Mao: a história desconhecida

Jung Chang e Jon Halliday · Capítulo 51 de 69

Páginas do PDF

Mao: a história desconhecida

49. Vingança amarga

 

(1966-74; 72-80 anos)

 

Em agosto de 1966, Mao derrubou Liu Shao-chi. No dia 5, depois que Liu se encontrou com uma delegação de Zâmbia, na condição de presidente, Mao fez Chou En-lai telefonar-lhe e dizer-lhe que parasse de se reunir com estrangeiros, ou aparecer em público, exceto quando recebesse ordens nesse sentido. Naquele dia, Mao escreveu uma diatribe contra Liu que leu pessoalmente para o Comitê Central dois dias depois, na presença do atacado, em que anunciava sua queda (a população em geral não foi informada). Pouco antes disso, no dia 6, Mao trouxera Lin Biao especialmente para Pequim, a fim de lhe dar suporte, caso houvesse alguma oposição firme. Lin Biao tornou-se formalmente o segundo em comando, no lugar de Liu.

A perseguição do homem que ele mais odiava podia então começar. Mao começou pela esposa de Liu, Wang Guang-mei. Ele sabia que o casal era devotado um ao outro e que fazer a mulher sofrer causaria grande dor em Liu.

Guang-mei vinha de uma distinta família cosmopolita: seu pai fora ministro de governo e diplomata, e sua mãe, uma figura bem conhecida na área da educação. Ela formara-se em física numa universidade de missionários americanos e, em 1946, quase aceitara uma oferta da Universidade de Michigan para estudar nos Estados Unidos, mas decidira entrar para o PCC, influenciada por sua mãe radical. As pessoas lembravam como, na época da guerra civil, nas festas dançantes da base comunista, Liu atravessava a eira que servia de pista de dança com seus passos firmes e, inclinando-se, a convidava para dançar, num gesto incomum para um líder do partido. Guang-mei tinha elegância e estilo, e Liu se apaixonou. Casaram-se em 1948 e a união foi excepcionalmente feliz, em particular para Liu, que tivera uma série de relações fracassadas (e uma esposa executada pelos nacionalistas).

A partir do momento em que ficou claro que Mao viria atrás de Liu, depois da Conferência dos Sete Mil, em janeiro de 1962, Guang-mei encorajou o marido a enfrentá-lo. Isso contrastava muito com o comportamento de muitas esposas de líderes, que instavam seus maridos a ceder. Nos anos seguintes, ela ajudou Liu a reforçar sua posição. Em junho de 1966, enquanto Mao fomentava a violência nas escolas e universidades, Liu fez uma última tentativa de acabar com a desordem, enviando “equipes de trabalho”, e Guang-mei fez parte da que foi enviada à Universidade Qinghua, em Pequim. Ali, ela entrou em choque com um militante de vinte anos chamado Kuai Da-fu. O interesse inicial de Kuai pela política fora deflagrado por um sentimento de justiça: quando era uma criança de treze anos que vivia numa aldeia, durante a epidemia de fome, enviara reclamação a Pequim sobre os maus-tratos que funcionários subalternos infligiam aos camponeses. Mas quando, no verão de 1966, a Revolução Cultural foi apresentada pelos meios de comunicação como uma “luta pelo poder”, Kuai desenvolveu um apetite pelo poder e liderou ações violentas para “tomar o poder da equipe de trabalho”. Sofreu detenção no dormitório por dezoito dias, autorizada por Liu.

Na madrugada de 1 o de agosto, Kuai foi acordado pelo barulho de freios de carros e viu-se na frente de ninguém menos que Chou En-lai. Kuai ficou totalmente assombrado. Não conseguiu sentar direito no sofá e ficou empoleirado na sua beira. Chou o acalmou com suavidade, disse-lhe que viera em nome de Mao e o interrogou sobre a equipe de trabalho — e o papel da esposa de Liu. Embora tivesse uma estenógrafa com ele, Chou fez ele mesmo anotações. A sessão durou três horas, até depois das cinco, quando Chou convidou Kuai a ir ao Grande Salão do Povo naquela noite. Lá, eles conversaram por mais três horas. Mao usou as queixas de Kuai como munição e a partir de então o jovem estudante foi a ponta de lança de Mao contra o casal Liu.

