Mao: a história desconhecida
52. A desavença com Lin Biao
(1970-71; 76-77 anos)
Até agosto de 1970, a parceria Mao-Lin funcionou extremamente bem. Nos quatro anos anteriores, Lin havia fornecido o suporte do Exército que Mao precisava para expurgar o partido e reconstruir seu regime. E Mao fizera o máximo para satisfazer a sede de poder de Lin Biao: entregara o Exército nas mãos dele e o nomeara oficialmente seu sucessor na direção do partido. Sua esposa fora posta para dentro do Politburo (onde só havia um outro membro do sexo feminino, madame Mao), rompendo assim um antigo tabu contra a promoção de esposas. Mao até tolerou um miniculto de Lin. Todos os dias, quando vinha a cantilena: “Que o Grande Timoneiro [etc.] presidente Mao viva para sempre!”, acompanhada de acenos com o Pequeno Livro Vermelho, a homenagem continuava com: “Que o vice-presidente Lin tenha muita saúde, e saúde para sempre!”.
Em Lushan, no entanto, Mao percebeu que deixara Lin ficar muito poderoso e que isso representava agora uma ameaça para ele. Tudo começou com uma disputa aparentemente inócua sobre a presidência do país, posto que havia sido ocupado por Liu Shao-chi. Mao queria abolir o cargo. Lin insistiu em que deveria continuar a existir e que Mao deveria ser o presidente. O motivo da teimosia de Lin era que ele queria ser vice-presidente, o que o poria formalmente na segunda posição mais importante da hierarquia do Estado. Entre os cinco que ocupavam o topo do escalão do partido (Mao, Lin, Chou, Kang Sheng e Chen Bo-da), quatro apoiaram Lin e Mao ficou sozinho. Tratava-se de um notável sinal do poder de Lin, pois mostrava que, para os colegas de poder de Mao, os interesses do marechal estavam acima dos desejos do presidente.
Mao ficou ainda mais furioso quando Lin anunciou sua proposta ao conclave, em 23 de agosto, sem antes resolver a questão com ele. Logo depois do discurso de Lin, Wang Dong-xing, comandante da guarda pretoriana, o apoiou, exigindo com palavras entusiasmadas que Mao se tornasse presidente e Lin vice-presidente — embora ele também soubesse que isso contrariava frontalmente a vontade de Mao. O homem a quem Mao confiava sua vida também punha o desejo de Lin acima do seu.
Wang agiu assim porque percebia que a proteção de Lin era essencial. Ele vira o destino de seu predecessor, Luo, o Alto, que havia sido o mais íntimo possível de Mao, mas que fora sacrificado quando Lin o exigira. E agora ele via que Mao estava fazendo outro sacrifício semelhante: acabara de endossar o pedido de Lin de condenar Zhang Chun-qiao, sétimo na hierarquia do partido e homem de confiança de Mao.
Zhang, de 53 anos, era um funcionário de escalão médio em Xangai quando chamou a atenção de Mao por sua capacidade de fabricar artigos que revestiam as façanhas de Mao com trajes marxistas. No início da Revolução Cultural, Mao o havia içado para o topo a fim de executar a tarefa crucial de embrulhar o Grande Expurgo com fraseologia ideológica. Em larga medida, Zhang foi a pessoa responsável pelos textos que fizeram muitas pessoas na China e no exterior cultivar ilusões a respeito da verdadeira natureza da Revolução Cultural.
Era um homem reticente e reservado, cujo rosto seus colegas julgavam difícil de decifrar. Fora apelidado de “Cobra” por Lin e seus asseclas, em parte porque usava óculos e também devido às suas qualidades serpentinas. Lin Biao odiava-o porque não fazia parte de sua panelinha e porque Mao, sempre disposto a semear a discórdia entre seus subalternos, lhe dissera que o Cobra poderia sucedê-lo um dia, quando ele estivesse velho. Durante algum tempo, Lin tentou minar a posição de Zhang, difamando-o para Mao. Pouco antes de fazer seu discurso em Lushan, Lin disse a Mao que pretendia condenar o Cobra e recebeu luz verde com um aceno de cabeça. Após o discurso, que foi violento, outros participantes se manifestaram e exigiram, com a linguagem brutal da época, que o Cobra fosse “submetido à morte dos mil cortes”.
A lição estava clara: por mais importante e próxima que uma pessoa fosse de Mao, ela precisava ter a bênção de Lin para sobreviver. Apenas a proteção de Mao não era suficiente. Tratava-se de uma enorme alteração no poder. Mao ficou abalado com a ideia de que a proteção de Lin era agora mais fundamental do que a sua.
