Mao: a história desconhecida
50. O novo aparelhamento do presidente
(1967-70; 73-76 anos)
No início de 1967, Mao já cortara milhões de funcionários do partido e os substituíra principalmente por homens do Exército. Mas ele logo se viu diante de problemas com os substitutos. A maioria carecia de suficiente brutalidade e, com frequência, protegia e até readmitia quadros expurgados, proeza que conseguiam citando a observação hipócrita de Mao de que “está tudo bem com a maior parte dos antigos quadros”. Isso já era ruim, mas havia uma causa adicional de preocupação para Mao. Ele teve de confiar em oficiais do Exército para a escolha de Rebeldes que ocupariam os cargos. O problema era que em cada região e instituição havia grupos rivais diferentes, todos se dizendo Rebeldes, e os militares tendiam a incorporar os mais moderados, embora Mao lhes dissesse para promover a “Esquerda”, isto é, aqueles mais violentos na perseguição dos “defensores do capitalismo”.
Se prevalecesse a vontade do pessoal do Exército, sua vingança ficaria incompleta. E, o mais importante, se esses novos executores de ordens do Exército se revelassem semelhantes aos funcionários anteriores, Mao estaria de volta ao ponto inicial. Ele pretendia que o Grande Expurgo instalasse nos cargos de direção gente muito mais implacável.
Um lugar que lhe estava dando dor de cabeça era a cidade de Wuhan, seu local preferido para as nadadas simbólicas no Yangtze. O comandante da cidade, Chen Zai-dao, entrara para o Exército Vermelho em 1927, quando era um camponês miserável de dezoito anos, e fizera carreira na hierarquia militar. O general Chen tinha profunda aversão à Revolução Cultural e até demonstrara simpatia pelo principal alvo de Mao, o presidente Liu Shao-chi. Na província sob seu controle, ele reintegrou uma grande número de funcionários antigos, dispersou os grupos Rebeldes mais militantes e prendeu seus líderes. Em maio de 1967, quando os moderados se uniram numa organização provincial chamada o “Milhão de Soldados Incomparáveis”, que alardeava ter 1,2 milhão de membros, ele os apoiou.
Em meados de julho, Mao foi a Wuhan em pessoa para mandar Chen mudar de posição. Supondo que o general ia simplesmente se submeter, planejou usar Wuhan como exemplo para as unidades do Exército do resto do país.
Mas Mao teve um grande choque. Quando disse ao general Chen que os Incomparáveis eram uma organização “conservadora” e que os militares haviam cometido grave erro ao apoiá-la, Chen respondeu na cara dele: “Não admitimos isso”.
Em seguida, aconteceu algo igualmente inédito: membros da base dos Incomparáveis, junto com simpatizantes de dentro do Exército, reagiram ao veredicto de Mao com rebeldia. Na noite de 19 para 20 de julho, quando recebeu a mensagem de autoridades militares e civis que Mao trouxera de Pequim, uma multidão ultrajada tomou as ruas, com centenas de caminhões carregando quase mil soldados com metralhadoras, bem como dezenas de milhares de trabalhadores armados com barras de ferro. Os manifestantes protestaram pelos alto-falantes diante do recinto da vila de Mao. Muitos sabiam que aquela propriedade supermisteriosa e de alta segurança junto ao lago era de Mao e, vendo as luzes acesas, deduziram que ele estava lá. Embora ninguém tenha ousado atacá-lo abertamente, cartazes gigantescos nas ruas exibiam slogans que atacavam o Pequeno Grupo e sua líder madame Mao, atingindo indiretamente o próprio Mao: “Jiang Qing, fique longe do poder!”, “Presidente Mao está sendo enganado!”. O general Chen recebeu cartas extraordinárias; uma delas chegava a pedir-lhe para “usar seu poder [...] para varrer da face da Terra aqueles piores ditadores do mundo que não querem história nem cultura”.
O mais assustador para Mao foi que centenas de manifestantes e soldados armados invadiram o recinto da vila e chegaram a pouca distância dele, levando consigo um membro importante de seu séquito, o participante do Pequeno Grupo Wang Li, que levou uma surra terrível.
