Mao: a história desconhecida
54. Nixon: o caçador de comunistas caçado
54. Nixon: o caçador de
comunistas caçado
(1970-73; 76-79 anos)
Quando fundou seu regime, em 1949, Mao tornou deliberadamente impossível seu reconhecimento pelos Estados Unidos, sobretudo para tranquilizar Stálin, na esperança de que o líder soviético ajudasse a montar a máquina militar chinesa. Após a morte de Stálin, em 1953, começou a buscar relações com os americanos, com o propósito de ganhar acesso à tecnologia ocidental para seu Programa de Superpotência. Mas as lembranças da luta contra os chineses na Guerra da Coreia eram recentes demais e Washington desconsiderou Pequim. Embora os dois países tenham estabelecido um canal diplomático para discutir questões específicas, no geral, as relações permaneceram congeladas. Mao adotou uma postura antiamericana agressiva e, em 1960, quando estava promovendo o maoísmo, fez dessa belicosidade sua marca registrada, afastando-se do Kremlin, que acusava de ser indulgente com os Estados Unidos.
Em 1969, o novo presidente americano Richard Nixon manifestou publicamente interesse em melhorar as relações com a China. Mao não respondeu. Estabelecer uma relação com Washington prejudicaria sua identidade e imagem de líder revolucionário. Foi somente em junho de 1970, depois que seu manifesto antiamericano de 20 de maio fracassou e quando estava absolutamente claro que o maoísmo não avançava no mundo, que Mao decidiu convidar Nixon a visitar a China. O motivo não era reconciliar-se com os Estados Unidos, mas relançar-se no palco internacional.
Mao não queria ser visto cortejando o presidente americano e esforçou-se muito para tornar o convite negável. Em novembro, Chou mandou uma mensagem por meio dos romenos, que tinham boas relações tanto com a China como com os Estados Unidos, em que dizia que Nixon seria bem recebido em Pequim. O convite chegou à Casa Branca em 11 de janeiro de 1971. Como Mao temia que acontecesse, Nixon “observou que não devemos parecer muito ansiosos para responder”, de acordo com Kissinger. Quando este respondeu a Pequim, em 29 de janeiro, “não fez referência a uma visita presidencial”, considerando a ideia “prematura e potencialmente constrangedora”.
Mao não se deu por achado e logo encontrou outra maneira de seduzir Nixon a visitar a China.
Em 21 de março, uma equipe chinesa de tênis de mesa chegou ao Japão para a disputa do campeonato mundial — uma das primeiras equipes esportivas a viajar ao exterior desde o início da Revolução Cultural, cinco anos antes. A China era boa nesse esporte e Mao autorizou pessoalmente a viagem. Para não parecerem esquisitos demais, os jogadores ficaram desobrigados de acenar o Pequeno Livro Vermelho.
Eles receberam instruções precisas de como se comportar com os americanos: nada de apertos de mãos, nada de conversas. Mas, em 4 de abril, o jogador americano Glenn Cowan embarcou no ônibus dos chineses e o campeão masculino Zhuang Ze-dong decidiu falar com ele. A fotografia dos dois apertando as mãos foi parar na primeira página dos jornais japoneses. Quando Mao foi informado, seus olhos se iluminaram e ele chamou Zhuang de “um bom diplomata”. Não obstante, quando a equipe americana manifestou desejo de visitar a China, após outras equipes estrangeiras terem sido convidadas, Mao endossou uma recomendação do Ministério do Exterior de negar o pedido.
Mas ele estava claramente incomodado com essa decisão e seus auxiliares notaram que ficou com ar preocupado durante o resto do dia. Naquela noite, às onze horas, ele tomou uma grande dose de comprimidos para dormir e depois jantou com sua enfermeira e assistente Wu Xu-jun. Às vezes, convidava um ou dois membros de seu staff para jantar. Nessa época, raramente jantava com sua esposa e quase nunca com seus colegas de poder. Sua rotina era tomar comprimidos para dormir antes do jantar para cair no sono logo após a refeição, que comia na beira da cama. Os comprimidos eram tão fortes que às vezes faziam efeito enquanto ele estava mastigando e os auxiliares tinham de tirar a comida de sua boca; por isso, jamais comia peixe no jantar, por causa das espinhas. Dessa vez, relembrou Wu,
depois de terminar de comer, ele caiu sobre a mesa [...] Mas de repente, falou em voz baixa e demorei para
entender que queria que eu telefonasse para o Ministério do Exterior [...] “Convidem a equipe americana para
vir à China” [...]
