Mao: a história desconhecida
25. Por fim, supremo líder do partido
(1942-45; 48-51 anos)
A campanha de terror de Mao granjeou-lhe tantos inimigos, de novos recrutas a líderes veteranos do partido, que ele passou a se sentir mais inseguro do que nunca e redobrou sua segurança pessoal. No outono de 1942, foi criada uma guarda pretoriana especial. Ele desistiu de sua residência pública no morro Yang e passou a viver todo o tempo no Jardim das Tâmaras, o covil isolado de sua KGB, a vários quilômetros de distância de Yenan. Cercada por muros altos e fortemente guardada, a propriedade era lugar para se ficar distante. Quem quer que se aproximasse podia facilmente despertar a suspeita de ser espião. Ali, Mao mandou construir uma residência especial, projetada para suportar o bombardeio aéreo mais pesado.
Mas mesmo o Jardim das Tâmaras não era suficientemente seguro. Atrás dele, protegida por salgueiros, choupos vermelhos e pereiras, uma trilha conduzia através de crisântemos silvestres às profundezas dos morros — e a uma toca ainda mais secreta. Ali, num lugar chamado Ravina Posterior, um grupo de abrigos foi preparado para Mao, num reduto situado na encosta. A trilha foi alargada para que seu carro pudesse chegar praticamente à sua porta. Apenas um pequeno grupo de pessoas sabia que ele morava naquele lugar.
O quarto principal, como na maioria de suas residências, tinha uma segunda porta que dava para uma saída de emergência cavada até o outro lado do morro. A passagem secreta também dava para o palco de um grande auditório, de tal modo que Mao podia chegar lá sem sair para a rua. O auditório e as cavernas de Mao eram tão bem camuflados que não se suspeitava de sua existência até chegar à porta. Mas, de lá, era fácil fiscalizar a trilha. O auditório, tal como a maioria dos prédios públicos de Yenan, foi projetado por um arquiteto que estudara na Itália e parecia uma igreja católica. Mas jamais foi usado, exceto para umas poucas reuniões da força de segurança. Mao queria mantê-lo em segredo, exclusivamente seu. Hoje, as cavernas de Mao repousam em total isolamento e o grande salão está em ruínas, como se fosse uma catedral dilapidada, espectral, em uma paisagem de ravinas de loess que se estendem até onde a vista alcança.
Shi Zhe, o assistente de segurança de Mao, nos contou: “Eu controlava a entrada da trilha. Não era permitida a entrada de ninguém só porque quisesse entrar”. Poucos líderes apareciam. Aqueles que o faziam só podiam entrar com um único guarda-costas, mas “não perto de onde Mao Tse-tung morava”. Os seguranças do próprio Mao escoltavam o líder, sozinho, até onde ele estava.
A campanha de Mao aterrorizou até os aterrorizadores, como seu principal capanga, Kang Sheng. Shi Zhe observou que Kang vivia num estado de temor profundo de Mao nesse período. Embora tivesse ajudado a inventar a acusação de uma vasta rede de espionagem no PCC, isso poderia voltar-se contra ele, pois Kang tinha um passado nebuloso. Onde e quando ele entrara para o partido era um mistério: não havia testemunhas disso e os patrocinadores que ele indicava negavam qualquer participação em sua filiação. Muitas cartas chegaram a Mao lançando suspeitas sobre Kang, algumas dizendo que ele havia se curvado quando preso pelos nacionalistas. Para piorar, Dimítrov (isto é, Stálin) denunciou Kang a Mao em dezembro de 1943, afirmando que ele era “dúbio” e que estava “ajudando o inimigo”. Com efeito, já em 1940 os russos haviam exigido que Kang ficasse de fora da liderança do PCC.
Longe de repeli-lo por seu passado obscuro, Mao o apreciava por isso. Tal como Stálin, que utilizava ex-mencheviques como Vichinski, Mao aproveitava a vulnerabilidade das pessoas como forma de dominá-las. Ele manteve Kang na chefia de sua KGB, encarregado de escrutinar e condenar os outros. Kang continuou a temer Mao até morrer, em 1975; um de seus últimos atos foi defender-se junto ao chefe e alegar que estava “limpo”.