Em dezoito anos de medidas de proteção compulsivas e abrangentes, Mao jamais se vira diante de uma ameaça tão concreta, tanto para sua segurança pessoal como ao seu sentimento de poder total.
Chou En-lai, que chegara em Wuhan antes de Mao para providenciar sua segurança, acabara de retornar a Pequim, mas teve de voltar imediatamente, com duzentos guardas pretorianos armados até os dentes. Ele retomou seu velho estilo da clandestinidade, mas dessa vez agindo em nome do Estado do qual era primeiro-ministro: esperou até a noite para ir à casa de Mao, trocando de roupa e usando óculos escuros. Às duas da manhã do dia 21 de julho, Mao foi levado embora pela porta dos fundos da vila. Três formas de transporte estavam de prontidão — seu trem especial, seu avião e navios de guerra. Ele preferiu partir de trem, porém, após embarcar, mudou para um avião, mas não o seu. O piloto só soube para onde ia — Xangai — depois de decolar.
Foi o último voo de Mao — e que voo! Soldados invadindo sua propriedade era uma coisa inconcebível, bem como uma manifestação abertamente hostil a suas ordens — e, o que era pior, envolvendo tropas armadas.
O regime agiu de pronto para mostrar que não toleraria Wuhan. Chou libertou Wang Li e o abraçou ostensivamente, encostando o rosto barbudo do membro do Pequeno Grupo no seu. Wang Li voltou a Pequim, onde foi recebido por uma manifestação encenada do tipo que o país jamais vira. Uma multidão de dezenas de milhares recebeu-o no aeroporto da capital, encabeçada por Chou, com lágrimas nos olhos. Depois, houve um comício de 1 milhão de pessoas na praça Tiananmen, presidido por Lin Biao.
O general Chen foi expurgado e substituído por um homem de lealdade inquestionável a Lin Biao. As unidades do Exército envolvidas na rebeldia foram dispersadas e enviadas para campos de trabalho forçado. Os Incomparáveis desintegraram-se e aqueles que tentaram continuar foram espancados até desmaiar. Nos meses seguintes, cerca de 184 mil cidadãos comuns e quadros do partido foram feridos, aleijados ou mortos na província. O general Chen e seus adjuntos foram enviados para Pequim, onde aconteceu algo extraordinário, provavelmente inédito no mundo. Os generais de Wuhan foram espancados — e não num calabouço sórdido, mas numa reunião do Politburo presidida por Chou En-lai. Os agressores eram oficiais antigos, liderados pelo comandante em chefe da Aeronáutica Wu Fa-xian. A cena na sala do Politburo foi semelhante à de uma assembleia de denúncia nas ruas: as vítimas tiveram de ficar inclinadas, com os braços virados para trás na posição de “jato”, enquanto eram socadas e chutadas. O general Chen foi derrubado e pisoteado. Até no gangsterismo do mundo de Mao, a violência física no Politburo não tinha precedentes.
O levante de Wuhan levou Mao a concluir que mais de 75% dos oficiais do Exército não eram confiáveis. Fez uma tentativa de iniciar um imenso expurgo nas forças militares e começou a denunciar “os defensores do capitalismo dentro do Exército”, mas teve de recuar quase de imediato. Depois de sacar a maioria dos funcionários civis, não podia se dar ao luxo de criar mais inimigos naquilo que era agora sua única base de poder.
Mao teve de aplacar os militares e jogou-lhes alguns engodos, fingindo não ser o responsável pela tentativa de expurgos. Um desses engodos foi Wang Li, o membro do Pequeno Grupo do episódio de Wuhan. Mao fez dele um bode expiatório. Em 30 de agosto, Wang Li foi preso. Mal se passara um mês de sua recepção na praça Tiananmen, quando fora saudado por 1 milhão de pessoas como o herói de Wuhan, na única ocasião em que os líderes apareceram ali sem Mao. Na verdade, sua fama foi sua ruína. A visão dele em Tiananmen, território reservado de Mao, aborreceu o Grande Timoneiro, que disse que Wang Li “ficou grande demais para suas botas e deve ser reduzido ao seu verdadeiro tamanho”.