Fiquei pasma. Pensei: isso é exatamente o oposto do que ele autorizou durante o dia!
Havia uma ordem estabelecida de Mao de que
suas “palavras depois de tomar comprimidos para dormir não contam”. Contariam agora? Eu estava
realmente num dilema [...] Devia fazê-lo repetir.
[...] Fingi que nada acontecera e continuei comendo [...] Depois de alguns instantes, Mao ergueu a cabeça e
tentou com dificuldade abrir os olhos e disse para mim:
“Pequena Wu [...] Por que não vai fazer o que lhe pedi para fazer?” Mao [...] só me chamava de “pequena Wu” quando estava muito sério. Perguntei deliberadamente em voz alta: “Presidente, o que disse para mim? Eu estava comendo e não
escutei com clareza. Por favor, repita”.
Então Mao repetiu, palavra por palavra, o que havia dito.
Wu tratou então de verificar com Mao a respeito da regra dos comprimidos:
“Você tomou comprimidos para dormir. Suas palavras devem ser levadas em conta?”
Mao acenou para mim: “Sim, são para valer! Faça isso rapidamente. Senão não haverá tempo”.
Mao ficou acordado até Wu voltar com a notícia de que havia feito o que ele pedira.
A mudança de ideia de Mao mudou sua sorte. O convite, o primeiro feito pela China comunista a um grupo americano, provocou sensação. O fato de se tratar de uma equipe esportiva ajudou a conquistar a imaginação mundial. Chou En-lai pôs seu charme para funcionar e seu regime totalitário orquestrou meticulosamente a cena, para produzir o que Kissinger chamou de “uma recepção deslumbrante” para a equipe de tênis de mesa. Relatos excitados e fascinados encheram a imprensa americana e ocidental dia após dia. Um comentarista escreveu que “Nixon ficou realmente espantado com o modo como a notícia saltou das páginas de esporte para a primeira página”. Com um único lance, Mao havia criado o clima no qual uma visita à China seria um ativo político para Nixon na corrida para a eleição presidencial de 1972.
“Nixon ficou excitado ao ponto da euforia”, escreveu Kissinger, e “agora queria saltar a fase dos emissários para que não tirasse o brilho de sua viagem.” No final de maio, estava resolvido, em segredo, que Nixon iria à China.
Mao conseguiu não apenas a visita de Nixon, como esconder que era esse seu objetivo. O presidente americano iria à China pensando ser o mais interessado dos dois. Assim, quando fez sua primeira e secreta visita, em julho de 1971, a fim de preparar o caminho para o presidente, Kissinger levou muitos e significativos presentes e não pediu nada em troca. A oferta mais surpreendente dizia respeito a Taiwan, à qual os Estados Unidos estavam ligados por um tratado de defesa mútua. Nixon ofereceu-se para abandonar o antigo aliado, prometendo conceder pleno reconhecimento diplomático a Pequim em janeiro de 1975, desde que se reelegesse em 1972.
No final da viagem, Chou falava como se a apropriação de Taiwan fosse uma coisa decidida. Só então Kissinger fez um gesto débil: “Esperamos muito que a questão de Taiwan seja resolvida pacificamente”. Mas não pressionou para que Chou prometesse
não usar a força. a
Como parte do pacote de reconhecimento, Nixon se ofereceu para pôr Pequim na ONU de imediato: “Vocês podem ficar com o assento da China agora”, disse Kissinger a Chou quando propôs o acordo por baixo do pano, e acrescentou que “o presidente quis que eu discutisse essa questão com vocês antes de adotarmos uma posição”.
E havia mais, inclusive uma oferta de contar aos chineses tudo sobre as negociações dos Estados Unidos com a União Soviética. Kissinger: “Especialmente, estou preparado para lhes dar qualquer informação que queiram saber sobre quaisquer negociações bilaterais que mantemos com a União Soviética relacionadas a questões como SALT [Conversações sobre Limitação de Armas Estratégicas]”. Alguns meses depois, Kissinger disse aos chineses: “Contamos a vocês sobre nossas conversas com os soviéticos; não contamos aos soviéticos sobre nossas conversas com vocês”.
Junto com isso, vieram informações secretas de alto nível. Consta que o vice-presidente Nelson Rockefeller ficou “quase mesmerizado ao saber [...] da quantidade de informações delicadas que disponibilizamos aos chineses”. Entre elas, estavam detalhes sobre o deslocamento de tropas soviéticas na fronteira com a China.