Mao fez pleno uso do pendor de Kang para a perseguição e a personalidade deformada. Ele estivera em Moscou durante os processos de Stálin e participara de expurgos de estilo stalinista. Gostava de ver as pessoas ficarem aterrorizadas nos comícios de massa e de brincar com a angústia das vítimas. Tal como Stálin, que às vezes convidava vítimas ao seu gabinete para uma última conversa, Kang saboreava o prazer de observar o condenado cair no abismo no exato momento em que julgava estar seguro. Era um sádico. Uma história que gostava particularmente de contar referia-se a um fazendeiro de seu distrito natal que açoitava seus trabalhadores com um chicote feito de pênis de burro. Kang também era um voyeur. Depois que uma menina de quinze anos inventou uma história sobre como ela usara seu corpo para espionar, ele a fez repeti-la em toda a região, sem se cansar de escutá-la. Um dos laços mais íntimos de Kang com Mao vinha do fato de fornecer-lhe materiais eróticos e trocar histórias obscenas.
Mais tarde, Kang tornou-se o bode expiatório do terror de Yenan, mas tudo o que fez foi por ordem de Mao. Na verdade, durante a campanha, Mao limitou seu poder, fazendo dos chefes do partido em cada unidade — em vez da KGB de Kang — responsáveis por designar e acusar a maioria das vítimas de suas instituições. Na futura China comunista, não haveria um equivalente exato da KGB soviética.
* * *
Outro associado que sofreu um tremendo amedrontamento na campanha foi Liu Shao-chi. Não apenas algumas das organizações chamadas de ninhos de espiões estavam sob seu controle, como ele também fora preso pelos nacionalistas — com efeito, várias vezes, o que o qualificava como grande suspeito de ser vira-casaca. Se desse algum motivo de insatisfação, Mao poderia facilmente condená-lo como chefe de espionagem. Na verdade, ele fora contra a campanha de terror logo que chegara a Yenan, no final de 1942; mas, depois dessa breve manifestação de desgosto, o contato russo Vladímirov disse que ele “mudou de opinião rapidamente” e se acomodou com Kang Sheng. A partir de então, Liu obedeceu à linha de Mao e desempenhou um papel ignóbil na
campanha. a Como era extremamente capaz, Mao o escolheu para seu vice-comandante, posição que manteve até sua queda, na Revolução Cultural, em 1966.
Duas mulheres que se tornariam muito poderosas no futuro entraram então no reino da perseguição: a mulher de Mao e a esposa do homem que seria seu braço direito na Revolução Cultural, Lin Biao. Ambas haviam chegado a Yenan através de organizações do partido que estavam sendo condenadas como centros de espionagem. Certo dia de 1943, enquanto Lin Biao estava em Chongqing, sua esposa Ye Qun foi amarrada a um cavalo e arrastada para a detenção. Felizmente para ela, Lin Biao era alguém que gozava de uma relação de camaradagem incomum com Mao. Em julho, quando ele voltou a Yenan, foi até o órgão do partido que estava tratando do caso de sua esposa. “Fodam-se”, gritou, jogando seu chicote sobre a escrivaninha. “Nós travamos guerras na frente e vocês comem minha mulher por trás!” Sua mulher foi solta e liberada de todas as acusações. Essa breve experiência de medo intenso foi o começo do endurecimento do coração de Ye Qun. Quando ganhou importância com seu marido na Revolução Cultural, tornou-se uma carrasca.
Jiang Qing, a depois famigerada madame Mao, também aprendeu sobre terror durante a campanha de Yenan. Ela havia sido presa pelos nacionalistas anos antes e saíra da prisão por ter se retratado e divertido seus carcereiros — e, segundo Kang Sheng (mais tarde), dormido com eles. Seu passado fora um grande problema em 1938, quando Mao quis casar com ela. Agora, embora ninguém ousasse denunciá-la, por ser a mulher dele, vivia com medo de que alguém o fizesse, em especial porque também teve de fazer “autocrítica” e suportar as críticas de outros. Ela tentou se esconder alegando doença, mas, ao contrário de Lin Biao, que simplesmente disse a sua mulher para ficar em casa, Mao ordenou que Jiang Qing voltasse à sua unidade e passasse pelo ciclo da atemorização. Embora o que ela sofreu não tenha sido nada em comparação com o sofrimento da grande maioria, foi o suficiente para fazê-la viver com medo de seu passado pelo resto da vida. Mais de duas décadas depois, quando adquiriu um poder enorme, esse temor obsessivo contribuiu para o aprisionamento e a morte de muita gente que conhecia sua vida. Sobretudo, Jing Qing tinha medo do marido. Ao contrário de sua predecessora Gui-yuan, ela jamais ousou fazer uma cena sobre os casos amorosos de Mao e muito menos pensar em deixá-lo. Por mais sórdida que fosse a missão que ele lhe atribuísse, ela a cumpria.