Expurgar Wang Li, no entanto, não resolvia seus problemas. Ele ainda precisava encontrar uma maneira de garantir que os novos executores de ordens do Exército seriam homens que as cumpririam incondicionalmente. Para selecionar esses homens, dependia de Lin Biao, que teve de fuçar no segundo escalão para encontrá-los. Mao viu então que não tinha alternativa senão permitir que Lin transformasse a liderança do Exército num feudo pessoal, dirigido por seus asseclas e trabalhando com base no que equivalia à lealdade de gangue. Em 17 de agosto de 1967, Mao autorizou Lin a criar um novo organismo chamado “Gabinete Administrativo” para dirigir o exército, composto pela esposa de Liu e de alguns generais que deviam suas carreiras e, às vezes, suas vidas a Lin.
Um representante típico desses generais era Qiu Hui-zuo, o chefe do setor de logística. No início da Revolução Cultural, ele foi denunciado e espancado. Teve uma costela quebrada e ruptura grave dos ligamentos e músculos do ombro. Desmaiou no palco e foi acordado com água fria para sofrer mais espancamento. No momento em que achou que ia morrer, chegou uma ordem de Lin Biao para soltá-lo. Ele escreveu depois ao casal Lin: “0h40 do dia 25 de janeiro de 1967 foi o momento da minha segunda vida, o momento que eu, minha esposa e meus filhos jamais esqueceremos”.
Qiu promoveu uma panelinha pessoal e entregou-se à vingança contra aqueles que o haviam feito sofrer. Somente em seu antigo departamento, 462 subordinados foram presos e torturados; seus menores tormentos incluíam ser forçado a comer pão embebido em excrementos e ser chutado nos genitais. Oito morreram.
Qiu era um exemplo das pessoas que se tornaram totalmente cínicas, por motivos que remontavam a uma época muito anterior à Revolução Cultural e estavam relacionadas com a natureza inescrupulosa do partido desde seus primeiros dias. Na véspera da Longa Marcha, ele e vários outros jovens do Exército Vermelho, inclusive um menino de onze anos, receberam ordens para esconder alguns documentos partidários, que selaram e afundaram em um rio, amarrados a pedras. Quando subiam de volta a margem do rio, viram-se diante do cano das armas de seus camaradas, que haviam sido enviados para eliminá-los, para que não restasse pista. Qiu só sobreviveu graças a uma intervenção do acaso.
Lin permitiu que Qiu e seus outros asseclas levassem a cabo suas vinganças e montassem suas gangues próprias, desde que lhe obedecessem. Mao fez o mesmo com Lin. Durante algum tempo, Mao tentou manter seus homens no Exército e designou um de seus acólitos, o general Yang Cheng-wu, para chefe interino do estado-maior. Mas Lin não queria Yang nas suas costas e acabou conseguindo que Mao o trancafiasse na prisão, em março de 1968. Mao chegou até a suspender o Conselho Militar, a velha autoridade suprema que ele mesmo presidia. Só manteve um veto vital: para deslocar qualquer força acima de batalhão era preciso sua autorização direta.
Lin colocou um acólito chamado Huang Yong-sheng na chefia do estado-maior. Era tão jovem que Mao nem sabia que cara tinha. Conhecido conquistador, logo se tornou amante de Ye Qun, a mulher de Lin. Ela tinha um apetite sexual voraz que encontrava pouca satisfação com o visivelmente impotente marechal, a quem descreveu como “um cadáver congelado”. A relação entre ela e o amante fica clara numa conversa telefônica de três horas que foi grampeada.
Ye Qun [YQ] Estou muito preocupada que você possa ter problemas por buscar satisfação física. Posso lhe
dizer, essa minha vida está ligada a você, vida política e vida pessoal [...] Você não sabe como 101 [codinome
de Lin Biao] é em casa? Vivo com seus maus-tratos [...] Posso perceber que você valoriza os sentimentos [...]