Kissinger também assumiu dois compromissos em relação à Indochina: retirar todas as forças americanas, mencionando um prazo de doze meses; e abandonar o regime sul-vietnamita, prometendo se retirar “unilateralmente”, mesmo que não houvesse negociações — e que as tropas americanas não retornariam. “Depois que se fizer a paz, estaremos a 10 mil milhas de distância e [Hanói] ainda estará lá”, disse o assessor de Nixon. E chegou mesmo a prometer que “a maioria das tropas americanas, senão todas” estaria fora da Coreia antes do final do segundo mandato de Nixon, sem nem tentar extrair uma garantia de que Mao não apoiaria outra invasão comunista da Coreia do Sul.
Mao estava ganhando muito, e numa bandeja. Kissinger disse especificamente que não pedia à China para parar de ajudar o Vietnã e nem mesmo solicitou a Mao que baixasse o tom belicoso antiamericano, no mundo em geral e durante as reuniões. As minutas mostram que Chou agiu com prepotência (“vocês deveriam responder a essa questão [...] vocês devem responder a essa questão”) e se referia constantemente à “sua opressão, sua subversão e sua intervenção”. Com efeito, ele sugeriu que Nixon deveria fazer mais e mais concessões pelo privilégio de ir à China e ter permissão para reconhecer o regime de Pequim. A bizarra alegação de Chou de que a China não era “agressiva” — “devido ao nosso sistema [comunista]”, não menos que isso — não foi contestada. E sua referência às “crueldades” americanas no Vietnã não foi contraposta às crueldades de Mao na China. Numa ocasião diferente, quando o negociador do Vietnã do Norte criticara obliquamente o governo de Nixon, Kissinger havia reagido: “Você é o representante de um dos governos mais tirânicos deste planeta”. Mas, agora, Kissinger descrevia a apresentação de Chou como “muito emocionante”.
Quando Mao ouviu o relatório do primeiro dia de conversações, seu ego foi às alturas e ele observou aos seus diplomatas que os Estados Unidos estavam “mudando de macaco para homem, ainda não completamente homem, que a cauda ainda está lá [...] mas não é mais um macaco, é um chimpanzé, e sua cauda não é muito comprida”. “Os Estados Unidos deveriam recomeçar sua vida”, proclamou, expandindo sua abordagem darwiniana, em que os Estados Unidos eram um primata em lenta evolução. “Isso é evolução!” Por sua vez, Chou comparou Nixon a uma mulher promíscua, “que se empeteca e se oferece à porta”. Foi durante a primeira visita de Kissinger que Mao chegou à conclusão de que Nixon podia ser manipulado e que Pequim poderia obter muito de Washington sem ter de modificar sua tirania, ou seu palavrório antiamericano.
Imediatamente após a visita secreta de Kissinger, foi anunciado que Nixon havia sido convidado a ir à China e aceitara. Kissinger retornou a Pequim em outubro de 1971 a fim de preparar a visita do presidente americano. Sua segunda viagem coincidiu com a votação anual da ONU sobre o assento da China, que Taiwan ocupava, e a presença pública em Pequim do mais alto assessor de Nixon para assuntos estrangeiros inverteu a maré. Em 25 de outubro, Pequim substituiu Taipé na ONU, dando a Mao um assento — e o poder de veto — no Conselho de Segurança.
Isso aconteceu pouco mais de um mês depois do voo para a morte de Lin Biao. A notícia de que houvera um complô para matá-lo deixara Mao num estado de profunda depressão. A derrota de Taiwan na ONU e a iminente visita de Nixon melhoraram bastante seu ânimo. Rindo muito e fazendo piadas, ele conversou durante quase três horas com seus altos diplomatas. Diante do voto na ONU, declarou que “Grã-Bretanha, França, Holanda, Bélgica, Canadá, Itália — todos se tornaram Guardas Vermelhos”.
Antes que os delegados da China partissem para a ONU, Mao fez questão de lembrá-los que deviam continuar tratando os Estados Unidos como inimigo público no 1 e denunciá-los violentamente “pelo nome, uma necessidade absoluta”. Ele queria fazer sua estreia no palco mundial como o campeão do antiamericanismo, usando a ONU como seu novo palanque.