Em 25 de dezembro, véspera do aniversário de 73 anos de Mao, por ordem do Pequeno Grupo, Kuai liderou 5 mil estudantes numa passeata por Pequim com caminhões equipados de alto-falantes que berravam “Abaixo Liu Shao-chi!”. Essa manifestação incomum foi mais uma medida para preparar o povo para o fato de que o presidente da China estava prestes e se tornar um inimigo e, embora não tenha sido noticiada pela imprensa, ela deu a conhecer à nação sua queda. Kuai e sua “manifestação” também possibilitaram que a queda de Liu tivesse a aparência de uma demanda popular.

A partir de então, o casal Liu foi atormentado sem parar. No amanhecer do ano-novo de 1967, Mao mandou saudações ao seu velho colega na forma de insultos besuntados nas paredes de sua casa por gente do staff de Zhongnanhai. Seguiram-se ameaças semelhantes, todas coreografadas, exceto uma delas, que aconteceu em 6 de janeiro, quando o grupo de Kuai pegou a filha adolescente do casal, Ping-ping, e depois telefonou a Guang-mei para contar-lhe que a menina fora atropelada por um carro e estava num hospital, que precisava de autorização para realizar uma amputação. Os pais correram para o hospital, o que desconcertou os Rebeldes. Kuai relembra:

Os estudantes nunca pensaram que Liu Shao-chi viria e ficaram todos assustados. Eles sabiam que não

podiam tocar nele [...] o centro não havia dado instruções [sobre tratar de Liu em pessoa]. Não ousamos ser

precipitados [...] Sabíamos que esse tipo de “abaixo fulano” em política podia muito bem virar “viva fulano”

[...] Sem instruções claras e específicas do centro, quando chegasse a hora da culpa, nós a levaríamos. Então

meus colegas pediram a Liu para ir embora, e ficaram com Wang Guang-mei.

 

Esta é uma boa confissão de como os Rebeldes funcionavam de fato: eram instrumentos, e covardes, e sabiam disso.

Como essa proeza não fora planejada centralmente, os soldados chegaram ao hospital dentro de minutos. Os estudantes fizeram nervosamente a denúncia de Guang-mei em apenas meia hora. Enquanto isso estava em andamento, Kuai foi chamado ao telefone, o que, lembrou ele,

me deu um grande susto quando a voz ao telefone disse “Aqui é Chou En-lai”. Chou me mandou libertar

Wang Guang-mei: “Sem espancamento, sem humilhação. Entendeu?”. Eu disse: “Entendi”. [...] Ele desligou.

Menos de um minuto depois, recebi outro telefonema. Era de Jiang Qing — a única vez em que falei com ela.

Quando peguei o telefone, escutei sua risadinha. Ela disse: “Você pegou Wang Guang-mei. O que é isso?

Você está brincando? Não bata nela, não a humilhe”. Ela repetiu as palavras de Chou En-lai e disse: “O

premiê está nervoso e me pediu para lhe telefonar. Assim que terminar de denunciar Wang Guang-mei,

devolva-a”.

 

Assim acabou o único lance espontâneo dos Rebeldes contra o casal Liu. A ordem de Chou para poupar Guang-mei não foi dada por bondade de seu coração. O ato de Kuai não fora autorizado e não se enquadrava no cronograma de Mao.

