que poderia ter diminuído muito o número de mortos. Foi lançada uma campanha pelos meios de comunicação que exortava os resgatadores a “denunciar Deng sobre as ruínas”.

Mao ainda dava ordens. Em 2 de setembro, quando quis sair de Pequim, madame Mao foi pedir a permissão do marido. Ele ficou irritado por ser incomodado e recusou a permissão na primeira vez, mas a concedeu quando ela insistiu. Três dias depois, ele perdeu subitamente a consciência e ela foi chamada de volta pela nova equipe encabeçada por Hua. Nas semanas anteriores, tinham-se revezado na cabeceira de Mao, e quando madame Mao voltou, participou da vigília, mas ficou atrás da cama, pois ele demonstrara aborrecimento antes, ao acordar e vê-la. Nenhum dos filhos estava presente.

Em 8 de setembro, um grasnido ininteligível saiu de sua garganta. Seu barbeiro e um criado de dezessete anos enfiaram um lápis em sua mão trêmula e ele desenhou com dificuldade três linhas e depois bateu fracamente na beira de madeira da cama por três vezes. O barbeiro imaginou que Mao queria saber sobre o que estava acontecendo com o primeiro-ministro japonês Takeo Miki (cujo nome em chinês significa “Três Madeiras”). Ele jamais o encontrara e não demonstrara nenhum interesse especial até então, quando Miki estava lutando para não ser derrubado por um golpe dentro do próprio partido.

Meng, uma das namoradas transformadas em enfermeiras, segurou o boletim de notícias e Mao leu por alguns minutos. Esse relatório sobre outro líder que estava nas cordas foi sua última leitura.

Logo depois disso, Meng escutou Mao dizer: “Sinto-me muito doente. Chame os médicos”. Foram suas últimas palavras. Pouco depois, caiu na inconsciência. Em 9 de setembro de 1976, dez minutos depois da meia-noite, Mao Tse-tung morreu. Permaneceu lúcido até o fim e em sua mente havia apenas um pensamento: ele e seu poder.