Decidiu de imediato demonstrar que Lin não era onipotente. Vetou qualquer possibilidade de haver uma presidência e mandou parar os ataques ao Cobra e qualquer outra discussão do discurso de Lin. Tratou de mostrar enorme desagrado em relação a Lin e depois condenou seu velho secretário Chen Bo-da, o quinto na hierarquia do partido, que se tornara íntimo demais de Lin. Como era costume nesses casos, Chen foi posto em prisão domiciliar e depois jogado no calabouço — uma experiência que descreveu como ser “atingido na cabeça por uma bomba atômica”.
Mao pediu que Lin fizesse autocrítica diante do alto escalão e dissesse que havia sido “enganado” por Chen. Lin recusou-se. Até então, graças a sua relação especial com Mao, sempre havia evitado se submeter a esse ritual humilhante. Embora Mao tenha insistido, ele não arredou pé. Estava armado o impasse. Após quatro décadas, a relação Mao-Lin começou a se desfazer.
Após a plenária de Lushan, que terminou de forma inconcludente em 6 de setembro, Mao tomou medidas para reduzir o poder de Lin — e também para garantir sua segurança pessoal. Convocou generais de confiança que não faziam parte da panelinha de Lin para assumir o comando militar de Pequim e inseri-los na liderança do Exército. Também fez uma limpeza em casa, dispensando algumas de suas namoradas favoritas que vinham da trupe de canto e dança da Aeronáutica, um serviço de alcovitagem para Mao, que tinham ligações com Lin.
Teve de avançar com cautela para não fazer com que Lin se sentisse pessoalmente ameaçado. Não podia se dar ao luxo de romper com ele em definitivo. O regime inteiro estava praticamente nas mãos de gente selecionada por Lin e sua rede pessoal. Mao queria neutralizá-lo o máximo possível, sem expurgá-lo. As maquinações intermináveis necessárias para isso esgotaram suas energias e naquele inverno ele teve pneumonia. Foi então, aos 77 anos, que a velhice o atacou de súbito e ele, que gozava de saúde extraordinária, começou a ser assediado pelas doenças.
Enquanto isso, Lin Biao continuava a se recusar a fazer a auto-humilhação que Mao exigia. Sempre solitário, tornou-se ainda mais recluso e passava a maior parte do tempo caminhando em sua sala e, às vezes, via filmes de guerra. Ditou uma carta para Mao em que deixava claro que, caso fosse expurgado, ele teria de mudar todo o pessoal da máquina partidária que Lin havia instalado; os únicos substitutos possíveis seriam os velhos quadros do partido e isso significaria repudiar a Revolução Cultural. Mas, a pedido de sua mulher, não mandou a carta. Mao não toleraria ser ameaçado dessa maneira.
Uma opção mais realista para Lin seria fugir, como adversários anteriores de Mao haviam feito: Chang Kuo-tao para os nacionalistas, na década de 1930, e Wang Ming para Moscou, nos anos 1950. Com seu controle sobre a Força Aérea, Lin poderia fugir para o exterior. A escolha óbvia era a Rússia. Ele passara mais de quatro anos naquele país e sua mulher falava um russo razoável, pois fora amante de um oficial russo. Mas um sinal da desconfiança de Lin Biao nos regimes comunistas era que sua primeira opção para a fuga apontava para a colônia britânica de Hong Kong.
O plano de Lin era voar primeiro para Cantão, que fica próxima de Hong Kong e onde os militares lhe eram excepcionalmente devotados. Para garantir essa rota de fuga, confiou em seu filho único Li-guo, que chamava de “Tigre” e que estava com vinte e tantos anos. Em novembro de 1970, logo depois do rompimento de Lushan, Tigre começou a encontrar pessoas das Forças Armadas de Cantão. Seus amigos íntimos fizeram frequentes visitas secretas a Cantão, obtiveram armas pequenas, rádios e carros e aprenderam a pilotar helicópteros. Durante todas essas amplas atividades, ninguém traiu o filho de Lin, que inspirava fidelidade.
Tigre estudava física na Universidade de Pequim quando começou a Revolução Cultural. Numa atitude incomum para um jovem de sua formação, só entrou para os Guardas Vermelhos com muita relutância e logo saiu, por não ter inclinação para a violência e para perseguir pessoas. Parecia um sujeito decente. Era uma espécie de playboy e teve muitas namoradas. Seus pais o adoravam e sua mãe mandara agentes percorrer toda a China em busca da jovem mais bonita para ser sua esposa. Tigre escolheu uma noiva sexy, ao mesmo tempo inteligente e excêntrica. Com ela, escutava rock ocidental, que adorava, e lhe declarou: “Haverá um dia em que deixarei os chineses saberem que existe uma música tão maravilhosa no mundo!”.