A campanha de terror de Yenan também marcou sua estreia na perseguição de outras pessoas, atividade pela qual ela desenvolveu gosto. Sua primeira vítima foi a babá de dezenove anos de sua filha, que ela mandou para a prisão, como revelou a criada 55 anos depois.
Mao e Jiang Qing tiveram uma filha, Li Na, nascida em 3 de agosto de 1940. Com um ano e meio, a menina já estava na terceira babá, que vinha de uma família camponesa pobre de Shanxi. O pai da criada morrera atravessando o gelado Yangtze com carga nas costas para os comunistas. Ela mesma começara a confeccionar sapatos para o Exército Vermelho com tenra idade, e fora promovida na burocracia comunista de seu distrito. Ela e outras mulheres “confiáveis” foram então selecionadas para serem babás dos filhos dos líderes.
Depois de um exame de saúde e algum treinamento, tornou-se babá e criada da família de Mao. Uma de suas tarefas era lavar os cabelos de madame Mao. Ela descreveu como Jiang Qing ficava furiosa se a lavagem não fosse exatamente como queria. Em certo dia de 1943, a babá foi subitamente convocada a comparecer diante de madame Mao e dois membros da equipe de governo. “Você veio aqui com veneno! Confesse!”, gritou Jiang Qing. Naquela noite, a moça foi levada para a prisão da Ravina Posterior, atrás do Jardim das Tâmaras.
Ela foi acusada de envenenar o leite da família de Mao, que vinha de uma vaca especialmente guardada no recinto do aparato de segurança. O que aconteceu foi que madame Mao teve diarreia. Depois de atormentar com perguntas o chefe da cozinha e o ordenança, pediu a Kang Sheng que prendesse a babá e a interrogasse.
Na prisão, ela compartilhou uma caverna com um grande número de mulheres. Durante o dia, a principal atividade era fiar, com uma cota muito alta, que tinha de dar duro para cumprir. O regime descobrira que a fiação era uma ocupação ideal para as prisioneiras, pois eram forçadas a ficar no mesmo lugar, o que facilitava a guarda, ao mesmo tempo que era economicamente produtivo. À noite, aconteciam os interrogatórios, durante os quais a babá foi ofendida ao extremo com observações do tipo: “Por que você simplesmente não confessa, sua máquina de fazer merda?”. Durante a noite, os guardas enfiavam a cabeça na caverna para evitar suicídios e fugas. Após nove meses, a moça foi libertada. Mas o medo visceral que experimentou permaneceu com ela para sempre.
* * *
Foi por meio do terror de Yenan que Mao alcançou outro objetivo importante: montar o culto à sua personalidade. Todas as pessoas que viveram esse período se lembram dele como o momento decisivo em que “estabeleceram firmemente em nossas mentes que o presidente Mao é nosso único líder sábio”. Até então, fora possível admirar Mao, apesar das reservas em relação a ele, e fofocar sobre seu casamento com Jiang Qing sem deixar de apoiar sua liderança. Quando lhes disseram pela primeira vez para “estudar” um discurso de Mao, muitos haviam reagido com um grunhido audível: “a mesma coisa de sempre”, “não vou me aborrecer lendo isso de novo”, “simplista demais”. Muitos relutavam em cantar “Viva o presidente Mao”. Um lembra de ter pensado: “Isso era um slogan dos imperadores? Por que estamos fazendo isso? Me senti enojado e me recusei a saudar”. Esse tipo de fala — e pensamento — independente foi liquidado pela campanha e estabeleceu-se a deificação de Mao. O culto não tinha nada a ver com popularidade espontânea: provinha do terror.