Nove dias antes de 21 de fevereiro de 1972, data marcada para o início da visita de Nixon à China, Mao desmaiou e chegou muito perto da morte. A perspectiva da iminente chegada de Nixon ajudou-o a se recuperar. Fizeram-lhe roupas e sapatos novos, pois seu corpo ficara inchado. A sala de estar onde receberia Nixon fora transformada numa enfermaria improvisada, com uma cama grande e instalações médicas. Os auxiliares removeram uma parte disso e esconderam a cama e outros equipamentos médicos. A imensa sala foi decorada com livros antigos, o que impressionou os americanos, que não sabiam que muitos eram produto de pilhagem brutal em um passado não muito distante.
Na manhã em que Nixon chegou, Mao estava tremendamente excitado e perguntava sobre todos os detalhes. Assim que soube que ele havia chegado à residência de hóspedes, a Vila de Pesca Imperial, disse que queria vê-lo de imediato. Nixon preparava-se para entrar no chuveiro quando Chou, comportando-se “com leve impaciência”, observou Kissinger, pediu que se apressassem.
Durante o encontro relativamente curto de 65 minutos (o único entre Nixon e Mao nessa viagem), Mao evitou todas as tentativas de falar sobre questões sérias. Não porque estivesse doente, mas porque não queria deixar um registro de suas posições nas mãos dos americanos. Nada deveria prejudicar sua alegação de ser o líder antiamericano
global.b Havia convidado Nixon a Pequim para promover essa alegação, não para desistir dela. Assim, quando Nixon propôs discutir “questões atuais como Taiwan, Vietnã e Coreia”, Mao agiu como se estivesse acima dessas coisas comezinhas. “Essas questões não são questões para serem discutidas em minha casa”, disse, transmitindo uma impressão de elevado desprendimento. “Elas devem ser discutidas com o premiê”, acrescentando que “não quero me envolver muito com todos esses problemas aborrecidos.” Depois, interrompeu os americanos para dizer: “Como uma sugestão, posso sugerir que vocês façam um pouco menos de briefing?”. Quando Nixon persistiu em falar sobre encontrar “um terreno comum” e construir uma “estrutura mundial”, Mao o ignorou, virou-se para Chou para perguntar as horas e disse: “Já não falamos demais agora?”.
Mao tomou cuidado especial para não elogiar Nixon, enquanto os americanos o lisonjeavam plenamente. Nixon disse a ele: “Os escritos do presidente moveram uma nação e mudaram o mundo”. Mao não agradeceu e fez apenas um comentário condescendente sobre Nixon: “Seu livro, Seis crises, não é mau”.
Ao contrário, usou brincadeiras para humilhar Nixon e Kissinger, tentando ver o quanto eles eram capazes de engolir. Quando Nixon disse: “Li os poemas e discursos do presidente e percebi que ele é um filósofo profissional”, Mao olhou para Kissinger e começou este diálogo:
Mao Ele é doutor em filosofia?
Nixon Ele é um doutor de cérebros.
Mao Que tal pedir a ele que seja o principal orador hoje?
Mao interrompia Nixon para fazer observações como: “Nós dois não devemos monopolizar todo o show. Não estará certo se não deixarmos o dr. Kissinger ter uma palavra”. Isso transgredia tanto o protocolo como as regras da polidez e significava definitivamente um desrespeito a Nixon. Mao jamais teria ousado falar desse jeito com Stálin. Mas, apesar de valorizar Kissinger às custas de Nixon, não solicitou a opinião do assessor americano. Apenas ocupou-se com uma resposta pronta, dizendo que Kissinger usava “lindas garotas como camuflagem”.
Ele achava claramente que podia levar Nixon longe. No final da visita haveria um comunicado conjunto. Mao ditou um em que poderia denunciar os Estados Unidos. “Eles não estão falando de paz, segurança [...] e não sei o que mais?”, disse a Chou. “Faremos o oposto e falaremos de revolução, liberar as nações e os povos oprimidos de todo o mundo.” Assim, no comunicado, cada lado declarou sua posição. Os chineses usaram seu espaço para um ataque aos Estados Unidos (embora sem nomeá-los). O lado americano não disse uma palavra crítica ao regime de Mao, não indo além de um vago e
muito moderado lugar-comum sobre apoiar “a liberdade individual”. c
Apesar de todos os seus esforços para parecer o campeão do antiamericanismo, Mao recebeu muitas críticas de seus antigos aliados. A mais violenta veio da Albânia, o que importava para ele, pois era o único regime do Leste Europeu que se afastara da órbita soviética. Enver Hoxha escreveu uma carta de dezenove páginas em que manifestava sua fúria em relação ao que chamava de “este negócio asqueroso”. Na verdade, o líder albanês usou com astúcia a retórica para extrair quantidades colossais de ajuda extra, dizendo basicamente: você está de relações com o inimigo, mas pode comprar meu silêncio com mais dinheiro. Mao pagou.