Desfrutar música ocidental era apenas um dos muitos privilégios de Tigre por ser filho de Lin Biao. Outro era ter acesso a revistas científicas estrangeiras, que ele devorava, muitas vezes expressando admiração pelos avanços que ocorriam no Ocidente (era um ávido inventor de equipamentos militares, com algumas ideias eficazes próprias). Mas, sobretudo, tinha acesso a alguns documentos altamente secretos e, por isso, estava muitíssimo bem informado.
Tigre passou a ser um crítico agudo da tirania de Mao. Em março de 1971, ele e três amigos puseram suas ideias no papel:
• Altos dirigentes sentem raiva, mas não ousam falar;
• Os camponeses carecem de comida e roupas;
• Jovens instruídos mandados para o interior: campos de trabalho forçado disfarçados; • Os Guardas Vermelhos foram enganados e usados no início [...] como bucha de canhão [e depois] bodes
expiatórios [...];
• Os salários [...] dos trabalhadores foram congelados: exploração disfarçada.
Essas palavras faziam parte de um documento intitulado “Esboço de Projeto 571”. Tigre escolheu esse nome porque “571” — wu-qi-yi — tem a mesma pronúncia em chinês de “levante armado”, e um golpe era o que seus amigos tinham em mente. O Esboço era uma acusação cortante a Mao e descrevia a China de seu regime como “Estado rico, povo pobre”, que eles queriam mudar para “povo rico e Estado poderoso”. Seu objetivo era “dar ao povo comida e roupa suficiente e uma vida pacífica” — a antítese dos objetivos de Mao.
Descreviam Mao como “o maior promotor da violência”, que “joga [...] pessoas contra pessoas”, “um paranoico e sádico” e “o maior tirano feudal da história chinesa”. Acusavam-no de “transformar a máquina estatal chinesa num moedor de carne, massacrando e esmagando pessoas”. Essas observações eram realmente notáveis para a época. Tigre apelidou Mao de “B-52”, em referência ao bombardeiro americano, pois Mao, nas suas palavras, tinha um grande estômago cheio de pensamentos maus, e cada um deles parecia uma bomba poderosa que mataria pilhas de gente. A atitude de Tigre em relação a Mao era completamente diferente daquela dos seus oponentes da velha guarda. Ele compreendia bem Mao, que considerava malévolo e inadequado para dirigir o país. Também percebia que, com ele, nenhum diálogo ou compromisso era possível. Nesse sentido, foi a coisa mais parecida com Claus von Stauffenberg, o oficial alemão que tentou matar Hitler em 1944, que a China produziu.
Tigre e seus amigos começaram a falar sobre assassinar Mao quando ele viu que o Timoneiro estava atrás de seus pais. Os amigos discutiram muitas ideias, mas todas em termos muito gerais, como “usar gás venenoso, armas bacteriológicas, bombas”, e não há indício de que tenham chegado a preparar alguma coisa semelhante. Mao mantinha as regras mais rígidas sobre armas e movimentos de tropas, e uma segurança fenomenal. Além disso, como o próprio grupo de Tigre observou, “a fé cega das massas em B-52 é muito profunda” (graças, em parte e ironicamente, ao pai dele) e, assim, eles não ousaram revelar seu projeto à maioria de seus amigos, ou aos principais acólitos de Lin, no topo da hierarquia militar. Tigre deixou uma cópia com seus pais, mas Lin foi evasivo.
Em março de 1971, cerca de sete meses depois da rixa com Lin em Lushan, Mao decidiu convocar uma conferência de uns cem membros da elite para ouvir a autocrítica da esposa de Lin e de seus asseclas no alto-comando do Exército. Mao mandou Chou En-lai em pessoa pedir a Lin, em termos extraordinariamente fortes, para aparecer e “dizer algumas palavras”. Lin recusou-se. Isso foi uma grande afronta à autoridade de Mao e ele ficou furioso. Instruiu Chou a fazer uma denúncia violenta de Lin em 29 de abril (embora sem mencionar seu nome), dizendo que a liderança do Exército vinha “seguindo uma linha política errada”.