O passo seguinte de Mao foi trazer Liu até a suíte 118 do Grande Salão para um tête-à-tête no meio da noite de 13 de janeiro. Mao mostrou que sabia da peça pregada no casal Liu ao perguntar: “Como estão as pernas de Ping-ping?”. Ele então aconselhou Liu a “ler alguns livros”, mencionando dois títulos que continham a palavra “mecânico”, que Mao alegou serem de autoria de Heidegger e Diderot. Era uma maneira de advertir Liu para ser menos rígido e que deveria fazer alguma reverência. Liu não se humilhou, mas repetiu a oferta que fizera várias vezes: renunciar e ir trabalhar como camponês. Pediu a Mao para acabar com a Revolução Cultural e punir somente a ele, sem causar dano a ninguém mais. Mao fez-se de desentendido e apenas pediu a Liu que cuidasse de sua saúde. Com isso, levou Liu, seu companheiro mais próximo durante quase três décadas, até a porta pela última vez — e para uma morte lenta e dolorosa.

 

Dias depois, os telefones de Liu foram cortados. A prisão domiciliar tornou-se total, com as paredes cobertas com cartazes e slogans insultuosos. Em 1 o de abril, Mao tornou o expurgo de Liu oficial para o público em geral, quando o Diário do Povo o condenou como “o maior defensor do capitalismo”. Logo depois disso, Kuai organizou uma manifestação de 300 mil para humilhar e agredir Guang-mei. Chou discutiu de antemão os detalhes com Kuai e no próprio dia seu gabinete ficou em constante contato por telefone com o grupo do estudante. Madame Mao acrescentou seu toque pessoal ao contar a Kuai: “Quando Wang Guang-mei esteve na Indonésia, perdeu todo o respeito pelos chineses. Ela até usou um colar!”. Madame Mao também acusou Guang-mei de usar vestidos tradicionais chineses “para se fazer de prostituta para Sukarno na Indonésia” e disse a Kuai: “Você precisa encontrar essas coisas e obrigá-la a usá-las”. A mulher de Mao sentia ciúmes rancorosos de Guang-mei porque ela conseguia usar roupas glamourosas quando ia ao exterior como esposa do presidente, enquanto ela ficava confinada na China, onde essas coisas não eram permitidas.

Kuai relembrou que madame Mao “me disse explicitamente para humilhar Wang Guang-mei [...] Poderíamos insultá-la do jeito que quiséssemos”. Então, ela foi forçada a usar um vestido justo tradicional, sobre suas roupas acolchoadas, fazendo seu corpo parecer volumoso e feio. Uma fieira de bolas de pingue-pongue foi pendurada em seu pescoço para significar um colar de pérolas. O comício inteiro foi filmado, sem dúvida para Mao, pois isso não poderia ser feito sem sua autorização.

Mas o casal Mao não conseguiu dobrar Guang-mei. Durante o interrogatório anterior ao comício, ela demonstrou destemor extraordinário — e uma inteligência rápida — para defender o marido com eloquência. Quando foi arrastada ao palco para enfrentar os gritos horripilantes e os punhos cerrados da multidão, seus interrogadores perguntaram: “Você está com medo?”. Sua resposta calma os impressionou: “Não, não estou”.

Décadas depois, Kuai falou com admiração de Guang-mei: “Ela era muito forte [...] Ela ficou ereta e se recusou a obedecer à ordem de baixar a cabeça. Os estudantes a atacaram com força, com muita força. Ela foi forçada a se ajoelhar [...] mas logo se ergueu de novo. Wang Guang-mei não se intimidava. Ela estava cheia de raiva contra Mao Tse-tung, só não podia dizer isso em público”. Posteriormente, ela escreveu a Mao para protestar.

Liu fez a mesma coisa, várias vezes. A resposta de Mao foi preparar a punição, deixando instruções detalhadas com o Pequeno Grupo antes de partir de Pequim, em 13 de julho. No momento em que partiu, centenas de milhares de Rebeldes foram convocados a acampar diante de Zhongnanhai, gritando insultos como “pilha de cocô de cachorro” para o casal Liu através de vários alto-falantes. Os subordinados de Liu foram arrastados para fora dos muros de Zhongnanhai para serem denunciados numa espécie de espetáculo ambulante grotesco.