O país é grande. Cada um de nossos filhos pode assumir uma posição-chave! Não tenho razão?
Huang Sim, você está absolutamente certa.
YQ [...] Nossos filhos juntos, deve haver cinco deles. Eles serão como cinco generais e irão em frente. Cada
um assumirá uma posição-chave e eles podem ser todos seus assistentes.
Huang Ah? Sou tão grato a você!
YQ Tomei aquela medida [sugerindo contraceptivos]. Para evitar de ter e ter de se livrar [sugerindo bebê].
Espero que você venha e me visite logo [som de soluço].
Huang Eu irei! Eu irei! Não fique assim. Isso me deixa muito triste. YQ Outra coisa: você não deve se restringir a mim. Você pode se divertir. Não tenho mentalidade estreita.
Pode ter outras mulheres, e ser quente com elas. Não se preocupe comigo [...]
Huang [...] Sou fiel somente a você.
YQ Se você gosta de outras mulheres, tudo bem. Mas não esqueça de uma coisa. Elas devem ter a boca
absolutamente fechada. Se falarem, e se eu for implicada, haverá uma tragédia [...]
Huang [mudo]
YQ Acho que, se a gente cuidar bem da coisa, será bom para você, bom para mim [...] Você acredita nisso? Huang Claro! Claro! Claro!
Com essa mistura de sentimento pessoal genuíno e cálculo político descarado, o destino do novo chefe do estado-maior estava amarrado ao do casal Lin.
Lin transformou a Aeronáutica na sua principal base. Seu lacaio nessa força fez de “Tigre”, o filho de 24 anos de Lin, subchefe de seu departamento de guerra e disse aos subordinados que deveriam “relatar tudo a [Tigre] e receber ordens de [Tigre]”. Dodo, a filha de Lin, ocupou o cargo de subeditora do jornal da Aeronáutica.
No verão de 1967, insatisfeito com o Exército, Mao pensou em criar uma espécie de “tropa de assalto”, composta por aqueles Rebeldes que chamava de “a Esquerda”. Depois do episódio de Wuhan, Mao incitou a Esquerda a atacar outros grupos que chamava de “os Conservadores”. Quando fugiu para Xangai, fez a Esquerda de lá atacar o grupo rival. O resultado foi a maior batalha entre facções de Xangai durante a Revolução Cultural, que ocorreu duas semanas depois da chegada de Mao. Naquele 4 de agosto, mais de 100 mil militantes da Esquerda, armados com lanças e barras de ferro, cercaram cerca de 25 mil rivais numa fábrica junto ao mar, com a saída fechada pela Marinha — uma medida militar inconcebível sem uma ordem de Mao. No final do dia, mais de novecentas pessoas estavam feridas, muitas delas aleijadas e outras agonizantes. Dois helicópteros filmaram a cena — outra coisa impossível sem ordens de Mao — e uma equipe de filmagem se instalara num ponto ideal dois dias antes. Um documentário de duas horas e meia do evento foi mostrado a multidões organizadas. Mao assistiu-o em sua vila. O homem que liderou o ataque, Wang Hong-wen, foi depois promovido ao terceiro posto na ordem do comando nacional. “Vi seu filme”, disse-lhe Mao, congratulando-o por “conquistar uma vitória”.
No dia da batalha, Mao deu ordens para formar suas “tropas de assalto”. “Armar a Esquerda”, escreveu para sua esposa, líder do Pequeno Grupo. “Por que não podemos armar a Esquerda? Eles [os Conservadores] batem em nós, podemos bater neles também.”