Furioso, Lin retaliou. Dois dias depois era o Dia do Trabalho, quando a liderança se reunia tradicionalmente no portão de Tiananmen. O protocolo era muito importante no mundo comunista e qualquer ausência podia ser interpretada como discórdia no alto escalão. À noite, porém, não havia sinal de Lin. Chou olhava com ansiedade para o assento vazio diante de Mao e do príncipe Norodom Sihanouk, do Camboja, ao lado da esposa do ilustre visitante, enquanto telefonemas frenéticos eram dados para a casa de Lin. Finalmente, Lin surgiu, com aparência abatida, muito depois que a exibição de fogos de artifício havia começado.
O fotógrafo oficial Du descreveu a cena para nós:
Quando vi Lin Biao sentando-se, bati uma foto. Não pretendia de forma alguma que ela fosse publicada.
Queria esperar que [Mao e Lin] começassem a falar [...] Mas eles nem se olharam [...] Então, Lin Biao
levantou-se e saiu. Achei que ele havia ido ao toalete, mas passou-se meia hora e ele ainda não havia voltado.
Eu me perguntei como o vice-presidente Lin demorava tanto no toalete. Na verdade, ele fora embora.
Ficamos todos estupefatos. Assim que terminou o espetáculo, o premiê Chou me perguntou: “Você tirou
uma foto do vice-presidente Lin?” [...] Eu disse: “Uma”. Ele disse: “E filme e televisão?”. Respondi que não
sabia. O premiê mandou chamar as equipes e passou-lhes uma descompostura que aqueles caras lembram até
hoje como se tivesse sido ontem.
Lin havia ficado menos de um minuto e não cumprimentara ninguém, nem mesmo o casal visitante nem Mao.
Ele sabia que Mao não o perdoaria por isso. Após esse episódio, Tigre foi a Cantão a fim de verificar a rota de fuga para Hong Kong. Foi até Lowu, a principal travessia para a colônia inglesa, chegando tão perto da fronteira que seus acompanhantes ficaram preocupados, achando que a polícia de Hong Kong poderia abrir fogo.
Lin voltaria a desafiar Mao em junho, quando Nicolae Ceausescu e esposa, o casal de tiranos da Romênia, visitaram Pequim. Lin recusou-se a comparecer a uma reunião com eles, alegando que estava “suando”, e sua mulher teve de implorar de joelhos para que ele fosse ao encontro. Lin apareceu finalmente, mas deixou a sala depois que Mao lhe deu algumas alfinetadas e sentou-se do lado de fora, encurvado e com a cabeça baixa. Pouco depois, Tigre fez outro reconhecimento da fronteira com Hong Kong, de helicóptero.
Em meados de agosto, um ano após Lushan, Mao estava pronto para expurgar Lin. No dia 14, partiu de Pequim para preparar os líderes provinciais. Precisava ter certeza de que esses homens, em sua maioria designados por Lin, não ficariam do lado dele num confronto final. Durante essa excursão, Mao fez repetidas observações negativas sobre Lin, como: “Ele quer dividir o partido e mal pode esperar para tomar o poder”. Embora dissesse aos interlocutores que não contassem a Lin o que ele falara, alguns dos seguidores de Lin lhe desobedeceram. Suas palavras chegaram aos ouvidos do casal Lin no balneário marinho de Beidaihe, a leste de Pequim, em 6 de setembro. A vila de Lin ocupava uma colina inteira, bem protegida do mar por uma vegetação luxuriante, pois ele não suportava a visão da água, embora gostasse do ar marinho. Por vários quilômetros em volta, não havia uma única alma, exceto guardas e assessores.
Lin, sua esposa e Tigre decidiram fugir logo. Planejaram partir do aeroporto vizinho de Shanhaiguan, onde a Grande Muralha encontra o mar. Tigre foi a Pequim no dia 8 para conseguir aviões para a fuga. Levou com ele um bilhete manuscrito do pai: “Por favor, sigam as ordens transmitidas pelos camaradas Li-guo [Tigre] e Yu-chi [o amigo mais íntimo de Tigre]. [Assinado] Lin Biao 8 de setembro”. O homem encarregado de despachar aviões no aeroporto militar de Pequim concordou em contornar os canais regulares para ceder os aviões a Tigre.
Mas Tigre não queria fugir sem primeiro fazer uma tentativa de assassinar Mao. Naquele momento, ele estava na região de Xangai, onde oficiais leais a Lin detinham postos-chave e tinham até um papel na segurança externa de Mao. Parece que, na última hora, Lin Biao havia concordado com a tentativa de Tigre. Sua esposa era totalmente a favor. Quando deu um beijo de despedida em sua noiva, em Beidaihe, Tigre disse: “Caso aconteça alguma coisa comigo, você não sabe de nada; não vou incriminá-la”.