No auge disso, apresentaram a Liu a exigência de “inclinar sua cabeça em sinal de obediência e admitir seus crimes ao presidente Mao”. Isso foi feito simuladamente em nome de alguns Rebeldes, para fingir que a exigência viera das “massas”. Mas foi apresentada a Liu por Wang Dong-xing, o camareiro e chefe da guarda pretoriana de Mao, o que não deixava dúvida quanto a quem estava manipulando os fios. Liu não cedeu. Prevendo o pior depois desse desafio, Guang-mei segurou um frasco de comprimidos para dormir diante do marido, oferecendo-se para se matar junto com ele. Nenhum dos dois disse palavra, com medo dos grampos, o que certamente teria levado ao confisco dos comprimidos. Liu fez um sinal negativo com a cabeça.

Sabendo o quanto a força de Liu vinha de sua esposa, Mao mandou separar o casal. Em 18 de julho, disseram-lhes que seriam denunciados em reuniões separadas naquela noite. Mais de três décadas depois, Guang-mei escreveu sobre aquele momento:

Eu disse: “Parece que é realmente adeus dessa vez!”. Eu simplesmente não conseguia deter as lágrimas [...]

[...] Pela única vez em nossas vidas, Shao-chi fez a mala para mim e dobrou minhas roupas com cuidado.

Nos últimos minutos, ficamos sentados olhando um para o outro [...] Então ele, que raramente fazia piada,

disse: “Isto é como esperar pela cadeirinha chegar e levar você [para casar]!”. [...] Caímos na risada.

 

Depois das brutais assembleias de denúncia, o casal Liu foi posto praticamente em confinamento solitário. Eles se encontraram de novo apenas uma vez, quando foram arrastados diante de um tribunal fajuto, em 5 de agosto, primeiro aniversário da diatribe escrita de Mao contra Liu. Kuai, o ponta de lança de Mao, havia preparado um grande evento na praça Tiananmen, onde um palco foi construído especialmente para que o casal Liu fosse exibido diante de uma multidão organizada de centenas de milhares de pessoas. No final, Mao vetou a ideia. Não podia arriscar que isso fosse visto por estrangeiros. Se testemunhassem a selvageria contra seu ex-companheiro mais próximo, ali no coração de Pequim, isto é, com seu claro apoio, toda a charada poderia facilmente voltar-se contra ele. Quando mais não fosse, poderia afetar os maoístas estrangeiros,

muitos dos quais já se haviam indisposto com o Expurgo de Mao. a Também não podia correr o risco de que Liu falasse. Podia ter certeza de que eles fariam refutações afiadas, como o haviam feito em cartas a ele e em suas réplicas aos Rebeldes. Mao não ousou fazer um julgamento-espetáculo do tipo stalinista. Então, o casal Liu acabou recebendo sua salva de agressões apenas dentro de Zhongnanhai, de guardas pretorianos vestidos à paisana e do staff do governo.

Naquele dia, 5 de agosto, os “defensores do capitalismo” números dois e três, Deng Xiao-ping e Tao Zhu (Liu era o “número um”), também foram denunciados diante de suas casas. Ambos haviam caído em desgraça, como muitos antigos favoritos de Mao, porque não concordaram em cooperar com o Grande Expurgo. Mas, como Mao não os odiava tanto quanto a Liu, foram tratados com menos ferocidade. Zeng Zhi, a esposa de Tao Zhu, era uma velha amiga de Mao e foi poupada. Ela relembrou um episódio que revela quão detalhado era o controle dele. Enquanto seu marido era espancado, deixaram que ela sentasse. Uma militante estava prestes a bater nela quando Zeng Zhi notou um homem na plateia que sacudia a cabeça para a mulher, que logo recuou.