Mas essa ordem para distribuir armas aos civis causou enorme confusão. Enquanto em alguns lugares, como Wuhan, a distinção entre moderados e Esquerda estava bastante clara, em muitos outros até o mais devoto dos seguidores de Mao era incapaz de dizer qual grupo era mais militante, pois todos os grupos competiam para parecer o mais agressivo. Uma situação típica acontecia na província de Anhui, onde os dois blocos opostos rejubilavam-se com os nomes políticos de “Maravilhoso” e “Peido”. Como os primeiros chegaram antes aos gabinetes do antigo governo, declararam que haviam tomado o poder dos defensores do capitalismo e proclamaram: “Nossa tomada do poder é maravilhosa”. Os outros zombaram: “Maravilhosa? Que monte de peidos!”.
Na verdade, nenhum era mais militante do que o outro; ambos competiam para se incorporar na nova estrutura do poder. Sem qualquer critério mais exato do que a mal definida “militância” contra os defensores do capitalismo, as unidades do Exército entregavam armas para a facção que decidissem ser a Esquerda. Outras facções atacavam então os arsenais para obter armas, muitas vezes com a cumplicidade de seus simpatizantes dentro do Exército. Em consequência, as armas tornaram-se amplamente disponíveis. As lutas entre facções transformaram-se em pequenas guerras civis em todo o país, envolvendo quase todas as áreas urbanas. O regime começou a escorregar para algo próximo da anarquia pela primeira vez desde que os comunistas haviam tomado o poder, duas décadas antes.
Mao logo percebeu que sua ideia de “tropas de assalto” não funcionaria em todos os lugares. Assim, enquanto continuou a montar uma força dessas, com 1 milhão de membros, em Xangai, onde tinha controle rígido, em outros lugares teve de revogar seu decreto para “armar a Esquerda” e, em 5 de setembro, ordenou que todas as armas fossem devolvidas. Porém, houve muita relutância em cumprir essa ordem. Mais de um ano depois, Mao disse ao ministro da Defesa da Albânia que 360 mil armas haviam sido coletadas somente em Sichuan (uma província de 70 milhões de habitantes) e muitas mais ainda não haviam sido devolvidas. Com armas em mãos não oficiais, apareceram “bandidos” em regiões remotas.
Mao havia desencadeado uma dinâmica que estava solapando seu poder. Teve de abandonar a tentativa de identificar facções esquerdistas ou conservadoras e deu ordens para que todos os grupos se unissem. Mas elas foram ignoradas. Com a alegação de que estavam esmagando “conservadores”, os jovens, principalmente, continuaram a lutar, pois se divertiam mais assim do que em trabalhos entediantes.
As pessoas deixaram de ir trabalhar. A economia foi gravemente afetada. As indústrias bélicas e até o programa nuclear foram perturbados pela primeira vez desde o início da Revolução Cultural. Um elemento de anarquia atacou até mesmo a guarda pretoriana. Um de seus membros deu o cronograma de viagem de Mao a um estudante que se imaginava um detetive e que pôde segui-lo às escondidas. Embora ambos tenham sido presos, um tal lapso na segurança jamais acontecera.
Um ano depois, os choques entre facções com armas de fogo davam poucos sinais de redução, apesar da enxurrada de comandos de Pequim. Um homem que claramente lhes desobedecia era Kuai Da-fu, o estudante da Universidade Qinghua que Mao usara para atormentar Liu Shao-chi e sua esposa. Kuai tornara-se o mais famoso “esquerdista” do país e estava decidido a dobrar seus oponentes na universidade. Ele ignorou repetidas ordens de parar, pois alegava que seus rivais eram “conservadores” e, portanto, alvos legítimos de espancamentos, de acordo com a diretiva inicial de Mao. O Grande Timoneiro teve de intervir pessoalmente para enquadrá-lo e, ao mesmo tempo, fazer dele um exemplo, a fim de mandar uma advertência a todo o país de que as guerras entre facções tinham de acabar.