Em Pequim, Tigre pediu ao subchefe do estado-maior da Aeronáutica, Wang Fei, que montasse um ataque ao recinto onde madame Mao e seu séquito estavam morando, a Vila de Pesca Imperial. Tigre contou-lhe que uma ação simultânea ocorreria “no sul”, onde Mao estava. Wang Fei era um bom amigo, mas sua resposta foi desapontadora. Ele não achava que pudesse persuadir qualquer soldado a fazer o que Tigre lhe pedia. De qualquer modo, suas tropas não tinham permissão para andar armadas em Pequim.
Em seguida, Tigre encontrou-se com um oficial graduado da Força Aérea chamado Jiang Teng-jiao, o mais jovem general da China e que, por várias razões, odiava Mao. Tigre pediu-lhe para tentar matar Mao enquanto ele ainda estava perto de Xangai. Jiang concordou e os dois discutiram várias ideias. Uma delas era atacar o trem de Mao com lança-chamas e bazucas; outra era jogar-lhe granadas; uma terceira era que o chefe militar de Xangai, homem de confiança de Lin, atirasse em Mao dentro do trem. A quarta era um bombardeio aéreo do trem. Mas o homem que contataram para jogar as bombas, um ás da Guerra da Coreia, respondeu que não havia bombardeiro disponível. Ele ficou com medo e pediu à esposa, que era médica, para esfregar água salgada e aureomicina velha em seus olhos a fim de que ficassem inchados, e assim foi hospitalizado. As outras ideias também se revelaram inviáveis, pois era impossível chegar com poder de fogo letal perto do trem blindado e fortemente guardado de Mao.
Nos dias seguintes, continuaram as discussões tensas. “Eu simplesmente não consigo mais tolerá-lo!”, gritava Tigre, de punhos cerrados. “O.k., o peixe morre, mas rompe a rede!”, disse, indicando que estava disposto a um ataque suicida, se isso fosse necessário para derrubar o regime de Mao.
Com as ideias se esgotando, no dia 10 Tigre mandou que um amigo fosse a Beidaihe e instasse seu pai a escrever uma carta ao chefe do estado-maior Huang Yong-sheng, pedindo que cooperasse com Tigre. Lin escreveu a carta, mas ela não foi entregue. Os conspiradores não podiam confiar em que Huang não os trairia.
Também era tarde demais. No dia seguinte, chegou a notícia de que Mao havia partido de Xangai de trem. Vários amigos de Tigre se ofereceram para pilotar helicópteros e fazer um ataque suicida a Mao no portão de Tiananmen, no dia da Pátria, 1 o de outubro. Tigre vetou a ideia, com lágrimas nos olhos. Ele não havia previsto qualquer ação daquela magnitude.
Todos os planos de assassinato foram abortados e Tigre decidiu voltar à ideia de fugir para Cantão e depois para Hong Kong. Na noite de 12 de setembro, voltou a Beidaihe no avião de Lin, um Trident, e pretendia partir com a família na manhã seguinte.
Mao havia retornado a Pequim no final daquela tarde, sem ter a menor ideia de que uma trama para assassiná-lo estivera em marcha. Seu trem parou nos arredores da capital, numa estação chamada Fengtai, onde recebeu informações de rotina de seus novos comandantes de Pequim. A reunião começou com um relatório sobre a visita de uma delegação do Exército à Albânia. De volta a Zhongnanhai, tudo se parecia com o final de qualquer outra viagem. Os chefes da segurança de Mao e o chefe de seus guardas, que viviam nas cercanias do recinto, foram para casa. Alguns deles tomaram comprimidos para dormir. Mao também foi dormir.
No momento em que Mao foi para a cama, os Lin preparavam-se para levantar acampamento. Tigre chegara em Beidaihe por volta das nove da noite e repassou os planos com seus pais. Disseram ao staff que partiriam às seis da manhã para Dalian, um porto próximo, que era um antigo retiro da família e, portanto, não despertava suspeitas. Então, num gesto fatal, Tigre disse a sua irmã Dodo que estivesse pronta para partir pela manhã.