O maior problema era o Vietnã, que contava muito mais do que a Albânia internacionalmente. Os vietnamitas estavam preocupados com que Mao tentasse usá-los como moeda de troca com os Estados Unidos. Quando Chou foi a Hanói, logo após a primeira visita de Kissinger, para explicar a iniciativa de Pequim, ouviu o suficiente do líder norte-vietnamita. “O Vietnã é o nosso país”, protestou Le Duan, “vocês não têm o direito de discutir a questão do Vietnã com os Estados Unidos.” Após a visita de Nixon, Chou retornou a Hanói e teve uma recepção ainda pior. O príncipe Sihanouk estava lá na ocasião, depois de sair de Pequim indignado com a visita de Nixon. Ele deixou um raro retrato de um Chou aturdido que “parecia esgotado e ainda acalorado pela discussão que acabara de ter com os ‘camaradas’ norte-vietnamitas. Ele parecia irritado” e “fora de si”. Mao tentou salvar um pouco de sua influência enviando ainda mais ajuda, que chegou a níveis inéditos a partir de 1971, atingindo o auge em 1974.
Todos esses subornos para manter velhos aliados em silêncio significavam um aperto maior para a população chinesa. Mas os fardos extras não pararam por aí. À medida que mais países reconheciam Pequim, na esteira da visita de Nixon, o número de Estados aos quais a China enviava ajuda saltou de 31, antes de 1970, para 66. Para a minúscula e imensamente mais próspera Malta (cerca de 300 mil habitantes), Mao mandou 25 milhões de dólares em abril de 1972. Seu primeiro-ministro Dom Mintoff voltou de Pequim exibindo um distintivo de Mao.
Com frequência, ele tinha de pagar acima do preço para voltar a contar com a simpatia de países que antes tentara subverter. Um antigo alvo, o presidente Mobutu, do Zaire, contou-nos com que generosidade foi financiado por Mao, que — ao contrário do FMI e do Banco Mundial — o deixava adiar indefinidamente o pagamento de empréstimos, ou pagá-los em moeda zairiana sem valor. Nos anos 1971-75, a ajuda externa chegou à média assombrosa de 5,88% de todos os gastos da China, com um pico de 6,92% em 1973 — de longe, a maior porcentagem do mundo e, pelo menos, setenta vezes maior que a média dos Estados Unidos.
Enquanto Mao prodigalizava dinheiro e alimentos e construía caros sistemas de metrô, estaleiros e infraestrutura para países muito mais ricos do que a China, a maioria dos 900 milhões de chineses vivia pouco acima do nível de subsistência. Em muitas regiões, os camponeses lembram que os anos de maior fome após a Grande Fome de 1958-61 foram de 1973 até a morte de Mao, em 1976 — os anos imediatamente posteriores à visita de Nixon.
Ao presidente Nixon atribui-se com frequência o mérito de ter aberto as portas para a China. Na medida em que vários estadistas e empresários ocidentais, mais alguns jornalistas e turistas, puderam entrar na China, ele de fato aumentou a presença ocidental na China. Mas não abriu as portas da — muito menos a partir da — China, e o aumento da presença ocidental não teve nenhum impacto apreciável sobre a sociedade chinesa enquanto Mao esteve vivo. Ele tomou providências para que a China continuasse a ser uma prisão bem fechada para a vasta maioria de sua população. As únicas pessoas que se beneficiaram com a aproximação pertenciam a uma pequena elite. Algumas delas tiveram permissão para ver parentes do exterior — sob forte supervisão. E um grupo minúsculo pôde pôr as mãos na meia dúzia de livros ocidentais contemporâneos traduzidos em edições secretas, um dos quais era Seis crises, de Nixon. A partir de 1973, alguns estudantes de línguas estrangeiras foram enviados ao exterior, mas os poucos que tiveram essa sorte tinham de ser politicamente ultraconfiáveis, e viviam e trabalhavam sob a mais rigorosa vigilância, proibidos até de sair de casa desacompanhados.