Zeng Zhi sabia que a “amizade” e proteção de Mao poderiam sumir assim que ela fizesse alguma coisa que desagradasse o Grande Timoneiro. Mais tarde, quando seu marido, já doente terminal, foi mandado para o exílio interno, deram-lhe a opção de acompanhá-lo. Os dois sabiam que, se ela o fizesse, perderia a boa vontade de Mao, o que a arruinaria, bem como a vida de sua filha única. Então o casal decidiu que ela não o acompanharia e ele morreu sozinho no exílio.

No tribunal fajuto de 5 de agosto de 1967, montado dentro de Zhongnanhai, Liu não recuou e deu respostas sucintas; mas, assim que tentou falar mais, Pequenos Livros Vermelhos choveram sobre sua cabeça e ele foi calado pelos slogans estúpidos gritados pela multidão. O casal Liu foi socado, chutado e teve os cabelos puxados ferozmente para trás, a fim de expor seus rostos para os fotógrafos e cinegrafistas. Em certo momento, a reunião foi suspensa e um ponta de lança de Mao deu ordem para que ficasse mais violenta para as câmeras. O filme mostra então Liu sendo pisoteado no chão. Num supremo ato de sadismo, a filha de seis anos do casal e seus outros filhos foram trazidos para assistir à agressão aos seus pais. Todo o vil episódio foi assistido também por uma observadora especial de Mao — sua filha Li Na.

Mao pode ter sentido satisfação com o tormento do casal Liu, mas dificilmente deixou de registrar que eles não foram esmagados. A certa altura, Guang-mei libertou-se e se agarrou a uma ponta da roupa de seu marido. Durante alguns minutos, sob uma chuva de socos e chutes, o casal se deu as mãos com firmeza, lutando para ficar de pé.

Guang-mei pagaria caro por sua coragem. Pouco mais de um mês depois, foi acusada de espionar para os Estados Unidos — e, para completar, para o Japão e Chiang Kai-shek. Durante doze anos, até depois da morte de Mao, ela ficou trancafiada em Qincheng, uma prisão de alta segurança, onde, por longos períodos, não teve permissão nem para caminhar; anos depois, ela ainda não conseguia ficar de pé. Mas continuou indômita. A equipe de seu caso pediu sua execução. Mao disse “não”. Não queria acabar com seu sofrimento tão cedo.

Os parentes dela foram encarcerados, assim como sua mãe septuagenária, que morreu na prisão alguns anos depois. Os filhos do casal ficaram sem lar e foram submetidos a espancamentos e prisão. Um dos filhos de um casamento anterior de Liu suicidou-se. Enquanto isso, a casa de Liu, que ficava a curta distância da de Mao, foi transformada numa singular cela maoísta de morte lenta.

 

Liu estava com quase setenta anos e sua saúde deteriorou-se depressa. Uma perna ficou paralisada e ele vivia num estado de permanente privação do sono, pois lhe tiraram os comprimidos para dormir dos quais era dependente. Foi mantido vivo, mas precariamente. Em 20 de dezembro de 1967, seus carcereiros registraram que estavam “apenas mantendo-o vivo, a um passo da inanição”. “O chá foi suspenso [...]” Os males que ameaçavam sua vida — pneumonia e diabetes — foram tratados, embora, em mais um aperto maoísta do parafuso, os médicos o amaldiçoassem enquanto cuidavam dele. Mas deixaram deliberadamente que sua saúde mental se arruinasse. Em 19 de maio de 1968, seus carcereiros relataram que ele “escovou os dentes com um pente e sabão, pôs as meias sobre os sapatos e a cueca por fora das calças”. E, no estilo cruel que estava na ordem do dia, escreveram que Liu “banca o idiota e faz um nojento papel de bobo”.