Dois anos mais velha que Tigre, Dodo era uma jovem que sofrera lavagem cerebral. Seus pais não queriam que ela participasse dos planos de fuga, pois poderia denunciá-los. Mas Tigre estava preocupado com o que poderia acontecer a ela depois que fugissem e lhe revelara parte do plano dias antes. Como os pais haviam previsto, ela ficou apavorada. Ao contrário do irmão, Dodo era um produto do medo e da lógica torta da China de Mao. Para ela, tentar fugir para o exterior era deserção e, portanto, traição, ainda que soubesse que seu pai doente, que ela amava, provavelmente não sobreviveria muito tempo na prisão de Mao. Quando Tigre lhe disse que partiriam na manhã seguinte, ela contou o plano para os guardas pretorianos que estavam estacionados num prédio separado, na entrada do recinto. Essa denúncia condenou sua família.
Os guardas telefonaram a Chou En-lai, que começou a verificar os movimentos dos aviões, em particular do Trident de Lin. Os amigos de Tigre avisaram-no de imediato que Chou estava fazendo perguntas e Lin Biao decidiu partir na mesma hora, em vez de esperar até a manhã seguinte. Decidiu também não ir para Cantão, mas para a Rússia, via a Mongólia Exterior, pois essa rota significaria muito menos tempo no espaço aéreo chinês: pouco mais de uma hora.
Tigre avisou seus amigos sobre a mudança de rota e telefonou ao capitão do Trident para que aprontasse o avião. Sem saber que a investigação de Chou fora deflagrada pela traição da irmã, Tigre disse a Dodo que iam partir imediatamente. Ela voltou para os guardas pretorianos e ficou no posto deles.
Por volta de 11h50 da noite, Lin Biao, madame Lin, Tigre e um amigo seu partiram para o aeroporto, acompanhados pelo mordomo de Lin. Na saída da propriedade, os guardas pretorianos tentaram detê-los. Nesse ponto, o mordomo desconfiou que eles iam fugir do país. Pensando no que aconteceria com sua família se passasse a ser um desertor, gritou “pare o carro!” e saltou fora. Seguiram-se tiros e um deles atingiu seu braço. O tiro veio de Tigre, disse o mordomo; alguns sugerem que ele mesmo se feriu, para se proteger.
Os guardas pretorianos começaram uma perseguição em vários veículos. Cerca de meia hora depois, o carro da família Lin freou ao lado do Trident, no aeroporto de Shanhaiguan, com um jipe perseguidor a apenas duzentos metros de distância. A sra. Lin disse que ele estava em perigo e gritou: “Estamos partindo!”. Tigre estava com uma pistola na mão. O grupo subiu freneticamente pela pequena escada até a cabine do piloto.
O Trident decolou às pressas às 0h32, levando os três membros da família Lin, o amigo de Tigre e o motorista de Lin. Da tripulação de nove homens, somente quatro — o capitão e três mecânicos — tiveram tempo de embarcar. Os mecânicos haviam acabado de aprontar o avião para a decolagem e estavam começando a reabastecê-lo quando a esposa de Lin gritou para que afastassem o caminhão-tanque. Em consequência, o avião tinha apenas 12,5 toneladas de gasolina, o suficiente para duas a três horas de voo, dependendo da altitude e da velocidade.
Eles tiveram de voar baixo na maior parte do tempo para evitar os radares, e isso gastou mais combustível. Duas horas depois, sobrevoando as pastagens da Mongólia, eles teriam apenas cerca de 2,5 toneladas de combustível — e o indicador de gasolina já estaria piscando havia algum tempo. Às 2h30 do dia 13 de setembro de 1971, o avião caiu numa bacia plana e explodiu ao bater no chão, matando todas as nove pessoas a bordo.
Mao, que estava fortemente sedado, foi acordado por Chou logo depois que o avião de Lin decolou. Ele ficou em seu quarto, um dos antigos vestiários da piscina de Zhongnanhai. O telefone mais próximo ficava na outra extremidade da piscina de cinquenta metros. Quando as pessoas que estavam monitorando o avião de Lin ligaram, o chefe da guarda, Wang Dong-xing (que Mao havia perdoado por apoiar Lin um ano antes em Lushan), correu ao telefone, depois até Mao, depois de volta ao aparelho. O avião só atravessou a fronteira da Mongólia à 1h50: Mao teve uma hora para agir.
Parece que só lhe apresentaram uma opção, se quisesse atacar: interceptação por aviões de caça. Aparentemente, a China não tinha mísseis terra-ar em condições de uso.
Mao vetou a interceptação. a A razão não dita era que ele não podia confiar na Força Aérea, que estava cheia de homens de Lin. Mao mandou que todos os aviões da China ficassem no solo, enquanto o Exército ocupava todos os aeroportos e bloqueava as pistas, para evitar que outros aviões decolassem. Os únicos que tiveram permissão para voar foram oito caças muito monitorados, enviados para forçar a aterrissar um helicóptero que levava três amigos de Tigre. Quando foram trazidos para os arredores de Pequim, os três concordaram em se matar a tiros. Dois o fizeram. O terceiro, que havia dito que sua última bala estava “reservada para B-52”, vacilou no último momento e atirou para o alto.