A população como um todo permaneceu rigidamente separada dos poucos estrangeiros que tiveram permissão para entrar no país, os quais eram submetidos a controle rigoroso. Qualquer conversa não autorizada com eles podia provocar uma catástrofe aos moradores do lugar envolvidos. As minúcias a que o regime podia chegar eram extraordinárias. Para a visita de um dia de Nixon a Xangai, que coincidiu com o ano-novo chinês, ocasião tradicional para as reuniões familiares (como o Natal), milhares de jovens que haviam sido enviados para o campo e que estavam visitando suas famílias foram expulsos de volta para suas aldeias de exílio, como precaução contra a possibilidade extremamente remota de que algum deles tentasse se queixar ao presidente americano.
Os verdadeiros beneficiários da visita de Nixon foram o próprio Mao e seu regime. Para atender a seus fins eleitorais, Nixon desdemonizou Mao para a opinião pública do Ocidente. Ao dar um informe ao staff da Casa Branca depois de sua volta, Nixon falou da “dedicação” da panelinha cínica de Mao, a qual foi chamada por Kissinger de “um grupo de monges [...] que têm [...] mantido sua pureza revolucionária”. Os homens de Nixon afirmaram, falsamente, que “no regime de Mao, a vida das massas chinesas melhorou muito”. Billy Graham, o evangelista preferido de Nixon, louvou as virtudes de Mao aos homens de negócios britânicos. Kissinger sugeriu que a turma desumana de Mao “nos desafiaria em termos morais”. O resultado foi uma imagem de Mao muito mais distante da verdade do que aquela que o próprio Nixon havia ajudado a fornecer quando era um feroz anticomunista, nos anos 1950.
Mao tornou-se uma figura internacional não apenas com credibilidade, mas com incomparável fascínio. Estadistas do mundo inteiro bateram à sua porta. Uma audiência com ele era — e às vezes ainda é — considerada o auge de muitas carreiras, e vidas. Quando chegou a vez do presidente Luis Echeverría, do México, sua comitiva literalmente brigou para fazer parte do grupo que compareceria à audiência. O embaixador australiano contou-nos que não ousou ir ao banheiro, ainda que sua bexiga estivesse a ponto de estourar, pois os poucos privilegiados poderiam partir subitamente sem ele. O primeiro-ministro do Japão Kakuei Tanaka, por outro lado, urinou na casa de Mao. O próprio Mao o acompanhou até o banheiro e esperou por ele do lado de fora da porta.
Os estadistas suportaram desconsiderações que jamais aguentariam de outros líderes. Não apenas não lhes diziam com antecedência se veriam Mao, como eram chamados de forma peremptória no momento mais conveniente para o presidente, independentemente do que estivessem fazendo, até mesmo no meio de uma refeição. O primeiro-ministro do Canadá Pierre Trudeau, que sequer pedira audiência com Mao, viu-se de repente recebendo ordens de Chou — “Bem, temos de suspender agora. Tenho outros assuntos e você também” —, sem lhe dizer para quê.
Quando se encontrava com estrangeiros, Mao alardeava suas ideias cínicas e ditatoriais. “Os métodos de Napoleão eram os melhores”, disse ao presidente francês Georges Pompidou: “Ele dissolveu todas as assembleias e simplesmente nomeou aqueles que governariam com ele”. Quando o ex-primeiro-ministro britânico Edward Heath manifestou surpresa diante do fato de que o retrato de Stálin ainda estava na praça Tiananmen e lembrou que o líder russo havia massacrado milhões de pessoas, Mao fez um sinal de desprezo com a mão e respondeu: “Mas ele está lá porque era um marxista”. Ele conseguiu até infectar líderes ocidentais com seu jargão. Depois que o premiê australiano Gough Whitlam mostrou alguma incerteza a respeito da resposta correta a uma questão sobre Darwin, ele escreveu para Mao o que chamou em suas memórias de “autocrítica”. Ainda em 1997, quando já se sabia muito mais sobre Mao, Kissinger o descreveu como um “filósofo” e afirmou que o objetivo dele era “uma busca pela virtude igualitária”.
Mao gostava de dar audiências a visitantes fascinados por estrelas e continuou a fazê-lo até seus últimos dias, quando um tubo de oxigênio ficava em seu criado-mudo, escondido por um livro ou um jornal. Para ele, essas audiências representavam a glória mundial.