Cada passo da construção de seu culto foi coreografado pelo próprio Mao. Ele controlava minuciosamente seu principal veículo, o Diário da Libertação, usando manchetes gigantescas como “Camarada Mao Tse-tung é o salvador do povo chinês!”. E foi ele quem iniciou o fenômeno dos emblemas com sua cabeça, que emitiu pela primeira vez para a elite durante a campanha. Em 1943, mandou esculpir uma enorme cabeça sua em relevo de ouro na fachada de um grande auditório. Nesse ano, seus retratos foram pela primeira vez impressos em massa e vendidos para os lares dos chineses, e o hino de Mao, “O Oriente é vermelho”, se tornou uma canção familiar.
Foi também em 1943 que uma expressão depois usada amplamente — “O Pensamento de Mao Tse-tung” — viu a luz pela primeira vez, em um artigo escrito pelo Professor Vermelho, Wang Jia-xiang. Mao orquestrou pessoalmente esse panegírico. A esposa do Professor Vermelho contou que Mao apareceu num dia ensolarado, quando as tâmaras estavam verdes nas árvores. Depois de algumas caçoadas sobre mah-jong, Mao pediu que o marido dela escrevesse um artigo sobre o 22 o aniversário do partido, a ser comemorado naquele mês de julho, e deu longas dicas sobre o que deveria dizer. Mao verificou o texto final e tornou sua leitura obrigatória para todos.
Diariamente, nas intermináveis reuniões, a fórmula simplista de Mao era martelada na cabeça de todos: para cada erro no partido, culpe os outros; para cada sucesso, faça elogios a ele. Com essa finalidade, a História foi reescrita e, na verdade, invertida com frequência. A batalha de Tucheng, o maior desastre da Longa Marcha, travada sob o comando de Mao, era agora citada como um exemplo do que acontecia quando o Exército “violava os princípios de Mao Tse-tung”. A primeira ação contra o Japão, Pingxingguan, foi creditada a Mao, embora tenha ocorrido contra sua vontade. “Deixem bem claro para os membros e quadros do partido que a liderança encabeçada pelo
camarada Mao Tse-tung está completamente correta”, instruiu Mao.b
No início de 1945, Mao estava pronto para convocar o tão esperado congresso do partido e ser promovido a supremo líder do PCC. O VII Congresso foi aberto em Yenan em 23 de abril, dezessete anos depois do VI, realizado em 1928. Mao o adiara durante muitos anos, para assegurar-se de que teria seu controle absoluto.
Ele não somente passara um pente fino na lista de delegados, como mantivera a maioria deles em prisão virtual por cinco anos, e os havia passado no moedor de sua campanha de terror. Dos quinhentos e poucos delegados originais, metade foi vítima da acusação de espionagem e sofreu terrivelmente; alguns se suicidaram, outros tiveram um colapso mental. Muitos foram então desligados. Designaram-se centenas de novos delegados, todos fiéis a Mao.
O salão do congresso estava dominado por um enorme slogan pendurado sobre a plataforma: “Marchar para a frente sob a bandeira de Mao Tse-tung”. Mao foi eleito presidente dos três órgãos principais: o Comitê Central, o Politburo e o secretariado. Pela primeira vez desde a fundação do partido, tornou-se formal e publicamente seu chefe. Demorara 24 anos para conseguir esse objetivo. Foi um momento emocionante para Mao e, como sempre acontecia quando suas emoções entravam em jogo, a autopiedade nunca estava longe. Enquanto relembrava sua história de infortúnios, ficou à beira das lágrimas.
Mao Tse-tung havia se tornado o Stálin do PCC.
a Mais tarde, Liu encorajou alguns quadros a se manifestarem contra o terror, mas só depois de seu término, em 1945. Em 1950, disse ao embaixador soviético Nikolai Róshchin que os métodos do terror eram “perversões que custaram um grande número de vítimas”.
b Em 1943, foi publicado um livreto em Yenan intitulado Uma breve história do movimento operário na China, escrito por Deng Zhong-xia, líder operário executado pelos nacionalistas. O texto original havia sido publicado em 1930, na Rússia, e não continha nenhuma menção ao papel de Mao. Na nova edição, foi enxertado um trecho: “Em 1922, graças à liderança do camarada Mao Tse-tung, o movimento dos trabalhadores em Hunan desenvolveu-se arrebatadamente”.