Mao foi removido para a Suíte 118, no Grande Salão, onde havia um elevador que conduzia ao abrigo antinuclear e ao túnel para as Colinas Ocidentais. Disseram a seus criados que ficassem prontos para a guerra; seus guardas entraram em alerta máximo e começaram a cavar trincheiras em torno das residências de Mao. O chefe dos guardas de Mao por 27 anos disse que nunca havia visto Mao tão tenso, tão exausto e tão furioso.
Ele ficou sem dormir e derrubado até a tarde de 14 de setembro, quando chegou a notícia de que o avião de Lin havia caído na Mongólia. Do seu ponto de vista, era a solução ideal, e ele tomou um trago de mao-tai, a bebida forte em que normalmente não
tocava, em comemoração. b
Mas o alívio de Mao com a morte de Lin foi logo ensombrecido pela notícia de que houvera um complô para assassiná-lo, que veio à luz logo depois de saber do acidente. Era a primeira conspiração do alto escalão para matá-lo e isso lhe causou um profundo choque. Igualmente alarmante era o fato de que várias pessoas tivessem sabido desses planos e nenhuma o houvesse delatado. Durante dias, ele mal dormiu, apesar de engolir punhados de soníferos. Teve febre e tossia sem parar. Problemas respiratórios impossibilitaram que deitasse, então ficou sentado no sofá dia e noite durante três semanas e desenvolveu escaras no traseiro. Depois, descobriram que estava com problemas cardíacos. Em 8 de outubro, quando recebeu o imperador da Etiópia Hailé Selassié, mal pronunciou uma palavra. Uma autoridade presente, que vira Mao pela última vez no dia anterior à fuga de Lin, menos de um mês antes, não pôde acreditar em como ele estava debilitado. Chou acabou a reunião mais cedo.
Mao teve de batalhar com detalhes infindáveis a fim de apertar a sua já incrivelmente rigorosa segurança. Todos ao seu redor tiveram de contar em detalhes suas relações com a família Lin. O subchefe da guarda pretoriana Zhang Yao-ci confessou ter recebido alguns brotos de bambu “e dois faisões mortos” da sra. Lin no ano-novo e ter-lhe retribuído com algumas tangerinas. A advertência que recebeu de Mao diz muito sobre o mundo desolado que cercava o Chefão:
1. Não cultive ligações;
2. Não visite pessoas;
3. Não dê jantares ou presentes;
4. Não convide pessoas para óperas [isto é, os espetáculos-modelos de madame Mao] ou filmes; 5. Não tire fotografias com pessoas.
Uma tarefa muito mais monumental foi o escrutínio das Forças Armadas, que estavam cheias de homens de Lin, especialmente no alto-comando. Mao não tinha como saber quem estava envolvido no plano de assassiná-lo, ou com quem estava a lealdade de cada um deles. Um incidente pequeno, mas alarmante, aconteceu dias depois, quando oficiais graduados da Aeronáutica foram reunidos para receber informações sobre a família Lin. Um dos homens correu para o topo do edifício, gritou slogans contra Mao e se jogou para a morte.
O único marechal em quem Mao podia confiar para assumir o comando do Exército era Yeh Jian-ying. Ele fora um seguidor fiel no passado, mas se manifestara contra a Revolução Cultural e, em consequência, caíra em semidesgraça e, durante algum tempo, viveu praticamente sob prisão domiciliar. Na época em que Mao o trouxe de volta aos altos cargos, vários de seus filhos e outros parentes próximos ainda mofavam na prisão.
Mas Mao não tinha ninguém mais. Foi forçado a reintegrar também funcionários expurgados do partido, porque eram a única alternativa às pessoas que pertenciam à rede de Lin. Esses dirigentes estavam, em sua maioria, em campos de trabalho forçado. Muitos foram então reabilitados e reempregados. Mao detestou ter de fazer isso e tentou limitar a escala da reabilitação. Sabia que essas pessoas tinham-lhe muito rancor depois dos sofrimentos a que haviam sido submetidas. Um ex-subchefe da guarda pretoriana falou por muitas pessoas quando nos contou como se sentiu na época: “Que presidente Mao, que partido? Deixei de me importar com eles”.