A visita de Nixon também abriu-lhe a possibilidade de pôr as mãos em tecnologia e equipamentos militares ocidentais avançados. Ao ditador coreano Kim, disse que “o único objetivo dessas relações é obter tecnologia desenvolvida”. Ele sabia que só poderia alcançá-lo se os Estados Unidos o considerassem um aliado. Para dar uma explicação plausível para a mudança de sua velha postura antiamericana, Mao alegou que vivia com medo de um ataque russo e precisava desesperadamente de proteção. Depois de estabelecer a base a partir da primeira visita de Kissinger, em fevereiro de 1973, Mao falou explicitamente sobre uma aliança militar. “A União Soviética dominou nossas conversações”, relatou Kissinger a Nixon; como ele diz em suas memórias, deram-lhe a entender que “o conflito da China com a União Soviética era inerradicável e estava além da sua capacidade de cuidar dele sozinha”. Mao disse então ao conselheiro americano: “Devemos traçar uma linha horizontal [uma aliança] — Estados Unidos, Japão, China,
Paquistão, Irã, Turquia e Europa”.d Todos os lugares que Mao citou, exceto a China, eram aliados americanos.
Para tornar a ideia mais atraente, Mao e Chou disseram que a China gostaria que a aliança fosse liderada pelos Estados Unidos. Kissinger registrou que Chou “apelou para que assumíssemos a iniciativa na organização de uma coalizão antissoviética”.
Mao não estava tão assustado com um ataque soviético. Embora o temesse realmente, como mostrara no medo de 1969, desde então ficara claro para ele que as chances de tal evento eram muitíssimo remotas. O modo como tentava obter ardilosamente segredos militares americanos obedecia a um padrão semelhante à sua aproximação no passado com Moscou. Duas vezes, em 1954 e 1958, ele havia explorado o medo de que os americanos usassem bombas atômicas em suas encenações de confronto com Taiwan para obter ajuda de Khruchióv; no primeiro caso, para construir sua própria bomba e, no segundo, para extrair um acordo que quase lhe deu um arsenal moderno inteiro. Agora, usava o espectro da guerra de novo para obter uma vantagem similar dos Estados Unidos.
Em certo momento de fevereiro de 1973, Mao revelou de relance o que pensava realmente sobre a “ameaça soviética”. Quando Kissinger prometeu que os Estados Unidos viriam em auxílio “se a União Soviética invadir a China”, Mao, que havia antes trazido à baila essa hipótese, respondeu rindo: “Como isso vai acontecer? Como poderia ser? [...] você acha que eles se sentiriam bem se ficassem atolados na China?”. Vendo que Kissinger estava um pouco perplexo, ele mudou rapidamente essa linha de raciocínio e voltou a simular preocupação.
Para persuadir os americanos a pensar que os queria realmente como aliados, Mao deu a entender que Pequim e Washington tinham um inimigo em comum: Hanói. Kissinger foi embora achando que, “na Indochina, os interesses americanos e chineses eram quase paralelos. Um Vietnã unido comunista dominante na Indochina era um pesadelo estratégico para a China”. A posição de Mao não era uma traição apenas aos vietnamitas, mas também ao povo chinês, que se privara de artigos essenciais durante décadas para ajudar os vizinhos contra o “imperialismo” americano.
Mao acrescentou um toque pessoal para amolecer Kissinger ao aludir ao sucesso do conselheiro de Nixon com as mulheres. “Correram rumores de que você estava prestes a desmaiar (risos)”, diz o registro do encontro. “E as mulheres sentadas aqui ficaram todas insatisfeitas com isso (risos, especialmente entre as mulheres). Elas dizem que o dr. [Kissinger] vai desmaiar, nós estaremos sem trabalho. Você quer mulheres chinesas? Podemos dar-lhe 10 milhões (risos, particularmente entre as mulheres).”
Algumas semanas depois, em 16 de março, Nixon escreveu uma carta secreta para Mao em que declarava que a integridade territorial da China era um “elemento fundamental” da política externa dos Estados Unidos, em linguagem que sugeria um compromisso de defender militarmente a China, caso fosse atacada. Os chineses queriam saber o que isso significava de fato.
Em 6 de julho, Kissinger disse a eles que havia montado “um grupo muito secreto de quatro ou cinco dos melhores oficiais que pude encontrar” para estudar o que os Estados Unidos poderiam fazer. Entre as hipóteses consideradas estava uma ponte aérea americana para fornecer projéteis de artilharia nuclear e mísseis nucleares de batalha às forças chinesas em caso de guerra. A única opção prática, recomendava o grupo, era levar para a China por via marítima bombardeiros táticos americanos carregados de armas nucleares e lançar ataques nucleares sobre as forças soviéticas a partir de campos de aviação chineses. Isso abria a perspectiva de armas nucleares americanas ficarem estacionadas em território chinês.