Em 27 de julho de 1968, 40 mil trabalhadores desarmados foram enviados para a universidade de Kuai com a missão de desarmar seu grupo. Sem saber que a ordem partia de Mao, Kuai resistiu e seu grupo matou cinco operários e feriu mais de setecentos. No dia seguinte, Kuai foi convocado ao Grande Salão do Povo. Ali, ficou atônito ao ver Mao, tendo ao lado todos os altos líderes. Kuai jogou-se nos braços dele — provavelmente a única vez que alguém de fora fez isso — e caiu em choro incontido. Parece que Mao também chorou, provavelmente de frustração diante de sua incapacidade de harmonizar seus impulsos com suas necessidades práticas. O lado impulsivo queria que os muitos “conservadores” que conhecia fossem espancados até virar suco, mas o lado prático reconhecia que, em nome de seu interesse, tinha de restaurar a ordem. Disse a Kuai e aos outros líderes Rebeldes presentes que a ordem para desarmar a facção de Kuai partira dele e que se eles, ou quem quer que fosse, continuassem a briga, o Exército iria “eliminá-los”. Kuai e seus colegas assinaram uma cópia dessa mensagem, que foi divulgada para o público.
Kuai foi mandado para uma fábrica na distante província de Ningxia. Todas as organizações universitárias foram desmanteladas, e os estudantes, postos a trabalhar em empregos comuns, muitos dispersos pelo interior. Essa diáspora foi seguida por outra de mais de 10 milhões de alunos da escola média, que foram distribuídos por aldeias e fazendas estatais de toda a China. Nos anos seguintes, mais de 16 milhões de jovens urbanos foram mandados para o campo — o que era também uma maneira de tratar do desemprego. Isso acabou com a era dos estudantes Guardas Vermelhos.
Mas, entre os grupos de Rebeldes que não eram estudantes, pequenas guerras civis esporádicas ainda aconteciam em muitos lugares. Para acabar com elas, uma conspiração fantasma chamada “os Corpos de 16 de Maio” foi inventada para condenar todos os que desobedecessem às ordens. Kuai, que era nacionalmente famoso, foi transformado em seu “chefe” e detido. No total, um número estarrecedor de 10 milhões de Rebeldes foi colocado sob essa rubrica, dos quais 3,5 milhões foram presos.
O terror de Estado não somente aumentou enormemente o nível da violência, como foi muito mais horrendo do que a luta entre facções. A ilustração mais clara disso aconteceu na província meridional de Guangxi, no verão de 1968. Ali, uma facção recusou-se a reconhecer a autoridade do homem de Mao, o general Wei Guo-qing (que ajudara a comandar a batalha decisiva contra os franceses em Dien Bien Phu, no Vietnã, em 1954). Wei estava decidido a usar qualquer grau de força para esmagar seus oponentes.
Isso envolvia não apenas o uso de metralhadoras, morteiros e artilharia, mas também a incitação de assassinatos medonhos de grande número de pessoas apontadas pelo regime como “inimigos de classe”. Como disse o oficial que chefiava o condado de Binyang aos seus subordinados: “Vou agora revelar o limite mínimo para vocês: nessa campanha, devemos matar cerca de um terço ou um quarto dos inimigos de classe, com cacetes ou apedrejamento”. A morte por execução direta não era considerada suficientemente assustadora: “Está bem executar alguns para começar, mas devemos orientar as pessoas a usar punhos, pedras e paus. Somente dessa maneira podemos educar as massas”. Depois que a ordem foi dada, no período de onze dias entre 26 de julho e 6 de agosto de 1968, 3681 pessoas desse condado foram espancadas até a morte, muitas delas de forma horripilante; em comparação, o número de mortes nos dois anos anteriores da Revolução Cultural fora de “apenas” 68. Essa rodada de matanças custou cerca de 100 mil vidas na província.
As autoridades encenaram “demonstrações-modelo de assassinar” para mostrar às pessoas como aplicar o máximo de crueldade e, em alguns casos, a polícia supervisionava a matança. Na atmosfera geral de fomento da crueldade, surgiram ataques de canibalismo em muitas regiões da província; o mais conhecido ocorreu no condado de Wuxuan, onde uma investigação oficial após a morte de Mao (em 1983, logo interrompida e com seus resultados suprimidos) revelou uma lista de 76 nomes de vítimas. A prática do canibalismo começava em geral com os “comícios de denúncia” típicos do maoísmo. Logo depois as vítimas eram mortas e escolhiam-se as partes de seus corpos — coração, fígado e, às vezes, pênis — a serem arrancadas, muitas vezes antes de a vítima estar morta. Essas partes eram cozidas ali mesmo, e comidas naquilo que, na época, chamou-se de “banquetes de carne humana”.