Nessa conjuntura, o marechal Chen Yi, um dos mais francos oponentes do Grande Expurgo, que sofrera muito com ele, morreu de câncer, em 6 de janeiro de 1972. O culto em sua memória foi marcado para o dia 10 e deveria ser discreto, com limitações no tamanho de seu retrato, no número de coroas, na quantidade de pessoas que poderiam comparecer — e no número de estufas permitidas para aquecer uma grande sala: apenas duas. Mao não pretendia comparecer.
Mas, nos dias posteriores à morte de Chen Yi, embora a notícia não fosse divulgada, ela se espalhou e um grande número de quadros partidários antigos se reuniu do lado de fora do hospital, exigindo permissão para se despedir de seu corpo. O clima da multidão era de raiva, além de pesar. E não havia dúvida de que a raiva se dirigia contra a Revolução Cultural — e contra o próprio Mao. Ele sentiu uma tremenda pressão para fazer um gesto que aplacasse a velha base de poder que tratara de forma tão abominável e na qual tinha de confiar novamente.
No dia do culto, pouco antes de seu início, Mao declarou subitamente que compareceria. Seu staff observou que “sua face estava coberta de nuvens negras” e ele parecia “irritado e frustrado”, permanecendo em total silêncio. Mas foi capaz de perceber que seria prudente ir e usar a ocasião para passar aos quadros antigos a mensagem de que “ele se preocupa conosco”. Aproveitou também para arranjar um bode expiatório, dizendo à família de Chen Yi que fora Lin Biao quem havia “tramado [...] para se livrar de todos nós, veteranos”. Difundiu-se a notícia de que as perseguições da Revolução Cultural tinham acontecido por culpa de Lin Biao e que Mao estava caindo em si. Mais tarde, publicou-se uma foto de Mao no culto, com aparência adequadamente triste (embora com a barba por fazer retocada), com a viúva de Chen Yi agarrada ao seu braço, e isso fez muito para diminuir o rancor dos “defensores do capitalismo”.
O dia do funeral de Chen Yi foi extremamente frio, mas Mao estava de tanto mau humor que se recusou a vestir um sobretudo quente. Seus auxiliares tentaram fazer com que se vestisse de maneira apropriada, mas ele afastou as roupas. Acabou vestindo apenas um casaco fino sobre o pijama e foi tudo o que usou durante toda a cerimônia no salão mal aquecido. Em consequência, caiu doente. Estava com 78 anos e ficou cada vez pior. Em 12 de fevereiro, desmaiou e esteve à beira da morte.
A vulnerabilidade física e política o forçou a permitir a aceleração da reabilitação de quadros e o regime tornou-se marcantemente mais moderado pela primeira vez desde o início da Revolução Cultural, quase seis anos antes. As práticas abusivas na prisão diminuíram muito. As assembleias de denúncia foram suspensas, até mesmo para os
homens de Lin Biao que, embora detidos, c sofreram fisicamente pouco, em comparação com a rotina anterior de Mao. Por incrível que pareça, tendo em vista que as acusações envolviam uma tentativa de assassinato de ninguém menos que Mao, ninguém foi executado.
Após anos de vida cercada por brutalidade diária e com quase nada de construtivo para ver ou fazer em termos de entretenimento, a tensão na sociedade havia chegado a um grau quase insuportável. Um psicanalista italiano que esteve na China pouco antes dessa época nos disse que jamais vira algo semelhante à quantidade de tiques faciais e tensão extrema no rosto das pessoas. Uns poucos livros e canções antigos e algumas atividades de lazer foram liberados. Alguns parques reabriram. Embora a descontração tenha ficado dentro de limites muito estreitos, ainda havia uma leveza no ar quando chegou a primavera de 1972.
a Uma carta de Chou a Mao na noite de 13 de setembro mostra inequivocamente que o avião não foi derrubado pelos chineses.
b Os russos mandaram seu principal investigador, o general da KGB Aleksandr Zagvózdin, à Mongólia para certificar-se de que se tratava realmente de Lin. O general desenterrou os cadáveres. Mas ele nos contou que seu relatório não satisfez seus chefes e ele foi mandado de volta para exumar os corpos do terreno agora congelado. Os cadáveres de Lin e sua esposa foram fervidos num grande caldeirão e os esqueletos foram levados para Moscou, onde o de Lin foi comparado com antigos registros médicos e raios X de suas visitas anteriores; os meticulosos Iúri Andrópov e Leonid Bréjnev ficaram finalmente convencidos de que se tratava realmente de Lin Biao.
c Entre os detidos estava Dodo, a filha de Lin Biao.