Naquele verão, Mao ordenou duas vezes, por meio de Wang Dong-xing, que os médicos e os guardas deveriam “mantê-lo vivo até depois do IX Congresso”, quando pretendia expulsar Liu do partido. Se ele morresse, essa história sem nexo não daria a mesma satisfação a Mao. Depois do fim do congresso, estava claramente implícito que podiam deixar Liu morrer.

Em outubro de 1968, já era preciso alimentá-lo pelo nariz e parecia que poderia morrer a qualquer instante. Mao não estava pronto para o congresso, então o Comitê Central — na verdade, uma minoria remanescente que compreendia apenas 47% dos membros originais, pois o resto havia sido expurgado — foi convocado às pressas para expulsar Liu do partido. O comitê também o removeu da presidência do país, ato que nem fingiu seguir um procedimento constitucional.

A equipe do caso de Liu havia notoriamente fracassado na tentativa de montar um processo. Mao dissera que queria uma acusação de espionagem — uma maneira de evitar qualquer questão sobre políticas públicas e de afastar os investigadores das ligações de Liu com ele. Na verdade, Mao estava tão nervoso com a possibilidade de Liu falar com alguém que a equipe que o investigava foi proibida até mesmo de pôr os olhos nele, quanto mais de fazer-lhe alguma pergunta. Em vez disso, um grande número de pessoas foi detido e interrogado, para tentar levantar provas contra Liu. Qincheng, a prisão para a “elite”, construída com a ajuda de assessores russos na década de 1950, foi aumentada em 50%, em parte para acomodar os detidos relacionados com o caso de Liu. Seu primeiro recluso na Revolução Cultural foi Shi Zhe, que havia sido intérprete entre Liu e Stálin e que foi pressionado a dizer que Liu era um espião russo. Ali também esteve preso o americano Sidney Rittenberg, que conhecera Guang-mei nos anos 1940. Ele sofreu pressão para dizer que havia recrutado o casal Liu para a espionagem dos Estados Unidos (Rittenberg observou que os interrogadores, enquanto faziam os devidos movimentos exaltados, não pareciam acreditar no que faziam). Também tentaram fazer com que ex-chefes do serviço secreto nacionalista dissessem que Guang-mei havia espionado para eles.

A maioria dos detidos e convocados a dizer mentiras gritantes tentou ao máximo não obedecer. Entre aqueles que pagaram por não ceder estavam dois ex-chefes partidários, Li Li-san e Lo Fu. Suas famílias foram jogadas na prisão e os dois encontrariam a morte. A esposa russa de Li-san, que havia ficado ao seu lado durante os expurgos da década de 1930 na União Soviética, quando ele ficara preso durante dois anos, passou oito anos nos cárceres de Mao.

Até mesmo alguns membros da equipe do caso de Liu se negaram a fabricar provas. Em consequência, a própria equipe teve de ser expurgada três vezes e dois de seus três chefes acabaram na prisão. Ela se viu numa situação complicada, pois inventar provas podia ser tão perigoso quanto deixar de descobri-las. Em uma ocasião, a equipe alegou que, em 1946, Liu havia querido que tropas americanas invadissem a China e que ele desejara ver o presidente Truman para falar sobre isso. “Fazer tal afirmação”, disse Mao, “é [...] nos tratar como idiotas. Os Estados Unidos mandando tropas em massa: nem os nacionalistas queriam isso.” No fim, a equipe apenas acumulou uma lista de asseverações; uma delas dizia que Liu “casou-se com a espiã americana Wang Guang-mei, que havia sido enviada a Yenan pela Inteligência Estratégica Americana”. Seu relatório, entregue ao Comitê Central pelo fiel escravo de Mao, Chou En-lai, chamava Liu de “traidor, agente inimigo e fura-greve”, e recomendava a sentença de morte. Mao a rejeitou, como fizera em relação à esposa de Liu.