Guangxi é a região que talvez tenha a paisagem mais pitoresca da China: lindas colinas que sobem e descem, cujos picos, refletidos em águas cristalinas, parecem tão reais como os próprios. Foi nesse cenário de duplas silhuetas celestiais e dos rios mais puros que se realizaram os “banquetes de carne humana”.
Um camponês de 86 anos, que, em plena luz do dia, havia aberto o peito de um menino cujo único crime fora ser filho de um ex-dono de terras, nos mostrou como as pessoas não tinham problemas para encontrar justificativas para suas ações nas palavras de Mao. “Sim, eu o matei”, contou ele depois a um repórter investigativo. “A pessoa que matei é um inimigo [...] Ha, ha! Eu faço revolução e meu coração é vermelho! O presidente Mao não disse: ou os matamos, ou eles nos matam? Você morre e eu vivo, isso é luta de classes!”
As mortes patrocinadas pelo Estado atingiram seu extremo em todas as províncias em 1968. Esse ano foi dominado por uma campanha gigantesca chamada “Separar as Classes”. O objetivo dessa campanha era fazer um inventário de todos os “inimigos de classe” da população inteira e impor-lhes punições variadas, inclusive a execução. Assim, todas as vítimas de antes e durante a Revolução Cultural foram arrastadas e perseguidas de novo. Além disso, o regime decidiu descobrir novos inimigos examinando a história e a conduta de cada adulto da nação e investigando cada suspeita não resolvida. A quantidade de classificações para os párias oficiais chegou a 23 e o número de pessoas perseguidas alcançou muitas dezenas de milhões — mais do que no passado.
Uma testemunha ocular descreveu como o novo chefe da província de Anhui, um general do Exército, tomava decisões sobre execuções. Folheando languidamente uma lista de “contrarrevolucionários” que lhe fora apresentada pela polícia, ele fazia pausas de vez em quando e elevava sua voz numa inflexão oficial típica (arrastando o final de uma frase num tom nasal apertado, como se estivesse entediado): “Vocês ainda estão com este? Podem matá-lo. E esta aqui? Hum — acabem com ela”. Depois perguntou quantas pessoas as províncias vizinhas planejavam executar: “Como está a matança em Jiangsu este mês? E quantos em Zhejiang?”. Ao ser informado, disse: “Vamos tirar a média entre as duas”. As pessoas foram executadas segundo esse critério.
Uma das províncias mais devastadas foi a Mongólia Interior, onde Mao alimentava suspeitas sobre um complô para separá-la e uni-la à Mongólia Exterior e à União Soviética. O general Teng Hai-qing, novo chefe da província, investigou com vigor essa suspeita de Mao, usando a tortura em larga escala. Entre os casos revelados após a morte de Mao, encontrava-se o de uma mulher muçulmana que teve os dentes arrancados com alicate, depois torceram-lhe o nariz e as orelhas, antes de ser retalhada até a morte. Outra mulher foi estuprada com uma vara (depois suicidou-se). Um homem teve pregos enfiados no crânio. De outro, cortaram a língua e arrancaram os olhos. Outro ainda foi espancado com paus nos órgãos genitais e depois lhe enfiaram pólvora nas narinas e tocaram fogo. Os dados oficiais pós-Mao revelaram que mais de 346 mil pessoas foram condenadas e 16 222 morreram em consequência dessa perseguição. O número de pessoas da província que “sofreram” de alguma forma foi depois oficialmente elevado para mais de 1 milhão — dos quais 75% eram mongóis.