Em 19 de julho, Kissinger explicou para seu círculo íntimo o pensamento da Casa Branca: “Toda essa conversa sobre 25 anos de desavença mútua era asneira. O que os
chineses queriam era apoio em uma contingência militar”. e O memorando revela que o conselheiro americano tinha plena consciência de que ele e Nixon estavam pensando em fazer algo quase inimaginável: “Talvez não consigamos levar isso a cabo, mas pelo menos [Kissinger] e o presidente compreenderam isso. Alex Eckstein e outros liberais estúpidos adoravam a China, mas, se lhes pedissem ações militares em uma contingência, teriam seiscentos ataques do coração”.
Nixon e Kissinger sabiam que Mao estava de olho em know-how militar e concordaram em lhe arranjar aquisições substanciais. Em 6 de julho, Kissinger disse ao enviado de Mao:
Conversei com o ministro do Exterior francês sobre nosso interesse em fortalecer a RPC [China comunista].
Faremos o que pudermos para encorajar nossos aliados a acelerar os pedidos que recebem de vocês sobre
itens para a defesa chinesa.
Em particular, vocês pediram alguma tecnologia Rolls-Royce [motores]. De acordo com os regulamento
existentes, temos de nos opor a isso, mas elaboramos um procedimento com os britânicos em que eles irão em
frente de qualquer modo. Assumiremos uma posição formal de oposição, mas somente isso. Não se
confundam com o que fazemos publicamente [...]
Essa decisão foi vital para a indústria aeronáutica chinesa, totalmente orientada para fins militares — e decrépita. Em abril de 1972, Chou advertira os albaneses para não usar os MiG-19 de fabricação chinesa. Seis meses depois, um avião fornecido para outro país explodiu no ar; após esse incidente, foram suspensas todas as remessas de armas para o exterior. Chou disse aos chefes de Estado do Terceiro Mundo que não podia atender a seus pedidos urgentes de helicópteros chineses, pois não eram seguros.
O acesso à tecnologia ocidental revolucionou a indústria aeronáutica chinesa e talvez tenha também impulsionado seu programa de mísseis, pois especialistas em foguetes estiveram a fundo envolvidos nas negociações com a Rolls-Royce. Além disso, em sigilo Kissinger estimulou a Inglaterra e a França a vender tecnologia de reator nuclear estritamente proibida à China. Desse modo, Mao fez muitos progressos no sentido de obter o que sempre havia sido seu principal objetivo.
Os russos ficaram alarmados com as negociações de Mao com os americanos. Em junho de 1973, Bréjnev advertiu Nixon e Kissinger de que (nos termos usados por Kissinger para o contato chinês): “Se fossem feitos acordos militares entre os Estados Unidos e a RPC, isso teria as consequências mais sérias e levaria os soviéticos a tomar medidas drásticas”. Essa conversação com Bréjnev, que dizia respeito à segurança nacional americana, foi prontamente relatada ao enviado de Mao, que estava presente na ala oeste da Casa Branca durante as conversas de Nixon com o líder russo, mas não aos aliados dos Estados Unidos — ou ao próprio governo americano. “Não contamos para ninguém de nosso governo sobre essa conversação”, confidenciou Kissinger ao enviado de Mao. “Ela deve ser mantida em segredo total.”
Um objetivo aparente da jornada de Nixon a Pequim fora diminuir o perigo de uma guerra com a União Soviética. Graças a Mao, esse perigo havia aumentado.
a Os registros das visitas de Kissinger em 1971 foram mantidos em segredo até 2002. Em suas memórias, ele alegou que Taiwan fora “mencionada apenas de passagem”. Em 2002, quando confrontado com os documentos, disse: “O modo como me expressei foi infeliz e me arrependo disso”.
b Para que não houvesse possibilidade de registro, Mao tomou também a providência de não permitir a presença de um intérprete americano. Nixon sujeitou-se a isso sem objeções.
c Isso não se deu porque a repressão asfixiante não estivesse visível. O comentarista político William Buckley notou como não havia gente em todos os lugares que visitaram. “Onde está o povo?’”, perguntou a um dirigente chinês. “Que povo?”, respondeu ele. E Buckley replicou: “O Povo, aquele que está na República Popular da China”.
d Nas minutas publicadas em inglês, que foram fornecidas pelos chineses, não há menção à “China”, mas a palavra está no registro em chinês.
e Kissinger havia feito uma sondagem sobre o quanto os chineses realmente queriam uma aliança sugerindo “ajuda militar chinesa” contra a Índia durante a crise de Bangladesh, em dezembro de 1971.