Mao manteve-se plenamente informado sobre os últimos sofrimentos de Liu. Tiraram fotografias que o mostravam numa tal agonia que ele havia apertado duas garrafas de plástico rígido até deformá-las. Em abril de 1969, quando o IX Congresso finalmente se reuniu, Mao anunciou, com voz desprovida de qualquer laivo de piedade, que Liu estava às portas da morte.

Em seus momentos de lucidez, Liu manteve a dignidade. Em 11 de fevereiro de 1968, havia escrito uma última defesa de si mesmo, na qual chegava a se queixar do estilo ditatorial de Mao desde o início da década de 1920. Depois disso, calou-se. Todo o modus operandi de Mao dependia de dobrar as pessoas, mas ele fracassara na tentativa de fazer Liu ficar de quatro.

Numa noite fria de outubro, seminu sob uma colcha, Liu foi posto num avião e levado para a cidade de Kaifeng. Ali, os pedidos dos médicos locais de raio X e hospitalização foram negados. A morte chegou dentro de poucas semanas, em 12 de novembro de 1969. No total, Liu suportou três anos de sofrimento físico e angústia mental. Foi cremado sob pseudônimo, com o rosto envolvido num pano branco. Mandaram os funcionários do crematório esvaziar o local, sob o pretexto de que o cadáver tinha uma doença infecciosa letal.

O final extraordinário da história de Liu é que sua morte nunca foi tornada pública enquanto Mao esteve vivo. Esse comportamento aparentemente anômalo (a maioria dos ditadores gosta de dançar sobre a cova dos inimigos) era uma indicação de como Mao se sentia inseguro. Ele temia que, se fosse divulgada, a notícia provocaria simpatia pelo morto. Com efeito, a difamação de Liu continuou pelo resto da vida de Mao, sem nenhuma indicação para o público de que ele morrera. Mao obteve sua vingança submetendo Liu a uma morte dolorosa e demorada. Mas ela não teve um gosto muito doce.

 

Mao também não emergiu vitorioso em relação ao seu segundo maior ódio, pelo marechal Peng De-huai. O primeiro líder dos Rebeldes enviado a Sichuan em dezembro de 1966 para trazer Peng de volta à detenção em Pequim ficou tão emocionado depois de conversar com ele que começou a apelar em favor de Peng. O Rebelde acabou na prisão, mas disse que não se arrependia de ter se manifestado. Outro líder dos Rebeldes que maltratara Peng expressou mais tarde remorso profundo pelo que fizera. Não há dúvida sobre os sentimentos das pessoas depois que conheciam as posições de Peng, ou o conheciam.

Em Pequim, Peng foi arrastado para muitas assembleias de denúncia, por ordem de Mao, e em todas foi chutado por Rebeldes que usavam botas pesadas e espancado ferozmente com paus. Suas costelas foram quebradas e ele desmaiou várias vezes.

Ao contrário de Liu, Peng foi interrogado cerca de 260 vezes, pois Mao realmente temia que ele pudesse ter alguma conexão com Khruchióv. Na solitária, a cabeça de Peng começou a falhar, mas seu formidável cerne manteve-se incólume. Ele escreveu um relato lúcido de sua vida, refutando as acusações de Mao. No final, escrito em setembro de 1970, ele proclamava: “Ainda erguerei minha cabeça e gritarei cem vezes: minha consciência está limpa!”.

Peng era um homem de constituição vigorosa e seu calvário durou ainda mais que o de Liu: oito anos, até 29 de novembro de 1974, quando foi finalmente vencido por um câncer no reto. Tal como Liu, foi cremado sob pseudônimo e também sua morte nunca foi divulgada enquanto Mao esteve vivo.

 

a O comunista belga Jacques Grippa, o mais antigo maoísta na Europa ocidental e alguém que fora torturado nos campos de concentração nazista, escreveu então a Liu, como presidente, em Zhongnanhai. A carta foi devolvida com o carimbo “Não mora neste endereço”.