Outra província que sofreu grande trauma foi Yunnan, no sudoeste, onde (de acordo com dados oficiais), somente em um caso fabricado, quase 1,4 milhão de pessoas foram perseguidas pelo novo chefe provincial, o general Tan Fu-ren. Dezessete mil delas foram executadas ou linchadas, ou levadas ao suicídio. Num raro exemplo dramático de como aqueles que governam com a espada podem ser derrubados pela espada, o general Tan foi assassinado a tiros em dezembro de 1970, o que fez dele o oficial de mais alto escalão a morrer dessa forma na China de Mao, onde homicídios desse tipo eram extremamente raros. O assassino foi um oficial do staff do QG chamado Wang Zi-zheng, que, na verdade, não tinha ressentimento pessoal contra o general Tan: era o regime de Mao que ele odiava. Em 1947, ele se envolvera com uma força anticomunista que havia matado um chefe de milícia comunista. Na época, conseguira escapar. Mais de duas décadas depois, sua aldeia natal havia começado a procurá-lo. Embora estivesse a quase 2 mil quilômetros de distância e houvesse mudado seu nome, foi encontrado e detido em abril de 1970. Sabendo qual seria seu provável destino, decidiu que tentaria matar o general Tan, que não somente era a pessoa mais importante na região, como estava fazendo coisas terríveis a Yunnan. Uma noite, escapou da detenção, foi em casa para se despedir da esposa e do filho, roubou duas pistolas e vinte balas do QG, onde estavam trancadas num cofre (como sempre), escalou a casa do general Tan e o matou a tiros. Quando seus perseguidores chegaram, esse raro vingador atirou e feriu dois deles antes de virar a arma contra si mesmo.
No início de 1969, o novo aparato de poder de Mao estava montado. Em abril, reuniu o IX Congresso do PCC para formalizar seu regime reconstruído. O congresso anterior se realizara em 1956. Embora o estatuto do partido estipulasse que deveria haver um a cada cinco anos, Mao segurou a realização deste por treze anos, até sentir que toda a oposição fora completamente expurgada.
Os novos delegados foram selecionados exclusivamente por sua lealdade a Mao e a medida de fidelidade era o quão cruéis e duros haviam sido com os inimigos dele. Dentro do salão do congresso, onde não havia inimigos, tentaram demonstrar sua lealdade saltando sem parar e gritando slogans como “Viva o presidente Mao!”, enquanto este falava. Ele precisou de vinte minutos para ler duas páginas de seu discurso de abertura. Essa farsa era algo que ele não queria de seu alto escalão, que deveria ser uma máquina prática. Aparentemente ficou irritado e encurtou seu discurso. Depois da sessão, mandou a secretaria do congresso baixar regras que proibiam a repetição não prevista de slogans.
O núcleo central da liderança era composto agora por Lin Biao, Chou En-lai e dois chefes do Pequeno Grupo: Chen Bo-da e Kang Sheng. Esse órgão, criado para cuidar da Revolução Cultural, deixou de existir. Madame Mao foi promovida ao Politburo. O mesmo aconteceu com a esposa de Lin Biao e com os muitos asseclas dele, como o chefe do estado-maior (e amante da sra. Lin) Huang Yong-sheng. No Comitê Central, 81% dos membros eram novos e quase a metade deles vinha do Exército, inclusive os generais que haviam comandado as atrocidades em Guangxi, Yunnan e na Mongólia Interior. Lin Biao ganhou o prêmio máximo de ser designado oficialmente segundo em comando e sucessor de Mao na direção do partido, uma insígnia de poder e glória sem precedentes.
Mao havia completado seu Grande Expurgo, embora isso não tenha significado o fim da matança. Nos dez anos que decorreram entre o início do expurgo e a morte de Mao em 1976, pelo menos 3 milhões de pessoas sofreram mortes violentas, e os líderes pós-Mao reconheceram que 100 milhões de pessoas, um nono de toda a população, sofreram de uma forma ou outra. As mortes foram patrocinadas pelo Estado. Somente uma pequena porcentagem aconteceu nas mãos dos Guardas Vermelhos. A maioria foi obra direta do regime reconstruído de Mao.